===== Homilia 27 ===== ** Homilia 27 — [[b>Números 33:1-49]] ** ** Sobre as etapas dos filhos de Israel ** * Ao fundar o mundo, Deus criou inúmeros tipos diferentes de alimentos em razão da diversidade existente tanto nos desejos humanos quanto na natureza dos animais. * Cada espécie conhece seu próprio alimento: o leão, o cervo, o boi e as aves alimentam-se de coisas distintas * Entre os seres humanos há igualmente diferenças: o saudável e robusto precisa de alimento forte e "acredita e tem confiança para comer todas as coisas" ([[b>Romanos 14:2]]) * O fraco contenta-se com vegetais; o infante não busca outro sustento senão o leite * Cada indivíduo, segundo a idade, a força ou a saúde do corpo, deseja o alimento que lhe corresponde * Toda natureza racional necessita ser nutrida por alimentos que lhe sejam próprios, sendo a Palavra de Deus o verdadeiro alimento dessa natureza. * Assim como no corpo há diversidade de alimentos, também na natureza racional há graus distintos de nutrição espiritual * O alimento de alguns na Palavra de Deus é o leite (cf. [[b>1 Coríntios 3:2]]), ou seja, a doutrina mais clara e simples * Esse leite consiste habitualmente na instrução moral oferecida aos que iniciam os estudos divinos e recebem os primeiros elementos de uma educação racional * Lat. sermo e Lat. verbum distinguem dois sentidos do termo Palavra no original latino * Quando se lê algum livro bíblico que não apresenta obscuridade aparente, tal leitura é acolhida com alegria; mas ao deparar-se com o livro do Levítico, a mente tropeça e o recusa como alimento impróprio. * Livros facilmente recebidos: Ester, Judite, Tobias e os preceitos do livro da Sabedoria * O livro do Levítico trata de sacrifícios e ritos de imolação, o que perturba quem veio aprender a adorar a Deus e receber mandamentos sobre a justiça e a piedade * Recusar tal alimento é reação natural de quem ainda não tem capacidade de recebê-lo * Quando os Evangelhos, o apóstolo ou os Salmos são lidos, alguém os acolhe com alegria como remédio para sua fraqueza; mas o livro dos Números, especialmente a passagem em questão, é rejeitado como alimento pesado e inadequado para uma alma enferma. * A comparação retorna ao mundo físico: se ao leão fosse dado entendimento, não censuraria a abundância de ervas criadas pelo Criador só porque ele mesmo se alimenta de carne crua * Tampouco o ser humano deveria culpar Deus por criar serpentes ou outros animais que servem de alimento a outros * O boi e a ovelha não deveriam censurar o fato de que a carne foi dada a outros animais, quando para eles a erva basta * Não se deve rejeitar imediatamente uma Escritura que pareça difícil ou obscura, ou que contenha coisas inacessíveis ao iniciante e ao fraco; antes, convém considerar que a própria diversidade da criação divina aponta para o louvor e a glória do Criador. * Referência a [[b>Hebreus 5:13]] (iniciante) e [[b>Romanos 14:2]] (o fraco) * A criação de Deus abrange serpentes, ovelhas, seres humanos e palha, e cada uma dessas criaturas recebe seu alimento de modo conveniente * Cada indivíduo, na medida em que se percebe saudável e forte, acolhe as palavras de Deus, nas quais há alimento diferente segundo a capacidade das almas * Se ao examinar o Evangelho ou a instrução apostólica com atenção surgem tantas coisas que escapam ao olhar, é porque o aparentemente obscuro e difícil, quando rejeitado de imediato, revelaria igual obscuridade até nos textos considerados seguros. * Textos que parecem claros também contêm passagens obscuras e difíceis para quem os examina com rigor * Há muito nos escritos considerados seguros que edifica até os ouvintes de inteligência limitada, se abordado com atenção * A rejeição precipitada de passagens difíceis obrigaria, pela mesma lógica, a abandonar também os textos favoritos * Tudo isso é dito como prefácio para despertar as mentes diante de uma leitura difícil de entender e que parece supérflua, pois nada do que foi escrito pelo Espírito Santo é inútil ou supérfluo. * O necessário não é rejeitar a passagem, mas voltar os olhos da mente para aquele que ordenou que fosse escrita * Deve-se pedir entendimento a Deus: "aquele que sara todas as suas enfermidades" ([[b>Salmos 103:3]]) pode sarar a fraqueza da alma * Se há limitação de inteligência, o Senhor pode estar presente, guardar seus filhos e nutri-los até a "medida da idade" ([[b>Efésios 4:13]]) * Cabe à alma pedir; a Deus cabe "dar aos que pedem e abrir aos que batem" ([[b>Mateus 7:7]]) * Passando ao início da leitura proclamada, busca-se, com o auxílio do Senhor, resumir os pontos principais e explicar seu sentido, ainda que sem clareza total. * O texto diz: "Estas são as etapas dos filhos de Israel, desde quando saíram do Egito com seu poder pela mão de Moisés e Aarão. E Moisés escreveu os seus pontos de partida e as etapas pela Palavra do Senhor" ([[b>Números 33:1-2]]) * A pergunta é levantada: por que o Senhor quis que essas coisas fossem escritas — para que essa passagem nos beneficiasse de algum modo? * Lat. mansiones traduz o termo etapas/moradas * Negar que o que foi escrito "pela Palavra de Deus" seja útil e contribua para a salvação constitui uma opinião ímpia e estranha à fé católica. * Tal negação pertence apenas aos que recusam que o único e sábio Deus da Lei e dos Evangelhos seja o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo — afirmação dirigida contra Marcião (cf. [[b>Romanos 15:4]].6) * Propõe-se investigar de modo sumário o que uma interpretação fiel deve compreender nessas etapas * No sentido espiritual, é possível reconhecer um duplo êxodo do Egito: seja quando se abandona a vida pagã para chegar ao conhecimento da lei divina, seja quando a alma deixa sua morada no corpo. * As etapas que Moisés descreve "pela Palavra do Senhor" têm ambos os sentidos em vista * Referência à Homilia 26.4.1-2 onde o mesmo tema foi tratado anteriormente * Lat. profectio designa a partida/êxodo * As etapas nas quais a alma, despojada do corpo ou novamente revestida dele, habitará são aquelas a que o Senhor se refere no Evangelho ao dizer: "Na casa de meu Pai há muitas moradas" ([[b>João 14:2]]). * Essas são as muitas moradas que conduzem ao Pai * O sentido de cada etapa, o proveito que a alma obtém ao permanecer nela e a instrução que nela recebe são conhecidos somente pelo Pai do século futuro (cf. [[b>Isaías 9:6]]) * O Senhor diz de si mesmo: "Eu sou a porta" ([[b>João 10:9]]) e "Ninguém vem ao Pai senão por mim" ([[b>João 14:6]]) * Cristo poderá tornar-se a porta para cada alma em cada etapa diferente, de modo que ela entre por ele, saia por ele, encontre pasto (cf. [[b>João 10:9]]), passe a outra etapa e assim sucessivamente até chegar ao próprio Pai * Os filhos de Israel estavam no Egito, sendo oprimidos com argamassa e tijolos para as obras do Faraó, até gemer e clamar ao Senhor, que ouviu seu gemido e enviou sua Palavra por Moisés para conduzi-los para fora. * O Egito representa os erros deste mundo e as trevas da ignorância, onde se realizam as obras do diabo nas concupiscências e prazeres da carne (cf. [[b>Êxodo 1:14]]; 2,23; 3,7) * O Senhor teve piedade da aflição e enviou a Palavra, seu Filho unigênito (cf. 1 [[b>João 4:9]]), para arrancar das trevas do erro à luz da lei divina * Há quarenta e duas etapas na saída dos filhos de Israel do Egito, e a vinda do Senhor e Salvador ao mundo é traçada através de quarenta e duas gerações. * O evangelista Mateus registra: "De Abraão ao rei Davi, catorze gerações; de Davi até a deportação para a Babilônia, catorze gerações; e da deportação para a Babilônia até Cristo, catorze gerações" ([[b>Mateus 1:17]]) * Os que sobem do Egito percorrem quarenta e duas etapas, o mesmo número das quarenta e duas gerações que Cristo percorreu ao descer ao Egito deste mundo * Moisés registrou com cuidado: "Os filhos de Israel subiram com seu poder" ([[b>Números 33:1]]); esse poder é o próprio Cristo, que é "o poder de Deus" ([[b>1 Coríntios 1:24]]) * Quem sobe, sobe com aquele que desceu, para alcançar o lugar de onde esse desceu, não por compulsão, mas por dignidade, cumprindo-se: "Aquele que desceu é o mesmo que subiu" (cf. [[b>Efésios 4:8-10]]) * Os filhos de Israel, por quarenta e duas etapas, chegam ao início da tomada da herança, cujo início ocorreu quando Rúben, Gad e a meia tribo de Manassés receberam a terra de Gileade. * O número da descendência de Cristo segundo a carne é estabelecido por quarenta e dois pais, assim como as quarenta e duas etapas de quem desce até nós (cf. [[b>Josué 17:5-6]]) * A subida dos filhos de Israel até o início da herança prometida é estabelecida pelo mesmo número de etapas * Compreendido o mistério desse número, convém começar a subir pelos degraus pelos quais Cristo desceu, fazendo como primeira etapa aquela que ele fez por último — ao nascer da Virgem — e deixando aí a adoração aos ídolos e o culto aos demônios. * Depois do primeiro degrau, prossegue-se subindo um a um cada um dos degraus (Lat. gradus) da fé e das virtudes * Ao permanecer neles por longo tempo até chegar à perfeição, diz-se ter feito uma etapa em cada degrau das virtudes * Quando se alcança a altura da instrução e o cume do progresso, a herança prometida se cumpre * Referência a [[b>João 1:1]].9.14 e à Palavra feita carne * Quando a alma parte do Egito desta vida rumo à Terra Prometida, necessariamente percorre certos caminhos e realiza etapas fixas guiada pela providência de Deus para algum proveito. * Referência ao salmo: "Affligi-te e alimentei-te com maná no deserto, que teus pais não conheciam, para que o que está em teu coração se tornasse conhecido" ([[b>Deuteronômio 8:2-3]]) * Essas são as etapas pelas quais se faz a jornada da terra ao céu * Diante da grandeza dos segredos divinos, nenhum intérprete seria capaz de descrever as etapas da jornada e da subida da alma, explicitando os trabalhos e os lugares de repouso de cada estação. * Como explicar que após a primeira, segunda e terceira etapa o Faraó ainda persegue, e que os egípcios, mesmo afogados, continuaram a perseguir? * Como expressar que o povo de Deus, salvo após poucas etapas, cantou primeiro o cântico: "Cantemos ao Senhor, pois foi gloriosamente honrado; lançou o cavalo e o cavaleiro no mar" ([[b>Êxodo 15:1]])? * Ninguém saberia explicar as etapas uma a uma nem fazer conjecturas sobre seus caracteres a partir de seus nomes, ignorando-se se o entendimento do pregador é adequado ao peso dos mistérios ou se o ouvido dos ouvintes é capaz de compreender * Como explicar o combate com os amalequitas, as diversas tentações e os que "caíram no deserto" ([[b>Números 14:32]]; [[b>1 Coríntios 10:5]]), sendo que não todos os filhos de Israel, mas os filhos dos filhos de Israel puderam chegar à terra santa. * Todo o povo antigo, cuja vida estava entre os egípcios, caiu; somente um povo novo que não conhecia os egípcios chegou ao reino, com exceção dos sacerdotes e levitas * Quem encontrar lugar na ordem dos sacerdotes e levitas, não tendo porção nas terras mas somente o próprio Senhor, não "cai no deserto", mas chega à Terra Prometida * A subida do Egito à Terra Prometida ensina misteriosamente a subida da alma ao céu e o mistério (Lat. sacramentum) da ressurreição dos mortos * Os nomes são registrados para as etapas porque não seria conveniente que todos os outros lugares sob o céu — montes, vales e campos — tivessem nomes, mas que a subida pela qual a alma sobe ao reino de Deus não os tivesse. * Os nomes das etapas foram adaptados aos temas misteriosos * O guia dessa subida não é Moisés — que não sabia para onde ia (cf. [[b>Hebreus 11:8]]) — mas a coluna de fogo e a nuvem (cf. [[b>Êxodo 13:21]]), isto é, o Filho de Deus e o Espírito Santo * O profeta diz: "O próprio Senhor os conduzia" ([[b>Salmos 78:14]]; cf. [[b>Deuteronômio 1:32-33]]) * A alma bem-aventurada, passando por cada etapa — as "muitas moradas" (cf. [[b>João 14:2]]) que estão junto ao Pai — será cada vez mais iluminada, ganhando sempre maior aumento de esplendor, até habituar-se a contemplar a "verdadeira luz que ilumina todo homem" (cf. [[b>João 1:9]]) * As etapas apontam também para o progresso da alma colocada nesta vida que, após sua conversão da vida pagã, segue não tanto Moisés quanto a lei de Deus, e não tanto Aarão quanto o sacerdote que permanece para sempre. * Antes de chegar à perfeição, a alma habita no deserto, onde é treinada nos mandamentos do Senhor e sua fé é provada pelas tentações (cf. [[b>Hebreus 6:20]]) * Ao vencer uma tentação, passa a outra, como de uma etapa para outra, avançando de virtude em virtude ([[b>Salmos 84:7]]) até alcançar o fim último e cruzar o rio de Deus recebendo a herança prometida * Usando um duplo modo de explicação, convém considerar toda essa sequência de etapas proclamada em voz alta, de modo que o progresso venha à alma sob os dois aspectos. * O primeiro aspecto ensina como esta vida, convertida do erro, deve ser conduzida segundo a lei de Deus * O segundo mostra a grandeza da esperança futura prometida com base na ressurreição (cf. 1 Pd 1,3) * Uma interpretação digna das leis do Espírito Santo pode ser ensinada quanto ao que se lê * De que serve conhecer o local no deserto onde os filhos de Israel acampavam, se não há progresso espiritual para quem medita "na lei de Deus dia e noite" ([[b>Salmos 1:2]])? * A descrição foi inserida pela segunda vez nas leis divinas, repetida duas vezes para mostrar dois caminhos para a alma: o da alma colocada na carne que se treina nas virtudes e sobe por degraus de progressão "de virtude em virtude", e o da alma que, ao subir ao céu após a ressurreição, é conduzida através de "muitas moradas" (cf. [[b>João 14:2]]) sendo iluminada etapa por etapa * Os filhos de Israel saíram "com seu poder" ([[b>Números 33:1]]; Lat. virtus); e esse poder estava com eles quando se disse: "Descerei contigo ao Egito" (cf. [[b>Gênesis 46:4]]), razão pela qual o profeta afirma: "E não havia ninguém fraco entre suas tribos" ([[b>Salmos 105:37]]). * A saída se deu "pela mão de Moisés e Aarão" ([[b>Números 33:1]]): uma só mão, não duas, pois há uma única obra para cada mão e um único cumprimento da perfeição * Moisés representa o conhecimento da lei; Aarão, a habilidade nos sacrifícios e imolações a Deus * Ao sair do Egito, é necessário ter não apenas o conhecimento da lei e da fé, mas também obras pelas quais se agrada a Deus * A "mão" significa obras: ao converter-se a Deus e afastar o orgulho, sacrifica-se um touro ao Senhor pela mão de Aarão; ao destruir paixões agressivas, mata-se um bode; ao vencer a luxúria, um bezerro; ao vencer a tolice, uma ovelha * Ambas as mãos são necessárias para que se encontre não apenas a perfeição da fé e do conhecimento, mas também a das obras * Moisés escreveu os pontos de partida e as etapas "pela Palavra do Senhor" ([[b>Números 33:2]]) para que, ao lê-los, se possa ver quantos pontos de partida e etapas estão adiante na jornada que conduz ao reino, preparando-se para esse caminho e não permitindo que o tempo de vida seja desperdiçado em preguiça e negligência. * Se se demora nas vaidades deste mundo e se delicia em cada uma das sensações que chegam pela vista, pelo ouvido, pelo tato, pelo olfato e pelo gosto, os dias passam e não se encontra oportunidade para completar a jornada * Pode-se desfalece a meio caminho, tornando-se como os que "caíram no deserto" ([[b>Hebreus 3:17]]; [[b>1 Coríntios 10:5]]) * A razão de ter vindo a este mundo é passar "de virtude em virtude" ([[b>Salmos 84:7]]), não permanecer para as coisas da terra * Exemplo negativo: o homem que disse "Derrubarei meus celeiros, construirei outros maiores, e direi à minha alma: Alma, tens muitos bens guardados para muitos anos, come, bebe, alegra-te" ([[b>Lucas 12:18-19]]) * O Senhor lhe disse: "Insensato! Esta noite te será tirada a tua alma" ([[b>Lucas 18:20]]) — não "este dia", mas "esta noite", pois ele é destruído à noite como o primogênito dos egípcios (cf. [[b>Êxodo 12:29]]), como quem "amou o mundo" (cf. 1 [[b>João 2:15]]) e pertencia "aos príncipes das trevas deste mundo" (cf. [[b>Efésios 6:14]]) * Este mundo é chamado trevas e noite por causa dos que vivem na ignorância e não aceitam a luz da verdade; esses não partem "de Ramsés" nem passam "a Sucote" (cf. [[b>Números 33:3]].5) * Os filhos de Israel partiram de Ramsés no décimo quinto dia do primeiro mês ([[b>Números 33:3]]), ou seja, no dia seguinte à Páscoa celebrada no décimo quarto dia (cf. [[b>Êxodo 12:6]].18), que era o primeiro dia dos ázimos. * A Páscoa foi celebrada no Egito matando um cordeiro no dia anterior à partida; os que ainda estavam no Egito realizaram como que um início da festa * "Quem é sábio e compreenderá estas coisas? Ou prudente e as conhecerá?" ([[b>Oséias 14:9]]) * O apóstolo diz: "Pois conhecemos em parte e profetizamos em parte" ([[b>1 Coríntios 13:9]]) * "Que ninguém vos julgue em parte por uma festa, ou neomênia, ou sábado" ([[b>Colossenses 2:16]]) * Toda festa celebrada na terra pelos seres humanos é celebrada "em parte", não completamente; mas ao sair daquele Egito haverá a festa perfeita, o "pão ázimo da sinceridade e da verdade" ([[b>1 Coríntios 5:8]]) na perfeição, o dia de Pentecostes no deserto, o alimento celestial do maná e cada uma das festas comentadas anteriormente nas Homilias 23 e 24 * Após a Páscoa do Egito, a Páscoa foi celebrada apenas uma vez no deserto, quando a lei foi dada, e outra vez em Números (cf. [[b>Números 9:1-2]]); depois disso, nunca mais foi realizada exceto na Terra Prometida. * Os filhos de Israel saíram de Ramsés "com mão elevada, aos olhos de todos os egípcios" ([[b>Números 33:3]]) * O que é a "mão elevada"? "Que a tua mão seja levantada" ([[b>Salmos 10:12]]) — onde não há obra humana ou terrena, mas divina, encontra-se o termo "mão elevada" * "Com mão elevada aos olhos de todos os egípcios, eles partiram" * "E os egípcios estavam enterrando os seus mortos" ([[b>Números 33:4]]): os mortos enterravam seus próprios mortos (cf. [[b>Mateus 8:22]]), mas os vivos seguiam o Senhor seu Deus; depois disso, "o Senhor fez vingança sobre os seus deuses" ([[b>Números 33:4]]). * No Êxodo diz-se: "E sobre todos os deuses dos egípcios o Senhor fará vingança" ([[b>Êxodo 12:12]]) * "Há alguns que são chamados deuses, seja no céu ou na terra" ([[b>1 Coríntios 8:5]]) — são os demônios que habitam nos ídolos * [[b>Salmos 96:5]]: "Todos os deuses das nações são demônios" * A vingança se dá quando alguém enganado a adorar ídolos é convertido pela Palavra do Senhor: o demônio que enganou recebe punição pela própria conversão * Do mesmo modo, se alguém convertido à pureza chora seu erro, o demônio é chamuscado pelas lágrimas do arrependimento * Se alguém passa da arrogância à humildade, da luxúria à sobriedade, cada ato açoita os demônios que o enganavam * Grande tormento para os demônios é ver alguém que "vende tudo o que possui e dá aos pobres" (cf. [[b>Mateus 19:21]]) e "toma sua cruz e segue" Cristo (cf. [[b>Mateus 16:24]]) * O maior tormento é ver alguém empenhado no estudo da Palavra de Deus e na busca do conhecimento dos mistérios das Escrituras, pois assim as trevas da ignorância são dissipadas * Os demônios possuem todos os que vivem na ignorância; não apenas os que ainda estão nela, mas frequentemente vão também aos que conheceram a Deus para tentar neles obras de ignorância. * Nenhum pecado se realiza sem eles: o adultério, a ira excessiva, o roubo dos bens alheios, a calúnia contra o próximo (cf. [[b>Salmos 101:5]]), o escândalo ao irmão (cf. [[b>Salmos 50:20]]; [[b>Romanos 14:13]]) — nada disso ocorre sem um demônio * É necessário ser vigilante para não reanimar o primogênito dos egípcios ou seus deuses que o Senhor abateu e destruiu, dando-lhes oportunidade de agir no que Deus odeia * Se nos mantemos afastados de tudo isso, "o Senhor inflinge vingança sobre todos os deuses dos egípcios" e eles recebem punição por nossa emenda e conversão * A sequência da partida e a distinção das etapas são necessárias e devem ser observadas pelos que seguem a Deus e se voltam para o progresso nas virtudes; sendo a primeira partida "de Ramsés", que em nossa língua significa "agitação confusa" ou "agitação do verme". * Referência a Fílon de Alexandria (Sobre os Sonhos 77; Sobre a Posteridade de Caim 56) e a Jerônimo (Epístola 78.3) para a etimologia de Ramsés * Tudo neste mundo está estabelecido em agitações e desordens, e também na corrupção — o que o verme indica * Não é conveniente que a alma permaneça nessas coisas; deve partir e chegar a Sucote (Lat. Sochoth), que significa "tendas/tabernáculos" * A primeira progressão da alma é ser retirada da agitação terrena e perceber que deve habitar em tendas como peregrino e como quem está em jornada, pronto para o combate * Da primeira etapa, a alma parte de Sucote e acampa em Butã ([[b>Números 33:6]]; RSV Etã), que significa "vale", pois a virtude só se adquire pelo treino e pelo esforço, e é mais provada na adversidade do que na prosperidade. * Nos vales e lugares baixos ocorre a luta contra o diabo e os poderes contrários * Abraão combateu contra os reis bárbaros no Vale do Sal (cf. [[b>Gênesis 14:10]]) e ali obteve a vitória * O peregrino desce aos que estão nos lugares profundos e baixos não para ali permanecer, mas para ali vencer * De Butã partem e acampam na "boca de Irote" ([[b>Números 33:7]]; RSV Pi-hairote), que traduz "aldeia": ainda não se chega à cidade, nem se possui o que é perfeito, mas primeiro se capturam pequenas coisas, pois o progresso consiste em chegar às grandes coisas a partir das pequenas. * Chega-se à "boca", isto é, à primeira entrada de uma aldeia, que indica um modo de vida (Lat. conversatio) e uma abstinência moderada * Um grau de abstinência excessivo e desmedido é perigoso nos estágios iniciais * Irote está situada em frente a "Beelsefon e em frente a Magdalum" ([[b>Números 33:7]]; RSV Baal-Zefon, Migdol) * Beelsefon traduz-se como "a subida da torre de vigia ou cidadela": a alma sobe das pequenas coisas para as grandes, ainda não colocada na torre de vigia em si, mas "em frente" a ela, na sua vista * Ali começa a vigiar e a contemplar a esperança futura e a altura das progressões, sendo mais nutrida pela esperança do que fatigada pelos trabalhos * Magdalum significa "magnificência": a alma, tendo em vista a subida da torre e a magnificência das coisas vindouras, é nutrida por grandes esperanças — está nas partidas, não na perfeição * Depois partem de Irote e "passam pelo meio do Mar Vermelho" e acampam "na amargura" ([[b>Números 33:8]]; RSV Mará), pois o tempo das progressões é um tempo de perigos, e atravessar o meio do mar é uma tentação muito difícil. * Se se segue Moisés, isto é, a lei de Deus, as águas se tornam "muro à direita e à esquerda" e se caminha em "terra seca no meio do mar" (cf. [[b>Êxodo 14:22]]) * A jornada celestial pode ter também suas águas: uma parte das águas está "acima do céu" e outra "abaixo do céu" (cf. [[b>Gênesis 1:7]]), e por enquanto se suportam as ondas e os turbilhões das águas que estão "abaixo do céu" * Ao chegar à travessia do mar, não se deve temer ao ver o Faraó e os egípcios em perseguição, mas crer no "único Deus verdadeiro e em seu Filho Jesus Cristo, a quem enviou" ([[b>João 17:3]]; cf. [[b>Êxodo 14:31]]) * "O povo creu em Deus e em seu servo Moisés" ([[b>Êxodo 14:31]]) — crer em Moisés é crer na lei de Deus e nos profetas * "Em breve vereis os egípcios caídos na praia" (cf. [[b>Êxodo 14:30]]): ao vê-los, cantar ao Senhor e louvar "aquele que afundou o cavalo e o cavaleiro no Mar Vermelho" (cf. [[b>Êxodo 15:1]]) * "Acamparam na amargura" ([[b>Números 33:8]]): não se deve temer ou ficar atemorizado ao ouvir "amargura", pois o apóstolo ensina que "nenhuma disciplina parece doce no momento, mas amarga; porém depois produz o fruto pacífico da justiça para os que foram treinados por ela" ([[b>Hebreus 12:11]]). * O pão ázimo é mandado comer com ervas amargas (cf. [[b>Êxodo 12:8]]), e não é possível chegar à Terra Prometida sem passar pela amargura * Assim como os médicos colocam substâncias amargas nos medicamentos para a saúde dos doentes, também o médico das almas quis que se suporte a amargura desta vida nas diversas tentações * O fim da amargura obtém a doçura da salvação; o fim da doçura dos prazeres físicos produz o amargo fim no inferno dos castigos, como mostra o exemplo do rico (cf. [[b>Lucas 16:19-25]]) * Quem entra na jornada das virtudes não deve voltar atrás ao acampar na "amargura" * "Partiram da amargura e chegaram a Elim" ([[b>Números 33:9]]), onde há doze fontes de água e setenta palmeiras (cf. [[b>Números 33:9]]): após a amargura, após as durezas das tentações, chegam-se a lugares agradáveis. * Elim traduz-se como "carneiros" — líderes dos rebanhos; os líderes do rebanho de Cristo são os apóstolos, que são também as doze fontes * O Senhor e Salvador escolheu não apenas aqueles doze (cf. [[b>Marcos 3:14]]; [[b>João 6:70]]) mas também setenta outros (cf. [[b>Lucas 10:1]]), por isso há não apenas doze fontes mas também setenta palmeiras * Paulo, ao explicar a ressurreição do Salvador, diz: "Apareceu àqueles Doze, depois a todos os apóstolos" ([[b>1 Coríntios 15:5]].7), mostrando que há outros apóstolos além dos doze * Essa amenidade espera após a amargura, esse repouso após o trabalho, essa graça após a tentação * "Partiram de Elim e acamparam junto ao Mar Vermelho" ([[b>Números 33:10]]): não entram no Mar Vermelho — basta tê-lo atravessado uma vez; agora "acampam junto ao mar" para vê-lo e contemplar suas ondas, sem temer seus movimentos e ataques. * "E partiram do Mar Vermelho e acamparam no deserto de Sin" ([[b>Números 33:11]]) * Sin traduz-se como "sarça ardente" ou "tentação" * A esperança das coisas boas começa a sorrir: "O Senhor apareceu da sarça ardente" e deu respostas a Moisés (cf. [[b>Êxodo 3:2]]); esse foi o início da visitação do Senhor aos filhos de Israel * Sin traduz-se também como tentação porque as visões habitualmente envolvem tentação: às vezes um anjo da maldade "se transforma em anjo de luz" (2 Cor 11,14) * Josué, filho de Nun, ao ver uma visão, soube que havia uma tentação nela e imediatamente interrogou o que lhe aparecia: "És dos nossos ou dos adversários?" ([[b>Josué 5:13]]) * A alma chega ao lugar onde começa a discernir entre as visões; um dos dons espirituais concedidos pelo Espírito Santo é "o discernimento dos espíritos" ([[b>1 Coríntios 12:10]]) * "Partiram do deserto de Sin e chegaram a Rafacá" ([[b>Números 33:12]]; RSV Dofcá), que se traduz como "saúde": quando a alma se torna espiritual e começa a ter visões celestiais, chega à saúde. * Referência ao [[b>Salmos 103:1]]: "Abençoa o Senhor, ó minha alma, e tudo o que está em mim abençoa seu santo nome" * "Aquele que sara todas as tuas enfermidades, que resgata a tua vida da destruição" ([[b>Salmos 103:3-4]]) * Há muitas enfermidades da alma: a avareza é a pior delas; a soberba, a ira, a vaidade, o medo, a inconstância, a timidez e semelhantes * Alcançar a etapa de Rafacá significa alcançar a cura dessas enfermidades * Seria demorado percorrer cada uma das etapas e explicar uma a uma o que é sugerido pela contemplação de seus nomes; faz-se, portanto, um percurso breve e sumário para oferecer oportunidades de compreensão. * Partem de Rafacá e chegam a Halus ([[b>Números 33:13]]; RSV Alus), que se traduz como "trabalhos": após a saúde, não é surpreendente que venham os trabalhos, pois a alma recebe a saúde de Deus para aceitar os trabalhos com alegria — "Comerás os trabalhos do teu labor; és bem-aventurado e te irá bem" ([[b>Salmos 128:2]]) * Chegam depois a "Rafidim" ([[b>Números 33:14]]; RSV Refidim), que se traduz como "louvor do juízo": a alma que julga e discerne corretamente torna-se digna de louvor, pois "julga todas as coisas espiritualmente e não é julgada por ninguém" ([[b>1 Coríntios 2:15]]) * "Chega ao deserto de Sina" ([[b>Números 33:15]]; RSV Sinai): Sina é o nome do monte naquele deserto; após a alma ter sido louvável no julgamento e ter começo de julgamento reto, Deus lhe dá a lei, pois ela começou a ser capaz de receber os segredos divinos e as visões celestiais * Dos "túmulos da concupiscência" ([[b>Números 33:16]]; RSV Quibrote-Hataavá) — Lat. monumenta — é onde as concupiscências estão enterradas e cobertas, onde todo desejo é saciado e a carne não mais "contende contra o espírito" ([[b>Gálatas 5:17]]) por ter sido morta pela morte de Cristo (cf. [[b>Romanos 6:2-4]]; 7,4) * Chegam a "Aserote" ([[b>Números 33:17]]; RSV Hazerote), que se traduz como "salões perfeitos" ou "bem-aventurança": após enterrar e entregar à morte as concupiscências da carne, vem-se à amplitude dos salões e à bem-aventurança, pois bem-aventurada é a alma que não é mais assediada por nenhum vício da carne * De Aserote chega-se a "Ratmá" ([[b>Números 33:18]]; RSV Ritmá), que se traduz como "visão completa"; e Farã significa "face visível": quando a alma cessa de ser assediada pelos incômodos da carne, tem visões completas e recebe uma compreensão perfeita das coisas, reconhecendo mais plenamente as causas da encarnação da Palavra de Deus (cf. [[b>João 1:14]]) e as razões de suas dispensações. * De lá chega-se a "Remmon Farés" ([[b>Números 33:19]]; RSV Rimom-Perez), que significa "corte elevado" — a separação e distinção das realidades grandes e celestiais em relação às terrenas e humildes * À medida que o entendimento da alma cresce, o conhecimento das coisas elevadas lhe é fornecido e ela recebe o juízo pelo qual sabe separar o eterno do temporal e o perecível do eterno * Chega-se a "Lebna" ([[b>Números 33:20]]; RSV Libná), que se traduz como "embranquecimento" — não no sentido condenável de "parede caiada" ([[b>Atos 23:3]]) ou "sepulcros caiados" ([[b>Mateus 23:27]]), mas no sentido do profeta: "Lavar-me-ás e serei mais branco que a neve" ([[b>Salmos 51:7]]) e de Isaías: "Se os vossos pecados forem como a escarlate, eu os embranquecerei como a neve, e os farei brilhar como a lã" ([[b>Isaías 1:18]]); também no [[b>Salmos 68:14]] e [[b>Daniel 7:9]] * Esse embranquecimento provém do esplendor da verdadeira luz e desce do brilho das visões celestiais * A etapa seguinte é em "Ressa" ([[b>Números 33:21]]; RSV Rissá), que pode ser chamada "tentação visível" ou "tentação louvável": por mais que a alma progrida, as tentações não lhe são retiradas, pois exercem sobre ela como que uma proteção e defesa. * Assim como a carne se corrompe se não for salgada, também a alma, se não for de algum modo salgada por tentações constantes, torna-se imediatamente negligente e dissoluta * "Todo sacrifício será salgado com sal" ([[b>Levítico 2:13]]) * Paulo disse: "E para que eu não me exaltasse pela grandeza das revelações, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, para me esbofetear" (2 Cor 12,7) * De Ressa chega-se a "Macelate" ([[b>Números 33:22]]; RSV Queelata), que significa "principado" ou "cajado": a alma progrediu a ponto de dominar o corpo e ter poder não apenas sobre ele mas sobre o mundo inteiro, pois "o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo" ([[b>Gálatas 6:14]]). * De lá chega-se ao "Monte Separ" ([[b>Números 33:23]]; RSV Sefer), chamado "som de trombetas": a trombeta é sinal de guerra; quando a alma se sente armada de tantas virtudes eminentes, necessariamente vai ao combate "contra os principados e poderes, e contra os príncipes deste mundo" ([[b>Efésios 6:12]]) * A trombeta também soa na Palavra de Deus, na palavra da pregação e do ensino, para dar "som significativo pela trombeta" de modo que "quem a ouve possa se preparar para a guerra" ([[b>1 Coríntios 14:8]]) * Chega-se a "Caradate" ([[b>Números 33:24]]; RSV Haradá), que significa "tornado competente": "Ele nos tornou competentes para sermos ministros de uma nova aliança" (2 Cor 3,6) * De Caradatate faz-se uma etapa em "Macelote" ([[b>Números 33:25]]; RSV Machelote), que se traduz como "desde o princípio": quem se esforça pela perfeição contempla o princípio das coisas, referindo tudo a "aquele que estava no princípio" ([[b>João 1:1]]) e nunca se separa desse princípio. * Faz-se uma etapa em "Cataate" ([[b>Números 33:26]]; RSV Taate), que é "encorajamento" ou "perseverança": é necessário para quem quer ser útil aos outros suportar muitas coisas pacientemente — "Te mostrarei quanto ele deve suportar pelo meu nome" ([[b>Atos 9:16]]), disse-se de Paulo * Chega-se a "Tará" ([[b>Números 33:27]]; RSV Terá), compreendido como "contemplação de espanto": o grego ekstasis não pode ser expresso com uma única palavra em latim — é quando a mente fica admirada por alguma grande realidade, o que significa um tempo em que a mente atônita se maravilha pelo conhecimento de coisas grandes e admiráveis * Chega-se a "Matecá" ([[b>Números 33:28]]; RSV Mitcá), que se traduz como "nova morte": a nova morte é quando "morremos juntos com Cristo e somos sepultados juntos com Cristo, para que também vivamos juntos com ele" (2 Tm 2,11; cf. [[b>Romanos 6:4]]). * Chega-se a "Asemná" ([[b>Números 33:29]]; RSV Hasmona), que significa "boca" ou "ossos": por meio dessas coisas revela-se a virtude e a força da perseverança * Faz-se uma etapa em "Mesorote" ([[b>Números 33:30]]; RSV Moserote), que significa "aquele que exclui": excluem-se as sugestões malignas do espírito adversário dos próprios pensamentos — "Se o espírito daquele que tem poder se levantar contra ti, não abandones o teu lugar" ([[b>Eclesiastes 10:4]]) — o lugar deve ser mantido e o adversário excluído, para que não encontre lugar no coração, pois "não deis lugar ao diabo" ([[b>Efésios 4:27]]) * Chega-se a "Baneain" ([[b>Números 33:31]]; RSV Bene-Jaacã), que significa "fontes" ou "filtros", onde se bebe e filtra as palavras divinas: a palavra "filtrar" (Lat. excolat) vem de colare (coar), não de colere (cultivar); assim, a pessoa filtra a palavra de Deus quando não passa sobre sequer "o menor mandamento", nem considera supérfluo ao seu entendimento "um iota ou um ponto" da palavra de Deus (cf. [[b>Mateus 5:18-19]]) * Chega-se a "Galgade" ([[b>Números 33:32]]; RSV Hor-Haguidgade), que se traduz como "tentação" ou "algo compactado": a tentação é um tipo de força e defesa para a alma, tão entrelaçada com as virtudes que nenhuma virtude parece conveniente ou completa sem ela. * Por isso há etapas variadas e frequentes envolvendo tentações para os que progridem na virtude * Acampa-se em "Tabatá" ([[b>Números 33:33]]; RSV Jotbatá), que se traduz como "coisas boas": não se chega às coisas boas exceto após a experiência das tentações * "Acamparam em Ebrona" ([[b>Números 33:34]]; RSV Abrona), que é "passagem": tudo deve ser passado, pois mesmo ao chegar às coisas boas é necessário passar para as melhores, até chegar ao bem em que se deve sempre permanecer * Chega-se a "Gasiongaber" ([[b>Números 33:35]]; RSV Eziom-Geber), que se traduz como "os conselhos de um homem": ao cessar de ser criança no entendimento, chega-se aos conselhos de um homem — "Quando me tornei homem, pus de lado as coisas da infância" ([[b>1 Coríntios 13:11]]); "O conselho no coração de um homem é água profunda" ([[b>Provérbios 20:5]]) * Chega-se novamente a "Sin" ([[b>Números 33:36]]; RSV Zim), que é novamente "tentação": não há outro modo de clarear o caminho para entrar nesta jornada, assim como o ourives que quer fazer um vaso necessário leva-o frequentemente ao fogo, bate-o repetidamente com seus martelos e alisa-o com facas para que se purifique mais e alcance a forma que procura. * Acampa-se em "Farancades" ([[b>Números 33:36]]; RSV Cades), que é "fecundidade santa": a fecundidade santa segue os sulcos das tentações * Acampa-se no "Monte Or" ([[b>Números 33:37]]; RSV Monte Hor), que se traduz como "montanhês": chega-se à montanha de Deus para tornar-se uma "montanha rica e túrgida" ([[b>Salmos 68:15]]; cf. [[b>Salmos 68:15]] Lat. tumida) — ou deriva do fato de que quem sempre habita na montanha de Deus é chamado montanhês * A etapa em "Selmona" ([[b>Números 33:41]]; RSV Zalmona) segue após o Monte Or, traduzindo-se como "sombra da porção": a sombra de que fala o profeta é "O Espírito de nossa face é Cristo Senhor, sob cuja sombra viveremos entre as nações" ([[b>Lamentações 4:20]]). * Semelhante a essa é a sombra sobre a qual se diz: "O Espírito do Senhor te cobrirá com sua sombra" ([[b>Lucas 1:35]]) * A sombra da porção, que oferece sombra contra todo o calor das tentações, é Cristo Senhor e o Espírito Santo * Chega-se a "Finon" ([[b>Números 33:42]]; RSV Punon), que se pensa traduzir como "brevidade da boca": quem pode contemplar o mistério de Cristo e do Espírito Santo, mesmo que veja ou ouça coisas "que não é lícito aos homens falar" (2 Cor 12,4), terá necessariamente brevidade da boca, pois sabe a quem, quando e como deve falar dos mistérios divinos * Chega-se a "Obote" ([[b>Números 33:43]]), cujo nome não foi traduzido, mas não há dúvida de que também nele, como em todos os outros, preserva-se o sentido racional das progressões. * Segue-se a etapa chamada "Gaí" ([[b>Números 33:44-45]]; RSV Iye-Abarim ou Iyim), que se traduz como "abismo" (Lat. chaos) * Por meio dessas progressões aproxima-se do "seio de Abraão", que diz aos que estão nos tormentos: "Entre nós e vós há um grande abismo fixado" ([[b>Lucas 16:26]]) * A alma repousa também no seu seio, como o bem-aventurado Lázaro * Chega-se a "Dibon-Gade" ([[b>Números 33:45]]), que significa "colmeia das tentações": o viajante celeste está muito próximo da mais alta perfeição por uma sucessão de virtudes, e ainda assim as tentações não o abandonam. * A Escritura descreve a abelha como criatura louvável: reis e plebeus se servem de seus trabalhos para a saúde (cf. [[b>Provérbios 16:24]]) * Isso se entende devidamente das palavras dos profetas, dos apóstolos e de todos os que escreveram os livros sagrados — a colmeia é o cânon inteiro (ou "enumeração") das Escrituras divinas * Mesmo nessa colmeia há tentação para os que se esforçam pela perfeição: "Vede, quando virdes o sol e a lua, não adoreis essas coisas, que o Senhor vosso Deus reservou para as nações" ([[b>Deuteronômio 4:19]]) * "Não blasfemarás os deuses" ([[b>Êxodo 22:28]]) * Na colmeia do Novo Testamento: "Por que quereis matar-me, a mim que vos disse a verdade?" ([[b>João 8:40]]) * "Por isso lhes falo em parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam, para que não se convertam e eu os cure" ([[b>Mateus 13:13-15]]) * "Neles o deus deste mundo cegou as mentes dos incrédulos" (2 Cor 4,4) * É necessário que cada um dos santos chegue a essa colmeia, para que mesmo por meio dessas coisas se saiba quão perfeitamente e religiosamente pensa sobre Deus * Chega-se a "Gelmon Deblathaim" ([[b>Números 33:46]]; RSV Almom-Diblatáim), que se traduz como "desprezo dos figos": ali as coisas terrenas são completamente desprezadas e vilipendiadas, pois sem desprezar e tratar com desprezo o que parece deleitar na terra não se pode passar às coisas celestiais. * Segue-se a etapa em "Abarim em frente a Nabau" ([[b>Números 33:47]]; RSV Abarim, Nebo): a primeira palavra significa "passagem", mas Nabau se traduz como "separação" * Quando a alma percorreu todas essas virtudes e subiu ao cume da perfeição, ela então "passa" do mundo e "se separa" * Isso é o que foi escrito de Enoque: "E não foi encontrado, porque Deus o havia transportado" ([[b>Gênesis 5:24]]) * Alguém assim, mesmo parecendo ainda estar no mundo e habitar na carne, não é "encontrado" em nenhuma atividade mundana, em nenhum assunto carnal, em nenhuma conversa inútil — Deus o "transportou" dessas coisas e o estabeleceu no reino das virtudes * A última etapa é "a leste de Moab, junto ao Jordão" ([[b>Números 33:48]]): o motivo por que essa corrida acontece é para que se possa alcançar o rio de Deus, habitar junto à sabedoria fluente e ser regado pelas ondas do conhecimento divino, sendo assim purificado para merecer entrar na Terra Prometida. * Essas são as coisas tocadas en passant sobre as etapas dos israelitas segundo um método de exposição * A exposição que se apoia no significado dos termos hebraicos pode parecer artificialmente forçada aos que não conhecem as convenções dessa língua * Há um jogo literário no qual os meninos recebem os primeiros elementos da educação e são chamados "abecedários", "silabários", "nominadores" e "contadores"; pelos nomes dos tópicos percebe-se o progresso de cada jovem nas artes liberais. * Da mesma forma, pelos nomes dos lugares nas etapas podem ser indicados graus de progresso para os que aprendem pelas instruções divinas * Assim como os estudantes parecem demorar em cada tópico diferente e fazer como que etapas neles, passando de um a outro, assim também os nomes das etapas e a progressão de um para outro indicam o progresso da mente e o crescimento das virtudes * A outra vertente da exposição é deixada para ser inferida e contemplada pelos prudentes, pois basta ter dado oportunidades aos sábios (cf. [[b>Provérbios 9:9]]), não sendo conveniente que as mentes dos ouvintes permaneçam completamente ociosas e preguiçosas. * "Deus não dá o Espírito por medida" ([[b>João 3:34]]) mas porque "o Senhor é Espírito" (2 Cor 3,17) "sopra onde quer" ([[b>João 3:8]]) * O desejo expresso é que o Senhor inspire também os ouvintes para que percebam coisas melhores e mais elevadas nas palavras do Senhor, ao fazerem sua jornada pelos lugares descritos segundo a mediocridade do pregador * Que o Senhor Jesus Cristo, que é "o caminho, a verdade e a vida" ([[b>João 14:6]]), conduza até o Pai, "quando entregar o reino a Deus Pai" (cf. [[b>1 Coríntios 15:24]]) e sujeitar todo principado e poder — "A ele seja a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém" (1 Pd 4,11)