===== 2 ===== //[[.:start|Adumbratio Kabbalae Cristianae]]// === DO ESTADO PRIMEIRO DO UNIVERSO OU DA INSTITUIÇÃO PRIMORDIAL E DISTO QUE A CARACTERIZA === I. Filósofo Cristão — Quanto ao estado da Instituição primordial, a causa primeira, quer dizer Deus, justamente chamado o Infinitamente glorioso, aí deve ser considerado ou in se ou extra se. Sobre a natureza de Deus, considerado filosoficamente, pode-se ver o prefácio do livro do Zohar, tomo I, part. 31. Filosofia Cabalística. Dissertação primeira, por inteiro. II. Cabalista — Descrevemos também simbolicamente a natureza de Deus, como uma luz infinita, que preencheria exatamente todo lugar possível, de tal sorte que não restaria nenhum lugar vazio. Mas ao mesmo tempo, esta luz revestiria em qualquer lugar que seja, um caráter de unidade, de simplicidade, de uniformidade perfeitas, que a tornaria por toda parte semelhante a ela mesma. Vide a Introdução dita acima; part II, tratado IV, cap. II, p.32. Vossos Livros Evangélicos não admitem isto? III. FC — Perfeitamente. Este gênero de expressão se encontra na Epístola I, a Timóteo, cap VI, v. 16, onde São Paulo se exprime assim sobre Deus: Segundo o texto siríaco que é inteiramente conforme a vosso escritos cabalísticos, e do qual extrairemos algumas citações a fim de nos acomodar pouco a pouco a este Dialeto. > «E Ele habita uma luz inacessível, da qual ninguém pode aproximar.» Assim como São João (Epístola I, cap. I, v 5) > «Pois Deus é a Luz mesma e não há nenhuma treva nEle». > São Tiago (cap I, v17). «Todo dom perfeito e completo desce do alto e nos vem do Pai das luzes, no qual nenhuma mutação é possível, e que não pode ser coberto de sombra por nenhuma vicissitude.» IV. C — Por esta denominação de suprema luz, se encontra denotado algum ato extremamente simples, de uma tal natureza, que a diferença entre o centro radiante e os raios emitidos seja nula, e que, além do mais, cada um destes rais seja igualmente um centro por toda parte semelhante a ele mesmo. V. FC — Este ato é algumas vezes chamado por nós a VIDA, como o diz São João. (Evang. IV, v.4). > «Nele ([[pk>logos:]]) estava a Vida ([[pk>zoe]]), e a Vida era a Luz dos Filho do Homem - filhos dos homens.» O mesmo é ainda chamado Spiritus, como diz São João (IV, v24). > «Deus é Espírito ([[pk>pneuma]]).» VI. — Todas essas denominações se aplicam a Deus por excelência, porque nessa ordem de ideias, Ele se encontra em um grau que nos é incompreensível e que supera todas as coisas existentes. VII. — Embora, na verdade, todos esses conceitos, e principalmente a denominação de Espírito, sejam de natureza infinitamente abstrata, pode-se, por meio deles, considerar que Deus é sem comparação possível com qualquer outro dos seres produzidos por Seu poder, que O cercam e evoluem ao Seu redor. É uma luz capaz de iluminar outros objetos, uma vida que pode vivificar, um ato que pode mover algo mais, assim como o espírito, por sua involução, sempre produz uma certa aspiração. E embora eu não diga nada aqui sobre a natureza do Bem, ele está necessariamente compreendido nesse Ser dos seres, conforme o que diz São Mateus, XIX, v. 17: "Ninguém é bom, exceto Deus." Daí vem a faculdade que Ele possui, por excelência, de Se comunicar e Se revelar a nós pela razão e pela intuição. VIII. — Essa comunicabilidade nos representa Deus, em parte como cognoscível, em parte como suscetível de ser amado, e foi convertida em ato pela produção das criaturas, por meio da qual Deus pode ser considerado, em parte, extra se. IX. — Devemos considerar agora nessa produção: 1° a Causa eficiente; 2° o Meio; 3° a Coisa produzida; 4° o Fim. X. C. — A causa eficiente dessa produção é o próprio Deus, o Infinito; e apenas para conceder um lugar de existência às criaturas que, de outra forma, não poderiam suportar a força infinita de Sua luz, ao mesmo tempo em que velava diversos graus de Seu aspecto sublime, Ele deixou apenas entre eles um certo espaço invariável que chamamos de Constrição. (Veja o prefácio do Zohar, parte 2, tratado 4, cap. 2, p. 32-33 e parte 1, p. 665 e parte 3, p. 70, p. 100 e seguintes). Vossa filosofia não admite isso? XI. F. C. — Esse sentido pode perfeitamente ser adotado e lhe convém ainda mais em todas as circunstâncias, já que Deus foi chamado de Locus por São Paulo no meio do Areópago. (Veja Atos dos Apóstolos 17, v. 28.) "Nele mesmo, vivemos, evoluímos e existimos." É nesse espaço que é primeiramente produzida a Alma do Messias, cuja amplitude é tal que ocupa todo ele. Alguns a consideram como uma emanação; outros, como uma produção no nada. O mais alto grau da luz divina foi, portanto, comunicado por influxo a essa própria alma do Messias, o que é chamado pelos nossos de natureza divina do Messias. É Ele mesmo que vós chamais de Adam Kadmon e que nós chamamos de Cristo, e como nossa tese consiste precisamente na união de nossas duas doutrinas, esse Cristo será o supremo Regente da vossa divina Academia. É, portanto, por uma divisão desse mesmo Adão primitivo ou Messias que serão sucessivamente produzidas as criaturas restantes e que elas serão distribuídas segundo certas ordens, perfeitamente submetidas ao Seu plano. Depois, eu teria compreendido que a disposição destas fosse tal que parecessem semelhantes a círculos, uns mais amplos, outros mais estreitos, ou melhor ainda, a globos, uns maiores, outros menores, indo até a exigüidade do ponto; e pela criação, ter-lhes-ia sido dada a faculdade de projetar cada qual uma esfera luminosa suscetível de se ampliar ou se restringir conforme as circunstâncias provenientes, seja de sua constituição primitiva, seja de seu próprio poder de moderação. Além disso, essas esferas, em consequência dessa propriedade, poderiam intimamente e reciprocamente se penetrar. Em seguida, esse mesmo Adam Kadmon ou Messias dispôs em Si mesmo e abaixo de Si mesmo as dispensações e ordenações ulteriores relativas à Divindade, e que são descritas no Siphra de Zeniutha, assim como nos dois livros da Idra. XII. C. — Eu gostaria de convencionar aqui, de uma vez por todas, que, de tudo o que foi ou será dito de Deus, tocante à Sua variedade e multiplicidade aparentes, nada se possa inferir (contra Sua unidade), senão que esses diversos modos de Se manifestar a nós provêm apenas da variedade dos sujeitos contempladores. É por isso que se encontra na Cabala tantas diversidades de luzes, tantos nomes e membros divinos. Assim como a luz solar, embora una em si mesma, pode ser considerada segundo a diversidade dos objetos por ela iluminados e recebe então várias denominações relacionadas à sua intensidade ou às suas cores variadas, quer se tenha em conta os planetas refletores, quer se estude o movimento do globo e a pluralidade ou a natureza de todos os obstáculos que se opõem a ela; assim também a Divindade. E embora nenhuma seita seja tão prolixa quanto a nossa nessa multiplicação das variedades em Deus, nenhuma, no entanto, afirma mais fortemente e veementemente Sua Unidade.