A embarcação deixa muito menos vestígios sobre as ondas do que a serpente sob a pedra; no entanto, vê-se por algum tempo como um sulco sobre as ondas, que é o vestígio que mal dura. Se, contudo, esta embarcação estivesse carregada de mercadorias de valor, estas mercadorias seriam uma marca e uma garantia dos lugares por onde viajou; mas não estando carregada senão de maçãs, que a água do mar corrompe, é-se obrigado, à Medida que apodrecem, a jogá-las no mar, de sorte que a embarcação, chegando vazia, não resta nem vestígio da sua passagem, nem rastro das suas mercadorias. É a figura do perfeito despojamento da alma; não resta vestígio de seu caminhar que possa servir de apoio e garantia de que tenha seguido a rota desses vastos mares e que tenha passado por este caminho: nada aparece de sua carga, que se corrompeu pouco a pouco, e é esta corrupção que obrigou o Divino piloto a jogar a mercadoria no mar; enfim esta corrupção torna-se tão grande, que se é obrigado a descarregar a embarcação de tudo o que transportava. É verdade que a miséria que a alma experimenta é algo de triste para ela, mas ela experimenta ao mesmo tempo algo a que não prestava atenção no início, é que quanto mais miserável se torna, mais leve se torna; encontra-se pouco a pouco livre do peso de si mesma; enfim, quanto mais a sua miséria aumenta, mais vazia se torna. A alma já não se encontra carregada nem embaraçada; pelo contrário, experimenta um certo vazio que lhe deu extensão e largura. A embarcação vazia encontra-se em estado de ser cheia das mais requintadas mercadorias. Nossa alma vazia é própria para tudo o que Deus quer fazer dela. Feliz embarcação! Acreditavas-te desprezível e todo envergonhado da tua carga, ruborizavas no segredo: é no entanto esta carga cheia de podridão que te esvaziou de tudo o que te pertencia, e do que havia de mais forte e de mais íntimo no amor de ti mesmo. O porão foi esvaziado, ou seja, estás livre da propriedade que te corrompia profundamente; assim estás inteiramente vazio, limpo e varrido da tua podridão. Procurou-se nos lugares mais recônditos, se não restava alguma podridão, para a jogar no mar. Eis-te chegado a uma nudez inteira!