Bíblia Aberta II. EISENBERG, Josy; ABÉCASSIS, Armand. Et Dieu créa Ève. Paris: A. Michel, 1979.
YHVH Elohim tomou o homem e o colocou
no jardim do Éden para
cultivá-lo e guardá-lo.
YHVH Elohim ordenou a Adão, dizendo:
«De toda árvore do jardim, comerás.
Mas da árvore
do conhecimento do Bem e do Mal,
não comerás,
pois no dia em que dela comeres,
morrerás.”
Gênesis, II, 15-17.
E eu te desposarei comigo pela fé,
e tu conhecerás a Deus.
Oséias, II, 22.
Criei a inclinação para o mal, criei a Torá como antídoto.
Talmud, tratado Kiddushin, 30b.
O fruto proibido e a contradição aparente
Do saber à experiência (Da’at)
Podem-se ter dois tipos de relação com o mundo: a relação do saber (abstrato, racional) e a relação da experiência sensível e interior (identificação com o que se sabe).
No plano moral, tem-se a ideia do que deve ou não ser feito, mesmo sem experiência concreta, como a criança que sabe não tocar a chama sem saber o que é uma queimadura.
O conhecimento sensível e interior expressa a identificação com o saber, sendo que saber sem se identificar é diferente de saber se identificando.
O primeiro nível de conhecimento (conceitual) é o modo de conhecimento dos professores universitários ou dos
anjos, consciências fechadas em sua torre de marfim.
Os
anjos sabem intelectualmente o que é o mal, mas, incapazes de experimentá-lo, têm um conhecimento abstrato e existencialmente exterior.
Adão possuía perfeitamente esse conhecimento da natureza das coisas sem se sentir implicado, como prova o episódio em que Deus o leva para nomear os animais.
Nomear, na
Bíblia, é conhecer e ter a intuição profunda da intimidade do outro, e Adão é capaz de nomear.
No nível do saber, dizer o que é o bem ou o mal é necessariamente distingui-los, separá-los e opô-los, decompondo e dividindo.
O hebraico usa a palavra “Da’at” para essa outra forma de conhecimento, empregada na Torá para expressar a união sexual.
A “conhecimento bíblico” designa a relação carnal, e essa observação é fundamental: a árvore é da “conhecimento” (Da’at), ou seja, o modo de acesso a um saber que se assemelha ao amor.
Quem diz amor diz fusão, e nessa árvore o bem e o mal estão confundidos, com a fusão implicando também confusão.
Adão tem uma conhecimento teórica dos valores quando claramente distintos, mas no nível do vivido as coisas são complexas, com o bem e o mal em estado de mistura.
Do conhecimento à distinção
No nível do intelecto e da razão, o bem e o mal são separados porque essa consciência é analítica e visa a simplicidade sob a complexidade.
O saber chega a um mundo simplista onde o verdadeiro não é o falso e vice-versa, com a lógica da contradição.
Na realidade visada pela conhecimento (Da’at), o mundo nunca é simples; tudo está misturado e unificado de maneira que a totalidade prevalece sobre as partes.
No jardim do Éden, tudo é claramente separado, e na primeira hipótese de vida o homem não é confrontado com a realidade do mal.
A árvore da conhecimento designa o mundo fora do jardim, onde o mal e o bem estão misturados, sendo esse o caráter dominante da aventura humana segundo a mística judaica.
A árvore da vida, diferentemente da árvore da conhecimento, não está sob interdição; pode-se comer de seu fruto.
Enquanto Adão não está imerso no mundo da confusão e da mistura, sua vida não é limitada e ele poderia viver eternamente.
Apenas depois de comer da árvore da conhecimento é que Adão não poderá mais comer da árvore da vida.
A árvore da vida espiritual e da vida autêntica é permitida e até aconselhada, sendo a vida à qual se aspira: a da unidade que supera as dualidades e contradições.
As duas árvores representam, para os místicos, duas vias ou duas formas de vida: a do jardim (sem esforço de separação) e a do mundo da confusão (condição propriamente terrestre).
A interpretação cabalística da árvore da conhecimento (o mundo da mistura) explica o fundamento da teologia bíblica e a centralidade da Lei (Torá) no judaísmo.
A Lei tem a função de permitir distinguir o bem do mal, e os cabalistas dizem que o homem está na terra para “fazer a triagem”.
A primeira dada é que é preciso uma lei para fazer a triagem dos valores; a segunda é que o mundo está sob o signo da complexidade e da confusão.
O maniqueísmo não é possível para um judeu, pois não há bem sem mal nem mal sem bem, e o justo (tsadic) não é quem só faz o bem, mas quem faz mais bem do que mal.
A Lei (Torá) é uma dada independente do homem, transcendente, que lhe permite orientar-se e escolher os mistérios menos explosivos do bem e do mal.
O primeiro dever do homem é não se arrogar o direito de decidir o que é bem e mal arbitrariamente, o que seria a introdução do arbítrio e a raiz da relação de força.
Sem a Lei, o homem disporia apenas de critérios puramente subjetivos para “triar” o bem do mal; a Lei estabelece um sistema de referências e valores.
Existem três níveis de realidade: a criação organizada (Gênesis I), o homem em luta com a função da triagem no plano concreto e do saber (Gênesis II), e o nível da árvore da vida verdadeira (Tikoun, a restauração da ordem).