Francisco García Bazán: JESÚS EL NAZARENO Y LOS PRIMERO CRISTIANOS
Quando surgem nos evangelhos testemunhos sobre a pessoa de Jesus como figura pública, ele é identificado como Jesus de Nazaré. Jesus o Nazareno entendido indicativamente, como o profeta que provém geograficamente de Nazaré da Galileia, às vezes também chamado com o mesmo fim “Galileu”; ou melhor, mais acertadamente, Jesus o Nazareno, porém não como nome estritamente toponímico, senão gentilício, ou seja, não adquirido do nome da localidade de Nazaré — um vilarejo sem maior fama naquele tempo —, senão por ser membro de um grupo davídico particularizado por seu pertencimento a um clã familiar de ascendência religiosa, chegado a ser com o tempo uma confraria (habura) especial de crentes. Nazarenos ou nazoraios se relaciona com Nazará, nome primitivo de Nazaré — em aramaico Nasrat —, lugar fundado por estes davidianos em relação com a profecia de Isaías (4,2; 11,1; 45,6-7), recolhida pelas diversas versões targúmicas, e assim o ratifica a passagem evangélica «E José foi viver em uma cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o oráculo dos profetas: “Será chamado Nazareno”». Por este motivo o advogado Tértulo, acusador de Paulo de Tarso ante o procurador romano, o assinala como “chefe da confraria (hairesis) dos nazarenos (nazoraion)” (Atos 24,1), o que negará, porque sua direção missioneira visa outros fins. Para um testemunho hierosolimitano dos tempos fundacionais dizer “nazarenos” equivalia ao que mais tarde será dizer “cristãos” (khrestianoi — khristianoi), denominação, no entanto, que começará a ter vigência posteriormente em Antioquia. Porque o nome de “nazarenos” se deve pensar que foi a autodenominação que os familiares crentes no messianismo de Jesus e seus discípulos imediatos seguiam adotando espontaneamente para si, embora este com sua conduta e condenações públicas a tivesse posto religiosa e politicamente em crise. Coerentemente, as posteriores gerações de judeo-cristãos conservaram o nome. Os seguidores de Tiago o Justo — cuja dimensão religiosa possui características próprias —, estritamente se conheciam a si mesmos enquanto membros da corrente religiosa renovada por Jesus, como nasraja (nazarenos) termo aramaico que levarão consigo diretamente à Síria os primeiros cristãos orientais de origem judeo-cristã. Um vocábulo individual e coletivo que passado ao grego como o estamos usando será “nazoraios-nazarenos” e passado ao hebraico, “nosri”. Deste modo quando anos antes Pilatos ordenou pôr sobre a cruz de Jesus a inscrição: «Jesus Nazareno, o rei dos judeus» apresentava na tabuleta identificatória do réu, tanto o nome do condenado a ser executado como a culpa da condenação, assinalando como o escreve o médico Lucas que Jesus o Cristo, o Messias, é por antonomásia o Nazareno, como são nazarenos os ascendentes da família davídica de José e os descendentes que dele provêm — a família por parte do pai de Jesus — e que posteriormente vão constituir religiosamente o grupo em crescimento dos nazarenos e cristãos. Deste modo mais tarde o confirmam igualmente a prova das sete facções vigentes em Jerusalém antes que começasse a controvérsia das heresias, entre as que se conta a dos nazarenos e ebionitas, segundo Hipólito e Epifânio. Existiu razoavelmente — atendo-nos aos mesmos critérios de interpretação — um antigo Evangelho dos Hebreus ou Nazarenos que remonta a segunda metade do século I conhecido por Papias, Inácio de Antioquia, Hegesipo, Clemente de Alexandria, Orígenes e Jerônimo, e que segundo este último, «tinham em uso os nazarenos e ebionitas (… e que a maioria chama o autêntico de Mateus)».