Comentário de Hipólito perdeu-se e só foi recuperado em versões georgiana e eslava.
Orígenes consolida-se como fonte para todos os comentadores posteriores.
Sua interpretação condensa dados dispersos da tradição anterior numa síntese original.
Expõe teologia espiritual completa: Igreja, Cristo, alma e Logos: no diálogo do Cântico.
Personagens do poema representam categorias de fiéis em diferentes graus de conhecimento (gnose).
Aproveita recursos da filosofia grega do amor e da alegoria alexandrina aplicada aos múltiplos sentidos da Escritura.
Edifica doutrina rica e exuberante que se tornará clássica na tradição da Igreja.
Pressupostos Doutrinários para a Compreensão das Homilias
Doutrina dos sentidos espirituais é central para apreender os mistérios do Cântico.
Compreensão requer preâmbulo sobre a dupla concepção do mundo e do homem.
Os Dois Mundos e a Escritura
Cristianismo é essencialmente anagógico, orientado para o éon futuro onde Cristo reina.
Orígenes, profundamente cristão, distancia-se dos filósofos gregos com os quais é comparado.
Adota dualidade entre mundo visível (imagem) e invisível, mas com ênfase distinta.
Concede valor teológico superior às realidades deste mundo tocadas pela Escritura.
A BÍBLIA é a fonte única de explicação, revelando uma harmonia profunda instituída pelo Autor divino.
Objetos e narrativas do Antigo Testamento(pastor, cordeiro, templo, etc.) são profecias que apontam para arquétipos misteriosos.
Apenas o homem espiritual pode perceber as realidades transcendentes comunicadas pela Palavra divina.
Os Dois Homens
Interpretação do duplo relato da criação em Gênesis (Gn 1-2).
Filão de Alexandria já explicava em chave platônica: homem celeste(imaterial) e homem terrestre.
Orígenes reinterpreta, interiorizando os dois homens à luz da antropologia paulina.
Cita II Coríntios 4:16 e Romanos 7:22 para distinguir homem exterior(que se corrompe) e homem interior(que se renova).
Estabelece estruturas duplas para a existência: vida carnal versus vida espiritual.
Postula duplas faculdades: duas inteligências (psyche e noûs), dois amores (eros e agape).
Estende o princípio a sentidos, alimento e cântico: carnal versus espiritual.
Toda a gama de operações humanas sofre esse desdobramento, espelhando a teologia do visível e do invisível.
Sentidos Corpóreos e Sentidos Espirituais
Doutrina dos sentidos espirituais é esboçada por Orígenes, embora sem sistematização rígida.
Sensações materiais são sombras de uma apreensão superior de objetos transcendentes (mistérios, Cristo, Pessoas divinas).
Linguagem bíblica sensorial (gosto, odor, abraço, beijo) adquire intensidade máxima, podendo levar à embriaguez da alma.
Orígenes remete a Provérbios 2:5, atribuindo a Salomão o conhecimento de dois tipos de sentido: mortal/corruptível e imortal/espiritual/divino.
Enumera espécies do sentido divino: vista para o supra corpóreo, audição para vozes não aéreas, paladar para o pão vivo, olfato para o bom odor de Cristo, tato como o de João que apalpou o Verbo da vida.
Base psicológica encontra-se na distinção neoplatônica entre psyche(alma) e noûs(espírito/inteligência).
Noûs é o domínio da vida contemplativa (theória), do lógos e da gnose.
Psykhé é o domínio da vida ativa (práxis) e da luta moral.
A alma (psyche), por meio do noûs(imagem do Verbo nela), deve tornar-se Esposa do Logos:.
Paralelo entre trajetória da Igreja (purificação histórica para as núpcias com Cristo) e da alma (purificação ascética para as núpcias com o Verbo).
Percepção plena dos sentidos espirituais só se manifesta no perfeito(teleios).
Antes da perfeição, revelam-se progressivamente, conduzindo a alma à contemplação.
Sentidos espirituais são faculdades superiores do noûs, que permitem apreender realidades do espírito.
Doutrina torna-se chave da mística origeniana, desenvolvida por discípulos como Evágrio e Pseudo-Macário.
Experiência das Coisas Divinas
Orígenes é pioneiro ao expor a doutrina dos sentidos espirituais, ligando-a a um conhecimento experimental das coisas divinas.
A alma é cativada pelos perfumes do Verbo e atraída a Ele.
Quando o Verbo ocupa todos os sentidos espirituais, a alma rejeita todo objeto caduco.
Exorta-se à mortificação dos sentidos carnais e ao despertar dos sentidos divinos do homem interior.
Centralidade do conceito de homem interior e do processo de interiorização.
A união ao Lógos realiza-se no interior mais profundo da alma.
Teologia da imagem: o homem é renovado à imagem de Cristo, que é a imagem de Deus.
Conformidade crescente com o Verbo permite a união e o deleite espiritual.
Doutrina dos sentidos espirituais opera uma interiorização do cosmos: transpõe objetos sensíveis para o domínio espiritual.
Objetos espirituais, por sua vez, pertencem à ordem do noûs.
Eco do médio platonismo: a fonte do bem está no interior, a ser descoberta por escavação contínua.
A sensibilidade espiritual da própria Escritura guia esta busca interior.
Orígenes incentiva a ter poço e fonte próprios para extrair inteligência das Escrituras do próprio fundo.
Aplica princípio ao cosmos: tudo o que há no mundo está também dentro de si.
Elementos materiais do Cântico pertencem simultaneamente aos mundos corpóreo e espiritual.
São apreendidos pelo homem espiritual via sentidos espirituais, povoando a inteligência do gnóstico em sua jornada para as regiões interiores da alma.