Livro Primeiro
Capítulo 1 - A primeira canção. Duas diferenças de noites pelas quais passam os espirituais, segundo as duas partes do homem, inferior e superior
A alma percorre duas espécies principais de noites, chamadas pelos espirituais de purgações ou purificações: a primeira pertence à parte sensitiva e a segunda à parte espiritual.
A primeira noite ou purgação é vivida pelos principiantes no momento em que Deus os começa a introduzir no estado de contemplação.
A segunda noite, mais escura, tenebrosa e terrível, pertence aos que já avançaram no caminho e que Deus quer conduzir ao estado de união com Deus.
A alma sai de todas as coisas e de todos os apetites e imperfeições da parte sensitiva, estando já a casa sosegada, isto é, com os apetites adormecidos e vencidos.
Capítulo 2 - Declara que noite escura seja esta pela qual a alma diz ter passado para a união
A travessia da alma até a união com Deus é chamada noite por três razões: a privação dos apetites de todas as coisas do mundo, o caminho da fé que é escuro para o entendimento, e o próprio Deus que é noite obscura para a alma nesta vida.
Essas três noites são figuradas nas três noites que o
anjo mandou
Tobias passar antes de se unir à esposa: a queima do coração apegado às coisas do mundo, a companhia dos santos patriarcas que são os pais da fé, e a bênção que é o próprio Deus comunicando-se ao espírito.
As três partes da noite constituem uma única noite: a do sentido corresponde ao início da noite, a da fé à meia-noite totalmente escura, e a de Deus ao amanhecer, imediatamente anterior à luz do dia.
Capítulo 3 - Fala da primeira causa desta noite, que é a privação do apetite em todas as coisas, e dá a razão pela qual se chama noite
A mortificação do apetite é chamada noite para a alma porque, assim como a noite é privação da luz e de todos os objetos visíveis, a alma privada do prazer do apetite em todas as coisas fica como às escuras e sem nada.
Cada sentido privado de seu objeto particular — audição, visão, olfato, paladar e tato — deixa a alma igualmente às escuras e vazia segundo aquela potência.
A alma é comparada a uma tábula rasa ao nascer: tudo o que conhece naturalmente chega pelos sentidos, de modo que negar esses prazeres sensíveis equivale a privar-se de toda a luz natural.
Capítulo 4 - Trata de quão necessário seja à alma passar de veras por esta noite escura do sentido, que é a mortificação do apetite, para caminhar à união de Deus
Todas as afeições nas criaturas são, diante de Deus, puras trevas, e a alma revestida delas não tem capacidade de ser iluminada pela luz pura e simples de Deus, pois luz e trevas são contrários que não podem coexistir.
A afeição e o apego da alma a uma criatura a iguala a essa mesma criatura, tornando-a incapaz da união com o ser infinito de Deus, que é beleza, graça, bondade, sabedoria e liberdade infinitas.
A beleza, a graça, a bondade, a sabedoria e a liberdade de todas as criaturas, comparadas às de Deus, são, respectivamente, suma fealdade, desgraça, malícia, ignorância e servidão, de modo que a alma apegada a qualquer delas não pode se transformar em Deus.
Todos os deleites e riquezas das criaturas, comparados com Deus, são suma pena e suma pobreza, e a Sabedoria divina clama aos homens que as verdadeiras riquezas e a glória estão nela, não nas coisas do mundo.
Capítulo 5 - Mostra por autoridades da Sagrada Escritura e por figuras quão necessário seja à alma ir a Deus nesta noite escura da mortificação do apetite em todas as coisas
A distância entre as criaturas e Deus é tão imensa que a alma apegada a qualquer delas se torna igualmente distante de Deus, pois o amor cria semelhança entre o amante e o amado.
Deus não concedeu o maná aos filhos de Israel enquanto lhes sobrava a farinha do Egito, figurando que é preciso renunciar a todos os outros sabores para receber o alimento espiritual divino.
Moisés, ao subir o monte para falar com Deus, não devia permitir nem que os animais pastassem nas proximidades, figurando que todos os apetites devem ser mortificados para que a alma alcance a perfeição.
Jacó mandou sua gente lançar fora os deuses estranhos, purificar-se e mudar as vestiduras antes de subir ao monte Betel, figurando as três condições para a alma oferecer a Deus sacrifício de amor puro: abandonar as afeições estranhas, purificar-se pela noite escura do sentido e receber de Deus um entender e um amar novos e divinos.
O altar do Tabernáculo devia estar vazio por dentro, figurando que Deus quer a alma inteiramente vazia de todas as coisas para ser altar digno de Sua Majestade; e a arca da Aliança continha apenas o livro da Lei e a vara de Moisés, figurando que basta guardar a lei do Senhor e carregar a cruz de Cristo.
Capítulo 6 - Trata de dois danos principais que causam os apetites na alma, o um privativo e o outro positivo
Os apetites causam na alma dois danos principais: o privativo, que a priva do espírito de Deus, e o positivo, que a cansa, atormenta, obscurece, suja e enfraquece.
O dano privativo ocorre porque afeição de Deus e afeição de criatura são contrários que não cabem numa mesma vontade; quanto mais o apetite ocupa a alma, menos espaço ela tem para Deus.
Assim como uma forma não pode ser introduzida num sujeito sem que a forma contrária seja primeiro expelida, o espírito puro não pode entrar na alma enquanto ela está sujeita ao espírito sensual.
As criaturas são comparadas às migalhas que caem da mesa de Deus: quem se alimenta delas é comparado a um cão esfomeado que nunca se sacia, pois as criaturas avivam o apetite em vez de satisfazer a fome.
Capítulo 7 - Trata de como os apetites atormentam a alma. Prova-o também por comparações e autoridades
Os apetites atormentam e afligem a alma à maneira de quem está preso em cordas, pois enquanto não se liberta deles não encontra descanso.
Quanto mais intenso o apetite, maior o tormento: a alma dominada por seus apetites é como Sansão que, caindo em poder dos inimigos, teve sua força tirada, os olhos arrancados e foi atado à mó para trabalhos forçados.
Deus convida os que têm sede de apetites a virem até ele, onde comprarão vinho e leite sem preço algum, questionando por que gastam o preço de sua vontade em algo que não é pão do espírito e que nunca os saciará.
Capítulo 8 - Trata de como os apetites obscurecem e cegam a alma
Os apetites cegam e obscurecem a alma da mesma forma que os vapores obscurecem o ar, o pano embaça o espelho e o lodo turva a água: nem a luz da razão natural nem a da Sabedoria sobrenatural de Deus conseguem iluminá-la.
O entendimento obscurecido pelo apetite arrasta consigo a vontade e a memória, que ficam igualmente desordenadas e turbadas em suas operações.
O apetite é cego de si mesmo, pois não tem entendimento próprio; guiar-se pelo apetite é como um vidente ser conduzido por um cego, e ambos cairão no fosso.
Muitos espirituais se carregam de penitências e exercícios externos, mas não aproveitam quanto deveriam porque não se dedicam a negar os apetites; a mortificação dos apetites é tão necessária à alma quanto o cultivo da terra o é para que ela produza frutos e não ervas daninhas.
Capítulo 9 - Trata de como os apetites sujam a alma. Prova-o por comparações e autoridades da Escritura sagrada
Os apetites sujam e mancham a alma assim como quem toca pez fica sujo dela: o calor do apetite sobre a criatura atrai para a alma a imundície desta.
Há maior diferença entre a alma e as criaturas corporais do que entre um licor claríssimo e um lodo impuro; assim como o licor se sujaria ao ser misturado ao lodo, a alma se torna semelhante à criatura à qual se apega.
A beleza originária da alma, descrita por Jeremias como mais branca que a neve e mais resplandecente que o leite, fica mais negra que o carvão quando os afetos e pensamentos se desordenam nas criaturas.
A variedade de imundície que a variedade de apetites causa na alma foi figurada por Deus a Ezequiel no interior do templo: as répteis pintados nas paredes representam os pensamentos baixos no entendimento, as mulheres lamentando Adônis representam os apetites na vontade, e os velhos de costas para o templo representam as imagens das criaturas guardadas na memória.
Capítulo 10 - Trata de como os apetites entibiam e enfraquecem a alma na virtude
Os apetites enfraquecem a alma porque dividem sua força: assim como a virtude unida é mais forte do que dispersa, a vontade repartida em muitas coisas fica mais fraca para cada uma delas.
Os apetites são como os rebentos que nascem ao redor de uma árvore e lhe tiram a seiva, impedindo-a de dar tanto fruto; e como sanguessugas que sugam continuamente o sangue das veias.
Os apetites não mortificados chegam a matar a alma em Deus da mesma forma que, segundo a crença popular, os filhotes da víbora comem a própria mãe enquanto crescem em seu ventre.
A alma dominada por apetites torna-se pesada e preguiçosa para as coisas de Deus, assim como o mau humor torna o enfermo incapaz de caminhar e de se alimentar.
Capítulo 11 - Prova ser necessário para chegar à divina união carecer a alma de todos os apetites, por mínimos que sejam
Os apetites voluntários — sejam de matéria de pecado mortal, de pecado venial ou de simples imperfeições — devem todos ser esvaziados para que a alma chegue à total união com Deus, pois essa união consiste em que a vontade da alma se transforme inteiramente na vontade de Deus.
Os apetites naturais que não são consentidos pela vontade racional e não passam de primeiros movimentos não impedem a união divina, porque é impossível erradicá-los completamente nesta vida.
Um único apetite voluntário habitual, por mínimo que seja — como o costume de falar muito, o apego a uma pessoa, a um livro ou a determinado alimento —, impede o avanço na perfeição mais do que muitas imperfeições soltas.
A alma com um apego é como um pássaro preso a um fio: por mais fino que seja o fio, o pássaro não voa enquanto não o quebra; e como um navio retido pela rêmora: por menor que seja o peixe, ele imobiliza a embarcação no porto.
No caminho espiritual, não avançar é retroceder, e não ganhar é perder, pois uma única imperfeição basta para trazer outra, e estas, outras mais, até que se perca tudo o que foi conquistado com tanto trabalho.
Capítulo 12 - Responde a outra pergunta, declarando quais sejam os apetites que bastam para causar na alma os danos ditos
Somente os apetites voluntários de matéria de pecado mortal causam o dano privativo total, privando a alma de Deus nesta vida pela graça e na outra pela glória.
Todo apetite voluntário — de pecado mortal, de pecado venial ou de imperfeição — é suficiente para causar todos os cinco danos positivos juntos: cansaço, tormento, obscurecimento, imundície e fraqueza.
Os apetites de pecado mortal causam esses males em grau total, enquanto os de pecado venial ou imperfeição os causam de modo remisso, proporcional ao enfraquecimento da graça que produzem.
Cada tipo de apetite causa preferencialmente um dos males: o apetite sensual suja principalmente a alma, o da avareza causa principalmente aflição, o da vanglória causa principalmente cegueira e trevas, e o da gula causa principalmente tibieza na virtude.
Os apetites naturais não voluntários e as tentações não consentidas não causam esses males; ao contrário, ao serem resistidos, fortalecem, purificam e iluminam a alma.
Capítulo 13 - Trata da maneira e modo que se há de ter para entrar nesta noite do sentido
A alma entra na noite sensitiva de duas maneiras: a ativa, que é o que ela própria pode fazer, e a passiva, em que Deus age nela enquanto ela permanece como paciente.
O primeiro aviso é trazer um desejo ordinário de imitar Cristo em todas as coisas, conformando a própria vida com a dele.
O segundo aviso é renunciar a qualquer prazer que se apresente aos sentidos e que não seja puramente para honra e glória de Deus, deixando os sentidos vazios e às escuras.
Para mortificar as quatro paixões naturais — gozo, esperança, temor e dor —, convém inclinar-se sempre ao mais difícil, ao mais desabrido, ao menos prazeroso, ao mais trabalhoso, ao desconsuelo, ao menos, ao mais baixo e desprezado, ao não querer nada.
Três outros exercícios se dirigem contra a concupiscência da carne, dos olhos e a soberba da vida: procurar agir com desprezo de si mesmo, falar com desprezo de si mesmo e pensar humildemente de si mesmo, desejando que todos o façam.
O caminho sintetiza-se nos versos da Subida do Monte: para chegar ao todo é preciso não querer nada; para chegar ao que não se sabe, ir pelo que não se sabe; e qualquer apego a algo impede a entrega total a Deus.
Capítulo 14 - Declara o segundo verso da canção: Com ânsias em amores inflamada
Para vencer todos os apetites e negar os prazeres das criaturas, a vontade precisava de uma inflamação maior de um amor melhor — o do Esposo —, que desse força e constância para negar todos os outros.
Sem que a parte espiritual esteja inflamada com ânsias maiores do que as da sensualidade, a alma não tem ânimo para entrar na noite do sentido e se privar de todos os prazeres sensíveis.
Capítulo 15 - Declara os demais versos da dita canção: Ó ditosa ventura!, saí sem ser notada estando já minha casa sossegada
Depois do primeiro pecado original, a alma está como cativa no corpo mortal, sujeita às paixões e apetites naturais; sair dessa sujeição sem ser impedida por nenhum deles é a ditosa ventura cantada.
A saída pela noite escura só é possível quando a parte sensitiva — a casa dos apetites — já está sossegada pelo vencimento e adormecimento de todos eles, pois enquanto os apetites não se adormeçam pela mortificação, a alma não alcança a verdadeira liberdade nem a união com o Amado.