William Chittick, Caminho Conhecimento
Deus é Luz, como afirma o Alcorão (24:35). Assim como tantos outros pensadores muçulmanos, pelo menos desde a época de al-Ghazali, Ibn Arabi identifica a Luz com o Ser e recorre ao simbolismo da luz visível para explicar a relação entre o Ser e a inexistência. Deus é Luz e nada mais que Luz, enquanto as coisas são tantos raios refletidos da substância da Luz. Em um aspecto, elas são Luz, já que nada mais pode ser encontrado; em outro aspecto, são escuridão, já que não são idênticas à própria Luz. Mas a escuridão não tem realidade positiva própria, já que sua característica definidora é a ausência de Luz. Da mesma forma, a característica definidora de cada coisa existente é sua ausência de Ser. Embora reflita o Ser em um aspecto, ela é inexistente em outro. Ele/não Ele.
O Ser ou a Luz é aquilo que, por sua própria natureza, se encontra a si mesmo, embora não possa ser percebido — isto é, abraçado, abrangido e compreendido — por “outros”. Primeiro, porque não há nada além da Luz que possa realizar a percepção. Há apenas a Luz, que se percebe a si mesma. Segundo, porque se aceitarmos que certas coisas “existem”, ou que há raios de luz brilhando em uma área que podemos chamar de Vazio, essas coisas ou raios só podem perceber a si mesmos ou seus semelhantes, não algo infinitamente maior do que eles próprios, do qual são apenas reflexos tênues. A sombra não pode perceber a luz do sol, e a luz do sol não pode abraçar o sol. Somente o sol conhece o sol. “Ninguém conhece a Deus, a não ser Deus.”