Ao dizer que o
noûs (intelecto) é o substrato último do homem, não se deve esquecer que esta afirmação é problemática na medida em que se desloca em várias direções: linguística, fenomenológica (para baixo do
noûs, no prazer, no desejo, no inconsciente) e fenomenológica (para cima do
noûs, na consciência moral, na reta razão, no
pneuma de Deus).
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Por vezes parece que o
noûs é algo que o homem possui e, portanto, distinto do núcleo mais íntimo, manifestando Filón ter percebido a distância entre o íntimo “eu” e cada uma das “partes” do composto humano.
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Esquemas divergentes aparecem: por um lado, a identificação do “eu” com o
noûs; por outro, a separação onde o “eu” se serve (kechreménon) tanto do
noûs quanto da aisthesis.
A fenomenologia do sujeito acompanha de perto as especulações linguísticas, mostrando que o núcleo pessoal do homem está exposto a todas as flutuações do corpo e do ambiente.
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Tratados como De ebrietate descrevem detalhadamente as paixões, os enganos e as oscilações do sujeito, que é arrastado por mudanças (metabolái) segundo diversos fatores.
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O sujeito pode inspecionar as zonas de seu ser (alma, corpo, sensibilidade, entendimento) porque se distingue de todas elas, podendo inclusive separar-se irremissivelmente de todas.
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O tratado De Cherubim desnuda o sujeito de suas partes psíquicas e somáticas, deixando-o na nada, sendo que a existência de um “eu” sem nenhuma possibilidade de dizer “meu” sobre nada é um tema constante.
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O “eu” do homem não é nenhuma de suas partes, nem a totalidade de seu composto, nem um princípio preexistente a ele, mas o ponto inconhecível que se constitui como desnudo receptor no ato da doação total de si mesmo.
No fundo da decisão, a dualidade reaparece na forma de dois amores (pelo bem ou pelo mal), dualidade de forças que tem sua origem na alma e não no exterior.
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O desejo (epithymía) é uma das quatro paixões, mas tem a particularidade de que, enquanto as outras se precipitam sobre a alma desde o exterior, “só o desejo tem sua origem em nós mesmos e é voluntário” (Dec 142).
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O desejo é ilimitado, omnívoro, “infinito”, e a dualidade se faz presente no núcleo mesmo da vontade, manifestando-se lexicalmente como desejo (epithymía) do sensível e como anelo (póthos) do divino.
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O homem está ou “suspenso do madeiro” (matéria) ou “suspenso de Deus” (Post 26), e aos polos externos (Deus - matéria) correspondem duas disposições internas: fé e desejo (pístis - epithymía).
A decisão humana não pode ser totalmente compreendida sem a afirmação de que o sujeito é incapaz de eleger o bem sem o auxílio divino (graça ou cháris), que é força vigorosa, amor violento, atração envolvente.
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O homem é um peso volitivo, mas não totalmente potente, em meio a extremas forças de atração, e não é possível dilucidar completamente o tema do sujeito unificante sem considerar que este é incapaz de eleger o bem sem o auxílio divino.
A possibilidade de investigar a unidade do homem por cima do
noûs revela termos como logos divino, admoestação ou consciência moral, juiz divino e espírito divino, que parecem ser o centro de gravidade que unifica o homem a partir de um princípio divino presente nele.
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O conceito de lógos é polivalente: é a palavra ou expressão derivada do
noûs (tanto Deus como o homem possuem seu próprio lógos), e o logos divino oscila entre ser ato criador-locutivo, mundo inteligível, alma do cosmos criado, intermediário entre Deus e a criação, e reta razão no interior do homem.
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A relação do homem com o lógos superior expressa-se em formas antinômicas: o logos divino guia o homem; é um regalo divino insuflado como o
pneuma; é a consciência interior que ensina o bem e convence do mal; é a parte racional superior identificada com o
noûs.
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No esquema platônico das três partes da alma (
noûs - thymós - epithymía), o logos aparece repetidamente à cabeça, e pode-se observar uma transição desde o logos em Deus para o logos no homem, onde vem cumprir as funções de juiz, consciência e acusador.
A doutrina do élenchos (admoestador) em Filão revela que a consciência moral assume uma posição central, funcionando como juiz, testemunha ou acusador para a alma, oscilando entre força interior e poder exterior à alma.
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O admoestador acusa o
noûs carnal, mas se identifica com o
noûs-élenchos, de natureza pneumática, e todos os homens recebem este admoestador.
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Existe uma lei divina que é amor do bem e ódio do mal, e neste tribunal universal Deus exerce todas as funções (instrutor, fiscal, juiz, testemunha, acusador, executor de justiça), sendo que somente a causa do homem se lhe submete.
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O juiz (acusador e testemunha) é, por uma parte, um princípio exterior e divino (simbolizado por um anjo ou chamado lógos) e, por outra parte, passa a ser a parte superior e divina do homem (seu
noûs).
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O ingresso da “razão” (lógos) no panorama humano coincide com o saber do bem e do mal, sem o qual não há pecado nem “homem” em sentido próprio.
O verdadeiro homem, segundo Filão, é o que acusa desde o bem, mas o homem concreto e terreno fica frequentemente do lado do mal, existindo um homem perfeito (criado por Deus no centro das virtudes) e um homem totalmente afastado de Deus.
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No homem perfeito, a “consciência” ou o saber subjetivo do bem e do mal se identifica com o saber objetivo-divino (lógos, sofía,
pneuma), e o que busca a Deus se faz Deus ao encontrá-lo.
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No homem afastado de Deus, a “consciência” se distancia, o logos já não está, o
pneuma já não habita a morada, e a separação é sentença e castigo.
2.5. A Recôndita Subjetividade
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Tomando o texto bíblico como um grande sintagma, Filão organiza sucessivos esquemas com as diferenças que compõem os textos, e as flutuações de seu pensamento obedecem a regras: formam pequenas constelações temáticas que se ordenam em ideias mais universais.
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A relação entre o homem e Deus se compreende segundo quatro momentos: a) Deus é a única fonte (distância); b) o homem participa de Deus (união); c) o homem se opõe a Deus (distância); d) o homem e Deus se encontram (união).
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Neste movimento geral, a paradoxo não se resolve, mas permanece viva, e as organizações semânticas setoriais mostram diversos níveis da união e da separação entre Deus e o homem.
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As antinomias dos temas setoriais (sabedoria, espírito divino, palavra divina, consciência moral, intelecto) são atraídas por uma mesma orientação do sentido, que oscila entre “somente de Deus” e “habita no homem” / “se distancia” e “se une”.
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O jogo antinômico entre diferença e identidade que atravessa todos os temas antropológicos deve ser compreendido como analítica do caminho real do homem para Deus.
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A vigência da antinomia tem dois níveis principais: a) ontologicamente, sempre será verdade que ambas as formulações (“o homem é como Deus” / “o homem não é como Deus”) se enfrentam, intervindo a vontade do homem para inclinar a balança; b) eticamente, a história de cada homem é o peregrinar através dos momentos antitéticos (nada diante de Deus, recebe a congeneidade como regalo, experimenta a nada que é na culpa, ascende por graça à visão santificante de Deus).
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O homem não é nem sua parte superior nem sua parte inferior, mas um sujeito absolutamente desnudo que emerge como receptor do regalo de tudo o que ele é, sendo um ser chamado a eleger o inteligível.
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O homem filoniano não se define por sua inteligência, mas por sua capacidade de amar o inteligível, amando a Deus com o amor que vem de Deus.
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O homem emerge como o polo oposto ao Criador: Deus é o único que pôde ordenar todas as coisas; entre as coisas, o homem é o único que pode desordená-las.
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Quando o homem se afasta de Deus na eleição do mal, se consolida como sujeito distinto de Deus, mas se descobre a si mesmo como nada; quando se aproxima de Deus pelo caminho do bem, se consolida a si mesmo como divino, mas se dilui a individualidade de seu “eu”.
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O composto humano, ser do limite, criatura fronteiriça, constitui sua unidade precisamente no ponto móvel e flutuante marcado pelo cruzamento de fronteiras: entre o intelecto e a vontade, entre o sujeito e suas faculdades, entre o bem e o mal, entre o infinito e o finito.
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O centro que outorga unidade à antropologia filoniana é a recôndita subjetividade como ponto receptor de tudo o que tem, e, como absoluto receptor, é o correlato de Deus, absoluto doador.