===== Órgãos dos sentidos ===== {{tag>Primal XII alma}} //Guillaume de Saint-Thierry. Oeuvres choisies. Introduction, traduction et notes J.-M Déchanet. Paris: Aubier, 1944.// 3° Os órgãos dos sentidos. O autor ensina em seguida que a parte anterior do cérebro é mais mole, mais delicada, a fim de ser mais sensível às diversas sensações. A parte posterior, ao contrário, é mais dura, mais resistente, em razão das incitações motoras das quais é a fonte. Passa em seguida aos órgãos dos sentidos. Cada um deles é objeto de uma descrição minuciosa. O olho, sobretudo, é descrito com grande precisão. É um instrumento maravilhoso, o mais digno dos órgãos dos sentidos. Está situado nas proximidades da sede da razão humana, “como se a natureza tivesse querido fazer notar que o olho é, entre os sentidos do corpo, aquele que mais se aproxima da inteligência — compreender e ver não são operações de natureza semelhante? — e, ao mesmo tempo, aquele que é mais necessário a essa mesma inteligência, para discernir o que se encontra abaixo dela e em torno dela”. O fenômeno da visão é descrito como o encontro e a fusão de dois elementos: um que emana do cérebro, o espírito visual; outro que parte das coisas visíveis, o ar. Ambos têm a propriedade de misturar-se às cores, de identificar-se de algum modo com elas. O espírito visual sai do cérebro, invade o olho com sua própria luminosidade, atravessa o cristalino, que se deixa informar por ele, sai finalmente para fora, onde encontra o ar, ele próprio carregado das cores das coisas. Misturando-se a ele, perde de algum modo sua luminosidade nativa, impregna-se daquela do ar, depois retorna ao cristalino. Afetado por uma nova radiação, o cristalino adverte imediatamente o cérebro. O espírito do homem toma assim consciência da cor dos objetos e, graças à sua cor, discerne a forma, a grandeza dos corpos, assim como lhes acompanha os movimentos. Toda percepção supõe, aliás, certa transformação daquele que sente no objeto sentido. Na visão, é o brilho interior do olho que se adapta às radiações emanadas dos diferentes corpos. No olfato, os vapores odoríferos, penetrando pelas narinas com o ar inspirado, mudam a natureza das “efluências” que descem do cérebro. O espírito percebe essa mutação, e assim se produz o olfato. O tímpano é para o ouvido aquilo que o cristalino é para o olho. O som é um abalo do ar. O ar abalado penetra, portanto, no ouvido e chega até o tímpano, o qual recobre o nervo que vem do cérebro. O tímpano transforma-se imediatamente na natureza do ar que o atinge. A percepção dessa mudança, transmitida ao cérebro pelo nervo auditivo, constitui a audição. O mesmo fenômeno ocorre a propósito do gosto e a propósito do tato. Depois de fazer notar que as quatro idades da vida correspondem aos quatro elementos e aos quatro humores supracitados, o autor conclui sua exposição: Conclusão. [708a] Nosso estudo sobre o homem exterior está agora terminado. De fato, a propósito do corpo, não se tratou apenas das matérias que caem sob os sentidos, mas abordou-se certo número de fenômenos que somente a razão e a experiência estão em condições de explicar. Esses fenômenos não escaparam aos físicos naturalistas e aos filósofos quando empreenderam perscrutar a dignidade de nossa natureza. Ainda assim, erraram, e de maneira inteiramente absurda, quando quiseram identificar com os ditos fenômenos essa parte eminente do homem que faz dele a imagem do Deus incorruptível e que o eleva acima de todos os outros seres animados, a saber, a alma racional. Registre-se aqui e saude-se como de passagem — é tempo de falar da alma — a beleza do corpo humano. Único entre todos os animais, o homem se mantém naturalmente ereto, todo inteiro tendido para o céu, como para atestar que possui algum parentesco com ele. Uma harmonia, agradável ao olhar, preside à repartição dos membros ao longo do corpo: unidade no sentido [708b] do comprimento, à qual responde, no sentido da largura, uma exata paridade. Tudo, no corpo, é, aliás, pesado, medido, contado. A disposição dos membros, dois a dois de cada lado do corpo humano, atesta um perfeito equilíbrio. As diversas tentativas feitas para medir o corpo do homem são igualmente probantes. Testemunha-o esta experiência dos físicos: estando o homem deitado de costas, com as mãos e os pés estendidos, coloca-se no centro do umbigo uma das pontas de um compasso. A outra ponta traça então, em torno de todo o corpo humano, um círculo que abarca exatamente os diferentes membros. A propósito do número, também não faltam provas. Nada se diga dos membros exteriores, cujo número ninguém pode ignorar. Mas é certo que todos os órgãos [708c] internos estão igualmente em número constante. Alguns quiseram enumerar os ossos e chegaram ao número de duzentos e quarenta e um. Descobriram-se sete pares de nervos que saem do cérebro, trinta e dois pares que saem da medula espinhal, sem falar de um nervo isolado. Veias, músculos, órgãos diversos seguem a mesma regra, disso não há dúvida, e estão, em todo o corpo humano, em número determinado. Mas é tempo, como foi dito, de passar ao estudo da alma. Deixem-se, portanto, de lado os naturalistas, os filósofos e suas opiniões. Veja-se o que os Padres católicos aprenderam de Deus a esse respeito e o que fizeram saber aos homens.