Uma hierarquia foi elaborada entre os místicos distinguindo os grandes, como
Eckhart,
João da Cruz, Teresa de Ávila, Maria da Encarnação, e os outros, mas hoje se impõem outras evidências, a primeira das quais é que os gigantes não estão sozinhos no mundo da mística, pois não teriam sido o que foram se estivessem sozinhos em seu tempo a se arriscar nessa viagem e a dela entregar o relato.
Os maiores puderam falar e se fazer ouvir porque sua voz era audível e seu discurso pensável, porque outros escutavam e respondiam, havendo em seu tempo aquela multidão das almas interiores, a turba magna de que falava Henri Bremond, cuja rumor habita os períodos em que a voz dos tenores se destaca, verificando-se assim em destinos tidos por tão solitários uma verdade humana universal: toda criação nasce na solidão mas é uma solidão habitada e ligada, verdade particularmente pertinente no domínio da experiência mística onde são essenciais o diálogo, a conversação, o colóquio, a comunicação de boca e de coração.
Certos espirituais, mesmo que nunca tenham se dado o nome de místicos, têm destinos sacudidos e quebrados, mensagem estilhaçada ou contestada, não sendo em tudo admiráveis nem imitáveis, e no entanto seu itinerário intriga e atrai, sendo por vezes mais próximo do nosso do que o dos místicos incontestados, pois oscilando entre queixa e profecia, entre morte e vitória, entre sucesso e exílio, o discurso espiritual torna-se, apesar de si mesmo, o apelo de um impossível no entanto oferecido.
Ler espiritualmente os místicos não é apenas nem primeiramente buscar neles mestres ou modelos, mas recebê-los como testemunhas, descobrindo nos que são meteoritos de outro tempo luzes para tempos difíceis que não oferecem os que jamais sentiram o mundo vacilar, e em uns ou outros, segundo o chamado e segundo os dons, descobrindo por vezes uma viva chama, não apenas deles nem nossa, mas aquela misteriosa que lentamente transforma a humanidade, segundo a palavra de Isaías, em fornalha sem fim (Is 33, 14).
Madame de
Guyon pode ser situada tanto no primeiro tipo, tendo dos grandes a altura e a simplicidade, a penetração e a limpidez, o coragem e a obediência, quanto no terceiro tipo, pois como os profetas anuncia, por vezes em estilo de apocalipse, o fim de um mundo e a chance do mundo que vem, permanecendo de pé, repetindo incansavelmente o quem é como Deus? do arcanjo Miguel, recordando assim a honra de Deus.