===== 16 ===== Isaac o sírio — TRATADOS MÍSTICOS Traduzidos para o inglês por A. J. Wensinck; obra publicada em 1923 [[http://lesvoies.free.fr/spip/article.php?id_article=397|Isaac of Nineveh : Mystic Treatises (XVI)]] XVI QUÃO PROVEITOSO É PARA ALMA ENQUANTO EM SOLIDÃO ESTAR LIVRE DE OBRAS E COMO INTERAÇÕES AFETAM A MENTE DO NOVIÇO QUE ACABOU DE COMEÇAR A TER UMA VISÃO POR SI MESMOS E COMO ESTÁ CLARO QUE AS OBRAS CORPORAIS NECESSARIAMENTE TRAZEM AO SOLITÁRIO UMA DEFICIÊNCIA NAS OBRAS DIVINAS É impossível que um homem atormentado por preocupações permaneça tranquilo e em paz. Pois as coisas necessárias, que estão ligadas àquelas nas quais ele dedica seu esforço, não podem deixar de abalá-lo; e elas o privarão de seu descanso e tranquilidade. Pois a única oportunidade que Satanás tem de entrar na alma é a distração. Portanto, convém que o solitário se coloque constantemente diante da face de Deus e busque Sua vontade, se for sua intenção manter a mente em vigília e se for sua vontade perceber rapidamente os pequenos desvios assim que começarem a se manifestar nele e, em paz de espírito, aprender a reconhecer o que se passa em seu interior [1]. Oscilações frequentes são um sinal de relaxamento do solitário quanto à preparação para o serviço a Cristo, e são sinais de deficiência nas coisas divinas. Sem estar livre (de preocupações), não podes exigir lucidez de tua alma; nem descanso e tranquilidade se os sentidos estiverem à solta; nem concentração dos sentidos quando as oscilações na prática (são frequentes). Mantém-te livre de acidentes; então não encontrarás perturbação em tua mente. Sem súplicas constantes, não é possível estar perto de Deus. E pensar em outras coisas ao mesmo tempo em que se faz as súplicas é distração do coração. Se, às vezes, emoções fervorosas te invadem quando saboreias Deus no fogo ardente das coisas divinas, mas, quando as buscas novamente, percebes que se tornaram insípidas e frias dentro de ti, (isso ocorre porque) a distração do convívio com os homens te assaltou em algum momento, ou porque valorizaste o trabalho físico acima delas, e, por causa disso, o fervor de tuas reflexões esfriou. Lágrimas, porém, e bater a cabeça (no chão) durante a oração, bem como fervorosas humilhações a si mesmo, reavivam sua doce calorosa doçura no coração. E, em loucura louvada, o coração voará em busca de Deus, clamando: “Minha alma tem sede de ti, Deus vivo: quando irei e verei tua face?” Aquele que provou esse vinho e foi privado dele, somente ele sabe em que tormento foi deixado e o que lhe foi tirado por causa de seu relaxamento. Ó, quão maligna é a visão dos homens e o convívio com eles para aquele que vive na solidão, especialmente para aquele que está relaxado e deixado sozinho. Em verdade, meus irmãos, assim como uma forte rajada de frio, que de repente atinge os botões das árvores e morde suas pequenas cabeças que germinam dos galhos, assim também o convívio com os homens, mesmo que seja breve e em uma congregação com bom propósito, murcha os brotos das virtudes que apenas recentemente mostraram suas cabeças graças ao ar puro [2] da solidão, e que, com sua umidade, assolam a árvore da alma, plantada junto aos ribeiros do arrependimento. E assim como a intensidade do frio atinge os novos brotos das raízes, destruindo-os e empurrando suas pontas de volta para a terra, assim também o convívio com os homens destrói a raiz da mente, que apenas começa a verdejar graças às ervas das virtudes, empurrando-as de volta ao seu lugar original e destruindo sua delicadeza. E se o convívio com aqueles que estão quase no domínio de si mesmos é tão repugnante para a alma, ainda que apenas por impedirem o serviço habitual, isso deve acontecer em maior medida se um homem fala com e vê homens estúpidos e incultos, ou mesmo leigos, o que tem o efeito do fogo sobre madeira seca. E assim como a humildade de um homem honrado e estimável, que frequentemente se esquece de si mesmo ao beber vinho, é perturbada, sua honra manchada e sua castidade abalada pelas deliberações estranhas que dominam seu espírito devido à força do vinho, assim também a castidade da alma é abalada pelo convívio e pela visão de homens; e ela esquece o objetivo de sua vigilância e é privada de toda a intenção de sua vontade; e o convívio, o lazer e o uso do luxo arrancam de suas profundezas todo o fundamento do comportamento louvável. E mesmo que um homem permaneça em silêncio e apenas na presença desses homens pessoalmente, ouvindo e vendo, o simples fato de que as portas de seus olhos e ouvidos deixem entrar (o que é visto e ouvido) é capaz de desviar seu espírito das coisas divinas e perturbá-lo profundamente. Se, assim, a mera visão dos homens e o simples ouvir de suas palavras, mesmo que por pouco tempo, são capazes de causar tanto dano ao solitário que está vigilante, o que então diremos sobre encontros regulares ou sobre aqueles de maior duração? O vapor que se eleva do estômago obscurece o conhecimento das coisas divinas, assim como as exalações que se elevam da terra úmida obscurecem a face do sol. A altivez não compreende que caminha nas trevas, sem conhecer discernimento nem sabedoria. Em seus próprios pensamentos, ela se eleva acima de todas as coisas, mas é mais pobre e mais baixa do que qualquer coisa. É incapaz de conhecer os caminhos de Deus, e o Senhor lhe ocultará Sua vontade, porque ela não gosta de seguir o caminho dos humildes. [1] NT: literalmente: aqueles que entram e saem [2] NT: a mistura do ar