===== 1ª CENTÚRIA ===== //Resumo dos parágrafos// - A caridade constitui disposição boa da [[tnpl:alma:start|alma]] pela qual nada dentre as coisas existentes é preferido ao [[tnpl:conhecimento:start|conhecimento]] de [[tnpl:deus:start|Deus]], sendo impossível alcançar tal hábito quem mantém paixão por alguma coisa terrena. - A caridade é gerada pela impassibilidade, esta pela esperança em Deus, a esperança pela paciência e longanimidade, e estas pela continência em tudo, que por sua vez é gerada pelo temor de Deus, nascido da fé. - Quem crê teme o castigo; quem teme o castigo contém-se das paixões; quem se contém sustenta as aflições; quem sustenta as aflições alcança a esperança em Deus, e essa esperança separa o intelecto de toda paixão terrena, conduzindo-o à caridade para com Deus. - Quem ama Deus prefere a conhecê-lo acima de todas as coisas por ele criadas, permanecendo constantemente voltado a esse desejo. - Sendo Deus maior que tudo o que fez, quem o abandona para ocupar-se das coisas inferiores demonstra preferir as criaturas ao Criador. - O intelecto fixado no amor de Deus nenhuma conta faz das coisas visíveis, nem mesmo do próprio [[tnpl:corpo:start|corpo]], como se lhe fosse estranho. - Sendo a alma superior ao corpo e Deus incomparavelmente superior ao mundo criado, quem prefere o corpo à alma e o mundo a Deus em nada difere dos idólatras. - Quem separa o intelecto do amor e da atenção a Deus, prendendo-o a alguma coisa sensível, prefere o corpo à alma e as obras criadas ao Criador. - Sendo a vida do intelecto a iluminação do conhecimento, gerada pelo amor a Deus, nada supera a caridade divina. - Quando, pelo amor da caridade, o intelecto sai de si mesmo, perde toda percepção das coisas existentes, tornando-se, iluminado pela [[tnpl:luz:start|luz]] infinita, insensível a elas, como o olho diante das estrelas quando nasce o sol. - Todas as virtudes cooperam para a obtenção do [[tnpl:eros:start|eros]] [[tnpl:divino:start|divino]], mas sobretudo a oração pura, pela qual o intelecto, voando até Deus, sai de todas as coisas existentes. - Quando, pela caridade, o intelecto é arrebatado ao conhecimento divino e percebe o infinito de Deus, o assombro o conduz à consciência da própria pequenez, expressa nas palavras do [[tnpl:profeta:start|profeta]] Isaías sobre lábios impuros e a visão do Rei, Senhor dos exércitos. - Quem ama Deus necessariamente ama todo homem como a si mesmo, ainda que se indigne com as paixões dos não purificados, alegrando-se imensamente quando estes se corrigem. - É impura a alma repleta de pensamentos, concupiscência e ódio. - Quem guarda no coração traço de ódio contra qualquer homem, por qualquer falta, está inteiramente estranho à caridade para com Deus, pois esta não tolera ódio ao próximo. - Quem ama o Senhor guarda os seus [[tnpl:mandamentos:start|mandamentos]], e o mandamento é amar-se mutuamente; logo, quem não ama o próximo não observa o mandamento, e quem não o observa não pode amar o Senhor. - Bem-aventurado o homem que sabe amar igualmente todo homem. - Bem-aventurado o homem que não está apegado a nenhuma coisa corruptível ou passageira. - Bem-aventurado o intelecto que transpôs todas as coisas existentes e se deleita continuamente na beleza divina. - Quem cuida do corpo apenas para satisfazer suas cupidezes, e por coisas passageiras guarda rancor ao próximo, adora a criatura em vez do Criador. - Quem guarda o próprio corpo dos prazeres e das doenças conserva-o para o serviço do bem. - Quem fugir de toda concupiscência mundana coloca-se acima de toda tristeza mundana. - Quem ama Deus ama também o próximo, e por isso não retém riquezas, mas as distribui a quem precisa, conforme agrada a Deus. - Quem dá esmola imitando a Deus não distingue bom de mau, justo de injusto, distribuindo igualmente segundo a necessidade, mesmo preferindo, por sua boa disposição, o virtuoso ao perverso. - Sendo Deus, por natureza bom e impassível, igual em amor a todos enquanto obras suas, mas glorificando o virtuoso e tendo misericórdia do mau, corrigindo-o nesta vida, também quem escolhe ser bom e impassível ama igualmente todos os homens, o virtuoso por natureza e modo de vida, e o ímpio por natureza e pela compaixão de sua [[tnpl:cegueira:start|cegueira]]. - A disposição íntima da caridade revela-se não tanto na distribuição de riquezas, mas muito mais na palavra e no serviço do corpo ao próximo. - Quem renunciou sinceramente às coisas do mundo e serve ao próximo por amor, sem hipocrisia, liberta-se rapidamente das paixões e alcança parte no amor e conhecimento de Deus. - Quem possui em si a caridade divina não se cansa de seguir o Senhor seu Deus, segundo o divino Jeremias, suportando generosamente toda fadiga, ultraje e violência, sem nada imputar a ninguém. - Quando se é insultado ou desprezado por alguém, deve-se guardar dos pensamentos de ira, que, separando da caridade pela tristeza, não transportem à região do ódio. - Sofrer com a injúria ou a desonra traz grande ganho, pois por meio da desonra é expulsa a vaidade. - Como a lembrança do fogo não aquece o corpo, a fé sem caridade não opera na alma a iluminação do conhecimento. - Como a luz do sol atrai o olho sadio, o conhecimento de Deus, pela caridade, atrai naturalmente o intelecto puro. - É puro o intelecto que se separou da ignorância e foi iluminado pela luz divina. - É pura a alma que se libertou das paixões e é incessantemente alegrada pela caridade divina. - A paixão repreensível é um movimento contra a natureza da alma. - A impassibilidade é estado pacífico da alma pelo qual ela não mais se move para o mal. - Quem com zelo adquiriu os frutos da caridade não se afasta dela ainda que sofra inúmeros males, como demonstram Estêvão, discípulo de [[tnpl:cristo:start|Cristo]], e os que são como ele, e o próprio Cristo, que ora pelos que o matam pedindo perdão por não saberem o que fazem. - Sendo próprio da caridade ser paciente e benigna, quem se ira e faz o mal é estranho à caridade, e portanto estranho a Deus, pois Deus é caridade. - Não basta dizer-se templo do Senhor ou confiar apenas na fé em Cristo para salvar-se; é necessário adquirir a caridade por obras, pois até os demônios creem e tremem. - É obra da caridade beneficiar de coração o próximo, a paciência, a tolerância e o uso reto das coisas segundo a razão. - Quem ama Deus não entristece a ninguém nem se entristece com outrem por coisas passageiras, mas entristece a si e a outros apenas com a única tristeza que salva, aquela com que o bem-aventurado Paulo se entristeceu e entristeceu os coríntios. - Quem ama Deus vive na terra vida angélica: jejuando, vigiando, salmodiando, orando e pensando sempre bem de todo homem. - Sendo o divino incomparavelmente melhor e mais desejável que todas as coisas boas e desejáveis, todo zelo é devido para alcançar o que por natureza é bom e desejável. - Não manchar a própria [[tnpl:carne:start|carne]] com ações torpes nem a alma com pensamentos maus traz a [[tnpl:paz:start|paz]] de Deus, portadora do amor. - Maltratar a carne com a abstinência dos alimentos e a vigília, dedicando-se sem indolência à salmodia e à oração, traz a santificação da temperança, portadora do amor. - Quem foi feito digno do conhecimento divino e, pelo amor, adquiriu sua iluminação, jamais é agitado pelo espírito da vaidade, ao contrário de quem ainda não recebeu esse dom; mas, dirigindo a Deus todas as suas obras, com a ajuda divina escapa facilmente da vaidade. - Quem ainda não alcançou o conhecimento divino operante pela caridade tende a valorizar em demasia as próprias obras; quem alcançou esse conhecimento diz do íntimo do coração as palavras do patriarca Abraão ao ser feito digno da divina manifestação: "Sou terra e cinza." - Quem teme o Senhor permanece sempre unido à humildade e, pelos pensamentos que ela suscita, alcança a caridade divina e a ação de graças, lembrando-se da conduta anterior segundo o mundo, das faltas e tentações desde a juventude, e de como o Senhor o arrancou disso, recebendo junto ao temor o dom do amor, com o qual rende graças continuamente, em grande humildade, ao benfeitor e piloto da vida. - Não se deve manchar o intelecto acolhendo pensamentos de concupiscência e ira, sob pena de decair da oração pura e cair no espírito da acídia. - O intelecto perde sua franqueza confiante diante de Deus sempre que se ocupa de pensamentos maus ou sórdidos. - Quem se deixa guiar tolamente pelas paixões, movido pela ira, foge sem razão dos irmãos quando perturbado, e movido pela concupiscência arrepende-se e a eles retorna; o sábio age de modo oposto em ambos os casos, cortando na ira as causas da perturbação e, na concupiscência, contendo o impulso irracional e abstendo-se dos encontros. - No tempo das tentações não se deve abandonar o mosteiro, mas suportar valorosamente as ondas dos pensamentos, especialmente os de tristeza e acídia, conservando assim firme a esperança em Deus, pois quem abandona revela-se réprobo, frouxo e instável. - Para não decair do amor segundo Deus, não se deve permitir que o irmão adormeça entristecido contra si, nem adormecer entristecido contra ele, mas reconciliar-se antes de oferecer a Cristo, com consciência pura e oração assídua, o dom do amor. - Se quem possui todos os carismas do Espírito mas falta ao amor de nada se aproveita, segundo o divino Apóstolo, que zelo não se deve ter para adquiri-lo. - Não fazendo o amor mal ao próximo, quem inveja o irmão, se entristece com a boa reputação de que ele goza, mancha sua fama com escárnios ou lhe arma ciladas com alguma malícia torna-se estranho ao amor e réu da condenação eterna. - Sendo a caridade a plenitude da lei, quem guarda rancor ao irmão, trama enganos e profere imprecações contra ele, alegrando-se de sua [[tnpl:queda:start|queda]], é iníquo e digno do castigo eterno. - Quem fala mal do irmão e o julga fala mal da lei e julga a lei, pois a lei de Cristo é a caridade; assim o maldizente decai do amor de Cristo e torna-se causa de seu próprio castigo eterno. - Não se deve dar ouvidos à língua do maldizente nem falar ao ouvido de quem gosta de censurar, dizendo ou escutando de bom grado algo contra o próximo, para não decair do amor divino e ser encontrado estranho à vida eterna. - Não se devem acolher palavras de censura contra o próprio pai nem encorajar quem o desonra, para que o Senhor não se ire contra as obras e destrua da terra dos viventes. - Deve-se calar a boca de quem fala mal ao ouvido, para não cometer junto com ele duplo pecado, habituando-se também a uma paixão ruinosa e não impedindo o outro de falar contra o próximo. - O mandamento de amar os inimigos, fazer bem aos que odeiam e orar pelos que injuriam visa libertar do ódio, da tristeza, da ira e do rancor, tornando digno do bem máximo, o amor perfeito, que ninguém pode ter senão amando igualmente a todos os homens à imitação de Deus, que ama igualmente a todos e quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. - O preceito de não resistir ao mau, oferecer também a outra face a quem golpeia, ceder o manto a quem disputa a túnica e caminhar duas milhas com quem obriga a uma, visa manter livre da ira, do turbamento e da tristeza, instruindo o outro pela paciência e conduzindo ambos, como bom Pai, sob o jugo do amor. - Uma vez afetados por paixão a respeito de algum objeto, conservam-se em nós as representações passionais dele; quem vence essas representações desconsidera também os próprios objetos que elas representam, sendo a guerra contra a memória das coisas mais grave que a guerra contra os atos, pois é mais fácil pecar mentalmente do que em atos. - Algumas paixões pertencem ao corpo e outras à alma; as do corpo têm seu incentivo no corpo, as da alma nas coisas exteriores, e a caridade e a continência cortam ambas, a primeira as da alma, a segunda as do corpo. - Algumas paixões pertencem à parte irascível da alma e outras à parte concupiscível, ambas postas em movimento pelos sentidos, mas movidas quando a alma se encontra fora da caridade e da continência. - As paixões da parte irascível são mais difíceis de combater que as da concupiscível, razão pela qual o Senhor deu contra elas remédio maior: o mandamento do amor. - Todas as demais paixões tocam apenas a parte irascível, a concupiscível ou a racional da alma, como o esquecimento ou a ignorância; mas a acídia, atingindo de uma só vez todas as potências da alma, é mais grave que todas as outras, sendo seu remédio dado pelo Senhor a paciência, pela qual se ganham as próprias almas. - Não se deve ferir nenhum irmão, sobretudo sem razão, para que ele, não suportando a tribulação, não se afaste, evitando assim a acusação da própria consciência que traria sempre tristeza no tempo da oração e afastaria o intelecto da familiaridade com Deus. - Não se devem tolerar suspeitas nem pessoas que induzam a escandalizar-se de alguém, pois quem se escandaliza, por qualquer motivo, com coisas que ocorrem por escolha voluntária ou involuntária não conhece o caminho da paz que, pelo amor, conduz ao conhecimento de Deus aqueles que dela estão enamorados. - Não possui ainda a caridade perfeita quem se deixa influenciar pelos diversos juízos humanos, amando um e odiando outro por este ou aquele motivo, ou amando e odiando alternadamente a mesma pessoa pelos mesmos motivos. - A caridade perfeita não divide a única natureza dos homens segundo suas diferentes disposições, mas, olhando sempre para a natureza, ama igualmente a todos, amando os virtuosos como amigos e os maus como inimigos, beneficiando, suportando e sofrendo por eles quando se dá a ocasião, para fazê-los também amigos se possível, e, quando não possível, mostrando sempre os mesmos frutos da caridade a todos. - Quem não despreza gloria e desonra, riqueza e pobreza, prazer e tristeza, ainda não adquiriu a caridade perfeita, a qual despreza não somente essas coisas mas também a própria vida temporal e a morte. - Os que foram feitos dignos da caridade perfeita afirmam que nada, nem tribulação, angústia, perseguição, nudez, perigo ou [[tnpl:espada:start|espada]], nem morte, nem vida, nem [[tnpl:anjos:start|anjos]], nem principados, nem potências, nem coisas presentes ou futuras, nem altura, nem profundidade, nem qualquer criatura, pode separá-los do amor de Deus em Cristo [[tnpl:jesus:start|Jesus]], sendo neles que se cumprem mais que vencedores por aquele que os amou, ainda que entregues à morte todo o dia como ovelhas para o matadouro. - Quanto ao amor pelo próximo, há quem deseje, com toda a verdade da consciência no Espírito Santo, ser ele mesmo anátema de Cristo em favor de seus irmãos e parentes segundo a carne, como também disseram Moisés e outros santos. - Quem não despreza a gloria, o prazer e o amor ao dinheiro, que fazem crescer essas paixões e delas se originam, não pode cortar as ocasiões da ira, e quem não as corta não pode ter a caridade perfeita. - Humildade e sofrimento livram o homem de todo pecado, a primeira cortando as paixões da alma e o segundo as do corpo, como fez o bem-aventurado Davi ao orar a Deus que visse sua humildade e seu trabalho e perdoasse todos os seus pecados. - Pelos mandamentos o Senhor torna impassíveis os que os praticam, e pelas doutrinas divinas concede-lhes a iluminação do conhecimento. - Todas essas doutrinas referem-se a Deus, às coisas visíveis e invisíveis, ou à providência e ao julgamento exercidos sobre elas. - A esmola cura a parte irascível da alma, o [[tnpl:jejum:start|jejum]] extingue a concupiscência, e a oração purifica o intelecto e o prepara para a contemplação dos seres, pois o Senhor deu os mandamentos em correspondência às potências da alma. - Ensina-se a aprender a mansidão e a humildade de coração: a mansidão guarda o ânimo imperturbado, e a humildade liberta o intelecto da arrogância e da vaidade. - O temor de Deus é duplo: o primeiro, gerado pelas ameaças do castigo, dá origem na ordem à continência, à esperança e à impassibilidade, das quais vem o amor; o segundo, unido ao próprio amor, suscita continuamente na alma a piedade reverencial, para que, pela familiaridade produzida pelo amor, não se chegue à falta de respeito a Deus. - A caridade perfeita expulsa da alma que adquiriu o amor o primeiro temor, o do castigo, mas conserva sempre unido a si o segundo, ao qual se aplica o dito de que nada falta aos que temem o Senhor, enquanto ao primeiro se aplicam os ditos sobre afastar-se do mal e o princípio da sabedoria. - Mortificar os membros que estão sobre a terra, isto é, fornicação, impureza, paixão, má concupiscência e cobiça, significa, no sentir da carne chamado terra, mortificar respectivamente o pecado de obra, o consentimento, o pensamento passional, a simples aceitação do pensamento de concupiscência e a matéria que faz nascer e crescer a paixão, conforme ordenou o divino Apóstolo. - A memória traz primeiro ao intelecto o pensamento simples, e, permanecendo este, move a paixão, que, se não destruída, leva o intelecto ao consentimento e deste ao pecado de obra, sendo por isso que o sapientíssimo Apóstolo, ao escrever aos cristãos provenientes dos gentios, ordena destruir primeiro o ato pecaminoso e, subindo por ordem, chegar à causa do pecado, que é a cobiça, sobretudo a da gula, mãe e nutriz da fornicação, sendo a cobiça má tanto em relação às riquezas quanto aos alimentos, assim como a continência é boa em relação a ambos. - Assim como um passarinho de pé atado é trazido de volta à terra ao tentar voar, também o intelecto que ainda não adquiriu a impassibilidade, ao voar para o conhecimento das coisas celestes, é arrastado de volta pelas paixões. - Quando o intelecto se liberta perfeitamente das paixões, avança sem voltar atrás para a contemplação dos seres, progredindo até o conhecimento da Santíssima Trindade. - Quando o intelecto é puro, ao captar os conceitos das coisas é levado por meio deles à contemplação espiritual; mas, tornado impuro pela indolência, ainda forma de modo simples os conceitos de outras coisas, passando, porém, a pensamentos torpes ou maus quando acolhe os conceitos humanos. - Quando, no tempo da oração, nenhum conceito do mundo perturba mais o intelecto, isso é sinal de que não se está fora dos limites da impassibilidade. - Quando a alma começa a perceber sua própria saúde, começa também a ver de modo simples e sem perturbação as imagens que surgem no [[tnpl:sono:start|sono]]. - Assim como a beleza das coisas visíveis atrai o olho sensível, o conhecimento das coisas invisíveis, entendidas como as incorpóreas, atrai a si o intelecto puro. - É grande não sofrer paixão diante das coisas, mas é muito maior permanecer impassível diante das suas imagens, pois a guerra dos demônios por meio dos pensamentos é mais dura que a feita por meio das próprias coisas. - Quem realizou as virtudes e se enriqueceu com o conhecimento vê claramente as coisas conforme a natureza e tudo faz e considera segundo a recta razão, sem desviar, tornando-se cada um virtuoso ou mau pelo uso racional ou irracional das coisas. - É sinal de suma impassibilidade quando os conceitos das coisas sobem sempre simples ao coração, esteja o corpo desperto ou dormindo. - O intelecto despoja-se das paixões pelo cumprimento dos mandamentos, dos conceitos das coisas pela contemplação espiritual das coisas visíveis, da contemplação das coisas visíveis pelo conhecimento das invisíveis, e deste mesmo conhecimento pelo conhecimento da Santíssima Trindade. - Assim como o sol, ao nascer, ilumina o mundo e mostra a si mesmo e as coisas por ele iluminadas, o Sol da justiça, nascendo no intelecto puro, mostra a si mesmo e as razões de todas as coisas feitas e a fazer por ele. - Não se conhece Deus em sua essência, mas por suas grandes obras e por sua providência sobre os seres, através das quais, como em espelho, compreende-se sua infinita bondade, sabedoria e potência. - O intelecto puro encontra-se ou nos simples conceitos das coisas humanas, ou na contemplação natural das coisas visíveis, ou na das invisíveis, ou na luz da Santíssima Trindade. - O intelecto que chega à contemplação das coisas visíveis investiga suas razões naturais, ou aquilo que elas significam, ou sua própria causa. - Detendo-se na contemplação das coisas invisíveis, o intelecto investiga suas razões naturais, a causa de sua origem, o que delas decorre e qual é a providência e o julgamento que sobre elas se exerce. - Tendo alcançado Deus, o intelecto busca primeiro, inflamado pelo desejo, as razões relativas à sua essência, mas não encontra satisfação naquilo que ele é em si, o que é impossível e igualmente negado a toda natureza criada, encontrando-a antes naquilo que lhe é relativo, isto é, a eternidade, a infinitude, a imensidão, a bondade, a sabedoria e a potência que cria, provê e julga os seres, sendo este, o infinito, o único plenamente compreensível em Deus, e o próprio não conhecer nada constituindo um conhecer que transcende o intelecto, como disseram os teó[[tnpl:logos:start|logos]] Gregório e Dionísio.