===== 7ª CENTÚRIA SOBRE TEOLOGIA ===== //Resumo dos parágrafos// - A razão segundo a natureza eleva pela virtude quem pratica, o intelecto conduz pela contemplação quem busca conhecimento, e a paixão contra a razão rebaixa à percepção sensível quem negligencia os mandamentos. - A virtude é o estado estável e impassível em relação ao bem, marcado pela impressão de Deus, enquanto o conhecimento atual de Deus transforma o conhecedor segundo o Espírito. - Cada criatura tem na razão sua origem, na busca da Causa sua norma e na imitação da Causa sua medida, de modo que o desejo que excede ou contraria essa medida não alcança Deus. - O intelecto elevado a Deus abandona toda razão dos seres e permanece em uma ignorância superior, pois contempla somente Deus de modo inexprimível. - A boria nasce da composição de soberba e vanglória, negando Deus como causa da virtude e deformando a natureza e a virtude. - A soberba nega Deus como origem da natureza e da virtude, a vanglória divide a natureza, e a boria reúne ambas em uma ignorância voluntária da igualdade natural de honra. - A boria despreza Deus e aliena-se da natureza, blasfemando contra a providência e deformando pelo abuso a beleza natural. - O vento ardente significa tanto as tentações quanto o abandono divino que priva dos carismas, enquanto a afinidade espiritual solta a vontade da carne e a conduz a Deus. - A lei natural persuade todos a socorrer quem precisa e a fazer aos outros aquilo que se deseja receber, desde que a razão não seja dominada pela percepção sensível. - A lei natural harmoniza as relações voluntárias de todos, e a lei escrita educa pelo temor até transformar a justiça em hábito e produzir amor recíproco. - A lei escrita impede a injustiça pelo temor, acostuma à justiça e gera, com o tempo, uma disposição amorosa para o bem. - A lei da graça ensina a imitar Deus, que por amor assumiu a condição humana e deificou a humanidade, chamando cada um a cuidar do outro mais do que de si mesmo. - A lei da natureza submete a percepção sensível à razão, a lei escrita acrescenta o desejo espiritual que une os semelhantes, e a lei da graça transforma a natureza para a deificação. - Considerar o próximo como a si mesmo corresponde ao cuidado por sua existência, amá-lo como a si mesmo corresponde ao cuidado por seu bem, e amá-lo mais que a si mesmo pertence à lei da graça. - Quem resiste aos pretextos corporais do prazer aprende a providência que limita as paixões, e quem aceita as dores corporais aprende o juízo que purifica pelas penas involuntárias. - O profeta entristecido pela tenda e pela aboboreira mostra a preferência humana pela carne e pelo prazer, enquanto Deus se ocupa daquilo que verdadeiramente existe e ama. - A rigorosa ciência das palavras do Espírito é revelada apenas aos dignos que purificaram o intelecto pelas virtudes e o tornaram espelho limpo para a impressão das coisas divinas. - O intelecto formado pela ciência no Espírito experimenta as coisas divinas por graça e participação, enquanto o simples aprendizado não concede o hábito verdadeiro do conhecimento. - O intelecto purificado pelas virtudes recebe delas suas razões e assume forma pela ciência em Espírito, enquanto as paixões o deformam pela ignorância. - Quem decai da caridade divina é dominado pelo prazer da lei da carne e troca a vida espiritual, a virtude e o reino pela ignorância. - Quem não penetra a beleza espiritual escondida na letra da lei gera apego voluntário ao mundo, porque permanece preso à expressão exterior da Escritura. - A vergonha da boca significa a ocupação do intelecto com pensamentos de amor ao mundo e ao corpo, nascidos da leitura exterior e corpórea da lei. - A vergonha da boca também significa o movimento do intelecto que dá forma sensível às paixões, fornecendo-lhes matéria adequada por meio da percepção. - Quem interpreta sacrifícios, festas, sábados e luas novas como ordenações para o repouso do corpo cai sob as paixões e se torna incapaz de estimar o incorruptível. - Quem toma a moleza corporal como mandamento divino transforma a gula em dom de Deus e gera costumes que contaminam os sentidos. - A potência contemplativa da alma se perverte quando toma a moleza literal da lei como divina e, assim, gera paixões e abusos dos sentidos. - Quem se dedica apenas ao culto corporal da lei não alcança as razões naturais dos seres, pois confunde símbolos legais com a própria natureza. - Quem faz do ventre um deus e da vergonha uma glória adere às paixões como se fossem divinas e destrói as razões naturais pela mistura entre sensibilidade e matéria. - Quem não crê que a Escritura é espiritual não percebe a própria carência de conhecimento e sofre a fome dos alimentos espirituais que fortalecem a alma. - A verdadeira fome atinge a alma que conheceu a verdade e depois se escravizou às figuras da letra, alimentando a percepção sensível com fantasias passionais. - Quem não se aproxima espiritualmente da Escritura rejeita a lei natural, a lei escrita e a lei da graça, ficando sem virtudes, sem sabedoria e sem esperança de deificação. - O intelecto que vê em Cristo busca sempre o rosto do Senhor, isto é, a contemplação verdadeira e a ciência das coisas divinas segundo a virtude. - O culto corporal da lei gera a matéria e a forma do pecado, enquanto a recepção espiritual da Escritura mata a ação pecaminosa, o consentimento e os hábitos sensuais. - A lei espiritual e o intelecto superam o culto literal e matam, pela contemplação natural, o abuso passional dos sentidos em relação às coisas temporais. - Sem contemplação natural, não se distingue entre os símbolos da lei e as realidades divinas, e a alma permanece presa ao corpo da Escritura em vez de alimentar-se de seu espírito. - A interpretação sensível e corporal da Escritura deve ser destruída pela contemplação natural, pois ela produz paixões e apego às coisas temporais. - A leitura meramente literal da lei ofende a verdade e impede a ascensão da alma das figuras à contemplação natural e às realidades divinas. - O sentido corporal da Escritura é destruído quando a prática e a contemplação natural matam a relação voluptuosa da alma com a matéria passageira. - A letra que mata deve ser morta pelo Espírito que vivifica, pois a corporeidade da lei não pode coexistir em ato com sua divindade espiritual. - A letra destrói e o Espírito vivifica, de modo que a ação da letra não pode subsistir juntamente com a ação vivificante do Espírito. - A circuncisão mística é a recisão total da relação passional do intelecto com os seres sujeitos à origem contingente, e não uma mutilação natural. - A circuncisão corporal deve ser entendida como figura da retirada da disposição passional da alma, realizada pela ciência e pela força racional da prática. - O sábado significa repouso das paixões, cessação do movimento intelectual em torno dos seres e passagem completa ao divino. - A coroa de bondade é a fé pura adornada por doutrina e razões espirituais, ou o próprio Verbo que circunda o intelecto e o embeleza pela deificação. - A continência é obra da providência porque purifica paixões voluntárias, e a paciência é obra do juízo porque resiste às tentações involuntárias. - Deus não mandou honrar dias como criaturas, mas revelou simbolicamente que ele próprio é o sábado, a Páscoa e a Pentecostes. - O mundo é lugar finito e o tempo é movimento circunscrito, mas a natureza unida à providência supera lugar e tempo. - A natureza no mundo move-se temporalmente e muda, mas, ao chegar a Deus, recebe posição imóvel e movimento estável em torno da Causa primeira. - A Pentecostes simboliza a unção imediata da providência, a união da natureza com o Verbo e a transformação em imortalidade. - Os sacrifícios não consistem em sangue agradável a Deus, mas no abate das paixões e na oferta das potências naturais. - Os sacrifícios espirituais incluem a morte das paixões, o esvaziamento da vida carnal e a oferta das potências naturais no fogo da graça. - O sentido terrestre da Escritura destrói as razões naturais, mas os pensamentos segundo a natureza, fortalecidos pela lei do Espírito, matam as paixões. - Quem segue racionalmente a filosofia das virtudes passa à interpretação espiritual da Escritura e cultua Deus na novidade do Espírito. - Quando cessa a recepção corporal da Escritura, o intelecto passa pela natureza ao Espírito e realiza espiritualmente o que provoca ira quando feito corporalmente. - O intelecto elevado segundo Deus destrói a operação das paixões, os pensamentos torpes e os abusos dos sentidos por meio da contemplação sublime. - A graça do batismo e a obediência aos mandamentos aniquilam a força do pecado, isto é, o sentir da carne. - A gula destrói os germes das virtudes, privando a temperança, a justiça e o amor ao homem de seus frutos. - A gula, que elimina os germes divinos das virtudes, é morta pela graça da fé e pela obediência racional aos mandamentos. - O Senhor é luz das gentes porque abre os olhos da mente pela verdadeira ciência e se oferece como modelo de vida virtuosa. - Quem inveja e calunia o mais forte em virtude e conhecimento torna-se como Saul, sufocado por espírito maligno e incapaz de suportar a excelência alheia. - O intelecto assaltado pelas coisas materiais deve recorrer ao Davi espiritual, cuja contemplação expulsa o espírito maligno e revela a razão divina da lei. - Quem ama a salvação entrega-se à prática ou à contemplação, pois ninguém alcança salvação sem virtude e conhecimento. - Deus torna-se alimento inteligível para os seres incorpóreos que o pensam, iluminando-os interiormente e nutrindo seu intelecto. - O inteligível é alimento do inteligente, porque o que é pensado é superior e anterior àquele que pensa. - Os efeitos contêm imagens receptivas de suas causas, embora não exista semelhança plena entre causas e efeitos. - O intelecto compreende os inteligíveis por sua potência e une-se ao que está além dele por uma unidade transcendente à própria natureza intelectual. - Quando compreende algo, o intelecto desce às intelecções, mas sua unidade o leva além de si mesmo rumo à contemplação de Deus. - O ser inteligente compreende, ama, é arrebatado pelo objeto amado e se entrega inteiramente a ele, como ar iluminado pela luz ou ferro incandescido pelo fogo. - Os efeitos não se assemelham precisamente às causas, mas contêm imagens delas, enquanto as causas preexistem essencialmente acima dos efeitos. - Todas as coisas criadas são efeitos, e as causas que as produzem são as três hipóstases da santa Trindade, sem semelhança plena entre ambas. - O homem, composto de alma e corpo, é delimitado pelas realidades sensíveis e inteligíveis, enquanto Deus permanece ilimitado e sem relação acima de tudo. - Todo prazer proibido nasce da paixão mediante a percepção sensível e algum objeto sensível, enquanto os santos unem a carne a Deus pela virtude. - Os santos atravessaram o mundo unindo a percepção ao intelecto pela razão e conduzindo o intelecto a Deus, até receberem a imagem do homem celeste. - Deus e o homem são modelos um do outro, pois Deus se faz homem por amor e o homem se deifica por amor, manifestando Deus pelas virtudes. - Quem mortificou o sentir carnal e rompeu a relação com a carne torna-se sem pai, sem mãe e sem genealogia, como Melquisedeque, por sua união com o Espírito. - O fim da vida presente não é propriamente morte, mas libertação da morte e termo de todos os males para aqueles que se mortificaram voluntariamente. - A natureza revela que o conhecimento da providência está semeado em nós, pois nas dificuldades repentinas somos impelidos espontaneamente à oração. - O bem futuro chama-se desejo, o bem presente chama-se prazer, o mal futuro chama-se temor e o mal presente chama-se tristeza. - Toda tristeza é por natureza um mal, embora o homem bom se entristeça por misericórdia e o contemplativo permaneça impassível por estar unido a Deus. - Os santos atravessaram o século sem se prender às delícias presentes, abrindo o intelecto às razões superiores da bondade e do amor de Deus. - A alma inteligente e racional possui intelecto, intelecção e conceito, sendo o conceito o termo que delimita a relação entre quem pensa e o pensado. - A luz inteligível reúne os iluminados, retira-os da multiplicidade das opiniões e os conduz a uma ciência una, verdadeira e simples. - O belo é uma só coisa com o bem, pois todos os seres participam deles e os desejam como aquilo que é admirável, amável e escolhido. - O divino é chamado eros, caridade, amável e diletíssimo, pois produz amor nos seres capazes de amar e atrai seu desejo para si. - O eros divino é extático porque faz os amantes pertencerem ao amado, como Paulo já não vive por si, mas por Cristo. - A Causa de todas as coisas sai de si por suas providências, movida por sua bondade extática e por seu eros pelos seres. - Deus é origem e pai da caridade e do eros, movendo todas as coisas para si por ser o próprio amável, desejável e escolhido. - Deus seduz e move à união amorosa no Espírito, mediando a união de cada ser com ele segundo a razão própria de cada criatura. - O movimento amoroso do bem procede do bem e retorna a ele sem princípio nem fim, explicando o movimento contínuo do desejo divino. - O amor, em todos os níveis, é potência unitiva que move os superiores a prover os inferiores, os iguais à comunhão e os inferiores à conversão para o mais alto. - A ciência une conhecedor e conhecido, enquanto a ignorância divide; por isso a verdadeira fé conserva o crente imóvel e imutável no fundamento da verdade. - Os santos foram bons, compassivos e humildes, mantendo uma única disposição para com a humanidade e vencendo tentações voluntárias pela continência e involuntárias pela paciência. - A prática perfeita das virtudes nasce da fé reta e do temor de Deus, a contemplação natural nasce da esperança e da inteligência, e a deificação nasce do amor perfeito. - A filosofia prática purifica o intelecto das fantasias passionais, a contemplação natural o torna experiente nas razões dos seres, e a teologia mística o assemelha a Deus pela graça. - Os elementos do mundo sensível correspondem às virtudes no mundo da mente: éter à prudência, ar à fortaleza, água à temperança e terra à justiça. - Quando a carne se fortalece, a alma se obscurece pelas paixões; quando a alma resplandece em virtude e conhecimento, o homem exterior se enfraquece. - O homem só poderia tornar-se filho de Deus e deus por graça mediante uma geração voluntária no Espírito, que o primeiro homem negligenciou ao preferir o prazer sensível. - O primeiro homem deveria mover-se apenas para Deus, sem ser distraído por paixões, artes necessárias ou investigação da natureza. - O primeiro homem não possuía mediação entre si e Deus, pois era impassível por graça, livre de necessidade e superior à consideração da natureza. - Deus semeou em cada ser racional o conhecimento dele e concedeu aos homens desejo e eros naturais por si, para que buscassem na criação a verdade, a sabedoria e a ordem que conduzem a ele.