===== Pensamentos ===== //ANTOINE E CLAIRE GUILLAUMONT// - Evágrio agrupa todos os logismoi — termo compreendido no sentido de "más pensées" — em oito pensamentos principais ou "genéricos", ensinamento condensado no capítulo 6 do Tratado prático, onde são enumerados: gulodice, fornicação, avareza, tristeza, cólera, acédia, vanaglória e orgulho. - Os capítulos subsequentes do Tratado prático (7 a 14) analisam cada um dos oito pensamentos na ordem indicada, sendo notável que Evágrio empregue indiferentemente as expressões "o pensamento de", "o demônio de" determinado vício, ou simplesmente o nome do próprio vício. - Os capítulos 15 a 33 do Tratado prático expõem os remédios a esses vícios seguindo a mesma ordem, e essa classificação estrutura 28 dos 100 capítulos da obra; ela governa também toda a arquitetura do Antirrético, vasto tratado perdido em grego mas conservado em siríaco e armênio, dividido em oito partes correspondentes a cada um dos oito vícios. - A classificação dos oito logismoi preside igualmente a composição do tratado Dos oito espíritos de malícia, onde dois capítulos são consagrados a cada vício na mesma sequência, com a única exceção de que a cólera precede a tristeza; nessa obra, o termo "espírito" é empregado como equivalente de "pensamento" ou "demônio". - A teoria dos oito logismoi é uma peça mestra da doutrina ascética de Evágrio e teve grande alcance histórico, sendo retomada integralmente por Cassiano, cujos livros V a XII das Instituições cenobíticas constituem um tratado dos oito vícios, com um livro dedicado a cada um deles, retomando os termos gregos de Evágrio e glosando-os em latim. - Cassiano depende mais especialmente do tratado Dos oito espíritos de malícia ao empregar o termo spiritus equivalente a pneuma, e coloca a tristeza após a cólera; no livro V das Conferências, o abade Serapião expõe a teoria dos oito vícios em termos que são tradução quase literal do capítulo 6 do Tratado prático, com Cassiano apenas invertendo a ordem da cólera e da tristeza. - A classificação dos vícios conheceu grande fortuna no Ocidente depois de Cassiano, pois Gregório Magno, nos Moralia, conservou os termos cassianenses, exceto acídia, introduzindo a inveja e excluindo a soberba como rainha dos vícios, reduzindo a lista a sete termos — lista que se fixou definitivamente no século XIII sob a forma dos sete pecados capitais, difundida sobretudo pela Contrarreforma. - Na tradição religiosa bizantina, a lista evagrinana se conservou sem transformações notáveis e, passando para a obra de João Damasceno, tornou-se parte integrante do ensinamento comum, reproduzindo quase literalmente os termos de Evágrio, com a única substituição de uma perífrase por porneia. - Evágrio se encontra, com sua doutrina dos oito pensamentos, no início de uma tradição amplamente difundida, e a questão que se coloca é se ele foi o primeiro a ensinar essa teoria dos oito vícios principais ou se havia fontes anteriores das quais teria extraído os elementos necessários para constituí-la. - Evágrio deve provavelmente a Orígenes o emprego frequente do termo logismos no sentido de "má pensée" inspirada pelos demônios, e é possível que tenha encontrado também nele os elementos de sua teoria dos oito logismoi principais, pois Orígenes oferece, em vários passos de sua obra, listas de vícios com afinidades com a de Evágrio, embora sem jamais apresentar uma lista fechada e arranjada em número fixo. - Em Orígenes encontram-se, de forma esparsa, todos os elementos da lista evagrinana dos oito vícios principais, mas não há nele um exemplo de lista constituída segundo uma ordem fixa e encerrada num número determinado; em particular, dois termos da lista de Evágrio — gulodice e acédia — estão ausentes das principais listas de Orígenes, embora ambos apareçam juntos nas Homilias sobre Lucas. - Cassiano recorre a um artifício escriturístico para justificar pelo número oito — e não sete — os vícios principais, apresentando essa doutrina como opinião universal, quando de fato ela provinha de Evágrio; é não menos claro que Evágrio não emprestou de Orígenes sua teoria dos oito vícios, tendo apenas colhido nele os elementos necessários para constituí-la a partir das listas incompletas e variáveis que a obra de Orígenes lhe fornecia. - Zöckler, Wrzol e Stelzenberger pensaram que a teoria evagrinana dos oito logismoi genéricos tinha sua fonte no estoicismo, pois somando as quatro paixões fundamentais do sistema estoico — tristeza, medo, desejo e prazer — com os quatro vícios principais que os estoicos opunham às quatro virtudes cardinais obtém-se uma lista de oito termos; essa explicação é pouco satisfatória, pois a lista assim obtida e a de Evágrio têm em comum apenas um único termo — a tristeza —, e o agrupamento pelo qual se a obtém não deixa de ser artificial. - Em realidade, a lista de Evágrio se insere numa tradição mais ampla: as diversas literaturas da época helenística oferecem um grande número de catálogos de vícios, análogos e às vezes associados aos catálogos de virtudes, de conteúdo muito variável e geralmente abertos, mas com certa identidade de feição e com termos constantes; o Novo Testamento apresenta vários exemplos desse gênero, e o Rolo da Regra de Qumran oferece uma lista análoga cujos equivalentes com os termos evagrinanos são perceptíveis. - O Testamento de Rúben, nos Testamentos dos doze Patriarcas, apresenta uma lista dos sete espíritos do erro com as maiores afinidades com a de Evágrio — fornicação, gulodice, querela assimilável à cólera, complacência próxima da vanaglória, injustiça correspondente à avareza —, embora o texto anuncie sete termos e acrescente ao final um oitavo, o espírito do sono, que não é sem analogia com o demônio da acédia. - A pesquisa sobre as fontes da teoria dos oito logismoi principais conduz a constatar grandes afinidades entre as concepções de Evágrio e as dos meios judeus e judeo-cristãos da época helenística, levantando a questão de saber se há influência direta da ética desses meios sobre a de Evágrio ou se as concepções evagrinanas são tributárias de uma ideologia filosófico-religiosa mais vasta. - R. Reitzenstein foi o primeiro a propor ver na religião astral e na teoria das sete esferas planetárias a fonte da doutrina tradicional dos sete pecados capitais; essa tese esbarra numa dificuldade maior, pois a lista de Evágrio comporta oito termos, e sabe-se que foi a partir dela, após redução à unidade, que se constituiu a lista tradicional de sete termos. - A questão da origem astral se torna ainda mais complexa quando se considera que o sistema gnóstico atribuía a cada uma das sete esferas planetárias um "governador" maléfico com correspondente na lista de Evágrio, mas uma representação dos oito céus não encontra correspondência fácil num vício ou num ser maligno determinado, e não se vê como tal representação teria podido servir para estabelecer uma lista de oito vícios. - A questão da origem da teoria evagrinana dos oito logismoi é extremamente complexa, e a lista certamente não existia na íntegra antes de Evágrio; para constituí-la, ele colheu, sem reproduzi-las tais quais, nessas listas fechadas preexistentes e nos catálogos largamente difundidos — especialmente nas listas variadas da obra de Orígenes —, sendo sensível a influência do estoicismo, que o levou a incluir a tristeza e a valorizar a cólera como principal obstáculo à ciência espiritual. - Dentre os oito vícios, aquele em que se manifesta mais plena e originalmente a contribuição de Evágrio é o sexto da lista — a acídia, tentação por excelência do solitário —, que merece exame especial.