MADAME GUYON

GUYON, Jeanne Marie Bouvier de La Motte. Le moyen court et autres écrits spirituels: une simplicité subversive. Grenoble: Jérôme Millon, 1995.

Resumo de extrato da apresentação de Marie-Louise Gondal

II — Uma vida e uma obra de passagem

  1. Ler os escritos de Madame de Guyon representa uma prova, razão pela qual tantos leitores dizem tê-la descoberto por surpresa, sendo que abordá-la é frequentemente, ao menos para franceses marcados pela história do catolicismo dos três últimos séculos, superar certos preconceitos ou interditos latentes, e tentar nela entrar é sempre arrancá-la de um certo exílio e compreender melhor o nosso hoje.

Entre dois mundos

  1. A vida daquela que se tornará Madame de Guyon começa em Montargis, em 13 de abril de 1648, numa família de nobreza provincial, contemporânea de Luís XIV, e ela se encontra de fato, por sua posição familiar e social, presa na contradição de uma categoria social leal ao monarca e no entanto trabalhada por um espírito novo.
    • Jeanne-Marie, nascida de um novo casamento entre dois viúvos e um pouco abandonada nas primeiras anos a domésticos, não escapa aos conflitos afetivos que marcam a primeira infância, sendo dada em casamento aos 16 anos a Jacques Guyon du Chesnoy, muito mais velho que ela, sentindo-se como presa num meio que não era o seu e guardando dessa período não apenas traumas pessoais duradouros mas também uma maneira de viver indo buscar em si mesma, no interior, sempre mais fundo, as razões e os recursos.
    • Tornada viúva aos 28 anos, Madame de Guyon emancipou-se de uma sogra possessiva e, recusando novo casamento, escolheu permanecer aberta a um destino inédito, encontrando junto a monjas beneditinas uma ajuda na oração e dando seus primeiros passos na vida mística.
    • Colocada pelas circunstâncias no coração de tendências e situações conflituosas, enraizada numa fé sã e corajosa e consciente das fissuras do mundo antigo e da emergência de formas novas, Madame de Guyon desenvolveu em si um personagem de sabedoria e audácia, de submissão e liberdade, de respeito à tradição e de criatividade, de fé e de dom, tendo seu nome associado a uma espécie de renovação espiritual cuja fonte é a fé em Cristo.

Uma obra de sete ramos

  1. A obra de Madame de Guyon é inseparável de um trabalho de escrita considerável, editado primeiro parcialmente na França e depois, após o caso chamado do quietismo, editado ou reeditado na totalidade na Holanda pelo reformado Pierre Poiret entre 1699 e 1722, podendo-se distinguir sete gêneros: os comentários bíblicos, os tratados, as cartas, as regras, os poemas, a autobiografia e a apologia.
  2. Tudo começa pela Bíblia e seu comentário, de uma amplitude rara, ocupando 18 volumes na primeira edição realizada por Poiret, com um pórtico dominando o conjunto que é o comentário do Cântico dos Cânticos, indicando que é a Bíblia que dá à crente que é Madame de Guyon um alimento substancial e que, na própria Bíblia, é a figura da busca de amor entre o amado e a amada que se impõe a ela para expressar a busca espiritual de Deus e da humanidade.
    • Seria desejável que um melhor conhecimento do uso da Bíblia no século XVII, ao qual se deve juntar também a leitura dos Padres na liturgia, iluminasse a maneira própria de Madame de Guyon de se referir à Escritura, pois em muitos casos uma leitura inspirada por uma fé profunda, impregnada de oração litúrgica e aguçada por uma consciência pessoal em permanente trabalho espiritual, confere a esses comentários uma penetração à qual a exegese moderna nem sempre chega após muitos desvios.
  3. Do comentário bíblico passa-se por uma transição compreensível à exortação ou ao tratado espiritual, sendo propostos aqui dois deles: o Moyen court et très facile pour faire oraison e o Petit abrégé de la voie et de la réunion de l'âme à Dieu, que estão longe de ser tratados tão construídos quanto os de João da Cruz, Francisco de Sales ou Jean-Joseph Surin, pois Madame de Guyon não tinha e sabia não ter uma formação intelectual ou doutrinal comparável à dos mestres do tempo.
    • O extraordinário é que essa simples mulher leiga, sem preparação teológica especial, tenha assimilado os mestres espirituais da tradição cristã e ousado se exprimir, pelo movimento de um espírito buscando se compreender e compreender o que enfrenta, em matérias onde o grau não basta para a inspiração, lembrando oportunamente que não se deve confundir os balbucios do amor com uma linguagem de definição doutrinal.
  4. As Regras, duas no total, evocam a vida de grupos ou ao menos de redes de pessoas dedicadas à mesma via e representam a influência em Madame de Guyon de um modelo de vida conventual que lhe pareceu nem possível nem desejável para ela mesma, mas que lhe inspirou uma forma adaptada à condição comum dos cristãos, tornando-se uma espécie de carta ou manifesto espiritual que reunia os membros de uma rede.
  5. A vasta correspondência de Madame de Guyon a coloca entre os grandes epistológrafos, havendo dois períodos de atividade particular: o período parisiense, notadamente a partir de 1688 após o encontro com Fénelon, que se tornou por alguns anos correspondente privilegiado, e o período de Blois após sua saída da Bastilha em 1703, quando ela se torna o centro de uma rede de discípulos vindos de diversos países da Europa.
    • Muitas dessas cartas foram editadas por Poiret em 4 volumes e um quinto por Jean Philippe Dutoit cinquenta anos depois, existindo ainda inéditas em diversas bibliotecas públicas ou privadas na França e na Suíça, sendo que um estudo global dessa correspondência, notadamente com Fénelon, ainda está por fazer.
  6. Com as poesias descobre-se um aspecto importante da personalidade e da obra de Madame de Guyon que permaneceu quase totalmente na sombra, tendo mais de 700 poesias sido reunidas e publicadas por Poiret, tendendo para a canção mais do que para o poema, ousando o alexandrino, cultivando rimas ricas e ritmos variados e indicando as melodias da moda sobre as quais se apoiam.
    • O testemunho colhido por Poiret junto a familiares, testemunhas e destinatários dessas poesias é precioso: ela as compunha com uma facilidade admirável sem nenhuma reflexão, escrevendo nos momentos de recolhimento mais marcado sobre o primeiro papel que encontrava sob a mão, e a cadência e as rimas se formavam; escrevia mesmo por vezes em seu leito, doente, cinco ou seis cânticos por dia sobre ares diferentes que distribuía no momento aos amigos que a vinham ver.
  7. No coração da obra está a Vida, autobiografia cuja intenção declarada é falar de um outro ao falar de si, de abençoar a Deus relatando um itinerário de crente, indo do nascimento e das lembranças da primeira infância até dezembro de 1709, com estilos diversos que entrelaçam lembranças de infância e adolescência, conflitos internos, dramas e desejos com desenvolvimentos sobre o itinerário da alma.
    • A única dificuldade para o leitor eventual, mas ela é considerável, é que essa Vida, talvez a parte da obra mais diretamente acessível hoje, ainda não se beneficiou de uma reedição completa e crítica integrando as descobertas mais recentes.
  8. A Apologia, três volumes publicados por Poiret sob o título Justifications, não é relato dos eventos de uma vida mas argumentação visando iluminar passagens discutidas fazendo apelo aos ensinamentos ou testemunhos de cerca de sessenta autores espirituais reconhecidos, antigos ou contemporâneos, constituindo em suma uma defesa e ilustração da língua mística, abrindo para além de Madame de Guyon o debate que se jogaria na cena pública pelo processo feito em Roma ao livro de Fénelon, após o qual essa língua seria condenada, os livros incriminados retirados do uso corrente e a língua cairia em quase desuso.
  9. O olhar sobre o conjunto da obra guyoniana visa sublinhar, nessa própria enumeração, a unidade dinâmica de uma palavra nascida de uma confrontação com o mistério ao qual as Escrituras remetem: palavra multiforme que se exprime nos registros variados da comunicação, testemunho nascido de um foco pessoal íntimo mas tocando de perto amigos ou distantes e até as autoridades, palavra recebida, dada, transmitida, contestada e posta à morte, palavra de profeta em suma.