LA SUBIDA DEL MONTE CARMELO — LIBRO TERCERO
Livro Terceiro: Purgação Ativa da Memória e da Vontade
Capítulo 1
A memória e a vontade precisam ser purificadas de suas apreensões, assim como o entendimento foi purificado pela fé, para que a alma se una a Deus em perfeita esperança e caridade.
As operações das potências são interdependentes: quem instrui bem o entendimento na fé encaminha simultaneamente as demais potências nas virtudes teologais correspondentes.
Capítulo 2: Das apreensões naturais da memória e de como ela deve ser esvaziada delas
As percepções naturais da memória são todas as impressões formadas pelos cinco sentidos corporais, e a alma deve despir-se e esvaziar-se de todas elas, sem deixar rastro ou impressão alguma.
A memória deve ser aniquilada em relação a todas as formas para que a união com Deus seja possível, pois Deus não cabe sob nenhuma forma ou percepção distinta.
Quando Deus opera toques de união na memória, esta é esvaziada e purgada de todas as percepções, chegando a um esquecimento tão profundo que a alma mal consegue lembrar-se de qualquer coisa.
No estado de hábito de união já consolidado, as operações da memória e das demais potências passam do âmbito natural para o divino, de modo que todas as obras da alma tornam-se obras do Espírito Divino.
O procedimento prático consiste em que o espiritual, ao ouvir, ver, cheirar, saborear ou tocar qualquer coisa, não faça arquivo nem registro dessas impressões na memória, deixando-as cair no esquecimento imediatamente.
Capítulo 3: Dos três gêneros de danos que a alma recebe ao não se obscurecer acerca das percepções da memória
O primeiro dano, proveniente do mundo, consiste na sujeição a falsidades, imperfeições, apetites desordenados, juízos equivocados e perda de tempo, pois as percepções e discursos naturais geram múltiplas impurezas na alma.
As percepções e discursos naturais engendram inevitavelmente afeições de dor, temor, ódio, esperança vã e vanaglória, que, mesmo quando versam sobre coisas de Deus, imprimem impureza sutil na alma.
O segundo dano é proveniente do demônio, que se serve das percepções e discursos da memória para induzir soberba, avareza, ira, inveja e múltiplos enganos; aniquilando a memória nessas percepções, fecha-se completamente a porta a esse dano.
O terceiro dano é privativo: as apreensões naturais da memória impedem a união com Deus, pois a alma não pode estar ao mesmo tempo voltada para formas e percepções distintas e aberta ao incompreensível.
Capítulo 4: Do segundo dano que pode advir à alma da parte do demônio pelas apreensões naturais da memória
O demônio tem grande poder sobre a alma por meio das percepções da memória, podendo acrescentar formas e discursos que induzem soberba, engano e paixões desordenadas.
Quando a memória é obscurecida e aniquilada no esquecimento de todas as percepções, fecha-se totalmente a porta ao dano do demônio, pois ele nada pode operar nas potências da alma quando não encontra nelas nada a que se agarrar.
Capítulo 5: Do terceiro dano que se segue à alma pelas percepções naturais distintas da memória
O terceiro dano é privativo: as apreensões naturais da memória impedem o bem moral, porque a moderação das paixões e o freio dos apetites desordenados dependem do esquecimento e afastamento das coisas que geram afeições.
Toda turbação da alma nasce das apreensões da memória; quando todas as coisas são esquecidas, nada perturba a paz nem move os apetites.
As percepções também impedem o bem espiritual, pois a alma perturbada não é capaz de receber o espiritual, e ao empenhar-se em coisas compreensíveis não pode estar livre para o incompreensível que é Deus.
Capítulo 6: Dos proveitos que se seguem à alma no esquecimento e vazio de todos os pensamentos e percepções que a memória pode ter naturalmente
O esquecimento e vazio das apreensões naturais traz à alma tranquilidade e paz do ânimo, pureza de consciência e grande disposição para a sabedoria humana e divina.
A alma liberta-se das sugestões e tentações do demônio, que opera por meio dos pensamentos e percepções; sem eles, o demônio não encontra com o que combater o espírito.
O vazio e recolhimento da memória dispõe a alma a ser movida e ensinada pelo
Espírito Santo, que se afasta dos pensamentos que estão fora da razão.
Suportar com igualdade tranquila e pacífica todas as adversidades não apenas aproveita à alma para muitos bens, mas permite também julgar melhor as situações e encontrar os remédios convenientes.
Capítulo 7: Das apreensões imaginárias e percepções sobrenaturais da memória
As visões, revelações, locuções e sentimentos sobrenaturais deixam na memória e na fantasia imagens, formas e figuras muito vívidas, das quais a alma também precisa desvencilhar-se para não ser impedida na união com Deus pela esperança pura.
Quanto mais a alma retém alguma apreensão natural ou sobrenatural distinta, menos capacidade e disposição tem para entrar no abismo da fé, onde tudo o mais se absorve.
Quanto mais a memória se despossui de formas e percepções, tanto mais tem de esperança; e quanto mais tem de esperança, tanto mais tem de união com Deus, pois toda posse é contrária à esperança.
Capítulo 8: Dos danos que as percepções de coisas sobrenaturais podem fazer à alma
Há cinco gêneros de danos para o espiritual que retém e pondera sobre as percepções sobrenaturais impressas em si: enganar-se ao confundir uma coisa com outra; estar próximo de cair em presunção ou vaidade; dar grande poder ao demônio para enganá-lo; impedir a união em esperança com Deus; e julgar de Deus de maneira baixa.
O primeiro dano consiste em que o espiritual se engana frequentemente em seu juízo, pensando que o que é da fantasia é de Deus, ou que o que é do demônio é de Deus, pois não pode ter juízo certo sobre coisas sobrenaturais que estão acima da capacidade humana.
O remédio prático é que o espiritual não aplique seu juízo para discernir o que tem e sente, e que não faça caso das apreensões sobrenaturais senão para comunicá-las ao diretor espiritual, pois o menor ato de fé viva e esperança no vazio e renúncia de tudo vale mais do que todas essas apreensões.
Capítulo 9: Do segundo gênero de danos, que é o perigo de cair em própria estima e vã presunção
As apreensões sobrenaturais são grande ocasião para o espiritual cair em presunção ou vaidade, pois quem as possui tende a pensar que já é algo, ficando com uma satisfação oculta e uma autoestima que não percebe claramente em si mesmo.
Isso se manifesta no desgosto que sentem quando não são elogiados em seu espírito, e na pena que experimentam ao saber que outros têm experiências semelhantes ou superiores, o que revela soberba espiritual secreta.
A virtude não está nas apreensões e sentimentos de Deus, por mais elevados que sejam, mas naquilo que não se sente: na humildade profunda, no desprezo de si e de tudo o que é seu, e no gosto de ser assim estimado pelos demais.
Todas as visões, revelações e sentimentos do céu valem menos do que o menor ato de humildade, que tem os efeitos da caridade, a qual não estima suas próprias coisas nem pensa mal dos outros.
Capítulo 10: Do terceiro dano que pode seguir-se à alma da parte do demônio pelas apreensões imaginárias da memória
O demônio não apenas pode representar na memória e na fantasia percepções e formas falsas com grande eficácia, mas também pode tentar a alma por meio das verdadeiras que procedem de Deus, movendo apetites e afetos desordenados.
O demônio costuma sugerir gosto, sabor e deleite nas próprias coisas de Deus para que a alma fique encandilada nesse sabor e ponha os olhos mais no prazer do que no amor, indo pouco a pouco sendo enganada e passando a confundir trevas com luz.
Para evitar esse dano, convém à alma não querer saborear as coisas sobrenaturais, pois o gosto e deleite, mesmo sem a ajuda do demônio, cegam a alma por si mesmos.
Capítulo 11: Do quarto dano que se segue à alma das apreensões sobrenaturais distintas da memória, que é impedimento à união
Para que a alma se una a Deus em esperança, precisa renunciar a toda posse da memória, pois nenhuma forma, figura, imagem ou percepção que possa cair na memória é Deus nem se assemelha a ele.
A alma deve permanecer despida e esquecida de formas e percepções distintas de coisas sobrenaturais para não impedir a união segundo a memória em perfeita esperança com Deus.
Capítulo 12: Do quinto dano à alma nas formas e apreensões imaginárias sobrenaturais, que é julgar de Deus de modo baixo e impróprio
Querer reter na memória as formas e imagens das coisas comunicadas sobrenaturalmente induz facilmente a julgar o ser e a grandeza de Deus de modo menos digno do que convém, porque Deus não se enquadra em gênero nem espécie e a alma nesta vida só é capaz de receber o que se enquadra em gênero e espécie.
A estimação das apreensões cria interiormente uma comparação implícita entre elas e Deus, que impede de julgar e estimar a Deus com a elevação que a fé requer, assim como quem põe os olhos nos servos do rei acaba estimando menos o próprio rei.
Capítulo 13: Dos proveitos que a alma obtém ao afastar de si as apreensões da imaginação
O esvaziamento das formas imaginárias libera a alma do cuidado de discernir se são boas ou más, e o tempo e as forças que seriam gastos nisso podem ser empregados no exercício da vontade para com Deus e na busca da nudez e pobreza espiritual.
O bem que a alma recebe das apreensões sobrenaturais de boa procedência é operado passivamente no mesmo instante em que as apreensões se representam, sem que as potências precisem exercer operação ativa; se a alma quiser agir ativamente nesse momento, antes impede do que aproveita.
A alma deve haver-se passiva e negativamente nas apreensões sobrenaturais, pois então Deus a move a mais do que ela poderia ou saberia por si mesma.
De todas as apreensões que venham de cima, o que importa não é a letra ou o que significam ou representam, mas somente o amor de Deus que causam interiormente; é em torno desse amor, e não dos sabores, suavidades ou figuras, que se deve fazer caso.
Algumas figuras sobrenaturais ficam impressas formalmente na alma com duração, e quase cada vez que a alma nelas repara produzem efeitos divinos de amor, suavidade e luz; essas podem ser recordadas para avivar o amor, desde que não haja apego à figura em si.
Capítulo 14: Das percepções espirituais enquanto podem cair na memória
As percepções espirituais, embora não pertençam ao sentido corporal da fantasia por não terem imagem ou forma corporal, caem sob a reminiscência e a memória espiritual, pois depois de terem caído na alma podem ser recordadas.
As percepções espirituais de criaturas podem ser recordadas quando produzirem bom efeito, não para retê-las, mas para avivar o amor e o conhecimento de Deus; se ao recordá-las não produzem bom efeito, nunca devem ser trazidas à memória.
As percepções incriadas, que são toques e sentimentos de união com Deus, devem ser recordadas o quanto possível, pois a cada lembrança renovam a luz, o amor, o deleite e a renovação espiritual que causaram.
Capítulo 15: Do modo geral como o espiritual deve governar-se acerca da memória
Quanto mais a memória se despossui de formas e coisas memoráveis que não sejam Deus, tanto mais nela se porá Deus e mais vazia estará para esperar dele o cumprimento pleno.
Sempre que ocorrerem à alma percepções, formas e imagens distintas, sem fazer assento nelas, ela deve voltar imediatamente a Deus em vazio de tudo o que é memorável, com afeto amoroso, sem pensar ou olhar para essas coisas mais do que o necessário para cumprir o que é obrigado.
Essa doutrina é inteiramente diferente da daqueles que queriam suprimir o uso e adoração das imagens: o que se ensina é que se passe pelo representado de modo a não ficar impedido de ir ao vivo, sem fazer mais assento do que o necessário para ir ao espiritual.
Capítulo 16: Da noite escura da vontade e das afeições
Nada aproveita purgar o entendimento pela fé e a memória pela esperança se não se purgar também a vontade pela caridade, pois sem obras de caridade a fé é morta.
O mandamento de amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de toda a força contém tudo o que o espiritual deve fazer para chegar à união com Deus pela vontade mediante a caridade.
As quatro paixões da alma são alegria, esperança, dor e temor; quando ordenadas racionalmente a Deus, endereçam e guardam a força da alma para Deus; quando desordenadas, dominam e aprisionam toda a alma.
As quatro paixões estão tão unidas entre si que onde uma vai atualmente as outras a acompanham virtualmente; ordena-se uma, e as demais se ordenam na mesma medida.
Capítulo 17: Da primeira afeição da vontade: o gozo e as coisas de que a vontade pode gozar
O gozo ativo é o contentamento da vontade com a estimação de algo que considera conveniente, e pode nascer de seis gêneros de bens: temporais, naturais, sensuais, morais, sobrenaturais e espirituais.
O fundamento de toda a doutrina sobre o gozo é que a vontade não deve gozar senão daquilo que é glória e honra de Deus, e a maior honra que se lhe pode dar é servi-lo segundo a perfeição evangélica.
Capítulo 18: Do gozo nos bens temporais e como endereçá-lo a Deus
Os bens temporais como riquezas, estados, cargos, filhos e casamentos não merecem em si o gozo da vontade, pois não fazem o homem mais servo de Deus, sendo pelo contrário causa frequente de ofensa a ele.
O único modo em que o gozo nos bens temporais é tolerável é quando eles são gastos e empregados no serviço de Deus; fora disso, não há proveito a tirar deles.
Também não há de que se gozar nos filhos por serem muitos, ricos ou dotados de graças naturais, senão se servem a Deus; desejar filhos sem saber se serão bons é vaidade, pois o esperado consolo pode tornar-se dor e a esperada honra pode tornar-se desonra.
Capítulo 19: Dos danos que se podem seguir à alma de pôr o gozo nos bens temporais
Todos os danos têm raiz e origem em um único dano privativo principal: o afastamento de Deus, que cresce proporcionalmente ao grau de gozo e afeição pela criatura.
O primeiro grau do dano é o embotamento da mente acerca de Deus, que obscurece os bens divinos como a névoa obscurece o ar à luz do sol; basta a concupiscência e o gozo nas coisas para produzir esse efeito, sem que haja malícia formal no entendimento.
O segundo grau é a dilatação da vontade nas coisas temporais com mais liberdade, gerando tibieza e descuido nas coisas de Deus e grande apego ao secular.
O terceiro grau é o abandono total da lei de Deus por causa dos bens do mundo, caindo em pecados mortais pela cobiça, com grande esquecimento e torpeza acerca da salvação.
O quarto grau é o afastamento extremo de Deus segundo a memória, o entendimento e a vontade, chegando ao ponto de fazer do dinheiro um deus e, em casos extremos, ao desespero e à morte.
Capítulo 20: Dos proveitos que se seguem à alma em apartar o gozo das coisas temporais
Quem liberta o coração do gozo nas coisas temporais adquire a virtude da generosidade, liberdade de ânimo, clareza na razão, sossego, tranquilidade e confiança pacífica em Deus.
Com o desapego das criaturas, adquire-se um gozo e recreação nelas muito maior do que o que se obtém com o apego, pois o apego é um cuidado que, como laço, prende o espírito à terra.
O desapego também traz percepção clara das coisas para entender bem as verdades acerca delas, tanto natural como sobrenaturalmente, porque o espírito purificado penetra a verdade e o valor das coisas, enquanto o sentido apegado a elas só alcança o acidente.
A principal disposição para todas as mercês que Deus há de fazer é deixar o coração livre para ele; e por um gozo que se deixe por amor a Deus e pela perfeição do
Evangelho, o Senhor prometeu dar cem por um nesta vida.
Capítulo 21: Da vaidade de pôr o gozo da vontade nos bens naturais e como endereçá-lo a Deus
Por bens naturais entendem-se a beleza, a graça, o donaire, a boa constituição corporal e as demais qualidades do corpo, bem como o bom entendimento e a discrição da alma; gozar neles sem referir a Deus é vaidade e engano.
A graça corporal é enganadora porque atrai o homem ao que não lhe convém por vão gozo e complacência; a beleza é vã porque faz cair de muitas maneiras quando é estimada em si mesma.
O espiritual deve purgar e obscurecer sua vontade nesse vão gozo, considerando que a beleza e as demais partes naturais são terra que a ela volta, e endereçar o coração a Deus no gozo de que Deus é em si eminentemente todas essas belezas e graças, em infinito acima de todas as criaturas.
Capítulo 22: Dos danos que se seguem à alma de pôr o gozo da vontade nos bens naturais
Os danos espirituais e corporais que se seguem ao gozo nos bens naturais reduzem-se a seis principais: vanglória, presunção, soberba e desestima do próximo; movimento do sentido à complacência sensual e luxúria; queda em adulação e louvores vãos; embotamento da razão e do espírito; distração da mente nas criaturas; e tibieza e frouxidão do espírito.
O segundo dano em especial, que contém inumeráveis danos, manifesta-se diariamente em mortes, honras perdidas, insultos, adultérios e tantos santos caídos, mostrando a que ponto chega a desventura nascida do gozo posto nas graças e na beleza natural.
Basta um pequeno gole do vinho desse gozo para que se apodere do coração, engane e obscureça a razão; e se não se tomar logo o remédio, corre perigo a vida da alma.
Capítulo 23: Dos proveitos que a alma obtém em não pôr o gozo nos bens naturais
Apartar o coração do gozo nos bens naturais dá lugar à humildade e à caridade geral para com os próximos, pois sem afeição a ninguém pelos bens naturais aparentes, a alma fica livre e clara para amá-los racional e espiritualmente, como Deus quer.
A negação desse gozo causa grande tranquilidade na alma, evacua as digressões e promove o recolhimento nos sentidos, pois quem não quer gozar dessas coisas não quer olhá-las nem dar-lhes os demais sentidos, guardando assim as portas da alma.
Nos já aproveitados na mortificação desse gozo, os objetos e percepções feias não lhes causam a impressão e impureza que causam nos demais, tornando a alma e o corpo digno templo do
Espírito Santo.
Capítulo 24: Do terceiro gênero de bens: os sensuais
Por bens sensuais entendem-se todos os que podem cair nos sentidos da vista, ouvido, olfato, paladar e tato, e na elaboração interior do discurso imaginário; a parte inferior do homem não é nem pode ser capaz de conhecer a Deus como ele é.
Se ao receber o prazer de algo sensível a vontade se levanta imediatamente a gozar em Deus, fazendo desse sensível motivo e força para isso, então o uso de tais coisas é bom e pode até ser aproveitado; mas se a vontade se detém nesses prazeres e deles se nutre, causam dano e devem ser evitados.
Quem tem prontidão para ir com tudo a Deus está tão nutrido e satisfeito com o espírito de Deus que não sente falta dos motivos sensíveis, embora quando se lhe oferecem lhe deem muito gozo pelo gozo em Deus que causam.
Todo gozo que não está na negação e aniquilamento de qualquer outro gozo é vão e sem proveito, e impede a união da vontade em Deus.
Capítulo 25: Dos danos que a alma recebe em querer pôr o gozo da vontade nos bens sensuais
Do gozo nas coisas visíveis seguem-se diretamente vaidade de ânimo, distração da mente, cobiça desordenada, desonestidade, impureza de pensamentos e inveja.
Do gozo em ouvir coisas inúteis seguem-se distração da imaginação, falatório, inveja, juízos incertos e variedade de pensamentos perniciosos.
Do gozo em odores suaves seguem-se repulsa aos pobres, inimizade com a servidão, pouca humildade nas coisas modestas e insensibilidade espiritual.
Do gozo no sabor dos alimentos seguem-se gula, embriaguez, ira, discórdia, falta de caridade, desordem corporal, doenças, e grande torpeza no espírito, que perde o apetite pelas coisas espirituais.
Do gozo no tato em coisas suaves nascem vícios abomináveis, luxúria, ânimo afeminado e tímido, alegria vã, soltura da língua, embotamento do juízo, covardia, inconstância e incapacidade para os bens espirituais e morais.
Capítulo 26: Dos proveitos que se seguem à alma na negação do gozo acerca das coisas sensíveis
O recolhimento da alma de seu gozo nas coisas sensíveis restaura o espírito e as virtudes adquiridas, que se conservam e aumentam.
Com a negação do gozo sensível, de sensual a alma torna-se espiritual, de animal torna-se racional, e de temporal e humano caminha a divino e celestial, pois ao diminuírem as forças da sensualidade crescem as forças do espírito que elas impediam.
Com cada gozo negado por amor a Deus, o Senhor promete dar cem por um nesta vida: do olho purificado no gozo de ver flui gozo espiritual em tudo que se vê; do ouvido purificado flui gozo espiritual em tudo que se ouve; e assim em todos os sentidos.
Os dotes corporais de glória na outra vida serão muito mais excelentes para quem se negou, e por cada gozo momentâneo e passageiro que negou, como diz
São Paulo, um imenso peso de glória será operado eternamente nele.
Capítulo 27: Do quarto gênero de bens: os morais
Por bens morais entendem-se as virtudes e seus hábitos, o exercício das obras de misericórdia, a guarda da lei de Deus, a boa índole e inclinação; esses bens, ao contrário dos três anteriores, merecem algum gozo por si mesmos, pois trazem consigo paz, tranquilidade e reto uso da razão.
Os filósofos e príncipes antigos estimaram e praticaram as virtudes pelos bens temporais que delas conheciam, e Deus, que ama tudo o que é bom mesmo no pagão, lhes aumentou a vida, a honra e a paz; mas o cristão não deve parar nessa primeira maneira de gozar.
O cristão deve gozar na posse e exercício dos bens morais principalmente na segunda maneira: enquanto, feitas as obras por amor a Deus, lhe adquirem a vida eterna; fora desse respeito, as virtudes nada valem perante Deus.
O valor das boas obras não se funda tanto na quantidade e qualidade delas quanto no amor de Deus que nelas se leva; tanto mais qualificadas vão quanto mais puro e inteiro é o amor de Deus com que são feitas e menos o agente quer tirar delas gozo, consolo ou louvor.
Capítulo 28: Dos sete danos em que se pode cair pondo o gozo da vontade nos bens morais
O primeiro dano é vaidade, soberba, vanglória e presunção; o segundo é julgar os demais por maus e imperfeitos comparativamente, estimando-os em menos no coração e por vezes com palavras.
O terceiro dano é que, como nas obras miram o gozo, só as praticam quando vislumbram louvor ou satisfação própria, fazendo-as para serem vistos, não por amor a Deus; o quarto é que não encontrarão galardão em Deus, tendo-o buscado nos próprios atos.
O quinto dano é que não avançam no caminho da perfeição: quando Deus os quer levar adiante, retirando o sabor das obras, desanimam e perdem a perseverança por não terem mais força do que o gozo sensível.
O sexto dano é que comumente se enganam, julgando melhores as obras de que mais gostam, quando frequentemente as obras em que mais se mortifica o homem são as mais aceitas e preciosas perante Deus.
O sétimo dano é que estão mais incapazes de receber conselho razoável sobre as obras que devem fazer, e afrouxam muito na caridade para com Deus e o próximo, pois o amor próprio nas obras resfria a caridade.
Capítulo 29: Dos proveitos que se seguem à alma em apartar o gozo dos bens morais
A alma liberta-se de muitas tentações e enganos do demônio, que se esconde no gozo das boas obras; pois a própria vanglória é por si mesma engano, sem necessidade de sugestão diabólica.
As obras tornam-se mais bem executadas e completas: quem não as faz por gozo e sim pela razão e pela substância da obra persevera nelas, enquanto quem age por gozo abandona tudo quando o prazer desaparece.
A negação desse gozo torna a alma pobre de espírito, uma das
bem-aventuranças do
Filho de Deus, e a faz operar com mansidão, humildade e prudência, sem impetuosidade nem presunção.
Capítulo 30: Do quinto gênero de bens: os sobrenaturais
Capítulo 31: Dos danos que se seguem à alma de pôr o gozo da vontade nos bens sobrenaturais
Três danos principais se seguem de pôr o gozo nesses bens: enganar e ser enganado, prejuízo na fé, e vanglória ou alguma vaidade.
O gozo embota e obscurece o juízo necessário para discernir se essas obras são falsas ou verdadeiras e como devem ser exercitadas; e a paixão de imperfeição envolta no gozo leva a determinações intempestivas, como se vê nos exemplos de Balaão e dos filhos de Zebedeu.
O segundo dano, o prejuízo na fé, pode ocorrer de dois modos: fazendo a maravilha sem tempo e necessidade, o que é tentar a Deus e pode gerar descrédito; e enfraquecendo o hábito substancial da fé, pois onde mais sinais e testemunhos concorrem, menor é o mérito de crer.
O terceiro dano é que, por não ser puro o gozo nessas obras, comumente se cai em vanaglória, como atesta a reprovação que o Senhor fez aos discípulos por se alegrarem de que os demônios se lhes sujeitavam.
Capítulo 32: Dos dois proveitos que se obtêm na negação do gozo acerca das graças sobrenaturais
O primeiro proveito é engrandecer e exaltar a Deus: apartando o coração e o gozo da vontade de tudo que não é Deus para pô-lo somente nele, Deus é exaltado na alma; e quanto mais e maiores coisas se desprezam por ele, tanto mais se o estima e engrandece.
O segundo proveito é a elevação da própria alma: apartando a vontade de todos os testemunhos e sinais aparentes, a alma se eleva em fé muito pura, que Deus infunde e aumenta com muito maior intensidade, juntamente com a caridade e a esperança, constituindo um admirável proveito para a união perfeita da alma com Deus.
Capítulo 33: Do sexto gênero de bens: os espirituais
Os bens espirituais são todos aqueles que movem e ajudam para as coisas divinas e para o trato da alma com Deus e as comunicações de Deus com a alma; distinguem-se dos sobrenaturais porque seu exercício é somente entre a alma e Deus.
Os bens espirituais dividem-se em saborosos e penosos; os saborosos em de coisas claras e distintas e de coisas que não se entendem clara nem distintamente; os penosos também em claros e distintos e em confusos e obscuros.
Capítulo 34: Dos bens espirituais que podem cair distintamente no entendimento e na memória
O modo como a vontade deve haver-se acerca do gozo nas apreensões do entendimento e da memória é o mesmo que foi dito para essas potências nos livros anteriores: onde se disse que o entendimento e a memória devem esvaziar-se de tais e tais apreensões, entende-se igualmente que a vontade deve esvaziar-se do gozo delas.
Capítulo 35: Dos bens espirituais saborosos que podem cair distintamente na vontade
Os bens distintos que podem dar gozo à vontade reduzem-se a quatro gêneros: motivos, provocativos, diretivos e aperfeiçoadores; os motivos incluem imagens, retratos de santos, oratórios e cerimônias.
Nas imagens e retratos pode haver muita vaidade e gozo vão: a Igreja ordenou o uso das imagens para reverenciar os santos nelas e para mover a vontade à devoção, mas muitas pessoas põem seu gozo mais na pintura e no ornato do que no que representam.
A pessoa devota de veras põe sua devoção principalmente no invisível, usa poucas imagens e não tem o coração apegado a elas; se as retiram, pouco se pena, pois busca dentro de si a imagem viva, que é Cristo crucificado.
Quanto mais apegada estiver à imagem ou ao motivo, menos a devoção e a oração subirão a Deus; o que deve levar o espírito voando a Deus não deve ser consumido pelo sentido em apego ao instrumento.
Capítulo 36: Dos equívocos de algumas pessoas acerca das imagens
Alguns cometem grande ignorância ao confiar mais em certas imagens do que em outras da mesma representação, como se Deus ouvisse melhor por uma do que por outra; a razão pela qual Deus faz mais mercês por certas imagens é despertar a devoção adormecida, não porque haja mais nelas.
Algumas imagens recebem de Deus um espírito particular que fica impresso na mente de quem as viu com devoção, de modo que ao recordá-las o mesmo espírito se renova; outras vezes a devoção a uma imagem é apenas afeição e gosto natural, e o discernimento entre ambas faz-se pelos efeitos que produzem.
Capítulo 37: De como endereçar a Deus o gozo da vontade pelo objeto das imagens
O fiel, ao ver uma imagem, não deve mergulhar o sentido nela; deve logo levantar a mente ao que representa, pondo o gozo da vontade em Deus com a oração e devoção do espírito, para que o que deve levar ao vivo e ao espírito não seja retido pelo pintado e pelo sentido.
Procedendo assim, não haverá engano, não se porá mais confiança em uma imagem do que em outra, e a que sobrenaturalmente causar devoção a dará mais copiosamente, pois a alma vai logo a Deus com o afeto.
Capítulo 38: Dos oratórios e lugares dedicados à oração
O excesso de atavios e ornamentos no oratório pode tornar-se estorvo, pois o gozo posto nesses ornatos representados retira-se do vivo; Deus não agradece o ornato exterior quando o coração está longe dele.
Alguns espirituais tanto se apegam ao modo e ao ornato de seus oratórios que gastam nisso o que deveriam empregar na oração e no recolhimento interior, inquietando-se a cada vez que algo é alterado.
Capítulo 39: De como usar os oratórios e templos encaminhando o espírito a Deus
Aos principiantes convém algum gozo e alimento sensível nas imagens, oratórios e coisas devotas visíveis, pois ainda não foram desligados das coisas do século; mas para avançar é preciso despir-se também desses gostos.
O verdadeiro espiritual escolhe o lugar mais livre de objetos e atrativos sensíveis, onde menos o sentido se embaraça, pois a verdadeira oração não está presa ao monte nem ao templo, mas em adorar em espírito e verdade.
Capítulo 40: Do recolhimento interior
A razão pela qual alguns espirituais nunca chegam aos verdadeiros gozos do espírito é que nunca elevam definitivamente o apetite do gozo dessas coisas exteriores e visíveis, esquecendo que o templo vivo é o recolhimento interior da alma.
Purgar a vontade do gozo e apetite vão nos oratórios e lugares devotos significa olhar somente para que a consciência esteja pura, a vontade íntegra em Deus e a mente posta de veras nele, escolhendo o lugar mais apartado e solitário possível.
Capítulo 41: Dos danos em que caem os que se entregam ao gosto sensível das coisas e lugares devotos
Quem busca o sabor sensitivo nas coisas devotas nunca chegará ao recolhimento interior do espírito, que consiste em passar por cima de todos esses sabores sensíveis; e exteriormente torna-se incapaz de orar em qualquer lugar que não seja ao seu gosto.
Esse apetite causa grande variação e inconstância: tais pessoas nunca perseveram em um lugar, mudando de estado e modo de vida porque seu único motor é o fervor e o gozo sensível, que logo se esgota.
Capítulo 42: Dos três tipos de lugares devotos e como a vontade deve haver-se em relação a eles
O primeiro tipo são as disposições naturais de terras e sítios que despertam a devoção; devem ser usadas apenas como motivo para endereçar a vontade a Deus no esquecimento do lugar, sem deter-se no sabor e no gozo do lugar em si.
O segundo tipo são lugares onde Deus costumou fazer certas mercês espirituais a determinadas pessoas; convém ir a eles sem apego, para recordar as mercês recebidas, agradecê-las e avivar a devoção, mas sem pensar que Deus está obrigado a fazer lá novas mercês.
O terceiro tipo são lugares que Deus escolheu para ser neles invocado; em todos eles o que importa é a fé e a devoção de quem ora, pois com fé e devoção qualquer imagem basta, e sem elas nenhuma é suficiente.
Capítulo 43: Das muitas variedades de cerimônias usadas como motivos de oração
Muitas pessoas praticam suas devoções com tal apego a determinados modos e cerimônias, que entendem que se falta um ponto nada aproveita nem Deus ouvirá, pondo maior confiança nesses modos do que no vivo da oração.
Alguns chegam ao ponto de querer sentir em si algum efeito ou ver cumprido o pedido ao fim de suas orações cerimoniais, o que é tentar a Deus e irritá-lo gravemente, dando às vezes ocasião ao demônio de os enganar.
Capítulo 44: De como endereçar a Deus o gozo e a força da vontade nessas devoções
Quanto mais confiança se deposita nessas coisas e cerimônias, tanta menor confiança se tem em Deus e menos se obterá; o melhor caminho é multiplicar os rogos pelo que mais importa, que é a limpeza da consciência e a salvação, pois alcançando isso, tudo o demais que for conveniente virá por acréscimo.
O Senhor prometeu que quem busca primeiro o reino de Deus e sua justiça receberá tudo o demais por acréscimo; e a Salomão, porque pediu sabedoria para governar justamente, deu não só o que pediu mas também riqueza, sustância e glória que não pediu.
Nas orações devem-se usar as formas ensinadas por Cristo, que no
Pai-Nosso incluiu todas as necessidades espirituais e temporais, sem multiplicar variedades de palavras e cerimônias; a única recomendação foi perseverar nessa oração com fervor.
Capítulo 45: Do segundo gênero de bens distintos em que a vontade pode gozar vãmente: os pregadores
O pregador, para aproveitar ao povo e não se prejudicar com vão gozo e presunção, deve saber que esse exercício é mais espiritual do que vocal: por mais alta que seja a doutrina e mais esmerada a retórica, não faz de si mesmo ordinariamente mais proveito do que o espírito interior que leva.
O proveito do sermão é comumente proporcional à disposição do pregador: quanto melhor é sua vida, maior é o fruto, por mais simples que seja seu estilo; o pregador de estilo elevado mas sem espírito deixa a vontade dos ouvintes tão fria e remissa quanto antes, pois suas palavras servem apenas para deleitar o ouvido.
A doutrina, o bom estilo e as ações elevam e reedificam as coisas boas quando acompanhadas de bom espírito; mas sem espírito, embora deem sabor e gozo ao sentido e ao entendimento, quase nenhum fruto chegam à vontade.