===== Bom samaritano ===== {{tag>Primal II}} Clemente de Alexandria — Parábola do Bom Samaritano Antonio Orbe: [[gnosis:orbe:aopesi:|Parábolas Evangélicas em São Irineu]] «Diz o [[tnpl:salvador:start|Salvador]] que o segundo em ordem, e em nada menor que este — amar a [[tnpl:deus:start|Deus]] —, é aquele mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Logo, amarás a Deus acima de ti mesmo. Quando aquele que dialogava com Ele perguntou: “Quem é meu próximo?”, não o definiu como os [[tnpl:judeus:start|judeus]]: o consanguíneo, ou o concidadão, ou o prosélito, ou o circunciso como eles, ou aquele que emprega, isto é, vive submetido a uma e idêntica lei. Introduz, ao contrário, por meio de um discurso, certo indivíduo que descia de Jerusalém a Jericó, e o mostra ferido por ladrões e abandonado no caminho, meio morto; preterido por um sacerdote, olhado com desprezo por um levita e, ao contrário, compadecido pelo samaritano — ele próprio desprezado e segregado. Este não o encontrou por acaso nem passou de largo como aqueles passaram, mas veio preparado com tudo aquilo de que necessitava o homem em perigo, tais como óleo, ligaduras, jumento, dinheiro para o hospedeiro, que em parte lhe deu e em parte prometeu. “Qual destes — disse — veio a ser próximo daquele que sofreu a desgraça?” E ele respondeu: “Aquele que mostrou misericórdia para com ele. E tu, pois, indo, faze assim”: como quem ensina que a caridade germina em beneficência.» O alexandrino oferece em seguida seu comentário pessoal; declara os dois [[tnpl:mandamentos:start|mandamentos]] do amor a Deus e ao próximo, formulados em [[b>Lucas 10:27]], e singularmente o segundo. «Em ambos os mandamentos indica a caridade, embora a tenha distinguido por ordem. A primazia da caridade atribui-a a Deus; o segundo lugar, à caridade para com o próximo. Mas quem outro poderia ser o samaritano senão o próprio Salvador? Ou quem se compadece mais que Ele de nós, levados quase à morte pelos príncipes tenebrosos deste mundo, com multidão de feridas, temores, concupiscências, iras, tristezas, enganos, prazeres? Dessas feridas, [[tnpl:jesus:start|Jesus]] é o único médico, cortando totalmente pela raiz as paixões, e não como a Lei, que só corta as sequelas, os frutos das plantas perversas, mas introduz sua própria foice até as raízes do mal. Este é aquele que derrama o vinho — o sangue da videira davídica — sobre nossas almas feridas, e aquele que oferece o óleo — das entranhas do Pai —, e com largueza. Este é aquele que deu a conhecer as ligaduras insolúveis da cura e da salvação — caridade, fé, esperança. Este é aquele que ordenou aos [[tnpl:anjos:start|anjos]], principados e potestades que servissem a nós, homens, com grande retribuição; por isso também eles serão libertados da vaidade do mundo por ocasião da revelação da glória dos filhos de Deus. A este, pois, convém amar como a Deus. Ama, porém, a [[tnpl:cristo:start|Cristo]] Jesus quem faz sua vontade e guarda seus mandamentos...» Os mandamentos do amor a Deus e ao próximo estão intimamente unidos. A primazia corresponde à caridade para com Deus. A parábola define o próximo por caminhos diversos daqueles imaginados entre os israelitas. Para estes, o próximo era o consanguíneo, nascido da semente de Abraão; o concidadão, pertencente a uma das doze tribos de Jacó; o prosélito, incorporado ao povo da circuncisão; o circunciso como eles; o submetido à mesma Lei de Moisés. Em todos os casos, o título de «proximidade» era externo: o sangue, a descendência, a circuncisão, a obediência à Lei nacional. Cristo o declarou de outra maneira, mediante a parábola do bom samaritano. É «próximo» de outro aquele que o ama com caridade benéfica; aquele que, por amor ao outro, lhe mostra misericórdia. Dois elementos: um interno, o amor, paralelo ao amor de Deus, e outro externo, a beneficência ou misericórdia externa. Entre eles, o característico é sempre o primeiro. Uma mesma obra externa — feita, por exemplo, a um concidadão ou a alguém do próprio sangue — pode responder ao amor de tribo ou de sangue, e também ao amor de Deus. Só afetará «o próximo» se provier de amor alheio a título sensível e terreno. É «próximo» qualquer homem, enquanto tal, seja ou não inimigo. Por vir do mesmo Adão, ou por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus? Eis a doutrina evocada em Clemente pela parábola. O alexandrino assinala ainda alguns elementos. O samaritano — que soube ser próximo — simboliza o Salvador. O ferido representa os homens, «levados quase à morte pelos príncipes tenebrosos deste mundo, com multidão de feridas, temores, concupiscências, iras, tristezas, enganos, prazeres», enfermidades só remediáveis por Jesus. Os ladrões — acaba de apontá-lo — seriam «os príncipes tenebrosos deste mundo». Segundo o [[tnpl:evangelho:start|evangelho]], caíram sobre o homem, deixando-o com chagas, meio morto. Clemente o apresenta «picado», atravessado. O Verbo, semelhante ao de [[b>João 19:37]] — «olharão para aquele que traspassaram» —, teria algum mistério? Urgindo o paralelismo com a ferida de Cristo na cruz, resultaria Adão — e o gênero [[tnpl:humano:start|humano]] — atravessado da mesma forma. A chaga que, na segunda vinda do [[tnpl:filho:start|Filho]] do homem, seria título de glorioso reconhecimento, viria a ser a antítese daquela que, em seu primeiro advento, Cristo reconheceria no homem. O hospedeiro tem um simbolismo plural, correlativo aos ladrões. Representa «os anjos, principados e potestades», aos quais o Salvador encomenda o cuidado do homem. À margem dos símbolos fundamentais, o alexandrino deixa cair notícias interessantes. Assim, por exemplo, o tratamento que o médico Jesus concede ao homem enfermo. A Lei de Moisés só cortava as manifestações externas do mal, os frutos sensíveis das plantas — paixões, enfermidades — malignas do homem. Em contrapartida, o Salvador «corta por inteiro pela raiz as paixões..., introduz sua própria foice até as raízes do mal». Diferentemente da Lei, o Verbo de Deus feito homem penetra, semelhante à foice, até a raiz, arrancando não somente os efeitos, mas o próprio pecado. Clemente especifica ainda mais. O médico Jesus — em quem se adivinha o Verbo feito [[tnpl:carne:start|carne]], sensível à compaixão — derrama vinho e óleo sobre nossas feridas. Duplo simbolismo: a) o vinho, o sangue da Virgem, por cujo meio vem de [[tnpl:david:start|David]]; alude à efusão cruenta do Calvário, com eficácia «sobre nossas almas feridas», como se o sangue de Jesus afetasse propriamente apenas a [[tnpl:alma:start|alma]], remitindo-lhe o pecado ou purificando-a de suas paixões; b) oferece o óleo, símbolo da misericórdia paterna. O jogo entre óleo e misericórdia parece óbvio. «Diz o Senhor: “Encontrei um homem segundo meu coração, David, o filho de Jessé. Com óleo santo o ungi”.» Ajudava a passagem do «óleo» à «misericórdia» o crisma, facilmente vinculado aos dois. «A unção — escreve o Evangelho da Verdade 36,17ss — é a misericórdia do Pai, aquele que teve compaixão deles, isto é, dos eões. Os que foram ungidos são os perfeitos.» Acrescente-se a menção das «entranhas». Nas «entranhas de misericórdia» de Deus, [[b>Lucas 1:78]] descobre a origem da economia evangélica. O médico Jesus, que derramou o vinho de seu próprio sangue para remédio dos pecados, ofereceu com largueza o óleo de sua misericórdia, recebido das entranhas do Pai. O alexandrino desdobra à sua maneira a expressão evangélica «infundindo óleo e vinho». O óleo simboliza a índole divina de Jesus. Suscetível de morrer derramando sangue para remissão dos pecados, era Filho de Deus, cheio de misericórdia e capaz de infundi-la sobre os homens, perdoando-lhes os delitos. Médico eficaz, por ser homem e Deus, Jesus — contrariamente à Lei de Moisés — arranca da alma pecados e paixões. Não acabam aqui os símbolos. As ligaduras tinham o seu. O bom samaritano «ligou-lhe as feridas». Segundo o comentário de Clemente, aplicou-lhe «ligaduras» definitivas. «Deu a conhecer as ligaduras insolúveis da cura e da salvação: caridade, fé, esperança.» O Senhor aplicou ao homem — à maneira de laços irrompíveis, definitivos — a fé, a esperança e a caridade; elas o manteriam são e salvo, ao abrigo das potestades do mal. A ordem das virtudes provavelmente não é casual. Tampouco os dois genitivos «da cura e da salvação». O alexandrino viu possivelmente na «caridade, fé, esperança» ligaduras, isto é, virtudes curativas e preservativas, de cura e de conservação. O contexto imediato não basta para decidi-lo. Sem abordar diretamente o simbolismo do «hospedeiro», o Stromateu aduz elementos de interesse. «Os anjos, principados e potestades» se encarregam de servir aos homens. A eles cabe o serviço da dispensação humana. Alguma vez isso foi sublinhado, como premissa da interpretação origeniana do «procurador» de [[b>Mateus 20:8]] e [[b>Lucas 10:35]]. O bom samaritano encomenda ao hospedeiro o cuidado do ferido. O Salvador encarrega os anjos, principados e potestades de servirem aos homens. «Assim como o Salvador dirigia a palavra mediante o [[tnpl:corpo:start|corpo]] e curava por meio dele, assim também, primeiramente, mediante os profetas, e agora por meio dos apóstolos e dos mestres. A Igreja serve, com efeito, à atividade do Senhor. Daí que também então assumiu o homem para servir por meio dele à vontade do Pai. E sempre Deus misericordioso reveste o homem para a salvação dos homens: primeiro os profetas, agora a Igreja. Convém, efetivamente, que o semelhante sirva ao semelhante em ordem à salvação semelhante. Apóstolos e mestres prolongam a missão de ensinar e curar as paixões ou enfermidades da alma. O trânsito dos profetas e apóstolos aos anjos, e vice-versa, não cria dificuldade em Clemente. Ao encomendar aos anjos o serviço dos homens, o Salvador põe diante deles uma grande retribuição. A cláusula, em absoluto, poderia significar, por exemplo, «no dia da grande retribuição». O contexto impõe outra ideia. O Senhor lhes promete forte salário se cumprem o serviço do homem que lhes encomenda. Tal galardão se especifica em seguida: «por isso também eles, anjos, principados e potestades, serão libertados da vaidade do mundo por ocasião da revelação da glória dos filhos de Deus». O homem se libertará da vaidade do mundo ao revelar-se definitivamente na glória de filho de Deus. Mas também o anjo. As duas libertações dependem do Salvador, embora a angélica se subordine à humana. Os anjos devem coadjuvar, «ministros da dispensação humana», à soteriologia. Não porque sejam capazes de fazer «salvo» aquele que foi ferido gravemente pelos «príncipes tenebrosos deste mundo» — tanto a cura quanto a salvação definitiva do homem são obra exclusiva do Verbo encarnado —, mas porque Jesus lhes encomenda a dispensação complementar: o serviço do homem, já redimido, prevenindo novas feridas, isto é, recaídas. Ao homem — segundo a parábola dos operários — será dado por galardão o denário único da Vida Eterna. Ao anjo, isto é, aos anjos, principados e potestades — segundo a do bom samaritano — será retribuído grandemente de acordo com os serviços em benefício do homem: ao receber este o salário definitivo da vida eterna, o anjo receberá o seu, ficando livre da vaidade ou corrupção do mundo. Clemente supõe a sujeição angélica à vaidade do cosmos. Provavelmente, por não ter sabido — em Satanás e nos seus — manter-se diácono do homem. E formula uma notícia do éschaton angélico: em prêmio por seu «serviço» ao homem, o anjo se libertará da servidão ao mundo corruptível. Daí em diante, adentrado o homem na vida eterna, o anjo ficará exonerado do serviço humano; mais ainda, de toda vinculação aos elementos do cosmos sensível. E será preciso seguir a trajetória de 1 Pet 1,12 para definir positivamente a sorte do anjo.