Cristo e evangelistas

René Guénon: EL-ARKAN

De fato, do ponto de vista do simbolismo cristão, ambas as formas do gammádion são consideradas representações de Cristo — simbolizado pela cruz — no meio dos quatro Evangelistas, simbolizados pelos ângulos; o conjunto equivale, portanto, à conhecida figuração de Cristo no meio dos quatro animais da visão de Ezequiel e do Apocalipse, que são os símbolos mais comuns dos Evangelistas. A assimilação destes às pedras fundamentais dos quatro ângulos não está, aliás, em contradição com o fato de que, por outro lado, São Pedro seja expressamente designado como a “pedra fundamental” da Igreja; basta ver nisso a expressão de dois pontos de vista diferentes, um referente à doutrina e outro à constituição da Igreja; e, certamente, é incontestável que, no que diz respeito à doutrina cristã, os evangelistas constituem real e verdadeiramente os fundamentos.

Na tradição islâmica, encontra-se também uma figura de disposição análoga, que compreende o nome do Profeta no centro e o dos quatro primeiros califas nos ângulos; também aqui, o Profeta, ao aparecer como rukn el-arkàn, deve ser considerado, da mesma forma que Cristo na figuração anterior, como situado em outro nível que o da base e, consequentemente, corresponde também, na realidade, à “pedra angular” do ápice. Por outro lado, deve-se notar que, a partir dos dois pontos de vista que acabamos de indicar no que diz respeito ao cristianismo, essa figura remete diretamente àquela que considera São Pedro como a “pedra de fundação”, pois é evidente que São Pedro, como já dissemos, é também o jalîfa, ou seja, o “vigário” ou “substituto” de Cristo. Só que, neste caso, considera-se apenas uma única “pedra de fundação”, ou seja, aquela das quatro pedras de base dos ângulos que está colocada em primeiro lugar, sem levar mais longe as correspondências, enquanto o símbolo islâmico em questão inclui essas quatro pedras de base; a razão dessa diferença é que os quatro primeiros califas têm, de fato, um papel especial do ponto de vista da “história sagrada”, enquanto, no cristianismo, os primeiros sucessores de São Pedro não possuem nenhum caráter que possa, de forma comparável, distingui-los claramente de todos os que se seguiram depois. Acrescentaremos ainda que, em correspondência com esses cinco arkàn manifestados no mundo terrestre e humano, a tradição islâmica considera também cinco arkàn celestiais ou angelicais, que são Djibr'îl, Rufa'îl, Mika'îl, Isrâfîl e, por fim, er-Rûh (respectivamente: ‘Gabriel’, ‘Rafael’, ‘Miguel’, ‘Serafim(?)’ e ‘o Espírito’); este último, que, conforme já explicamos em outras ocasiões, é idêntico a Metatrão), situa-se igualmente em um nível superior aos outros quatro, que são como seus reflexos parciais em diversas funções menos principais ou mais particularizadas e, no mundo celestial, ele é propriamente rukn el-arkàn, aquele que ocupa, no limite que separa o Jalq ('a Criação') de el-Haqq ('o Criador'), o próprio “lugar” pelo qual só pode ocorrer a saída do Cosmos.