===== 30 ===== {{tag>Primal Philokalia VII}} JOÃO CLÍMACO — A ESCADA DO CÉU **TRIGÉSIMO GRAU – Sobre a união das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade.** - Depois de ter falado de todas as coisas que ocuparam até agora, pode-se dizer com o Apóstolo que resta considerar a fé, a esperança e a caridade, virtudes que são o fundamento e o vínculo de todas as virtudes cristãs e religiosas, sendo que a maior e mais bela dessas três virtudes é a caridade, pois o próprio [[tnpl:deus:start|Deus]] é chamado Amor. - A fé é considerada como um raio de sol que ilumina, a esperança como a [[tnpl:luz:start|luz]] desse raio que dirige e encoraja, e a caridade como esse sol todo inteiro que inflama e fecunda todo o bem que se faz, devendo-se dizer que essas três virtudes concorrem para formar a mesma luz e o mesmo esplendor. - A fé torna capazes de executar tudo o que ela faz empreender, a misericórdia de Deus firma e fortifica a esperança e não permite que essa virtude seja perturbada nem confundida, e a caridade não cai, não para em sua corrida e não permite que aquele que ela feriu com suas divinas flechas se dê [[tnpl:repouso:start|repouso]] nem cesse de se entregar a ações que o espírito do mundo considera desarrazoadas e insensatas, sendo esta uma sábia e feliz loucura. - Todas as vezes que se quer falar da caridade, é do próprio Deus que se fala, podendo-se julgar por aí quão grande, difícil e perigosa é a coisa que desejam empreender as pessoas que não prestassem atenção à grandeza do que vão começar ao querer falar de Deus. - Os [[tnpl:anjos:start|anjos]] conhecem a excelência da caridade segundo o grau de luz que o Senhor lhes comunicou. - Deus é amor, e aquele que pretendesse explicar em suas palavras o que é Deus seria mais insensato e mais cego do que uma pessoa que quisesse contar todos os grãos de areia que estão nas bordas e nos abismos do mar. - A caridade é algo semelhante a Deus, e por sua potência torna os homens que a possuem semelhantes a ele tanto quanto sua natureza pode ser suscetível, produzindo numa [[tnpl:alma:start|alma]] que dela é ornada uma santa e deliciosa embriaguez, sendo para ela uma fonte inesgotável de fé, um abismo de justiça e paciência, e um oceano de humildade. - A caridade expulsa do espírito todo pensamento desvantajoso para o próximo, nunca pensando mal de ninguém. - A caridade, a [[tnpl:paz:start|paz]] do coração e a adoção que Deus faz no batismo para serem seus filhos queridos são três coisas que só diferem entre si de nome, aproximadamente da mesma maneira que o fogo, a luz e a chama, tendo todas as três a mesma natureza, a mesma ação e os mesmos efeitos. - Tem-se mais ou menos temor conforme a caridade é mais ou menos perfeita, sendo que o cristão que já não teme nada está cheio de caridade ou então essa virtude está inteiramente extinta nele. - Feliz o homem que ama Deus com uma afeição tão ardente quanto um amante insensato quer a beleza que tão miseravelmente raptou seu coração, feliz ainda aquele que não tem por Deus menos temor do que um criminoso tem pelos juízes que devem julgá-lo e condená-lo, feliz ainda o cristão cujo zelo e ardor nas vias de Deus inflamam o coração tanto quanto o ardor e o zelo inflamam o dos servidores fiéis e devotados a seus senhores temporais, feliz ainda aquele que não tem pela prática das virtudes uma afeição menos pronunciada nem menos ardente do que os maridos ciumentos têm por suas esposas que adoram, felizes ainda as pessoas que em suas orações se apresentam a Deus com o mesmo respeito que os oficiais se apresentam diante de seu soberano, felizes enfim as almas que se aplicam a agradar a Deus com a mesma atenção com que os homens mesmos se estudam para agradar a outros homens. - Uma mãe cujo coração é todo de ternura não ama tanto apertar nos braços e comprimir sobre seu seio materno o [[tnpl:filho:start|filho]] a quem deu à luz e que nutre quanto um filho verdadeiro da caridade se compraz em se unir ao seu Deus. - Uma pessoa que ama ardentemente outra imagina ver sempre o objeto de seu ardente amor, cobre-o dentro de si com os beijos mais ternos e mais afetuosos, e o [[tnpl:sono:start|sono]] mesmo não é capaz de desviar seu espírito nem seu coração desse objeto querido, representando-se-lhe em sonhos, e o que acontece ordinariamente na ordem natural acontece também nas coisas de ordem sobrenatural. - A alma, semelhante a um cervo, depois de ter dado a morte a todas as feras que queriam devorá-la, é queimada de uma sede ardente pelo Senhor e, perfurada pelo traço de seu amor, suspira sem cessar por ele como por uma fonte de água refrescante, cai em desfalecimento e parece querer perder-se e aniquilar-se em Deus. - Nem sempre é fácil reconhecer qual é a causa e qual é o princípio da fome que se experimenta, mas o mesmo não se pode dizer da sede, pois ela aparece abertamente e faz bastante ver no exterior as ardor de que atormenta interiormente a pessoa que a sofre. - Se a presença de um amigo que se quer ternamente produz uma mudança notável, torna alegre e contente e é capaz de afastar do coração toda pena e todo desgosto, que mudança não deve operar a Presença de Deus numa alma pura, santa e inflamada de amor por ele quando se apresenta a ela de maneira invisível, é verdade, mas nem por isso menos sensível nem deliciosa. - O temor de Deus que vem de um sentimento profundo do coração costuma lavar e purificar uma alma de todas as suas manchas, havendo pessoas que o santo amor de Deus devora e consome, outras que o amor de Deus ilumina tanto com suas luzes que ficam todas transportadas de alegria e alvoroço. - Aqueles que chegaram ao grau de caridade próprio dos anjos esquecem até a alimentação que reclamam as necessidades de seu [[tnpl:corpo:start|corpo]], não pensando nem nela. - Os corpos daqueles que a caridade torna de certo modo incorruptíveis são menos expostos às doenças, pois a chama toda pura da caridade, tendo-os purificado depois de ter extinguido neles os fogos da concupiscência, faz com que não estejam expostos à corruptibilidade. - Pode-se assegurar, por se estar intimamente convencido, que essas pessoas tomam sua alimentação sem gosto e sem prazer, pois assim como a umidade da terra nutre e conserva as plantas, o fogo sagrado do amor de Deus nutre e conserva as almas. - O crescimento do temor de Deus é o começo da caridade, mas a perfeição da castidade é o começo das verdadeiras conhecimentos teológicos. - Deus, por uma palavra misteriosa e secreta, instrui ele mesmo as pessoas que lhe estão perfeitamente unidas em todas as potências de sua alma e de seu corpo, mas para aquelas que não estão unidas a Deus dessa maneira é muito difícil poder falar dele. - O [[tnpl:verbo:start|Verbo]] de Deus dá uma castidade perfeita e, por sua Presença num coração, dá a morte à própria morte, e a destruição da morte dá àqueles que aspiram ao [[tnpl:conhecimento:start|conhecimento]] dos mistérios as luzes necessárias para lá chegar. - Quando é pelo Espírito de Deus que se fala a Deus, as palavras são, de certo modo, as próprias palavras de Deus, as quais são todas santas e devem subsistir eternamente. - A castidade eleva verdadeiramente um homem ao conhecimento dos mistérios celestes, de maneira que ele concebe a doutrina que ensina o mistério de um só Deus em três pessoas. - Quem ama Deus sinceramente não deixa de amar o próximo, pois é o amor pelos irmãos que manifesta e demonstra aquele que se tem por Deus. - Esse amor do próximo não permite que se sofra que diante de si se fale mal dos outros, nem que se entregue à maledicência, causando horror esse vício e temendo-se mais de se tornar culpado dele do que de cair no fogo. - Pode-se comparar uma pessoa que assegura que ama Deus e no entanto nutre em seu coração sentimentos de cólera e animosidade a um homem que durante o sono imagina viajar e correr. - A caridade se fortifica pela esperança, pois é esta última virtude que faz esperar o preço e a recompensa da caridade. - A esperança é um dom do céu que enriquece de bens espirituais e invisíveis. - É um tesouro seguro que se possui neste mundo e que deve pôr na posse do tesouro imenso e eterno que se espera no outro. - Essa divina virtude consola e sustenta nas penas e trabalhos, abre a porta da caridade, expulsa do coração todo sentimento de desespero e, ainda que os bens eternos não estejam ainda em disposição, faz de certo modo possuí-los e saboreá-los na terra. - A caridade perece assim que a esperança se retira e falta, sendo a esperança que encoraja a suportar com heroica paciência as penas e desgostos da vida presente, que faz amar os suores e trabalhos, que cerca das Misericórdias do Senhor. - É por sua poderosa proteção que o religioso sufoca a tibieza e triunfa perfeitamente da preguiça e do tédio. - O gosto pelas favores e dons celestes faz nascer os sentimentos da esperança, correndo grandes perigos de não perseverar a pessoa que não os saboreia no fundo de sua alma. - A esperança e a cólera são dois inimigos irreconciliáveis, pois a esperança nunca cobre de confusão, enquanto a cólera cobre de vergonha. - A caridade obtém o dom de profecia e de milagres, sendo uma fonte inesgotável de luzes divinas, um foco de chamas celestes que quanto mais se espalham em abundância no coração mais o inflamam e consomem, fazendo agora a felicidade dos anjos e fazendo avançar em glória para a eternidade. - Ó bela virtude, ó a mais bela das virtudes, dize onde levas a pastar tuas queridas ovelhas, onde tomas teu repouso durante as ardor do meio-dia, ilumina-nos, derrama sobre nós teu [[tnpl:divino:start|divino]] orvalho, dirige-nos, conduze-nos e atrai-nos enfim a ti, pois desejamos ardorosamente subir até o palácio que habitas.