===== ESPÍRITOS ===== //FAIVRE, A. Eckartshausen et la théosophie chrétienne. Paris: C. Klincksieck, 1969.// * Diante da necessidade de apresentar cronologicamente fatos que se situam fora do tempo, em uma metahistória, impõe-se o questionamento sobre a natureza dos espíritos descritos por Eckartshausen. * A criação dessas entidades consistiu em uma emanação de energias e de seres racionais, semelhantes a Deus e ao mesmo tempo distintos Dele, os quais devem apenas a Ele suas vidas e felicidades. * Cada um dos espíritos foi criado para ser o porta-voz da divindade, pronunciando incessantemente as palavras Amor, Verdade, Sabedoria, Bondade, Justiça e Harmonia. * Todos os anjos são definidos como virtutes coelestes ou potentiae coelestes. * O recebimento de ideias por parte dessas entidades ocorre por intermédio de objetos não submetidos a mudanças. * Esse processo se realiza não pela mediação dos sentidos que percebem um fenômeno, mas por meio do espírito que percebe verdades. * O anjo permite a entrada em si daquilo que é durável, repelindo o que é sujeito a alterações. * Os anjos possuem uma visão simultânea das coisas que os seres humanos só conseguem visualizar de forma sucessiva, de modo que o homem pode ver o que está no mundo dos espíritos, mas o anjo vê o que está na luz e no espírito de Dios. * As ideias de todas as perfeições possíveis estavam destinadas, desde a origem, a se realizarem nos anjos, para os quais a atividade própria, a vontade, a inteligência e a memória constituíam uma única e mesma faculdade. * A compreensão desse panorama revela como o pensamento eterno preenche cada espírito com uma deliciosa felicidade que um dia pertencerá aos bem-aventurados, da qual somente um espírito pode fruir no espírito, sem poder expressá-la por palavras sensíveis. * Houve um tempo em que existia apenas luz, a noite não se seguia ao dia e a luz não gerava um fogo devorador. * A possibilidade do fogo e da noite existia naquele momento, embora não estivesse realizada. * Luz e fogo formavam uma mesma coisa, sendo as inteligências os receptáculos da luz e os tipos da imagem luminosa manifestada. * A tarefa desses seres consistia puramente em deixar agir em si mesmos a divindade, que é a fonte da luz. * Lúcifer, receptáculo de todas as energias espirituais e portador da luz da imagem luminosa divina, era o próprio centro da bondade de Deus e o espelho sobre o qual se depositava plenamente a impressão de Sua luz para agir novamente sobre os outros seres. * Deus movia suavemente Sua luz no seio desse universo luminoso, pois Sua bondade e Seu amor suavizavam o fogo devorador de Sua essência. * O que Lúcifer recebia da fonte de luz era puro e devia ser comunicado por ele, consecutivamente, aos demais espíritos. * A finalidade de Lúcifer era postar-se no centro da unidade para servir de meio — ou seja, para impedir que a luz se transformasse em fogo e queimasse a criatura. * Questiona-se qual ser, mesmo angélico, seria puro diante de Deus, ou quem seria capaz de contemplá-Lo se Sua bondade não abrandasse o fogo devorador. * O princípio original divino, considerado como energia primeira, age somente segundo uma ordem eterna e imutável. * As outras energias podem agir de acordo com a ordem ou contra ela, sendo classificadas como boas ou más, embora as primeiras sejam consideravelmente mais poderosas do que as segundas. * Essas energias constituem os espíritos que obedecem às leis eternas da natureza, leis estas que também podem ser conhecidas pelo sábio, permitindo-lhe entrar em relações com espíritos que obedecerão aos seus comandos, sendo essa a perspectiva com a qual se deve considerar a magia, com a dignidade que lhe é de direito. * A percepção direta que se pode ter desses espíritos talvez seja unicamente uma questão de perspectiva, conjecturando-se, ao citar Asmus, que um dia será encontrada a lente que permitirá olhar diretamente para o reino dessas entidades. * Nos Esclarecimentos sobre a Magia, aceita-se guiar o leitor com a condição de que este tente penetrar com um coração sincero no mundo dos espíritos, visto que o comércio dos homens com seres superiores integra a alta ciência. * Esses seres e energias espalhados fora do homem não se manifestam senão por suas ações, de acordo com a receptividade humana. * Os espíritos cercam a humanidade e, da mesma forma que os elementos sustentam o corpo, eles sustentam as forças espirituais da alma e se assimilam ao ser humano, sempre prontos a conceder suas influências benéficas. * Apenas o zelo pelo reino da verdade torna o homem capaz de conhecer as possibilidades desses espíritos. * Deus enviou aos homens, em todos os tempos, tais agentes celestes, que se mostram sempre prontos a servir ao ser humano por participarem de modo muito terno do seu destino. * Graças a esses agentes, o homem pode rejuvenescer e participar da vida do infinito. * A contemplação dos anjos é possível desde este mundo terrestre, fato sobre o qual a escritura fornece as provas mais formais. * Para alcançar tal estágio, faz-se necessário purificar-se e caminhar com sinceridade nos caminhos do senhor. * A existência de maus espíritos, depositários de grandes segredos nas coisas naturais, é incontestável, sendo esses anjos das trevas, outrora espíritos de luz, capazes de comunicar tais segredos ao homem para desviar sua alma de Deus. * Os demônios encontram-se acorrentados por Deus e entregues à sua própria força, razão pela qual não podem prejudicar ninguém diretamente. * Os demônios possuem a capacidade de ganhar a alma do homem e agir por meio da vontade que lhe serve de instrumento. * O diabo se distingue do homem mau simplesmente pelo fato de possuir mais conhecimentos. * A distinção real entre os espíritos reside no amor ou no não amor, sendo os anjos definidos como os conhecimentos ligados ao amor, e Satã como os conhecimentos sem amor. * Na obra O fundo de Kosti, o próprio demônio explica que olha com inveja para o homem, a quem define como uma coisa intermediária — um ser entre o bem e o mal —, e que seus esforços, bem como o trabalho de seus espíritos, consistem em estender cada vez mais a potência de seu reino no mundo dos sentidos. * O demônio acrescenta que essa potência é fraca e que não lhe é permitido empregar a violência, mas somente a tentação, utilizando-se da inteligência e do coração do homem. * O objetivo dos demônios é habituar gradualmente os homens ao múltiplo, de modo que eles se tornem incapazes de compreender o simples. * O princípio demoníaco baseia-se em multiplicar tudo o mais possível, pois onde habita a unidade, a potência de Satan cessa de existir, o que explica o grande número de nações, o orgulho nacional gerador de ódio e a moda. * Dessa multiplicação decorre que um homem mate seu irmão por um chapéu pontudo e outro por um chapéu redondo. * Desse mesmo princípio provêm as classes sociais, destinadas a envenenar o coração dos homens por meio do orgulho. * Cada homem dispõe de um bom gênio para protegê-lo. * A angeologia de Eckartshausen, longe de ser abstrata, não se limita à crença nessas energias que beneficiam a alma com suas influências, analogamente aos elementos que agem positivamente sobre o corpo humano. * Cada indivíduo pode se aproximar de seu bom gênio para receber dele potência e socorro. * Esse anjo da guarda auxilia o homem a se unir a outras energias e o protege contra o mal. * O homem auxilia o anjo da guarda na medida em que se assimila ao reino no qual o espírito vive. * Se por meio do pensamento, da vontade e da ação o homem se homogeneíza e se unifica a esse espírito de tal maneira que este se realize perfeitamente nele, torna-se possível inclusive contemplar por meio dos sentidos esse espírito angélico. * É nisso que consiste o comércio com os seres superiores e a teoria das verdadeiras manifestações de potências. * O órgão pelo qual agem essas potências espirituais é a semelhança entre o espírito-vontade do homem e as propriedades desse espírito-vontade. * A forma na qual essas potências agem é o espírito do homem e o seu coração. * Evocar espíritos significa, portanto, pronunciar suas propriedades em espírito e em verdade, em pensamento, vontade e ação, unindo-se a eles para não mais formar com eles senão uma única energia e uma única potência. * A queda de determinados anjos é explicada pelo fato de que o reino angélico estava destinado a formar com Deus uma só unidade, comportando-se sempre de maneira passiva em relação à ação divina. * A progressão dos números divinos a partir da unidade continha em si mesma a possibilidade de uma negação. * O binário originário podia se multiplicar a si mesmo como 2 x 2 ou permanecer tal como havia sido querido pelo criador, ou seja, 1—1. * Os espíritos eram livres para escolher, sendo a liberdade, ou Selbstthätigkeit, o princípio sem o qual nenhum ser espiritual poderia existir. * O passagem de 1—1 para 2 x 2, decorrente de um ato livre e deliberado, constitui o distanciamento ontológico que dá origem ao mal. * A liberdade do primeiro princípio, isto é, de Deus, distingue-se da liberdade dos espíritos porque Deus possui em si mesmo a lei de sua Selbstthätigkeit, ao passo que o espírito criado deve buscar no princípio, em Deus, a lei de sua liberdade. * Foi por ter buscado essa lei em sua individualidade que Lúcifer caiu. * Na obra O fundo de Kosti, o diabo explica ter acreditado encontrar em si mesmo o que jamais poderia achar fora do princípio original. * Lúcifer afastou-se da fonte luminosa para buscar a luz em si mesmo, mas não encontrou senão trevas. * A separação promovida por Lúcifer é a causa do mal, e se ele não mudar, será inteiramente vencido. * Eckartshausen escreve em outra passagem que Deus, agindo sempre segundo leis immutáveis, havia necessariamente previsto a possibilidade da queda dos espíritos. * Como Deus está ligado às leis de Sua própria essência, as quais constituem precisamente Sua unidade, Ele não podia impedir o que estava inscrito como possibilidade na ordem eterna das coisas. * A unidade não pode criar outra unidade fora de si mesma, mas somente uma segunda essência que deve permanecer ligada àquela de onde proveio. * Essa possibilidade de queda constitui o grande privilégio da liberdade nos seres pensantes. * Sem liberdade não há criação de espíritos possível, da mesma forma que Deus não pode sintonizar nenhuma luz que não contenha o fogo, e não pode criar nenhum dia que não traga em si mesmo a possibilidade da noite. * Tendo a queda de Lúcifer consistido em um afastamento, o espírito rebelde transformou-se em um ser totalmente oposto à unidade. * O anjo rebelde afastou-se ao querer elevar-se, buscando em outro lugar o que só poderia encontrar na unidade. * Lúcifer sentiu a grandeza de sua magnificência e desejou entrar em si mesmo, separando-se desse modo do centro da energia primordial. * A queda é primordialmente um pecado da inteligência, Verstand, sendo imediatamente seguida por uma modificação de todo o seu ser em virtude das leis de progressão. * Lúcifer tornou-se o contrário da unidade e, por conseguinte, o espírito do mal. * O bem, o verdadeiro e o belo, que até então existiam de maneira harmoniosa na ordem eterna, foram destruídos no mundo dos espíritos. * O mal, o falso e o feio apareceram, e as trevas foram criadas. * Tudo o que era espiritual tornou-se concentrado, ocorrendo uma espécie de estreitamento da matéria etérica. * A ação do ser perverso introduziu na criação espiritual um caos desordenado, uma massa informe de feiura, resultado das corporizações de que se cercou o anjo decaído e nas quais fundou o seu reino. * No momento de sua queda, toda a luz que Lúcifer portava reuniu-se em um único ponto, como os raios do sol no centro de uma lupa. * Não sendo mais percorrida pela luz suavizante de Deus, essa luz de Lúcifer tornou-se um fogo ardente. * A alegria e a felicidade, energias expansivas da luz, transformaram-se em sofrimento, desespero, morte e trevas, consequências da força contrativa, ou seja, do furor divino. * Os espíritos decaídos tombaram do mundo jezikático. * A ação do amor emanante do primeiro princípio converteu-se, assim, em um espantoso fogo devorador, sendo esse desordenamento a fonte de todos os males. * Do princípio do mal surgiram os números do mal, que também possuem suas progressões, porém no mundo da confusão. * Foi para remediar esse desordenamento que Deus criou a matéria. * Os antigos denominavam o binário criado por Lúcifer como prima multitudo ou audacia. * Dos terríveis números de progressão do primeiro princípio mau decorrem todas as ideias que cada espírito, mais ou menos submetido a essa lei, quer realizar para si mesmo, não encontrando nessa obstinação senão miséria e tormentos alimentados pelo fogo da ira divina. * O bem busca o bem, mas o mal não busca senão a si mesmo. * Eckartshausen sustenta também que Satan arrastou consigo a terça parte dos anjos, enquanto os demais permaneceram puros. * A queda dos anjos esclarece, portanto, o problema do mal. * Para Eckartshausen, as trevas e a luz são verdadeiras substâncias na natureza, pelas quais passam, por um lado, o mal e, por outro, o bem. * Os sentidos e a razão encontram-se em perpétua oposição. * Ontologicamente, o bem é de toda a eternidade, não se podendo afirmar que tenha começado no tempo. * O mal começou no tempo, embora sua possibilidade tenha existido por toda a eternidade. * O mal não é uma energia, mas uma consequência, sendo que o próprio espírito prevaricador era bom antes de se tornar mau. * Dessa forma, o mal expressa apenas a continuidade de um desordenamento. * Mesmo que às vezes tudo pareça gritar aos ouvidos humanos que a destruição é a lei da natureza, é preciso ter a convicção de que a conservação é a lei do amor, e que o amor é mais poderoso do que a natureza. * O mal desaparece na medida em que os seres se reencontram na unidade, uma vez que ele não pode, de modo absoluto, estar contido no bem. * Se a vontade corrompida do espírito do mal não é modificada pela ação que o bem exerce sobre ela, é porque essa vontade persiste em seu estado. * Eckartshausen, nesse domínio, enfatiza fortemente a vontade dos seres. * Insiste-se igualmente na ideia de punição inevitável, apontando que o erro e a depravação castigam a si mesmos ao se afastarem da divindade, visto que o distanciamento é treva, e as trevas fazem sofrer os seres que foram todos criados para a luz. * O mal destrói a si mesmo por consistir precisamente em uma falta de ordem e de realidade, sendo sua natureza, por definição, uma autodestruição. * Todo mal cessa quando a separação chega ao fim, momento em que os seres aparecem novamente sob sua forma autêntica. * Em linhas gerais, o espetáculo do mundo é triste, os homens torturam os animais e fazem uns aos outros sofrer. * O que odeia no homem não é o homem em si, mas a depravação que habita nele. * Recomenda-se não julgar os caminhos do senhor, dado que o desfecho de toda a aventura justificará a marcha da execução. * No momento atual, os seres que sofrem assemelham-se à agulha magnética, buscando unirem-se àquilo que os atrai. * A dor constitui a consequência de obstáculos sempre fortuitos. * O óleo na água não se encontra em seu elemento, mas o puro se alia ao puro, sendo essa a lei da assimilação. * Nos pontos onde os obstáculos desapareceram, frui-se da felicidade. * No fundo, o mal não existe verdadeiramente, e aquilo que se denomina por esse nome possui caráter estritamente relativo. * Na própria natureza nada é mau. * Eckartshausen considera que Saint-Martin aborda adequadamente essa ideia em Dos Erros e da Verdade, ao afirmar que a faca do assassino pode servir também para cortar os laços do inocente. * Eckartshausen acrescenta que, sob o sol, a rosa exala um perfume vivificante, enquanto à sombra projeta um ar mefítico. * Se o mal trabalha sempre em prol do desordenamento, o bem tenta a cada vez reparar a ordem. * Explica-se também que a abelha suga o mel de uma flor na qual a aranha encontrará os elementos para fabricar o seu veneno. * Da mesma forma, a água flui bela e clara em sua fonte, mas, quando colocada em um recipiente sujo, torna-se irreconhecível.