ALMA – CORPO

JOSÉ PABLO MARTÍN — FÍLON DE ALEXANDRIA E A GÊNESE DA CULTURA OCIDENTAL

As esferas anímica e corporal subdividem-se, por sua vez, em partes e faculdades. “As partes da alma e as partes do corpo…” (Sacr 73) com as quais o homem nasce reproduzem, nas diversas esferas, as complexas tensões superiores. A subdivisão principal de “nossa alma” articula-se “em duas partes: a racional e a irracional” (Congr 26); enquanto que na esfera inferior distinguem-se “a sensibilidade e o corpo” (Migr 197; Somn I 33). O noûs, intelecto, é a parte superior da superior (“alma da alma”, Opif 66; Her 55), separando-se da alma meramente sensitiva 1) Por sua vez, dentro do corpo há uma capacidade luminosa que emerge da opacidade da matéria: aisthesis ou sensibilidade.

Cada uma das esferas do corpo e da alma é presidida, portanto, por uma entidade superior, chamada intelecto e sensibilidade, outra das grandes bipolaridades da linguagem filoniana e helenística. Em geral, intelecto e alma podem ser trocados ou invertidos com grande liberdade, recebendo o sentido do contexto. O mesmo se aplica à corporeidade e à sensibilidade; às vezes hierarquizadas, às vezes equiparadas, às vezes confundidas. Encontra-se o par “intelecto — corpo”, assim como “alma — sensibilidade”. Observa-se até mesmo o entrecruzamento dos dois pares de termos, em Conf 105. São variantes estilísticas que devem ser interpretadas de acordo com o contexto e sem nunca destruir a relação fundamental:

A alma também é considerada, de acordo com a tripartição platônica, lugar comum no helenismo, como intelectiva (na cabeça), irascível (no peito) e apetitiva (no ventre e no sexo). Tríplice divisão que se subordina à anterior, na medida em que as duas últimas pertencem à alma irracional, embora a subordinação nem sempre seja clara (cf. Leg III 115). A intelectiva, de qualquer forma, é sempre identificada com o noûs, ou hegemonikon.

O corpo é considerado de acordo com vários esquemas. A sensibilidade se manifesta em cinco sentidos, a corporeidade é composição de quatro elementos 2) Às vezes, a composição corporal é significada pelo número sete: cinco sentidos mais os órgãos da expressão vocal e da geração. Se a este sete se acrescentar a presidência do intelecto, obtém-se a antropologia das oito partes, já divulgada pelos estoicos. Quando algum interesse exegético se impõe, Fílon abrevia o esquema para que o intelecto seja o número sete, como acontece em Abr 30 e em Her 225. Em toda descrição do corpo, o número das partes tem grande importância, dado que é o nexo para unir as especulações aritmológicas do helenismo com a exegese bíblica. Fílon adota e harmoniza material antropológico muito diverso, submetendo-o a combinações que resultam em esquemas binários, ternários, quaternários ou mais complexos, com movimento permanente de seus termos. A construção perfeita de um sistema não interessa a Fílon, assim como não lhe interessa a coordenação das diversas fontes que recebeu. A discussão de sua época sobre se o cérebro ou o coração é a sede do noûs não lhe interessa por si mesma, podendo-se aceitar um ou outro esquema. O mesmo se pode dizer das ideias contemporâneas que atribuíam à alma uma quinta substância, o éter. O que lhe interessa é outra coisa: a descrição do homem como círculos hierárquicos, nos quais governa um princípio superior. Cada círculo reflete a perfeição dos superiores e acolhe a organização dos inferiores. O homem é, portanto, um microcosmo, onde o sol ou o “deus” é o intelecto. Essa imagem tão difundida no helenismo é incorporada a um novo horizonte: o intelecto que governa o composto humano é também, nisso, imagem do Deus bíblico que cria pela palavra ou Logos.

Os níveis antropológicos que permitem a Fílon a análise do 3), cada um com um nível superior e uma relação estreita com todos os outros, poderiam ser esquematicamente representados assim:

Este esquema ainda não é a imagem do homem perfeito, mas sim a topografia conceitual por onde se movem as ideias de Fílon.

1)
Ver Her 185, Ebr 101, etc., e Starobinski-Safran, Oeuvres N. 17, 241 n. 2.
2)
Sobre os cinco sentidos, entre muitos outros, ver as passagens: Opif 62, Leg II 7-8, Cher 57, Plant 28-9, Agr 30, Migr 188; a figura dos sentidos é ambígua, pois por eles devemos agradecer como dons de Deus, Congr 96, mas devem ser abandonados na ascensão para o mais perfeito, por exemplo Fug 91, 182, etc. Mais sobre a gravitação ambivalente dos sentidos, em Fug 190 e Mos II 81.
3)
microcosmo