===== CALLISTO E INACIO – GOUILLARD ===== {{tag>Primal Philokalia XIV}} Callisto e Inácio Xanthopoulos — Seleção de Jean Gouillard ==== Método e regra pormenorizada, inspirada nos santos, para uso dos que escolheram a vida hesicasta... ==== 8. O princípio de toda atividade agradável a Deus é a invocação, cheia de fé, do Nome salvador de Nosso Senhor Jesus Cristo. É ele quem nos diz: "Sem mim, nada podeis fazer" ( Jo 15,5 ). Depois, a paz, pois se deve "orar, diz ele, sem ira e sem animosidade" ( lTm 2,8 ); e a caridade ([[tnpl:agape:]]), porque "Deus é amor" e aquele "que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele" ( 1Jo 4,16 ). A paz e a caridade ([[tnpl:agape:]]) não somente tornam a oração ([[tnpl:euche:]]) agradável a Deus, mas, por sua vez, nascem da oração ([[tnpl:euche:]]), come raios divinos iguais e, através dela, crescem e se consomem... 13. Nossos gloriosos mestres e doutores, com muita sabedoria, movidos pelo Espírito Santo que habita neles, ensinam a todos nós — principalmente aos que querem aceitar o desafio da deificante hesíquia — que tenhamos por ocupação e exercício contínuos o santíssimo e dulcíssimo Nome; que o levemos, sem cessar, em nosso espírito ([[tnpl:nous:|noûs]]), em nosso coração ([[tnpl:kardia:]]) e em nossos lábios... 18. Parece-nos bom e particularmente útil expor primeiro um método natural do bem-aventurado Nicéforo; esse método é relativo à entrada no coração ([[tnpl:kardia:]]) por meio da inspiração, contribuindo, de certo modo, para o recolhimento do espírito (nous). Esse santo homem diz, entre outras afirmações apoiadas no testemunho escrito dos Padres, o seguinte: ... ( segue-se o texto citado em outro lugar ). 19. A intenção primeira do bem-aventurado Pai é esta: graças a esse método natural, trazer o espírito (nous) de volta de sua distração costumeira, de seu cativeiro, de sua dissipação, à atenção ([[tnpl:epimeleia:]]). E, por meio da atenção ([[tnpl:epimeleia:]]), uni-lo a si mesmo; uni-lo, assim, à oração ([[tnpl:euche:]]), para fazê-lo descer ao coração ([[tnpl:kardia:]]) junto com ela e fazer com que ali fixe a sua morada definitiva. Outro sábio, comentando, por assim dizer, essas palavras, explica as coisas do mesmo modo, baseado na própria experiência. 20. É importante acrescentar isto para o espírito (nous) que gosta de se instruir. Se treinarmos nosso espírito (nous) a descer em nós, ao mesmo tempo que a respiração, saberemos então, claramente, que o espírito (nous) que desceu desse modo, não sai antes de renunciar a todo pensamento ([[tnpl:logismos:]]); antes de se tornar uno e nu, e de ter uma lembrança única: a invocação de Jesus Cristo. Retirando-se para sair, fraciona-se, contra a vontade, na memória múltipla. 23. Fundados na própria experiência desse bem-aventurado exercício, os santos Padres e os doutores recomendam e ensinam àquele que se aplica na sobriedade ([[tnpl:nepsis:]]) espiritual do coração ([[tnpl:kardia:]]), o principiante, o seguinte: sobretudo que permaneça o tempo todo, e particularmente nas horas marcadas para a oração ([[tnpl:euche:]]), num canto sossegado e escuro. A vista distrai e dispersa naturalmente o espírito (nous), entre os objetos vistos e olhados; atormenta-o e diversifica-o. Aprisionado numa cela tranqüila e escura, ele já não será dividido e diversificado, por assim dizer, pela vista e pelo olhar. Assim, querendo ou não, o espírito (nous) vai parcialmente acalmar-se e recolher-se em si mesmo. 24. Mas antes disso, ou mais precisamente, antes de qualquer outra coisa, é por meio do socorro da graça ([[tnpl:kharis:]]) divina que o espírito (nous) se sai bem nesse combate. É a graça ([[tnpl:kharis:]]) divina que coroa a invocação monológica dirigida a Jesus Cristo pelo coração ([[tnpl:kardia:]]), com fé viva, com toda a pureza, sem distração. Não é o efeito puro e simples do método natural da respiração, praticado em lugar tranqüilo e escuro. Não! Os santos Padres, ao inventarem esse método, tiveram em vista apenas um auxiliar, se posso dizer assim, para recolher o espírito (nous), para trazê-lo de volta, a si mesmo, de sua habitual distração e para que consiga a atenção ([[tnpl:epimeleia:]]). Graças a essas disposições, nasce no espírito (nous) a oração ([[tnpl:euche:]]) constante, pura e sem distração. Como diz santo Nilo ( Evágrio ): "A atenção ([[tnpl:epimeleia:]]) que procura a oração ([[tnpl:euche:]]) encontrará a oração ([[tnpl:euche:]]). Se alguma coisa vai atrás da atenção ([[tnpl:epimeleia:]]), é justamente a oração ([[tnpl:euche:]]). Apliquemo-nos, pois, à atenção ([[tnpl:epimeleia:]])". É o bastante. Quanto a ti, meu Filho, se desejas passar dias felizes e viver "incorporeamente em teu corpo ([[tnpl:soma:]])", vive conforme a regra que te expus. 25. Ao pôr-do-sol, depois de chamar em teu auxílio o Senhor Jesus Cristo, soberanamente bom e poderoso, senta-te em teu escabelo, numa cela tranqüila e escura, congrega teu espírito (nous) de sua habitual distração e divagação; empurra-o então lentamente para o coração ([[tnpl:kardia:]]), ao mesmo tempo que a respiração, e aplica-te à oração ([[tnpl:euche:]]): "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim!" Explico-me: paralelamente à respiração, introduz, por assim dizer, as palavras da oração ([[tnpl:euche:]]), segundo o conselho de Hesíquio: "Une à tua respiração a sobriedade ([[tnpl:nepsis:]]) e o nome de Jesus, e também a meditação ([[tnpl:melete:]]) da morte. Pois ambos são preciosos: oração ([[tnpl:euche:]]) e pensamento ([[tnpl:logismos:]]) do Juízo..." Se as lágrimas não vêm, permanece sentado, atento a esses pensamentos ([[tnpl:logismos:]]), bem como à oração ([[tnpl:euche:]]), durante uma hora mais ou menos. Depois, levanta-te, salmodia atentamente o pequeno apodeipnon ( completas ); senta-te mais uma vez, aplica-te à oração ([[tnpl:euche:]]) com todas as tuas forças, com pureza e sem distração, isto é, sem preocupação nem pensamento ([[tnpl:logismos:]]), nem imaginação ([[tnpl:phantasia:]]), inteiramente vigilante durante meia hora. Para obedecer àquele que disse: "Durante a oração ([[tnpl:euche:]]), põe-te fora de todas as coisas, exceto a respiração e a alimentação, se queres ser um apenas com teu espírito (nous)". Faz então o Sinal da Cruz, bem como em teu leito, senta-te sobre ele, pensa nos fins últimos... pede perdão com fervor... deita-te, sem parar de orar, dócil ao conselho daquele que diz: "que a lembrança de Jesus participe do teu Sono" ( Climacus )... 26. Ao acordares, dá graças a Deus, chama-o ainda uma vez em teu auxílio e recomeça a obra essencial, a oração ([[tnpl:euche:]]) pura e sem distração: a oração ([[tnpl:euche:]]) do coração ([[tnpl:kardia:]]). Durante uma hora. É um momento em que o espírito (nous) está, geralmente, tranqüilo ([[tnpl:hesychia:]]) e sossegado. Foi-nos prescrito que imolássemos a Deus nossas primícias, isto é, que elevássemos, por assim dizer, diretamente, o nosso primeiro pensamento ([[tnpl:logismos:]]) para Jesus Cristo, por meio da oração ([[tnpl:euche:]]) do coração ([[tnpl:kardia:]]). Depois, diz o niésonyktichon ( matinas ) com toda a aplicação e atenção ([[tnpl:epimeleia:]]) possíveis. Em seguida, senta-te de novo e ora no coração ([[tnpl:kardia:]]), com toda a pureza e sem distração, como te mostrei, durante uma hora. E mais, se o Dispensador de todo bem te permitir. 38. Fica sabendo, meu irmão, que todos os métodos, regras e exercícios não têm outra origem e razão, além da incapacidade de orar em nosso coração ([[tnpl:kardia:]]), com pureza e sem distração. Quando, através da benevolência e da graça ([[tnpl:kharis:]]) de N.S. Jesus Cristo, conseguimos isso, abandonamos a pluralidade, a diversidade e a divisão e nos unimos imediatamente, acima de quaisquer palavras, ao Uno, ao Simples, Àquele que unifica. É o "Deus unido aos deuses e conhecido por eles" do Teólogo, mas é um privilégio raríssimo... 45. Há cinco obras que honram a Deus, pelas quais devem passar, dia e noite, quem é noviço em [[tnpl:hesychia:]]: a oração ([[tnpl:euche:]]), isto é, a lembrança do Senhor Jesus Cristo introduzida ininterruptamente no coração ([[tnpl:kardia:]]), pelo nariz, lentamente; expirada em seguida, com os lábios cerrados, sem nenhum outro pensamento ([[tnpl:logismos:]]) nem imaginação ([[tnpl:phantasia:]]). Isso se obtém por uma temperança geral na alimentação, no sono, nas sensações, exercitada na cela, com humildade ([[tnpl:tapeinophrosyne:]]) muito sincera. Depois, a salmodia, a leitura do saltério, do Apóstolo, dos Evangelhos, das obras dos santos Padres, principalmente as que se referem à oração ([[tnpl:euche:]]) e à sobriedade ([[tnpl:nepsis:]]); a lembrança dolorosa dos pecados ([[tnpl:hamartia:]]) no coração ([[tnpl:kardia:]]), a meditação ([[tnpl:melete:]]) do Juízo, da morte, do castigo e da recompensa, etc; um pequeno trabalho manual, para refrear a acedia. E depois, voltar à oração ([[tnpl:euche:]]), mesmo que para isso seja necessário esforço, até que o espírito (nous) esteja treinado em renunciar facilmente às suas divagações naturais, pela conversação única de Jesus Cristo, por sua lembrança constante, por uma inclinação contínua que o leva para o quarto interior, para a região secreta do coração ([[tnpl:kardia:]]), por meio de um enraizamento perseverante... 48. As palavras "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus" dirigem o espírito (nous), de modo imaterial, para aquele cujo nome enunciam. Pelas palavras "tende piedade de mim", o espírito (nous) volta-se sobre si próprio, como se não pudesse suportar a idéia de não orar para si mesmo. Quando tiver progredido no amor, através da experiência, ele se vai dirigir unicamente para o Senhor Jesus Cristo, pois terá a certeza evidente do que vem depois ( do perdão de seus pecados ([[tnpl:hamartia:]]) ). 49. Isso explica por que os santos Padres não dão sempre a oração ([[tnpl:euche:]]) inteira, mas este integralmente, aquele uma parte, um terceiro outra... conforme as forças, sem dúvida, e o estado de quem ora. 50. ( A oração ([[tnpl:euche:]]) do coração ([[tnpl:kardia:]]) remonta aos apóstolos, quanto aos elementos essenciais e à sua justificação )... Depois, os Padres acrescentaram e ajustaram as palavras salutares: "tende piedade", sobretudo por causa dos que ainda estavam na infância da virtude ([[tnpl:arete:]]), isto é, os principiantes e os imperfeitos... Os adiantados e os perfeitos ([[tnpl:teleios:]]) podem contentar-se com a primeira fórmula... e às vezes até unicamente com a invocação do nome de Jesus, que constitui toda a sua oração ([[tnpl:euche:]])... 52. Essa oração ([[tnpl:euche:]]) perpétua do coração ([[tnpl:kardia:]]) e o que a acompanha não se obtêm sem mais nem menos, com toda a facilidade, ao final de um curto e modesto esforço. Às vezes isso pode ter acontecido por disposição inefável de Deus, mas em regra geral é necessário muito tempo, sofrimento, esforço corporal e espiritual, além de violência contínua. 54. A oração ([[tnpl:euche:]]) do coração ([[tnpl:kardia:]]), pura e sem distração, é a que produz calor no coração ([[tnpl:kardia:]])... 56. Esse calor elimina os obstáculos que impedem a primeira oração ([[tnpl:euche:]]) pura de consumar sua perfeição...