===== Elementos e humores ===== {{tag>Primal XII alma}} //Guillaume de Saint-Thierry. Oeuvres choisies. Introduction, traduction et notes J.-M Déchanet. Paris: Aubier, 1944.// 1° Os elementos e os humores. [695a] Todo corpo animal foi formado de terra, ou, dito de outro modo, composto de quatro elementos. Com efeito, uma coisa é o corpo formado da terra, outra são os seus “constituintes”. Esses constituintes são os quatro elementos. Cada um dos quatro elementos possui uma qualidade que lhe é própria e que lhe basta: o fogo é quente, o ar é úmido, a água é fria, a terra é seca. Mas a mobilidade do fogo comunica-lhe a secura. Ele é, ao mesmo tempo, quente e seco. O ar, que vem abaixo do fogo, recebe dele o calor, propriedade inicial e natural do fogo. Úmido em si mesmo, torna-se quente sob a influência deste último. A água está situada abaixo do ar, e é por isso que a umidade se acrescenta ao frio que lhe é próprio. A terra, enfim, seca em si mesma, torna-se fria sob a ação da água. Se apenas um único elemento entrasse na constituição do corpo, a dor estaria ausente dele. É a opinião de Hipócrates. A unidade de composição afastaria, com efeito, dele toda ocasião de sofrimento. Mas a terra lamacenta torna-se água; a água rarefeita e aquecida até a evaporação transforma-se em ar; condensado e comprimido, o ar torna-se água, e assim por diante. Essa é a origem da corrupção e, por conseguinte, do sofrimento. Dos quatro elementos procedem os humores do corpo humano — por isso são chamados “filhas dos elementos”. Eles são para o corpo animal o que os elementos são para o mundo. Dispensam e mantêm a vida e a saúde do corpo, se, contudo, forem distribuídos na medida e da maneira própria a cada um deles, e se não forem corrompidos por algum vício ou acidente. Mas, como se viu, a água, por condensação, transforma-se em terra; a terra lamacenta transforma-se em água. Assim também se dá com os humores: corrompem-se mutuamente por influência recíproca. Então semeiam a corrupção no corpo que têm por missão vivificar. Destroem aquilo cuja prosperidade deveriam assegurar. O princípio constitutivo da compleição do corpo é, portanto, a fusão em seu seio dos quatro elementos; fusão inicial e perfeitamente natural, que deve permanecer [697a] uniforme, harmoniosamente ordenada, de tal sorte que os contrários não se combatam nem se destruam. Em compensação, o elemento quente deve ser incessantemente temperado pelo elemento frio, o elemento frio pelo elemento quente, e assim também os demais. A compleição é então perfeita. Com o acordo da natureza, há “eucrasia”, ou, dito de outro modo, “bom temperamento” — as quatro qualidades fundamentais temperando-se uma pela outra. Enquanto essas qualidades nativas permanecem em justas proporções, o corpo humano não pode ser infestado pela doença. É então dito “eucrático”, isto é, de excelente compleição. Quando o equilíbrio é destruído, o corpo sofre imediatamente o contragolpe. Inútil estender-se sobre esse assunto. Veja-se como se formam os humores e como se alimentam. A formação dos humores. — Todo alimento, de onde quer que venha, é composto dos quatro elementos, como o corpo de que se falou. De resto, a natureza dos elementos presta-se a uma multidão de combinações. Calor, frio, secura, umidade entram nos alimentos em proporções diferentes. Daí a extrema variedade da alimentação. O autor entra então em uma descrição minuciosa e relativamente exata do fenômeno da digestão e dos órgãos digestivos (697e): a) a boca, os dentes e a língua; mastigação, preparação dos alimentos; b) primeira digestão: o esôfago e o estômago (697d); c) segunda digestão: os intestinos; filtragem dos sucos nutritivos que são conduzidos até o fígado. Ali se formam os humores, no curso de uma terceira digestão: a digestão hepática: [6986] Tudo o que é fogo no quilo é recolhido pela bile vermelha; tudo o que é ar, pelo sangue; o que é úmido ou aquoso, pela fleuma; o que é espesso ou terroso, pela bile negra ou “melancolia”. Assim se formam os humores. São em seguida distribuídos por todo o corpo humano. Longa digressão sobre o papel dos humores, sua influência recíproca, o modo de sua distribuição (6986-7005).