Catarina de Siena

ZOLLA, Elémire. I mistici dell’Occidente. 1. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, quarto edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.

[2] E como parece que na comunhão se une mais docemente a Deus e conhece melhor sua verdade - já que então a alma está em Deus e Deus na alma ao modo que o peixe está no mar e o mar está no peixe -, veio-lhe por isso o desejo de que chegasse a manhã para ir à santa missa. Aquele era o dia de Maria. Chegada a manhã e a hora da missa, invadiu-lhe uma grande ânsia e um grande reconhecimento do que era, envergonhando-se de sua imperfeição. Parecia-lhe ser ela a causa de todo o mal que se fazia por todo o mundo, concebendo ódio e desgosto de si mesma, junto com desejos de que se fizesse justiça. Por aquele reconhecimento, ódio e justiça desejados purificava as manchas e culpas que lhe pareciam existir. Certamente que esse reconhecimento lhe invadia a alma quando dizia: “Oh Pai eterno!, eu me volto a vós para que castigueis as ofensas neste tempo perecível. E, posto que sou a causa das penas que meu próximo deve sofrer em razão de meus pecados, suplico-vos benignamente que as castigueis em mim”.

[3] Então a Verdade eterna arrebatou e atraiu para si com mais força os anseios da alma, obrando como no Antigo Testamento, porque então quando se ofereciam sacrifícios a Deus, baixava fogo e atraía para si a oferenda que lhe era agradável. A doce Verdade fez o mesmo com aquela alma, de modo que enviou o fogo clemente do Espírito Santo e recolheu o sacrifício dos desejos que ela tinha e lhe disse: “Não sabeis, filha minha, que todas as penas que pode sofrer a alma nesta vida não são suficientes para poder ser castigo de uma pequena culpa? Porque a ofensa que a mim se faz, Bem infinito, requer uma satisfação infinita. Por isso quero que saibais que não todos os sofrimentos sobrevêm nesta vida por via de castigo, senão para facilitar a emenda e avisar ao filho que peca. A verdade é esta: que se satisfaz com o desejo da alma, isto é, com a verdadeira contrição e aborrecimento do pecado. A contrição verdadeira satisfaz pela culpa e pela pena; não pelo dor finito que se sofre, senão pelo desejo infinito. Deus, que é infinito, quer amor e dor infinitos. Por dois motivos quer o dor infinito: um, pela própria ofensa cometida contra seu criador, o outro, pela ofensa que se faz ao próximo. Quanto aos que têm desejo infinito, quer dizer, que se acham unidos a mim por afeto de amor - por isso se doem quando pecam ou veem pecar -, a pena que sofrem, espiritual ou corporal, venha de onde vier, tem mérito infinito e satisfaz pela culpa, que merecia pena infinita, mesmo pressupondo que suas obras sejam finitas, feitas em tempo finito. Mas por ser praticada a virtude e sofrida a pena com gosto e com aborrecimento infinito do pecado, por isso tem tanto valor”.

Isto o demonstrou Paulo quando disse: “Se tivesse língua de anjos, conhecesse as coisas futuras, desse o meu aos pobres e meu corpo à fogueira, se não tivesse caridade, de nada me valeria” (1 Coríntios 13,1-3). Ensina o glorioso Apóstolo que as obras finitas, sem o condimento do afeto da caridade, não são suficientes nem para expiar nem para recompensar.

[4] … Pelo conhecimento de vós mesma vos humilhareis ao ver que de por vós não sois, e conhecereis que vosso ser vem de mim, que vos amei antes de que existísseis. Pelo inexplicável amor que vos tive, querendo criar-vos de novo pela graça, lavei-vos e voltei a criar-vos no sangue de meu Filho unigênito, derramado com tanto fogo de amor.

Este sangue faz conhecer a verdade a quem se lhe haja tirado a nuvem do amor próprio pelo conhecimento de si mesmo, pois de outro modo não a poderia alcançar. Então a alma se acenderá em um amor inefável por causa deste conhecimento sobre mim. Por ele se acha em contínuo sofrimento; não aflitivo, que atormente ou lhe produza aridez, senão o que faz progredir. Mas como conheceu minha Verdade, sua própria culpa e a ingratidão e cegueira do próximo, padece torturas intoleráveis, e, conseguintemente, sofre, porque ama, pois, se não amasse, não sentiria dor.

[8] … Todas as virtudes se provam e cobram vida em relação com o próximo, o mesmo que os malvados dão o ser a todos os vícios em relação com o próximo. Se o analisais bem, a humildade é provada pela soberba, isto é, que o humilde mata a soberba, razão pela qual o soberbo não lhe pode fazer dano espiritual; tampouco a infidelidade do iníquo, que nem me ama nem espera em mim, ao que é fiel lhe diminui a fé; nem a esperança, que nasceu nele por amor a mim, senão que, mais bem, as fortalece e deixa todas comprovadas pela dileção do amor ao próximo. E, ainda que se lhe veja sem fé e sem esperança nem em mim nem em si mesmo - pois o que não ama não pode ter esperança em mim, senão que a põe nos próprios sentidos, aos que ama -, sempre fica a esperança de que busque em mim a salvação. Assim vedes que em sua infidelidade e falta de esperança se prova a virtude da fé. Nisto e não em outras coisas dá provas da fé, dá-las por suas obras e as que faz pelo próximo.

A justiça não se amesquinha com a injustiça, senão, mais bem, intenta dar provas dela, quer dizer, desenmascara o injusto pela virtude da paciência; o mesmo que a benignidade e mansidão se manifestam no tempo da ira por meio da doce paciência; e na inveja, o desprezo e o ódio mostram a dileção da caridade quanto à fome e desejo da salvação das almas.

Tratado da discrição: semelhança de como a caridade, humildade e discrição estão intimamente unidas; a esta semelhança deve acomodar-se a alma

[10] Sabeis qual é a posição que ocupam estas virtudes? Imaginai um círculo rodeando a terra e que da metade dele sai uma árvore com um renovo lateral unido a ela. A árvore se nutre da terra contida na largura do círculo. Se a árvore se achasse fora da terra desse círculo, morrerria e não daria fruto até que não fosse plantada nele.

De modo semelhante, pensai que a árvore da virtude nasceu no círculo do amor, e por isso não pode viver senão do amor. É, pois, certo que, se a alma não tem amor divino de verdadeira e perfeita caridade, não produz frutos de vida, senão de morte. É de necessidade que a raiz desta árvore, quer dizer, o afeto da alma, esteja e brote do círculo do verdadeiro conhecimento de si. Este conhecimento, de por si, está unido a mim, que não tenho princípio nem fim, como o círculo, pois quando vós ides dando voltas dentro dele, não encontrais nem fim nem princípio e vos achais sempre em seu interior. O conhecimento de si mesmo e de mim nele se encontra e repousa sobre a terra da verdadeira humildade, a qual é tão grande quanto o é a amplitude do círculo, isto é, do conhecimento que teve de si pela união comigo. De outra maneira não seria círculo sem princípio, senão que o teria ao haver começado a conhecer-se a si mesmo, e terminaria na confusão se este conhecimento não se achasse unido a mim.

Portanto, a árvore da caridade se alimenta da humildade, fazendo brotar de seu interior o renovo, como vos disse. A medula dessa árvore, ou seja, o afeto da caridade que se acha na alma, é a paciência. Esta é um sinal que manifesta que se acha na alma e que esta se acha unida a mim. Esta árvore tão docemente plantada lança flores perfumadas de virtude com muitas e variados cores. Dá frutos de graça à alma e de utilidade para o próximo, segundo a disposição com que queira receber os frutos de meus servidores. A mim me dá o perfume da glória e louvor de meu nome, e assim cumpre a finalidade para que o criei e consegue seu objetivo, chegar a mim, que sou vida perdurável, e não posso ser apartado dele se ele não quiser.

Todos os frutos produzidos pela árvore acham-se sazonados com a discrição, porque todos se acham unidos entre si, como vos disse.