===== 26 ===== ISAQUE o Sírio — Tratados Místicos Traduzidos para o inglês por A. J. Wensinck, publicada em 1923 XXVI CONTRA AQUELES QUE DIZEM: SE DEUS É BOM, POR QUE ELE CRIOU ESSAS COISAS? O pecado, o inferno e a morte não existem de forma alguma em Deus. Pois são fatos, não pessoas. O pecado é fruto da vontade. Houve um tempo em que ele não existia. E haverá um tempo em que ele não existirá mais. O inferno é fruto do pecado; em algum momento teve seu início; mas seu fim é desconhecido. A morte, entretanto, é provida pela sabedoria do Criador. Ela reinará sobre a natureza apenas por um certo tempo; depois, desaparecerá por completo. Satanás é o nome do desvio da vontade em relação à verdade, mas não é a designação de um ser natural. Embora você encontre, ó meu irmão, algumas dessas coisas também em outros livros, ainda assim não devemos ser considerados por você como aqueles que buscam sua própria glória, porque fingimos que o trabalho alheio seja nosso, mas, pelo contrário, como aqueles que são humildes, já que nos alimentamos do leite de nossos antepassados com aquelas coisas que coletamos e colocamos diante de nós mesmos como objetos de contemplação, com o objetivo de enriquecer o intelecto com seus tesouros, nos quais podemos pastar e ser alimentados. Pois não esquecemos que não estamos acima do grau de discípulos enquanto habitarmos na carne. A faculdade do discernimento é a emotividade das ideias naturais. Quando estas seguem o caminho natural em suas emoções, encontram-se com os elementos e mundos mutáveis. Mas quando (elas seguem) um caminho secundário, outro uso será encontrado para as primeiras. Pois quando as faculdades naturais são duplas em seu uso intelectual, elas serão compreendidas apenas em uma dessas, e essa é a condição não psíquica. Quando você captasse o deleite das palavras do culto, então a mente estaria ansiosa por permanecer nele continuamente. Se você desejar, porém, satisfazer esse desejo, apresse-se em direção ao conhecimento de sua causa. Se você tiver alcançado isso rapidamente, com discernimento e sem cegueira, não será difícil para você saborear esse (deleite) constantemente, sem impedimentos. E qual é, então, a influência que também é chamada de causa? Por meio de uma lima, que nada acrescenta a ele, o ferro é levado ao brilho e ao resplendor; pois essas propriedades pertencem à sua essência. Mas o que acontece? A lima remove dele a ferrugem que se acumulou, embora ninguém seja responsável por isso. A mesma teoria se aplica à natureza da mente. Coloca-a em contato com a lima; então descobrirás como ela brilha no momento do culto, imitando os raios das estrelas. Pois uma coisa não é capaz de seguir seu caminho (sem ajuda); ela se atrasa, se ninguém cuidar dela. Por isso eu disse que, durante a recitação dos Salmos (não durante a oração do coração e a recitação), o coração dificilmente pode ser cativado. Com aqueles é diferente; com eles, basta apenas um pouco de cuidado. Eles são capazes de tornar (a recitação dos Salmos) proveitosa. Mas, sem eles, o cuidado com a recitação revelar-se-á em vão. Esta última será promovida, mesmo que não haja outro aumento para ela, se a primeira já for um estoque presente. A fome é capaz de obter alimento; mas não está disposta a abster-se de comer. Delicioso para o lavrador é o pão conquistado com seu suor. Sem suor prévio, o pão da verdade não sacia. O corpo, que é o lavrador, transpira e alimenta a mente racional. E isso acontece mesmo quando a mente é privada de seu alimento habitual, que não é natural. A excelência espiritual é filha da excelência da vontade, e assim deve ser necessariamente. Pois a liberdade é a força natural da razão, e não a escravidão. Mas, naquele lado para o qual ela se inclina e onde permanece, ela dá origem a uma força diferente, que não é natural. E quando esta nasce, a liberdade passa a ser dominada e governada pela compulsão. Ouso dizer: ela se torna presa, sem autogoverno. Antes, a compulsão era voluntária; agora, a compulsão dominou a vontade. E digo que isso deve ser observado em ambos os lados: quando um homem se subjuga ao lado direito e quando dá oportunidade ao lado esquerdo. Mas a mente que aprendeu a ver com discernimento é capaz de observar como a compulsão em ambos os lados domina a liberdade, quando a força que não é da natureza nasce da submissão da vontade. Não me refiro à força usual, que é muito difícil; mas àquela que é chamada de secundária. O costume, de qualquer forma, está sujeito à vontade; embora se esforce para resistir a ela. Além disso, conhecemos duas forças: uma subjuga a vontade; a outra domina a natureza. Ela tem até mesmo o poder de alterar a natureza. Que essa influência domina a natureza é sabido por aqueles que foram postos à prova por ela. Os diversos estados dos corações e as mentes desviadas que geralmente deles nascem (livres e aprisionadas, vivas e mortas) são promovidos, em grande medida, pela disparidade na contemplação que surge nas mentes humanas a respeito dos julgamentos divinos. Por meio dessa disparidade, o mundo tem sido preservado há milhares de anos. Essa disparidade é de grande ajuda para mudar o curso da vida mortal e, o que é mais importante de tudo, para a contemplação dos julgamentos que geram confiança em Deus. Muitos corações, assim que a confiança os invade, assemelham-se a um homem que ingeriu veneno mortal. Mesmo para os filhos verdadeiros e sinceros, a cada dez partes de amor misturam-se cinco partes de medo. A natureza, propensa ao desvio, não é capaz de receber aqui a perfeição da verdade divina, nem de conhecer toda a vontade de Deus em relação à classe dos seres racionais; nem mesmo Paulo e seus iguais são suficientes para isso; até que a propensão ao erro tenha sido removida, de modo que a natureza não mais erre por estar ciente disso. O que é paridade e disparidade? A disparidade da contemplação — diferenças e variações em uma única alma — é o pensamento eterno de que Deus é inatingível. A paridade é a verdade sendo revelada. Se uma natureza capaz de errar recebesse neste mundo a verdade exata, ela morreria pelo poder de sua propensão ao erro. Isso é “Ó, profundidade das riquezas” e “Quão insondáveis são os Seus juízos” e “Quem conheceu a mente de Deus” e coisas semelhantes, que de maneira surpreendente e entre suspiros surgem na mente de tempos em tempos, o que alguns chamam de Nuvem. Daí nascem a disparidade da contemplação e a divergência da percepção a respeito da investigação inatingível dos juízos de Deus. Quando, porém, a perfeição da natureza tiver chegado, em um mundo sem desvio, a natureza não terá mais medo de conhecer a verdade divina, como se fosse se desviar para a esquerda por causa da confiança. A confiança engendra desprezo e profusão de espírito. O medo, por outro lado, costuma conter o desvio, de modo que este fica refreado. Esse medo tu encontras em tua alma pela contemplação dos diferentes julgamentos e mundos, da disparidade de comportamentos e da falta de correspondência entre a retribuição concedida aos homens neste mundo e a justiça que se manifesta de tempos em tempos, bem como da paciência constante (de Deus), dos justos e dos pecadores, e dos encontros contrários e incongruentes entre pessoas repugnantes, conforme ordenado pela Providência. Quando o intelecto observa tudo isso, a emoção toma conta de toda a alma. E então nasce nela o exame das deliberações, das palavras e ações e dos contornos do domínio da justiça divina. Ora, quando o intelecto se retira disso e é elevado à Essência única, pela contemplação das propriedades daquela Natureza boa que possui conhecimento eterno, que é anterior a toda a existência, e de todas as Suas outras propriedades, o medo é expulso de imediato e a mente é sustentada pela confiança. Quando o intelecto desce novamente daquele lugar e retorna aos mundos e suas distinções, ele se assusta e cede ao medo, pois a Providência não permite que ele permaneça sempre na presença dessa contemplação da verdade. Portanto, de tempos em tempos, o medo tirará do coração a força da confiança inspirada pela verdadeira contemplação e deixará que o intelecto seja atormentado por diversas opiniões; para que o intelecto não desista de julgar constantemente a veracidade de suas deliberações e ações e, assim, adquira cautela, pois não sabe como enfrentará o julgamento de Deus. A quem seja dado louvor para todo o sempre. Amém.