PEREGRINO QUERUBÍNICO – PREFÁCIO

Angelus Silesius — PEREGRINO QUERUBÍNICO

Rimas espirituais: gnômicas e epigramáticas que conduzem à divina contemplação

«Todos nós, com o rosto descoberto,
contemplando a majestade do Senhor,
somos transformados nessa mesma imagem,
de claridade em claridade,
como pelo Espírito do Senhor», 2 Cor. III, 18.

À eterna Sabedoria,
a Deus,
ao espelho sem mácula
que os querubins e todos os espíritos bem-aventurados
contemplam com eterna admiração,
à luz que ilumina todos os homens
que vêm a este mundo,
à fonte inesgotável e à nascente originária
de toda sabedoria,
Lhe dedica e restitui
estas mínimas gotinhas, graciosamente
derramadas do Seu vasto mar,
Seu,
de incessante desejo de contemplá-Lo,
sempre agonizante,
JOHANNES ANGELUS.

Leitor benévolo, como as rimas seguintes contêm em si muitos paradoxos estranhos ou enunciados contraditórios, assim como argumentos muito elevados, não conhecidos de qualquer um, acerca da deidade secreta, bem como da união com Deus ou da essência divina, e também acerca da igualdade divina e da deificação ou transformação divina, e coisas semelhantes, às quais, por causa de sua composição breve, facilmente se poderia atribuir um sentido condenável ou uma má intenção, é necessário advertir-te de antemão.

E deves saber desde já, de uma vez por todas, que em parte alguma o autor opina que a alma humana deva ou possa perder sua natureza e, pela deificação, ser transformada em Deus ou em sua essência incriada: o que não pode acontecer por toda a eternidade. Pois, embora Deus seja todo-poderoso, não pode, no entanto, fazer (e, se pudesse, não seria Deus) que uma criatura seja natural e essencialmente Deus.

Por isso diz Tauler em suas Instituições Espirituais, cap. 9: “porque o Altíssimo não podia fazer que fôssemos Deus por natureza (pois isso só Lhe compete), fez que fôssemos Deus por graça, para que juntamente com Ele, em amor sempiterno, possamos possuir uma mesma beatitude, um mesmo regozijo e um único reino”.

Mas quer significar que a alma dignificada e santa chega a tal união estreita com Deus e com sua essência divina, que é com ela uma só coisa, e está por ela inteiramente penetrada, transformada nela e a ela unida; de tal modo que, se fosse vista, nada se veria nem se reconheceria nela senão Deus; como depois acontecerá na vida eterna, porque ela será, por assim dizer, inteiramente devorada pelo brilho de sua glória.

Ela pode, sim, alcançar tão perfeita semelhança com Deus, que é justamente aquilo que Deus é por natureza (por graça); e neste sentido pode ser chamada com pleno direito uma luz na Luz, um Verbo no Verbo e um Deus em Deus (como se diz nas rimas).

Pois, como diz um antigo mestre, Deus Pai só tem um Filho, e este Filho somos todos nós em Cristo. Ora, se somos filhos em Cristo, devemos também ser o que Cristo é, e ter a mesma essência que tem o Filho de Deus; pois justamente (diz Tauler no sermão quarto do Natal): “porque temos a mesma essência, tornamo-nos iguais a Ele e O vemos como o Deus verdadeiro que Ele é”.

E com este princípio concordam todos os santos contempladores de Deus: em particular o já mencionado Tauler, no sermão terceiro para o terceiro domingo depois da Trindade, quando diz:

“Ora, a alma chega a ser (pela imagem recobrada) igual a Deus e divina: chega a ser por graça tudo o que Deus é por natureza. Nesta união e abismamento em Deus, ela é conduzida a Deus acima de si mesma e torna-se tão igual a Ele, que, se se visse a si mesma, se teria por Deus; e quem a visse, não a veria em seu ser natural, mas no comunicado a ela pela graça, na forma e modo de Deus, e tal visão o tornaria bem-aventurado. Com efeito, Deus e a alma são um em tal união; não por natureza, mas por graça.”

E um pouco mais adiante:

“A alma pura e divina, que do amor às criaturas está tão livre como Deus, será vista pelas outras, e ver-se-á também a si mesma eternamente como Deus (pois Deus e tal alma são, na união citada, um), e receberá sua beatitude em e de si mesma nesta união.”

Ruysbroeck, no livro terceiro do Ornamento das Núpcias Espirituais, cap. 1, diz:

“Na unidade essencial de Deus, todos os espíritos íntimos e recolhidos são um em Deus, por seu abismamento e fusão amorosa n’Ele; e são por graça o mesmo Um que a própria essência é em si mesma.”

E no mesmo lugar:

“Apreender e compreender Deus como Ele é em si mesmo, além de toda alegoria, é, em certa medida, ser Deus com Deus sem mediação (ou, por assim dizer, sem uma alteridade sensível).”

E ainda no mesmo livro, cap. 2:

“Quando o espírito do homem se perdeu a si mesmo pelo amor fruitivo, recebe a claridade de Deus sem mediação; e chega a ser também (na medida que convém a uma criatura), sem cessar, a mesma claridade que recebe.”

Do mesmo modo fala também São Bernardo no livro Da Vida Solitária, onde diz:

“Seremos o que Ele é. Pois àqueles a quem foi dado o poder de se tornarem filhos de Deus, foi também dado o poder, não certamente de serem Deus, mas de serem o que Deus é.”

E mais adiante:

“Esta alegoria de Deus é chamada a Unidade do Espírito, não só porque o Espírito Santo a opera ou embriaga com ela o espírito do homem, mas porque ela mesma é o Espírito Santo, Deus, o amor; porque por Ele, que é o amor do Pai e do Filho, e unidade, e doçura, e bem, e beijo, e abraço, e tudo o que pode ser comum a ambos, nessa suprema união da verdade e verdade da união, exatamente o mesmo sucede ao homem, à sua maneira, com relação a Deus, como sucede, em sua unidade própria, ao Filho com relação ao Pai, ou ao Pai com relação ao Filho…”

Sobre o segundo ponto, a saber, que a essência divina é de fato incomunicável, de modo que tivesse de se misturar com alguma coisa e tornar-se com ela uma única essência ou natureza; mas que, de certo modo, por causa da união tão próxima e íntima com que se derrama na alma santa, pode no entanto ser chamada comunicável; de acordo com o que diz também Pedro, que nos tornamos participantes da natureza divina; e João, que somos filhos de Deus, porque nascemos de Deus; estes não podem ser chamados filhos de Deus e participantes da natureza divina (diz Tomás a Jesus, 1.4. d. orat. divin. c. 4), se ela mesma não estiver em nós, mas separada e longe de nós.

Pois, assim como um homem sem sabedoria não pode ser sábio (como diz Tauler no sermão quarto do Natal), tampouco pode ser filho de Deus quem não tem a filiação divina, isto é, quem não tem em si mesmo a verdadeira essência do Filho de Deus.

Portanto, se deves ser filho ou filha de Deus, deves ter a mesma essência que tem o Filho de Deus; de outro modo, não podes ser filho de Deus. Mas tão grande majestade está, por ora, ainda oculta para nós. Por isso, no lugar antes citado, São João continua escrevendo assim:

“Amados, agora somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que havemos de ser; sabemos, porém, que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, isto é, seremos a mesma essência que Ele é.”

Por isso diz Nicolau de Jesus Maria, 1. 2 c. 16, Elucidatio Theologica em São João da Cruz, que a alma, pelos efeitos do amor com que ama a Deus, obtém não só que Deus lhe comunique seus dons, mas que também a própria autonomia e a própria essência de Deus estejam autonomamente presentes na alma, a título especial.

E tal coisa confirmam também as palavras de Santo Agostinho (p. 185 De tempore), quando diz:

“O Espírito Santo desceu neste dia para preparar o coração de seus apóstolos como uma chuva de santificação, não como um visitante passageiro, mas como um Paráclito perpétuo e um assistente eterno. Pois, assim como Ele (Mat. 28) havia dito de si mesmo a seus apóstolos: ‘Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo’; assim diz também do Espírito Santo: ‘O Pai vos dará o Paráclito que estará convosco para sempre’; por isso, neste dia Ele esteve com seus fiéis não só pela graça da justificação, mas também pela presença de sua majestade; e não apenas o perfume do bálsamo fluiu agora nos vasos, mas a própria substância do óleo santo.”

Mas, para compreender e explicar isso mais propriamente e sem erro, sempre gostei das alegorias de que se servem os santos padres: da união do sol com o ar, do fogo com o ferro, do vinho com a água, e semelhantes, para, por meio delas, descrever em alguma medida a alta união de Deus com a alma.

Entre elas, São Bernardo, no meio do livro “Como se deve amar a Deus”, diz assim:

“Assim como uma gota de água derramada em muito vinho parece desaparecer completamente, enquanto toma em si o sabor e o calor do vinho; e assim como o ferro em brasa se torna inteiramente semelhante ao fogo e se despoja de sua forma própria e antiga; e assim como o ar penetrado pela luz do sol se transforma nessa mesma luz em claridade, de tal modo que parece não tanto estar iluminado, mas ser ele mesmo luz: assim será necessário que, nos santos, todo desejo humano se funda de si mesmo de modo inefável e se verta completamente na vontade de Deus. Pois, como poderia Deus ser tudo em todos, se no homem ainda restasse algo do homem?”

E no capítulo 25 do Livro do Amor, depois de ter citado precisamente essas alegorias, acrescenta:

“Assim é o espírito do homem, quando está arrebatado pelo amor divino: ele é inteiramente amor. Portanto, quem ama a Deus está morto para si mesmo e, vivendo apenas para Deus, torna-se, de certo modo (por assim dizer), coessencial com o Amado. Pois, assim como a alma de Davi está unida à de Jônatas, ou como aquele que se une a Deus torna-se com Ele um só espírito, assim também não entra em Deus, sem uma união em certo sentido essencial, aquele em quem o desejo inteiro se verteu para Ele…”

Ideias semelhantes encontram-se também em Ruysbroeck, Herp, Tauler e outros. Especialmente em Luís de Blois, quando, no décimo segundo capítulo de suas Instituições Espirituais, diz estas belas palavras:

“Na união mística, a alma amante se dissolve e desaparece de si mesma, e perece como se tivesse sido aniquilada no abismo do amor eterno: aí está morta para si e vive para Deus, sem saber nada, sem sentir nada, senão o amor que saboreia; pois se perde no deserto e na treva imensos da divindade. Mas perder-se assim é, antes, encontrar-se. Aí, o que se despe do humano e se reveste do divino é verdadeiramente transformado em Deus, do mesmo modo que o ferro incandescente não deixa de ser ferro. Por isso, a alma que antes era fria é agora ardente; a que antes era dura é agora maleável; toda ela da cor de Deus, pela infusão da essência de Deus em sua essência; porque está inteiramente abrasada pelo fogo do amor divino e, fundindo-se, inteiramente trasladada para Deus, e unida a Ele sem mediação, e tornada com Ele um só espírito, como o ouro e o bronze se fundem e se unem numa só massa metálica.”