Bíblia Aberta II. EISENBERG, Josy; ABÉCASSIS, Armand. Et Dieu créa Ève. Paris: A. Michel, 1979.
O jardim do Éden segundo o Gênesis
A entrada no tempo e no espaço psicológicos
O Adão descrito no primeiro capítulo da Gênesis é uma abstração atemporal, não o homem cotidiano.
No segundo capítulo, o homem entra no tempo psicológico e no espaço, aproximando-se da realidade.
Quatro rios para um jardim
A natureza do jardim do Éden é questionada: se um lugar real ou um espaço fora de qualquer espaço.
Duas teses exegéticas tradicionais se enfrentam: a literal e a simbólica.
A primeira tese leva a sério os detalhes geográficos bíblicos, considerando Adão e Eva já situados na geografia.
Os quatro rios que regam o jardim não são considerados imaginários por essa corrente.
O texto deve ser compreendido literalmente, como a linguagem da realidade e do enraizamento original da humanidade.
O jardim do Éden é plantado com árvores frutíferas de todas as espécies.
A primeira forma de vida econômica no Oriente Médio foi o sedentarismo, conforme o texto bíblico.
O nomadismo seria um acidente posterior, consequência de uma transgressão e uma situação anormal.
Essa leitura literal é chamada de Peshat pelos mestres da tradição.
A localização do jardim seria no Oriente Médio, bastando subir o curso dos rios que dele saem.
Dois rios são perfeitamente conhecidos: o Tigre (Hidéquel) e o Eufrates (Perat).
O Pisom e o Giom são mais difíceis de identificar, sendo o primeiro associado ao Ganges (Índia) e o segundo ao
Nilo.
Outros exegetas consideram os quatro rios como o Tigre, o Eufrates e dois de seus afluentes.
Os dados geográficos situam o jardim no Crescente Fértil, berço da humanidade na
Bíblia.
A leste, novidade em termos de antropologia
Para a
Bíblia, a origem do homem se dá no Oriente, uma questão já resolvida.
A verdadeira essência do homem, na antropologia bíblica, é sua fé ou capacidade de conhecer o absoluto.
O homem nasce onde o monoteísmo apareceu, pois ele confere dignidade à história.
A
Bíblia se limita à história de Israel e seus vizinhos por se interessar apenas pelas peripécias da história da fé.
O dilúvio é descrito como se tivesse devastado o mundo inteiro, mas evidências arqueológicas o limitam à Mesopotâmia, mostrando que para a
Bíblia o mundo é o Oriente.
Duas leituras se entrelaçam na Torá: uma histórica e outra simbólica.
A civilização nasceu no Oriente Médio e depois se transportou para além dos oceanos.
Atrás da explicação histórica está o tema simbólico do Oriente, onde o sol nasce.
Os templos eram orientados para o leste, de onde vem a luz, e quem está perdido é chamado de desorientado.
As orações são voltadas para o leste, e as sinagogas são orientadas para Jerusalém.
Uma terceira leitura, chamada de Remez (alusiva), relaciona-se ao povo de Israel em sua terra.
O primeiro homem, Adão, representa o povo de Israel moldado por Deus e instalado na terra prometida.
A falta do primeiro homem o exilou do jardim do Éden, assim como as faltas de Israel o exilaram da terra prometida.
Um Deus jardineiro?
Existe uma leitura que crê na existência de um lugar real, situado entre o
Nilo e o Eufrates.
O criador se transforma em jardineiro para dar à humanidade a ordem de civilizar o mundo.
Está escrito: “Vocês seguirão YHVH Elohim” (Deuteronômio, XIII, 5).
Um midrash afirma que, assim como Deus se dedicou ao plantio de árvores, os homens, ao entrarem na terra de Israel, devem se dedicar apenas ao plantio de árvores.
Deus criou o mundo em estado bruto, cabendo ao homem terminar a criação: a Deus o “criar”, ao homem o “fazer”.
A gênese de toda obra civilizadora começar pelo plantio de árvores não é algo insignificante na
Bíblia.
A vida sedentária é considerada, no Pentateuco, como uma vida paradisíaca.
O nômade, o exilado e o amaldiçoado são associados nos textos bíblicos, sendo o exílio consequência de uma falta.
O povo de Israel em exílio está em situação de expiação provisória, devendo retornar ao Paraíso (Terra prometida).
A Torá julga positivamente a vida sedentária desde seus primeiros capítulos.
A árvore tem raízes, e o homem também precisa delas para ter identidade étnica, de fé, memória ou território.
Um mandamento bíblico compara explicitamente o homem à árvore, proibindo soldados de destruir árvores em um cerco.
O versículo “pois o homem é como a árvore do campo” (Deuteronômio, XX, 19) explicita essa comparação.
O homem planta
Os comentaristas clássicos desenvolveram a parábola da árvore: o homem é vertical e frutífero como ela.
O plantio do jardim do Éden revela uma extrema valorização do enraizamento e da sedentarização no pensamento bíblico.
O primeiro réprovo, Caim, torna-se nômade por ter cessado de ser enraizado, sendo seu castigo a instabilidade e o exílio.
Na
Bíblia, o exílio é o sinal da falta e da maldição, opondo-se a Adão, o implantado.
A vida sedentária é importante porque traz segurança ao ser humano, ao contrário da vida nômade.
No jardim do Éden, o homem vive tranquilo, sem medo do amanhã e com suas necessidades satisfeitas.
A segurança econômica é condição necessária para que o homem se dedique exclusivamente à resolução de seu problema moral.
Sem segurança, não há liberdade moral real nem total.
Os rabinos propõem uma segunda leitura, distinguindo o jardim (Gan) do Éden (Eden).
O termo Gan (jardim) deriva de um verbo que significa proteger, enquanto Eden significa gozo,
bem-aventurança e alegria.
Colocar o homem no Gan Eden descreveria não sua situação geográfica, mas seu contexto psicológico.
Deus dá primeiro a segurança (Gan) para que o homem possa então gozar (Eden).
A dupla condição da moral corresponde à dupla polaridade dos mandamentos divinos: positivos e negativos.
Os mandamentos negativos (Lo Ta’asse) visam a proteção do homem, oferecendo segurança.
A lei positiva lembra que a felicidade é também uma experiência de um plus de ser e de florescimento.
Segurança e felicidade são dadas desde o começo, no jardim do Éden.
O jardim do Éden pode ser um lugar situado no Oriente ou as chaves das condições primeiras de toda vida: enraizar-se em Deus para encontrar a alegria.
As duas leituras, longe de se excluírem, se complementam harmoniosamente.
Pela primeira hipótese levantada, o homem não está no Paraíso; é o Paraíso que está no homem.
Essa nova questão perguntaria por que esse Paraíso foi perdido e até quando.