ZOLLA, Elémire. I mistici dell’Occidente. 1. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, quarto edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.
[140] Assim ficou prefigurado no Antigo Testamento quando se pediu a Eliseu que ressuscitasse o jovem que estava morto. Mas ele não foi, senão que mandou a Giezi com seu cajado, ordenando-lhe que o pusesse sobre as costas do rapaz. Tendo ido e cumprido o que Eliseu lhe havia mandado, o morto não ressuscitou. Quando viu Eliseu que não havia ressuscitado, foi ele em pessoa, estendeu seus membros sobre os do rapaz e lhe insuflou sete vezes na boca. O rapaz respirou sete vezes em sinal de que havia ressuscitado. Isto foi figurado por Moisés, a quem mandei pôr o báculo da lei sobre o cadáver do gênero humano, mas com ela não pôde obter a vida. Enviei então, prefigurado em Eliseu, ao Verbo de meu unigênito Filho, que estendeu seus membros sobre o filho morto pela união da natureza divina unida a vossa natureza humana. Uniu-se com todos os membros da natureza divina, ou seja, com meu poder, com a sabedoria de meu Filho e com la clemência do Espírito Santo, todo eu, Deus, abismo da Trindade, tomando a forma de vossa natureza humana e unindo-se a ela.
Depois desta união que fez o doce e amoroso Verbo, correndo como enamorado à afrontosa morte de cruz, se estendeu sobre ela. Depois desta união deu os sete dons do Espírito Santo àquele filho morto, dando alento à boca do desejo de sua alma, arrancando-lhe a morte no santo batismo. Respirou dando sinais de vida, arrojando assim os sete pecados mortais. Assim foi convertido em jardim adornado com doces e suaves frutos. É certo que o hortelão deste jardim, ou seja, o livre-arbítrio, pode deixar-lhe que se torne selvagem ou cultivá-lo, segundo lhe praza. Se semeia o veneno do amor a si mesmo, de onde nascem os sete pecados principais e os demais que dele se derivam, então arroja os sete dons do Espírito Santo e se priva da virtude. Nele não haverá já fortaleza, por achar-se debilitado; nem temperança nem prudência, por haver perdido a luz que usava a razão; não terá nem fé, nem esperança, nem justiça, porque se fez injusto; fiar-se-á das criaturas e não de mim, seu Criador, carecerá de caridade e piedade, por tê-la lançado de si com o amor à própria fragilidade; ter-se-á feito cruel consigo mesmo, e por isso não poderá ser caritativo com o próximo; achar-se-á privado de todo o bom e terá caído no mal supremo. Como reanimará sua vida? Pelo mesmo Eliseu, ou seja, no Verbo encarnado, meu Filho unigênito. De que modo? Este hortelão deve arrancar os cardos com energia - se não a tiver, não o poderá conseguir - e deve correr com amor a conformar-se com la doutrina de minha Verdade, regando-a com o sangue. Esta se lha derrama o ministro sobre a cabeça na confissão acompanhada da contrição de coração, penitência e propósito de não pecar mais.
Assim pode cultivar o jardim da alma enquanto vive, pois terminada esta vida, não há remédio algum, como em outros lugares vos disse.
[143] A alma acha-se em estado de pecado mortal ou em estado de graça perfeita ou imperfeitamente. Em cada um desses estados tendo e dou minha ajuda com grande sabedoria, ainda que de distintos modos, segundo vejo que a necessita. Aos homens do mundo que jazem na morte do pecado despertarei com o remorso da consciência ou com trabalhos que sentirá no interior de seu coração de novas e diversas maneiras. Estas são tantas que vossa língua não seria capaz de narrá-las. Muitas vezes se afastam da culpa de pecado mortal por razão da duração das penas e do remorso de consciência que há dentro da alma. Alguma vez, porque eu sempre tiro alguma rosa de entre vossas espinhas, concebendo o coração do homem amor ao pecado mortal ou à criatura por prescindir de minha vontade, privá-lo-ei do lugar e do tempo, de maneira que não poderá fazer sua vontade. Enquanto isso, pelo cansaço da aflição de coração, adquirido por deficiência sua, não pode satisfazer seus desordenados desejos, e volta em si com compunção de coração e remorso de consciência e lança por terra seus delírios. Pode-se-lhes corretamente chamar “delírios”, porque crê que põem seu afeto em algo, e quando vai comprová-los encontra-se com o nada. Algo, sem embargo, havia e há nas criaturas que ele amava com mísero amor; mas o que delas tirava era o vazio, pois o pecado é o nada. Deste vazio, que é uma espinha que punge a alma, tiro eu esta rosa para prover a sua salvação.
Que me obriga a fazê-lo? Não ele, que não me busca nem me pede ajuda senão para seu pecado, prazeres, riqueza e posição social; obriga-me o amor, porque vos amei antes de que existísseis; amei-vos inefavelmente, sem ser correspondido por vós. Tem-me obrigado a fazê-lo o amor e a oração de meus servidores. O Espírito Santo, servidor e clemência minha, outorga-lhes o amor a mim e a seu próximo, e eles buscam com inestimável caridade a salvação dos demais, cuidando-se de aplacar minha ira e atar as mãos de minha justiça para que não descarregue eu contra ele. Quem lhes faz suplicar? Minha divina providência, pois atendo às necessidades daquele morto, porque disse que não quero a morte do pecador, senão que se converta e viva.
[144] Por que tenho a esta alma rodeada de tantos inimigos, em tanta pena e aflição? Não para que a tomem prisioneira nem para que perca a riqueza da graça; faço-o para demonstrar-lhe minha providência, a fim de que confie em mim e não em si, levante-se da preguiça e se refugie em mim, seu defensor. Sou pai benigno que procura sua salvação. Faço-o para que se humilhe e veja que ela por si mesma não existe e que reconheça que sua existência e toda la graça que há em seu ser provém de mi, que sou sua vida. Como reconhece esta vida e minha providência nos combates? Recebendo a grande libertação, pois não a deixo que esteja continuamente neles, senão que vão e vêm segundo vejo que lhe são necessários. Uma vez parecer-lhe-á achar-se no inferno, e, sem ela fazer nada, ver-se-á liberada e provará da vida eterna. A alma permanece serena, toda inflamada de amoroso fogo. O que vê parece-lhe que proclama a Deus pela consideração que faz então sobre minha providência ao ver que, sem ter ela feito nada, sai não só desse inferno, senão que, por minha inestimable caridade, me voltei a socorrê-la em sua angústia no tempo oportuno, quando já quase não podia mais.
Por que, quando se exercitava na oração e outras coisas necessárias, não respondi com la luz, livrando-a da escuridão? Para que, sendo ainda imperfeita, não atribuísse a suas práticas o que não era seu. Vedes, pois, que o imperfeito, pelo exercício nos combates, chega à perfeição ao experimentar neles minha providência. Então crerá nela para o sucessivo. Mostrei-lho com a experiência, e daí que haja concebido o amor perfeito uma vez conhecida minha bondade e se haja elevado do amor imperfeito.
Utilizo também outra santa argúcia para levantá-la da imperfeição. Farei que conceba um amor particular às criaturas, além do amor espiritual comum. Por meio deste amor ordenado que lhe inspirei, arroja o desordenado com que amava antes. Vedes, por tanto, que é o que erradica a imperfeição. Mas atendei a outro meio amoroso; por ele se mostra se me ama ou não perfeitamente. Dei-lho com essa finalidade para que o tivesse como sinal de conhecê-lo e para que lo demonstrasse. Se não o conhecesse, não acharia desagrado em si mesmo e creria que é seu o que procede de mim. Deste modo o conhece, pois vos disse que a alma é ainda imperfeita. Não há dúvida de que, sendo imperfeito o amor que me tem, o é também o que tem à criatura racional, porque a caridade perfeita com o próximo depende da perfeição de sua caridade para comigo; de modo que na medida em que me ama perfeita ou imperfeitamente, ama, na mesma medida, à criatura. Como o conhece ela por este meio? De muitos modos. Em quanto queira abrir os olhos do entendimento, não passará muito tempo sem que o veja e experimente.
Da excelência destes perfeitos
[147] Oh, como ordenaram seus sentidos pela boa e doce guarda que fez o livre-arbítrio na porta da vontade! Todos os sentidos formam uma suavíssima harmonia que sai da cidade da alma, posto que as portas estão fechadas e abertas. Fechada acha-se a vontade ao amor próprio, e aberta a desejar e amar minha honra e a dileção ao próximo. O entendimento acha-se fechado para olhar desordenadamente as delícias, vaidades e misérias do mundo, e aberto com a luz focada ao objeto de minha vontade. A memória está trancada à lembrança do mundo e de seus sentidos e aberta para receber e para que a ela volte a lembrança de meus benefícios. O afeto da alma experimenta então júbilo, e produz uma melodia de temperadas e sintonizadas cordas com a prudência e a luz, logrando uma música para a glória e louvor de meu nome.
Nesta música, em que estão sintonizadas as cordas das potências da alma, acham-se também acordes os pequenos sentidos e instrumentos corporais. O mesmo que vos disse, falando-vos dos maus, que com eles todas as cordas tocavam a morto, pois recebiam aos inimigos, assim estas soam a vida recebendo aos amigos, as verdadeiras e reais virtudes: fazem uso dos instrumentos com boas e santas obras. Cada membro leva a cabo o trabalho que se lhe encomendou, cada um com a perfeição correspondente a sua importância: os olhos, o seu de ver; os ouvidos, ouvindo; o olfato, percebendo o odor; o gosto, paladeando; a língua, com a fala; o tato, com as mãos e as obras; e os pés, caminhando. Todos concordam em única harmonia para servir ao louvor e glória de meu nome, e à alma com boas, santas e virtuosas obras, obedientes à alma, respondendo como instrumentos. São-me agradáveis, como aos anjos e aos bem-aventurados, que com grande gozo e alegria esperam participar em conjunto da felicidade. Queira o mundo ou não, os malvados não podem menos de sentir complacência nesta harmonia, e são muitíssimos os que ficam presos neste anzool e instrumento e se afastam da morte e vêm à vida.
Todos os santos pescaram as almas por este meio. O primeiro que se serviu desta harmonia foi o doce e amoroso Verbo tomando vossa humanidade, e com ela, unida à divindade, produziu a doce música sobre a cruz, tomou os filhos do gênero humano, aprisionou o demônio e tirou-lhe o domínio que por tanto tempo havia tido por causa da culpa. Todos vós compondes uma música aprendendo do Mestre. Dele o fizeram os apóstolos, semeando sua palavra por todo o mundo; os mártires, os confessores, os doutores e as virgens, todos pescavam com essa música. Olhai a gloriosa virgem Úrsula, que fez soar tão docemente seu instrumento, que só de virgens capturou onze mil, e muitos mais, cativados pela mesma harmonia. E assim todos os demais; uns de um modo, outros de outro. Qual foi a causa disto? Minha infinita providência, que determinou dar-lhes os meios e o modo de produzir essa harmonia. O que eu dou e permito nesta vida serve-lhes para aperfeiçoar o instrumento, se eles o querem aceitar e se privam da luz do amor próprio, do prazer e de seu próprio parecer.