A experiência religiosa de Filon se fundamenta em uma crítica radical ao dogmatismo das filosofias gregas que confiavam exclusivamente nas faculdades humanas, utilizando argumentos céticos para demonstrar a fraqueza do homem e conduzi-lo à fé em Deus como única certeza.
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Filon considera como uma forma de dogmatismo ateu a crença generalizada entre os sofistas e filósofos de que a inteligência humana é a medida de todas as coisas, uma referência implícita ao pensamento de Protágoras, e de que a sensação e a inteligência são critérios infalíveis de verdade, numa alusão à epistemologia epicurista.
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A esses pensadores, Filon atribui a convicção impiedosa de que as artes, as leis, as instituições sociais e a própria justiça são criações exclusivas da inteligência humana, prescindindo completamente da ação divina no mundo.
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Para demolir essa autossuficiência humana, Filon recorre aos argumentos do ceticismo grego, notadamente aos tropos de Enesidemo, que demonstram a impossibilidade de se estabelecer um critério estável de verdade devido à variação e instabilidade das representações sensíveis produzidas pelos mesmos objetos.
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Um longo trecho do tratado “Sobre a Embriaguez” (parágrafos 171 a 206) é identificado como uma reelaboração direta dos tropos céticos, onde Filon mostra que os mesmos fenômenos produzem impressões diferentes conforme as condições físicas, psicológicas ou ambientais, tornando impossível qualquer assentimento definitivo.
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Além dos tropos, Filon utiliza em outras passagens a divergência irredutível de opiniões entre os filósofos sobre questões fundamentais, como a natureza do céu e a substância da alma, servindo-se de fontes doxográficas para compilar essas teses contraditórias com um propósito claramente cético.
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Essa argumentação cética, no entanto, não visa estabelecer a impossibilidade do conhecimento em geral, mas sim limitar a pretensão humana de conhecer o mundo sensível e demonstrar a incapacidade do homem composto de corpo e alma de atingir, por seus próprios meios, a verdade sobre o ser.
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A conclusão fundamental que Filon extrai desse exercício cético é o sentimento do nada do homem e da instabilidade de todas as coisas do devir, um sentimento que não é meramente teórico, mas cultivado como uma meditação ascética sobre a impotência dos sentidos, da razão e da linguagem diante da realidade divina.
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Nesse contexto, a fé (pistis) em Deus não é uma crença ingênua ou uma opinião provável, mas a certeza inabalável de que Deus é a causa única de todas as coisas e de que Ele permanece imutável enquanto todo o resto está em perpétuo fluxo.
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Filon identifica a fé com a “compreensão estável” (katalepsis) da teoria estoica do conhecimento, ou seja, a apreensão de um objeto que é clara e distinta a ponto de não poder ser abalada por nenhum argumento contrário, mas transfere esse conceito do conhecimento do mundo físico para a relação religiosa com Deus.
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Em uma série de paradoxos de inspiração estoica, Filon afirma que a fé verdadeira pertence apenas a Deus, que é o único fiel (pistos) porque somente Ele pode compreender-se a si mesmo, e também ao sábio, que por sua perfeição se torna amigo de Deus e participa dessa estabilidade divina.
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Contudo, a análise mais profunda de Filon revela que a fé perfeita e sem dúvidas é impossível ao homem comum, pois a própria inteligência ligada ao corpo é instável e falível, e o próprio Abraão, o modelo de fé, experimenta momentos de dúvida que são descritos como mudanças rápidas e quase imperceptíveis na sua mente.
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A fé verdadeira, portanto, não pode ser uma disposição permanente da natureza humana, mas exige uma verdadeira metamorfose, uma saída de si mesmo (extase) e uma transformação da inteligência humana em inteligência pura, que já não é mais humana, mas divina, capaz de habitar o mundo inteligível e ali contemplar a Deus.