PURA como o ouro mais fino, firme como uma rocha,
límpida como cristal deve ser a tua alma.
QUE outro se mortifique por seu sepulcro
e consagre aos seus vermes o edifício orgulhoso.
Eu não me preocupo com isso: meu túmulo, meu zelo e caixão,
no qual repousarei eternamente, deve ser o coração de Jesus.
FORA, fora, serafins, não podeis vós apagar a minha sede;
fora, fora, santos, e o que em vós resplandece;
de vós nada quero: apenas me lanço
ao mar increado da mera divindade.
SENHOR, não me basta servir-te como anjo
e verdejar diante de ti na perfeição divina:
é demasiado vil para mim e exíguo para o meu espírito:
quem quer servir-te retamente deve ser mais do que divino.
NÃO sei o que sou, não sou o que sei:
uma coisa e não uma coisa; um ponto e um círculo.
SE devo encontrar o meu último fim e o meu primeiro princípio,
devo aprofundar-me em Deus, e a Deus em mim,
e tornar-me o que Ele é: devo ser brilho no brilho,
Verbo no Verbo, (a) Deus em Deus.
(a) Tauler, Instit. Espir. c. 39.
ONDE está a minha morada? Onde tu e eu não estamos.
Onde está o meu último fim, para o qual devo encaminhar-me?
Ali onde não há nenhum. Para onde devo então ir?
Devo marchar ainda (b) além de Deus, em direção a um deserto.
(b) isto é, além do que se conhece em Deus, ou do que se pode pensar d’Ele, segundo a contemplação negativa, sobre a qual cf. os místicos.
SEI que sem mim Deus não pode viver um instante;
*) se eu for aniquilado, Ele deve necessariamente expirar.
*) cf. o prólogo.
QUE Deus seja e viva tão venturoso, sem desejo,
tanto Ele o recebeu de mim quanto eu d’Ele.
SOU tão grande quanto Deus: Ele é tão pequeno quanto eu;
Ele não pode estar acima de mim, nem eu abaixo d’Ele.
DEUS é em mim o fogo, e eu n’Ele o brilho:
não somos intimamente comuns um ao outro?
HOMEM, se lançares o teu espírito para além do tempo e do lugar,
podes estar na eternidade a cada instante.
EU mesmo sou eternidade, quando abandono o tempo
e me recolho em Deus, e a Deus em mim.
SOU tão rico quanto Deus, não pode haver grão de pó
que (crê-me, homem) eu não tenha em comum com Ele.
O que se disse de Deus ainda não me basta:
a Sobre-divindade é a minha vida e a minha luz.
SE Deus não quiser levar-me para além de Deus,
eu o obrigarei com puro amor.
(a) Ver n.º 7.
EU também sou filho de Deus; Ele me tem em suas mãos:
seu espírito, sua carne e seu sangue são conhecidos n’Ele em mim.
DEUS me ama acima de si: se eu o amo acima de mim,
dou-lhe tanto quanto Ele me dá de si.
QUÃO bem-aventurado é o homem que não quer nem sabe!
*) que não dá a Deus (compreende-me bem) nem elogio nem louvor.
$1)
quanto mais procuras agarrá-lo, mais Ele se subtrai a ti.
$1)
*) isto é, entregar corpo e alma ao mais extremo perecimento por amor de Deus: como se ofereceram Moisés e Paulo, e muitos outros santos.
A morte da qual não floresce uma nova vida
é aquela que a minha alma foge entre todas as mortes.
NÃO creio na morte: se morro a cada hora,
encontro a cada vez uma vida melhor.