===== PURIFICAÇÃO DO CORAÇÃO ===== Mateus o Pobre — A Vida de Oração Ortodoxa - Na concepção bíblica, o coração é a fonte de toda a potencialidade espiritual e física do ser humano, tanto para o bem quanto para o mal, determinando o tom de todo o homem e colorindo seus pensamentos, palavras e ações. - As palavras do homem inevitavelmente revelam o estado de seu coração, podendo justificá-lo ou condená-lo, e a relação entre coração e lábios é definida por Paulo como o lugar onde a fé crê e a confissão salva. - A Bíblia admite a coexistência de dois tipos de coração no homem: um que expressa sua verdadeira natureza e outro que falsifica pensamentos, palavras e ações para aparentar virtude enquanto oculta a maldade. - A obra do diabo não se limita a contaminar o coração com desejos maus, mas acrescenta a possibilidade de dar ao homem um segundo coração de onde brotam palavras douradas, mantendo o mal em segredo e garantindo sua execução. - A obra de Deus consiste na remoção completa do coração mau e na criação de um novo coração implantado no homem, transformando-o necessariamente em outro homem, como demonstra o exemplo de Saul em 1 Samuel. - A criação de um novo coração envolve três ações fundamentais expressas no Salmo 51: contrição do coração pecador, purificação interior completa e habitação do Espírito Santo. - No Antigo Testamento, a criação de um novo coração era excepcional e individual; no Novo Testamento, tornou-se universal e se aplica à criação de um homem inteiramente novo, estando implicada no sacramento do batismo mediante fé, arrependimento e habitação do Espírito. - Há uma distinção crucial entre a purificação do coração por fé e arrependimento, que é tarefa do homem, e a criação de um coração novo e puro pelo Espírito Santo, que é ação exclusiva de Deus e transcende a natureza humana. - Na medida em que o homem se empenha em purificar o coração do mal, torna-se capaz de acolher o poder da santidade como nova natureza e de deixar a verdade penetrar até as raízes de seu ser, emergindo na força do homem novo e divino. - Entra-se assim na esfera da teologia ascética, que faz do esforço humano sustentado pela graça a base essencial para os dons de Deus, os quais transcendem a ação e a natureza humanas. - No conceito patrístico, o coração é a quintessência da natureza humana e o centro de todas as faculdades, talentos, inteligência, discernimento, vontade, sabedoria e visão, correspondendo ao que a medicina moderna chama de cérebro. - São Macário, o Grande, descreve o coração como oficina de justiça e injustiça, ponto de encontro de todos os males, mas também lugar onde Deus, os anjos, a vida e o reino habitam quando a graça o governa. - Quando a graça governa o coração, ela permeia todas as faculdades do homem, incluindo a mente, a vontade, a consciência e os membros físicos do corpo, transformando a natureza do homem em uma natureza nova e espiritual. - São Macário insiste que o coração mau contamina a vontade e corrompe os instintos naturais, e que o pecado, como água em um cano, flui pelo coração e pelos pensamentos, procurando permanecer oculto na mente do homem. - A primeira e principal tarefa do homem é portanto purificar o coração, vencendo os desvios da vontade e destruindo a tendência para o mal, pois o coração é o capitão que dirige todo o navio da vida. - Deus busca o coração do homem porque ele é o manancial de toda a personalidade humana e o seu santo dos santos: amar a Deus de todo o coração significa entregar-se a Ele irrestritamente com todo o próprio ser. - O amor que Deus busca não é o amor emocional, que se apaga quando as emoções são feridas, mas o amor do coração no sentido patrístico, que inclui mente, consciência e pensamentos, e que o sofrimento afina e a morte aperfeiçoa. - A purificação do coração é de importância primordial para quem ama a Deus, pois Ele nunca se satisfaz com amor parcial; purificar o coração significa limpar o santo dos santos de todos os ídolos secretos e consagrá-lo exclusivamente a Deus. ** Ditos dos Padres sobre a pureza do coração ** - São Basílio, o Grande, ensina que guardar o coração com todo cuidado significa não perder o pensamento de Deus nem obscurecer sua lembrança com vãs imaginações, pois o pensamento santo de Deus impresso na alma gera o amor que leva ao cumprimento dos mandamentos. - São Isaac, o Sírio, define a pureza como o coração que tem misericórdia de toda a criação, cujos olhos derramam lágrimas pela visão de todo ser criado, e que oferece oração intercedente até mesmo pelos irracionais e pelos inimigos. - São Isaac afirma que o céu está dentro do homem puro, onde ele contempla os anjos em sua luz e o próprio Senhor com eles. - São Serafim de Sarov ensina que Deus é fogo que aquece e inflama o coração, e que diante do calor divino o frio do diabo foge, pois Cristo veio precisamente para aquecer os corações com amor perfeito a Deus e ao próximo. - São Isaac, o Sírio, ensina que o sinal de que um homem alcançou a pureza de coração é ver todos os homens como bons, sem considerar ninguém impuro, e que a pureza consiste em se libertar dos modos contratuais de conhecimento e retornar à simplicidade e inocência primordiais da natureza. - São Macário, o Grande, exorta os cristãos a olharem todos com olho simples e puro, sem jamais julgar, desprezar ou aborrecer ninguém, pois a pureza de coração consiste em ter compaixão dos pecadores e dos fracos. - São João de Dalyatha afirma que todo homem nascido de Cristo é irmão do cristão, e que amar a si mesmo mais do que ao irmão é sinal de que esse acréscimo não vem de Cristo. - São Isaac adverte que julgar secretamente o próximo, mesmo na cela, arranca todas as obras e virtudes mesmo de quem chegou à perfeição. - São Isaac ensina que todo desejo desordenado em que o coração se enredou só pode ser eliminado mediante mil estratagemas, lutas, obras, orações e lágrimas. - São Isaac aconselha a arrancar do coração a árvore do conhecimento do bem e do mal para quem anseia pela pureza de coração e pela paz da mente. - São Isaac adverte que sentar-se a julgar a conduta dos irmãos inevitavelmente acarreta grande perda, pois leva a condenar os outros, culpar o Criador sem perceber, justificar-se e cair no orgulho. - São Isaac observa que poucos conseguem renunciar à abundância do saber adquirido e preferir viver na simplicidade do coração, e que esses são diademas na coroa do Rei. - São Isaac ensina que o prazer de Deus consiste em que o homem seja puro com a pureza de sua primeira criação, pois a alma foi criada à imagem pura de Deus e essa pureza foi trocada pelo seu oposto ao adorar as concupiscências do mundo e da carne. - São Isaac afirma que nada aproxima tanto o coração de Deus quanto a esmola, nem traz tanta serenidade à mente quanto a pobreza voluntária, sendo melhor ser chamado ignorante por causa da liberalidade do que sábio por causa da mesquinhez. - São Isaac exorta a amar os pobres, suportar os maus cheiros dos enfermos sem nojo, amar os pecadores odiando suas obras, não os desprezar para não cair na mesma tentação, e lembrar que também o homem partilha da natureza terrena de Adão. - São Isaac ensina que a verdadeira misericórdia consiste em não se entristece nem reclamar quando se é injustamente privado de algo, deixando que a própria misericórdia engula a perda sofrida, e em retribuir com o bem a quem causou injustiça. - São Isaac descreve o verdadeiro humilde como aquele que não se perturba quando é injustiçado, não se defende diante da calúnia, aceita-a como verdade e pede perdão em lugar de se justificar. - São Isaac exorta a cobrir com o manto a queda do próximo e a suportar pacientemente sua vergonha, sem o envergonhar, mesmo quando não é possível tomar sobre si os seus pecados. - Santo Antônio, o Grande, afirma que Deus jamais ouve as petições dos que se apresentam diante dele com coração dividido, agindo apenas exteriormente para ganhar glória dos homens, e que sua ira é ainda maior para com eles. - Santo Antônio exorta à pureza de corpo e coração como condição para a perfeição diante de Deus, à aceitação alegre das injustiças confiando ao Senhor o julgamento, e à pressa em se humilhar e pedir perdão ao irmão antes do pôr do sol da ira.