===== 4ª CENTÚRIA ===== //Resumo dos parágrafos// - Primeiramente, o intelecto permanece admirado considerando a absoluta infinitude divina e aquele desejadíssimo oceano sem saída; depois, fica atônito perguntando como ele tirou do nada a existência dos seres; e assim como não há limite para a sua magnificência, do mesmo modo a sua sabedoria é ininvestigável. - Como não admirar contemplando aquele desmedido oceano de bondade que supera todo espanto, e como não sair de si considerando como e donde veio a essência racional e inteligente e os quatro elementos (dos quais são compostos os corpos), sem que existisse matéria alguma antes da sua origem, sendo tamanha a potência que, passando ao ato, trouxe estas coisas à existência, coisa que os discípulos dos gregos não admitem por ignorarem a bondade onipotente e a sua ativa sabedoria e ciência que transcendem o intelecto? - Desde a eternidade Deus é criador e, quando quer, cria com o Verbo consubstancial e com o Espírito por infinita bondade; e não se deve perguntar por que razão criou agora se sempre foi bom, pois a sabedoria ininvestigável da essência infinita não está sujeita ao conhecimento humano. - Ao conhecimento dos seres preexistente nele desde a eternidade, o Criador deu, quando quis, a essência e os produziu à existência, sendo absurdo duvidar que Deus onipotente possa formar uma essência quando quer. - Busca-se por qual causa Deus criou (pois isto é conhecimento), mas não se busca como e por que ele criou agora, pois isto não está ao alcance do intelecto humano, já que entre as coisas divinas umas são compreensíveis e outras incompreensíveis aos homens, e contemplar sem freios poderia fazer cair em precipícios. - Alguns dizem que desde a eternidade as criaturas coexistem com Deus, o que é impossível, pois como podem coexistir desde a eternidade com aquele que é absolutamente infinito aquelas coisas que são absolutamente finitas, e como podem ser verdadeiramente criaturas se são coeternas com o Criador, sendo este o discurso dos gregos que fazem de Deus criador apenas de qualidades e de nenhum modo da essência, ao passo que nós, que conhecemos o Deus onipotente, dizemos que ele é criador não de qualidades, mas de essências dotadas de qualidades, e assim as criaturas não coexistem com Deus desde a eternidade. - O divino e as realidades divinas são em parte cognoscíveis (no que se contempla a seu respeito) e em parte incognoscíveis (no que é em si mesmo). - Não se buscam hábitos e propriedades na essência simples e infinita da santa Trindade, para não fazer dela um ser composto como as criaturas, pois pensar assim de Deus é absurdo e ímpio. - Una, simples, uniforme, sem qualidades, pacífica e tranquila é a essência infinita, onipotente e criadora de todos os seres, enquanto cada criatura é composta de essência e acidente e tem contínua necessidade da providência divina por não estar livre de mudança. - Toda essência inteligente e toda essência sensível recebeu de Deus, quando foi trazida à existência, potências aptas a compreender os seres: a essência inteligente recebeu os conceitos, e a essência sensível recebeu as sensações. - Deus é apenas participado; a criatura participa e comunica: participa do ser e comunica somente o ser-bem, mas a essência corpórea de um modo e a incorpórea de outro. - A essência incorpórea comunica o ser-bem falando, agindo e quando é contemplada; a essência corpórea, porém, comunica o ser-bem somente quando é contemplada. - O ser sempre e o não ser da essência inteligente e racional dependem da vontade daquele que criou todas as coisas boas, mas o ser algumas boas ou más por determinação da vontade depende da vontade das criaturas. - O mal não se contempla na essência das criaturas, mas no movimento errôneo e irracional. - A alma se move conforme a razão quando a sua parte concupiscível é qualificada pela continência, a parte irascível, repudiado o ódio, persiste no amor, e a parte racional se eleva a Deus mediante a oração e a contemplação espiritual. - Não tem ainda um amor perfeito nem conhecimento profundo da providência divina aquele que, no tempo da tentação, não é paciente nas penas que lhe sobrevêm, mas se separa do amor para com os irmãos espirituais. - O objetivo da divina providência é unificar, por meio da reta fé e do amor espiritual, aqueles que foram variadamente divididos pela malícia, sendo que o Salvador padeceu exatamente para reunir em um os filhos de Deus dispersos; portanto, quem não tolera os incômodos, não suporta as penas e não sofre os trabalhos caminha fora do divino amor e do propósito da providência. - Se o amor é paciente e benigno, aquele que é pusilânime nas penas que lhe sobrevêm e por isso é mau com os que o afligiram e se separa do amor por eles não vem a faltar ao propósito da divina providência. - Cuida de ti mesmo para que o mal que te separa do irmão não se encontre em ti antes que nele, e apressa-te a reconciliar-te com ele para não faltares ao mandamento da caridade. - Não desprezes o mandamento da caridade, pois por seu intermédio serás filho de Deus, mas se o transgredires serás achado filho da geena. - O que separa do amor pelos amigos é isto: invejar ou ser invejado, danificar ou sofrer dano, desonrar ou ser desonrado, e finalmente os pensamentos que nascem da suspeita; oxalá nunca tenhas feito ou sofrido algo assim para seres separado do amor do amigo. - Sobrevém-te uma tentação por parte do irmão e a tristeza te levou ao ódio? Não te deixes vencer pelo ódio, mas vence o ódio com o amor, e vencerás deste modo: orando sinceramente a Deus por ele, aceitando as suas desculpas, ou curando-o tu mesmo pedindo-lhe desculpa, considerando-te causa da sua tentação e esperando com paciência que passe a nuvem. - É paciente quem espera o fim da tentação e obtém a vantagem da constância. - O homem paciente é grande na prudência porque relaciona tudo o que lhe acontece com o fim e, esperando este fim, suporta as penas; o fim é a vida eterna, segundo o Apóstolo, e esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo. - Não sejas fácil a perder o amor espiritual, pois não foi deixada aos homens outra via de salvação. - Aquele que ontem julgavas irmão espiritual e virtuoso, não o julgues mau e malvado por causa do ódio produzido em ti hoje pela insolência do Maligno; mas, com o amor paciente, pensando no bem de ontem, rejeita da alma o ódio de hoje. - Daquele que ontem louvavas como bom e elogiavas como virtuoso, não fales mal hoje como de um mau e malvado, pois em ti o amor se transformou em ódio, tomando como desculpa do mau ódio que está em ti a censura do irmão; insiste em elogiá-lo como antes, mesmo que ainda estejas dominado pela tristeza, e assim facilmente retornarás ao mesmo amor salvífico. - Na conversa com os outros irmãos, não estragues o costumeiro louvor do irmão misturando sub-repticiamente a repreensão às tuas palavras por causa da tristeza contra ele que ainda se esconde em ti; ao contrário, na conversa louva-o com pureza e ora sinceramente por ele como por ti mesmo, e assim serás o mais breve possível libertado do ódio letal. - Não digas "não odeio o irmão" se te afastas da sua lembrança; ouve antes Moisés que diz: "Não odiarás o teu irmão no teu pensamento; repreenderás abertamente o teu irmão e não incorrerás por ele em pecado". - Se acontece que um irmão é tentado e insiste em falar mal de ti, não te deixes levar para fora do estado de caridade, perturbado no pensamento pelo mesmo demônio mau, e não serás levado para fora se, insultado, abençoares, e caluniado, pensares bem; este é o caminho da filosofia que é conforme a Cristo, e quem não o percorre não permanece com ele. - Não consideres benevolos, mesmo que pareçam dizer a verdade, aqueles que te fazem discursos que produzem em ti tristeza e ódio contra o irmão; ao contrário, deves rejeitá-los como serpentes mortíferas para impedir que eles falem mal e para libertar a tua própria alma da maldade. - Não firas o irmão com discursos ambíguos, para não receberes dele outros iguais e assim banirdes de ambos a disposição de amor; mas, indo a ele, repreende-o com amorosa franqueza para que, dissolvidas as causas da tristeza, libertes a ti mesmo e a ele do turbamento e da tristeza. - Examina a tua consciência com o máximo rigor: não poderia ser por tua causa que o irmão não se reconciliou? E não procures enganar a consciência, ela que conhece as tuas coisas secretas, que te acusará no momento da tua partida e te serve de tropeço no tempo da oração. - Não recordes em tempo de paz as palavras ditas pelo irmão no tempo da tristeza, quer estas coisas penosas te tenham sido ditas em face, quer tenham sido ditas a outro a teu respeito e tu as tenhas ouvido depois; arriscar-te-ias, por não suportares o rancor dos teus pensamentos, a voltar-te ao ódio letal contra o irmão. - Uma alma racional que nutra ódio contra um homem não pode estar em paz com Deus, que deu os mandamentos, pois se não perdoardes aos homens as suas culpas, também vosso Pai celeste não vos perdoará as vossas culpas; se porém aquele não quer fazer as pazes, tu guarda-te do ódio, orando por ele sinceramente e não falando mal dele com ninguém. - A suma paz dos santos anjos é sustentada por estas duas disposições: amor a Deus e amor recíproco, e assim é para todos os santos desde sempre; portanto, está dito muito bem: "Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas". - Não te comprazas a ti mesmo e não odiarás o irmão; não sejas amante de ti mesmo e serás amante de Deus. - Se escolheste viver com irmãos espirituais, renuncia às tuas vontades antes de entrar pela porta, pois não poderás encontrar paz de nenhum outro modo, nem com Deus nem com os teus companheiros. - Quem pôde obter o amor perfeito e, em relação a ele, estruturou toda a sua vida, esse diz "Senhor Jesus" em Espírito santo. - A caridade para com Deus sempre ama dar asas ao intelecto para a comunhão com Deus; o amor para com o próximo dispõe a pensar sempre bem dele. - Quem ainda ama a vanglória ou está apegado a alguma das coisas materiais se entristece com os homens por motivos temporais, ou lhes guarda rancor, ou os tem em ódio, ou é escravo de pensamentos torpes; mas isso é completamente estranho à alma que ama a Deus. - Quando não dizes e não fazes nada torpe com o pensamento e não guardas rancor a quem te danificou ou falou mal de ti, e quando no tempo da oração o teu intelecto está sempre livre de matéria e forma, então sabe que chegaste à medida da impassibilidade e do amor perfeito. - Não é combate pequeno libertar-se da vanglória; liberta-se dela mediante a secreta atividade das virtudes e uma oração muito assídua, e o sinal da libertação é não ter mais rancor por quem disse ou diz mal de nós. - Se queres ser justo, dá a cada uma das partes que estão em ti o que lhe é devido, isto é, à alma e ao corpo: à parte racional da alma, leituras, contemplações espirituais e oração; à parte irascível, amor espiritual que se opõe ao ódio; à parte concupiscível, temperança e continência; à parte carnal, comida e vestes, somente as coisas indispensáveis. - O intelecto opera segundo a natureza quando mantém submetidas as paixões, contempla as razões das coisas e se eleva a Deus. - Assim como saúde e doença pertencem ao corpo do ser vivo, e luz e trevas pertencem ao olho, do mesmo modo virtude e vício pertencem à alma, e conhecimento e ignorância pertencem ao intelecto. - O cristão é filósofo nestas três coisas: nos mandamentos, nas doutrinas e na fé, pois os mandamentos separam o intelecto das paixões, as doutrinas o introduzem ao conhecimento dos seres, e a fé à contemplação da santa Trindade. - Alguns dos que lutam repelem apenas os pensamentos passionais (por exemplo, com a salmodia, a oração, a elevação da mente ou alguma distração apropriada), enquanto outros cortam também as paixões (desprezando as próprias coisas pelas quais se têm as paixões). - Estas são as coisas pelas quais temos paixões: mulher, riquezas, glória etc.; quanto à mulher, pode-se desprezá-la retirando-se à solidão e macerando o corpo como se deve mediante a continência; quanto às riquezas, persuadindo o próprio pensamento a contentar-se em tudo; quanto à glória, amando a atividade secreta das virtudes, visível somente a Deus; quem despreza tais coisas nunca chegará ao ódio contra ninguém. - Quem renunciou às coisas (como à mulher, às riquezas etc.) tornou monge o homem exterior, mas não ainda o interior; quem renunciou aos seus conceitos passionais tornou monge o homem interior, isto é, o intelecto; ora, pode-se facilmente tornar monge o homem exterior, se o quiser, mas não é combate pequeno tornar monge o homem interior. - Quem, pois, nesta geração se libertou completamente dos conceitos passionais e foi dignificado continuamente com a oração pura e imaterial (o que é sinal do monge interior)? - Muitas paixões estão escondidas nas nossas almas, mas é com o aparecimento das coisas que se manifestam. - Alguém pode não ser atormentado pelas paixões na ausência das coisas, alcançando uma impassibilidade parcial; mas quando as coisas aparecem, imediatamente as paixões agitam o intelecto. - Não penses possuir perfeita impassibilidade quando a coisa não está presente; mas se, mesmo quando ela aparece, permaneces inamovível, tanto em relação à coisa quanto recordando-a depois, então sabe que chegaste dentro dos confins da impassibilidade, mas guarda-te de a desprezar, pois uma virtude que dura mata as paixões, enquanto se não for cuidada as desperta de novo. - Quem ama a Cristo certamente o imita, quanto lhe é possível; por exemplo, Cristo nunca cessou de beneficiar os homens e, tratado com ingratidão e blasfemado, suportava com paciência, sendo golpeado e morto pelos homens, sem imputar o mal a ninguém; estas três são as obras do amor ao próximo; quem sem elas diz amar a Cristo ou possuir o seu reino engana-se, pois não aquele que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, e aquele que me ama guardará os meus mandamentos. - Todo o objetivo dos mandamentos do Salvador está em libertar o intelecto da intemperança e do ódio e conduzi-lo ao amor por ele e pelo próximo, do qual nasce o esplendor da operação do santo conhecimento. - Se foste dignificado com um conhecimento parcial por parte de Deus, não descures o amor e a continência, pois eles, purificando a parte passional da alma, sempre te preparam o caminho do conhecimento. - O caminho para o conhecimento são a impassibilidade e a humildade, pois sem elas ninguém verá o Senhor. - Uma vez que o conhecimento incha, mas a caridade edifica, une ao conhecimento a caridade, e assim serás livre do inchaço e edificador espiritual, edificando tanto a ti mesmo como a todos os que se aproximam de ti. - O motivo pelo qual a caridade edifica é que ela não inveja nem se amargura com aqueles que lhe têm inveja, não ostenta em público o que é objeto de inveja e nem pensa ter já alcançado o objetivo, e sobre o que não sabe confessa sem vergonha a sua ignorância; assim, ela torna o intelecto livre do inchaço e o prepara a progredir sempre no conhecimento. - É de algum modo natural que ao conhecimento se acompanhem a presunção e a inveja, principalmente no início: a presunção apenas interiormente, a inveja tanto interior como exteriormente (interiormente, da nossa parte para com quem possui o conhecimento; exteriormente, da parte dos ignorantes para conosco); o amor, porém, derruba todas estas três paixões: a presunção porque não se incha, a inveja interior porque não inveja, e a inveja exterior porque é paciente e benigno; portanto, é necessário que quem possui o conhecimento lhe acrescente também o amor para custodiar o intelecto são de feridas em tudo. - Quem foi dignificado com o carisma do conhecimento, mas tem tristeza, rancor ou ódio contra um homem, é semelhante a alguém que fura os próprios olhos com espinhos e abrolhos; por isso o conhecimento tem necessariamente necessidade da caridade. - Não ponhas todo o teu esforço no que diz respeito à carne, mas fixa-lhe uma ascese segundo as tuas possibilidades e volta todo o teu intelecto às coisas interiores, pois o exercício do corpo é útil para pouco, mas a piedade é útil para tudo. - Quem está continuamente ocupado nas coisas interiores é temperante, paciente, benigno, humilde, e não só isso, mas também contempla, é teólogo e ora; isto é o que diz o Apóstolo: "Andai no Espírito". - Quem não sabe percorrer a via espiritual não se preocupa com os conceitos passionais, mas põe todo o seu esforço no que diz respeito à carne, e assim ou é guloso e dissoluto, se entristece, se irrita e guarda rancor, obscurecendo o intelecto, ou se dá sem medida à ascese e turva a mente. - A Escritura não exclui nada do que foi dado por Deus para ser usado, mas reprime o excesso e corrige a irracionalidade; por exemplo, não impede de comer, nem de gerar filhos, nem de ter bens e administrá-los com retidão, mas proíbe a gula, a fornicação etc., e não proíbe sequer de pensar nestas coisas (pois foram feitas também para isto), mas proíbe de pensar nelas com paixão. - Certos atos que praticamos segundo Deus são feitos em conformidade com um mandamento (como amar a Deus e ao próximo, amar os inimigos, não fornicar, não matar etc., cuja transgressão nos condena), enquanto outros não estão em conformidade com um mandamento, mas são quase uma oferta voluntária (como a virgindade, o celibato, a pobreza, a vida solitária etc.), sendo como dons para que, se por fraqueza não pudermos cumprir algum dos mandamentos de Cristo, mediante os dons nos tornemos propícios ao nosso bom Soberano. - Quem honra o celibato ou a virgindade necessariamente deve ter os rins cingidos e a lâmpada acesa: os rins mediante a continência, e a lâmpada mediante a oração, a contemplação e o amor espiritual. - Certos irmãos se consideram excluídos dos carismas do Espírito santo, pois não sabem, por causa da sua negligência na realização dos mandamentos, que quem tem uma fé genuína em Cristo tem em si mesmo todos os divinos carismas juntos; mas, por causa da preguiça, estamos longe do amor efetivo, que nos mostra os tesouros divinos que estão em nós, e justamente nos consideramos excluídos dos divinos carismas. - Se Cristo habita nos nossos corações mediante a fé, como diz o divino Apóstolo, e todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão nele escondidos, então todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão escondidos nos nossos corações e se revelam ao coração na medida da purificação alcançada por cada um mediante os mandamentos. - Este é o tesouro escondido no campo do teu coração, que ainda não encontraste por causa da tua preguiça: se de fato o tivesses encontrado, já terias vendido tudo e comprado este campo; ora, ao contrário, deixando o campo, cuidas do que está em volta do campo, onde não se pode encontrar senão espinhos e abrolhos. - Por isso o Salvador diz: "Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus"; eles verão a Deus e os tesouros nele escondidos quando se tiverem purificado mediante a caridade e a continência, e tanto mais o verão quanto mais tiverem levado adiante a sua purificação. - Por isso diz ainda: "Vendei o que possuís e dai esmola, e tudo será puro para vós", para que não nos ocupemos das coisas relativas ao corpo, mas nos ocupemos de purificar do ódio e da intemperança o intelecto que o Senhor chama coração, pois o ódio e a intemperança, manchando o intelecto, não permitem ver a Cristo que nele habita mediante a graça do santo batismo. - A Escritura chama as virtudes de "caminhos", e de todas as virtudes a maior é a caridade; por isso o Apóstolo dizia: "Vou mostrar-vos um caminho ainda mais excelente", pois ela convence a desprezar as coisas materiais e a não preferir nada do que é temporário ao que é eterno. - O amor a Deus opõe-se à concupiscência, pois persuade o intelecto a conter-se dos prazeres; o amor ao próximo opõe-se à ira, pois faz com que se desprezem a glória e a riqueza; estes são os dois denários que o Salvador deu ao estalajadeiro para que cuide de ti; não te mostres, porém, ingrato, unindo-te aos ladrões, para que não aconteça seres ferido de novo e seres achado não mais meio morto, mas morto de todo. - Purifica o teu intelecto da cólera, do rancor e dos pensamentos torpes, e então poderás conhecer a inabitação de Deus. - Quem te iluminou na fé da santa, consubstancial e adorável Trindade? Quem te fez conhecer a economia da encarnação de um da santa Trindade? Quem te ensinou as razões dos seres incorpóreos ou as razões da gênese e consumação do mundo visível, ou as da ressurreição dos mortos e da vida eterna, ou da glória do reino dos céus e do terrível juízo? Não foi porventura a graça de Cristo que habita em ti e que é o penhor do Espírito santo? Que coisa há maior do que esta graça? Que coisa é melhor do que esta sabedoria e conhecimento? Que coisa mais sublime do que estas promessas? Mas se somos preguiçosos e negligentes e não nos purificamos das paixões que nos mancham e que cegam o nosso intelecto, de modo a podermos ver mais claras do que o sol as razões destas coisas, devemos acusar a nós mesmos e não, ao contrário, negar a inabitação da graça. - Deus, que te prometeu os bens eternos e te deu no coração o penhor do Espírito, ordenou-te que cuides da tua vida para que o homem interior, libertado das paixões, comece desde já a gozar dos bens futuros. - Se foste dignificado com as divinas e sublimes contemplações, dá-te grande cuidado à caridade e à continência para que, custodindo imperturbada a parte passional, mantenhas inextinguível o esplendor da tua alma. - Refreia com o amor a parte irascível da alma e macera com a continência a sua parte concupiscível; à parte racional dá asas com a oração, e nunca se obscurecerá a luz do teu intelecto. - As coisas que dissolvem o amor são estas, por exemplo: desonra, dano, calúnia (quer acerca da fé, quer acerca da conduta), pancadas, feridas etc., quer seja sofrido pessoalmente, quer por parentes ou amigos; portanto, quem por causa destas coisas dissolve o amor ainda não conheceu qual é o objetivo dos mandamentos de Cristo. - Esforça-te quanto puderes para amar cada homem, e se ainda não o conseguires, pelo menos não odeies ninguém; mas nem isto podes fazer se não desprezares as coisas do mundo. - Alguém blasfemou? Não odeies a ele, mas a blasfêmia e o demônio que o impeliu a blasfemar; se odeias o blasfemador, odeias um homem e portanto transgrediste o mandamento, e o que aquele fez com a palavra tu o fazes com a ação; se, porém, observas o mandamento, mostra o que é próprio do amor e, se puderes, ajuda-o para libertá-lo do mal. - Cristo não quer que tenhas ódio contra um homem, nem tristeza, nem ira, nem rancor, de nenhum modo e por nenhuma coisa temporal; isto clamam de toda parte os quatro evangelhos. - Somos muitos a dizer, mas poucos a fazer; pelo menos, porém, ninguém deve adulterar a palavra de Deus para justificar a própria negligência, mas confessar a própria fraqueza e não esconder a verdade de Deus, para não nos tornarmos responsáveis, além da transgressão dos mandamentos, também da falsa interpretação da palavra de Deus. - O amor e a continência libertam a alma das paixões; a leitura e a contemplação libertam o intelecto da ignorância; mas o estado de oração o coloca diante do próprio Deus. - Quando os demônios nos veem desprezar as coisas do mundo para não odiar os homens por causa delas e faltar ao amor, então suscitam contra nós calúnias para que, não suportando a tristeza, nós odiemos os caluniadores. - Não há pena da alma mais pesada do que a calúnia, quer sejamos caluniados acerca da fé, quer acerca da conduta, e ninguém é capaz de não fazer caso dela senão quem tem o olhar fixo em Deus como Susana, em Deus que só ele pode libertar das angústias (como fez com Susana), dar certeza aos homens (como fez por ela) e confortar a alma com a esperança. - Quanto mais orares de coração por quem te caluniou, tanto mais Deus convence do verdadeiro aqueles que foram escandalizados. - Bom por natureza é somente Deus; bom por escolha voluntária é somente quem é imitador de Deus, cujo objetivo é unir àquele que é bom por natureza os que são maus, para que se tornem bons; por isso, quando é insultado por eles, abençoa; perseguido, suporta; ultrajado, conforta; morto, intercede; tudo faz para não faltar ao objetivo do amor, que é o nosso próprio Deus. - Os mandamentos do Senhor nos ensinam a usar racionalmente das coisas indiferentes; ora, o uso racional destas purifica o estado da alma, e o estado de pureza produz a impassibilidade, da qual é gerada a caridade perfeita. - Não tem ainda a impassibilidade quem, ao sobrevir uma tentação, não é capaz de fechar os olhos sobre a culpa do amigo, real ou aparente que seja, pois as paixões escondidas na alma, uma vez turbadas, cegam a mente e não lhe permitem fixar os fulgores da verdade nem sequer distinguir o melhor do pior; portanto, nem este possui a caridade perfeita que lança fora o temor do juízo. - Nada vale quanto um amigo fiel, pois ele considera suas as desgraças do amigo e as suporta junto com ele, padecendo até à morte. - São muitos os amigos, mas no tempo da prosperidade; no tempo da prova, a custo encontrarás um. - Deve-se amar de coração cada homem, mas somente em Deus se deve pôr a esperança e servi-lo com toda a força, pois enquanto ele nos custodia, todos os amigos nos cercam de honra e todos os inimigos são impotentes contra nós; mas se ele nos abandona, todos os amigos nos repelem e todos os inimigos prevalecem sobre nós. - Há quatro modos gerais de abandono: por divina economia (como aconteceu ao Senhor, para que mediante este aparente abandono fossem salvos os que tinham sido abandonados); por prova (como aconteceu a Jó e a José, para que um se revelasse coluna de fortaleza e o outro de castidade); por paterna educação (como foi para o Apóstolo, para que, humilhando-se, custodiasse a superabundância da graça); por rejeição (como aconteceu aos judeus, para que, punidos, se curvassem à penitência); mas todos estes modos são salutares e cheios da divina bondade e do amor de Deus pelos homens. - Somente aqueles que observam exatamente os mandamentos e os verdadeiros iniciados nos juízos divinos não abandonam os amigos quando são provados por divina permissão; aqueles, porém, que desprezam os mandamentos e não são iniciados nos juízos divinos, quando o amigo está na prosperidade gozam com ele, mas quando ele padece na prova, abandonam-no, e às vezes até se põem do lado dos inimigos. - Os amigos de Cristo amam todos sinceramente, mas não são amados por todos; os amigos do mundo, porém, nem amam todos nem são amados por todos; além disso, os amigos de Cristo custodiam a continuidade do amor até o fim, enquanto os do mundo a custodiam enquanto não se chocarem mutuamente por causa do que é do mundo. - Amigo fiel, refúgio potente, pois quando o amigo está na prosperidade é bom conselheiro e colaborador concorde, e quando o amigo padece é auxílio seguríssimo e defensor cheio de compaixão. - Muitos disseram muitas coisas sobre a caridade, mas, se a buscas, a encontrarás somente entre os discípulos de Cristo, pois somente eles tiveram como mestre da caridade a verdadeira Caridade, da qual diziam: "Ainda que tivesse a profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência... mas se não tivesse a caridade, nada me aproveitaria".