===== SACRAMENTOS ===== {{tag>Primal IV}} //Ambrósio de Milão. Patrística. Editora Paulus// **Sobre a prioridade da fé e a abertura dos sentidos** * A fé vem em primeiro lugar para o homem cristão, sendo que em Roma são chamados de fiéis aqueles que foram batizados, e Abraão foi justificado pela fé e não pelas obras. * O sacerdote tocou os ouvidos e as narinas do batizando, inspirando-se no [[tnpl:evangelho:start|Evangelho]] quando [[tnpl:cristo:start|Cristo]] tocou os ouvidos e a boca de um surdo-mudo, dizendo a palavra hebraica “Effeta”, que significa “Abre-te”. * As narinas são tocadas para que se receba o bom odor da piedade eterna, podendo dizer-se, como o Apóstolo: “Somos o bom odor de Cristo para [[tnpl:deus:start|Deus]]” ([[b>2 Coríntios 2:15]]). **Sobre as renúncias e promessas feitas no batismo** * Chegando à fonte, o batizando é ungido como atleta de Cristo para lutar no mundo, onde há luta, aí também há a coroa, embora a recompensa esteja no céu. * Ao ser interrogado, o batizando responde “Renuncio” ao diabo e às suas obras, ao mundo e às suas concupiscências, devendo lembrar-se dessa palavra e das consequências do seu aval. * A promissória assinada não está guardada na terra, mas no céu, pois onde está o [[tnpl:corpo:start|corpo]] de Cristo, aí também estão as águias, conforme o Evangelho ([[b>Mateus 24:28]]). **Sobre a superioridade do batismo cristão em relação às figuras antigas** * Os sacramentos dos cristãos são mais divinos e anteriores aos dos [[tnpl:judeus:start|judeus]], pois enquanto os judeus que atravessaram o mar morreram no deserto, quem passa por esta fonte não morre, mas ressuscita. * No caso do sírio Naamã, a água não cura por si mesma, mas a água que contém a graça de Cristo cura, sendo uma coisa o elemento e outra a consagração, uma coisa o ato e outra a eficácia do Espírito Santo. * Cristo desceu à água e o Espírito Santo desceu como uma pomba, enquanto Deus Pai falou do céu, estando assim presente a Trindade, conforme a passagem em que João batiza [[tnpl:jesus:start|Jesus]] ([[b>Mateus 3:14-17]]). **Sobre as múltiplas figuras do batismo na Escritura** * No mar Vermelho houve uma figura do batismo, como diz o Apóstolo: “Nossos pais foram todos batizados na nuvem e no mar” ([[b>1 Coríntios 10:2]]), sendo que aquelas coisas aconteciam em figura, mas para os cristãos são na [[tnpl:realidade:start|realidade]]. * No dilúvio, pereceu toda a corrupção da [[tnpl:carne:start|carne]] e somente a raça do justo permaneceu, sendo o batismo esse dilúvio onde todos os pecados são desfeitos e somente ressuscitam o espírito e a graça. * Na piscina de Betesda, um anjo descia e agitava a água, e aquele que descia primeiro ficava curado de qualquer doença, representando a figura de Cristo e sendo um sinal para os incrédulos. * Quando Eliseu lançou madeira na água e o ferro do machado veio à tona, vê-se que a enfermidade de todos os homens é tirada através da cruz de Cristo. * Em Mara, Moisés pôs madeira na fonte amarga e a água se tornou doce, significando que toda criatura sujeita à corrupção é água amarga, mas ao receber a cruz de Cristo começa a ser doce. **Sobre o significado teológico do batismo como morte e ressurreição** * O batismo foi encontrado para desfazer a trama do diabo neste mundo, sendo um desígnio de Deus, pois os [[tnpl:fariseus:start|fariseus]] que não quiseram ser batizados desprezaram o desígnio de Deus ([[b>Lucas 7:30]]). * O batizando é interrogado três vezes, crendo em Deus Pai onipotente, em nosso Senhor Jesus Cristo e na sua cruz, e no Espírito Santo, entrando na água a cada vez para ser sepultado com Cristo e ressurgir com Cristo. * Assim como [[tnpl:pedro:start|Pedro]], que havia negado três vezes, foi interrogado três vezes por Cristo se o amava e respondeu “Senhor, tu sabes que eu te amo” ([[b>João 21:17]]), assim a tríplice confissão absolve as inúmeras faltas da vida passada. * O batismo é na morte de Jesus, significando que, como Cristo morreu para o pecado e vive para Deus, também o batizando morre para as antigas atrações dos pecados e ressuscita pela graça de Cristo. **Sobre a unção, a lavagem dos pés e o selo espiritual** * Recebe-se o myrum, isto é, o ungüento, na cabeça, pois a razão do sábio está em sua cabeça, e a sabedoria, ao receber a graça, começa a tornar-se perfeita, o que se chama regeneração. * Após a fonte, o sumo sacerdote lava os pés do batizando, seguindo o exemplo do Senhor que disse a Pedro: “Se eu não lavar os teus pés, não terás parte comigo” ([[b>João 13:8]]). * Embora a Igreja romana não tenha esse costume de lavar os pés, por causa do grande número, trata-se de um mistério e santificação para lavar os venenos da serpente na parte onde Adão foi suplantado. * Depois da fonte, vem o selo espiritual, quando, pela invocação do sacerdote, se infunde o Espírito da sabedoria e da inteligência, do conselho e da força, do [[tnpl:conhecimento:start|conhecimento]] e da piedade, e do temor santo, que são as sete virtudes do Espírito ([[b>Isaías 11:2-3]]). **Sobre a abertura dos olhos e a aproximação ao altar** * Depois do batismo, pode-se aproximar do altar e ver o que antes não se via, como o cego curado por Jesus que tomou barro, ungiu os seus olhos e lhe disse: “Vai a Siloé” (que significa Enviado), e ele foi, lavou-se e voltou enxergando ([[b>João 9:6-7]]). * O homem se reconhece ao procurar refúgio no batismo de Cristo, recebendo o barro que significa o respeito, a prudência e a consideração da própria fragilidade, para então ir à fonte onde se anuncia a cruz. * Aproximando-se do altar, os [[tnpl:anjos:start|anjos]] olham e se admiram, dizendo: “Quem é esta que sobe do deserto alvejada?” ([[b>Cantares 8:5]]), pois foram concedidas coisas que até os anjos desejam ver, como disse o apóstolo Pedro. **Sobre a antiguidade e a eficácia dos sacramentos cristãos** * Os mistérios dos cristãos são mais antigos do que os dos judeus, pois no tempo de Abraão, o sacerdote Melquisedec ofereceu pão e vinho ([[b>Gênesis 14:14-18]]), sendo ele “sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem início dos dias, nem fim de sua vida, semelhante ao Filho de Deus” ([[b>Hebreus 7:3]]). * Antes da consagração, o pão é pão comum, mas depois das palavras de Cristo, o pão se transforma em carne de Cristo, pois é a palavra de Cristo que produz o sacramento, a mesma palavra pela qual todas as coisas foram feitas ([[b>Salmos 32:9]]; 148,5). * A palavra de Cristo muda as leis da natureza, como no nascimento de Cristo de uma virgem, na divisão do mar Vermelho, na água de Mara que se tornou doce com a madeira, e no ferro do machado que subiu à tona pela madeira. * O pão se transforma em corpo de Cristo e o vinho com água se transforma em sangue, sendo que se bebe o símbolo do precioso sangue para que não haja horror do sangue derramado, mas se realize o preço da redenção. **Sobre a consagração e a frequência da comunhão** * O sacerdote, usando as palavras de Cristo, diz: “Tomai e comei disso todos, porque isto é o meu corpo” e “Tomai e bebei disso todos, porque este é o meu sangue” ([[b>Mateus 26:26-28]]), sendo que antes das palavras de Cristo é pão, mas depois é corpo de Cristo. * O maná do céu foi dado aos judeus, mas o corpo de Cristo é maior, pois aquele que comeu o maná morreu, enquanto quem comer este corpo terá a remissão dos pecados e não morrerá para sempre ([[b>João 6:49-59]]). * Quando o sacerdote diz “Corpo de Cristo”, o fiel responde “Amém”, isto é, “é verdadeiro”, confessando em espírito que recebe o corpo de Cristo, cuja figura veio antes com Melquisedec. * Todas as vezes que se recebe o sacramento, anuncia-se a morte do Senhor ([[b>1 Coríntios 11:26]]), e sendo o sangue derramado para a remissão dos pecados, deve-se recebê-lo sempre, pois quem sempre peca deve sempre ter um remédio. **Sobre a mistura da água com o vinho e o convite ao banquete celeste** * No cálice coloca-se vinho e também água, porque no tempo de Moisés, Moisés tocou a rocha com a vara e a rocha jorrou água, sendo que a rocha era Cristo ([[b>1 Coríntios 10:4]]), e do lado de Cristo na cruz saiu água e sangue ([[b>João 19:31-34]]): água para purificar, sangue para redimir. * A alma purificada de todos os pecados diz a Cristo: “Que ele me beije com beijos de sua boca, porque os teus seios são melhores do que o vinho” ([[b>Cantares 1:1]]), e “Teu nome é um perfume que escorre; por isso, as donzelas te amaram” ([[b>Cantares 1:2]]). * O salmo 22 se aplica aos sacramentos celestes: “O Senhor me apascenta e nada me faltará... Preparaste uma mesa diante de mim... Ungiste a minha cabeça com óleo e o teu corpo inebriante, que é excelente” ([[b>Salmos 22:1-5]]). **Sobre a oração dominical e o modo de orar** * Os santos apóstolos pediram ao Senhor Jesus: “Senhor, ensina-nos a orar” ([[b>Lucas 11:1]]), e o Senhor pronunciou a oração: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha o teu Reino, seja feita a tua vontade assim no céu como na terra. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes ser induzidos em tentação, mas livra-nos do mal” ([[b>Mateus 6:9-13]]). * O batizado, que não ousava levantar o rosto para o céu, recebeu a graça de Cristo e todos os seus pecados foram perdoados, sendo salvo pela graça ([[b>Efésios 2:5]]), e por isso pode dizer “Pai nosso”, chamando a Deus como Pai comum. * O pão da oração dominical é o pão epioússion, isto é, substancial, não o pão que entra no corpo, mas o pão da vida eterna que reconforta a substância da alma. * Se o pão é cotidiano, não se deve esperar um ano para recebê-lo, como fazem os gregos no Oriente, mas recebê-lo a cada dia, pois quem tem uma ferida procura um remédio, e o remédio é o celeste e venerável sacramento. * Na oração, deve-se perdoar as dívidas (os pecados) assim como se perdoa aos devedores, e pedir para não ser induzido em tentação, mas para ser libertado do mal, sendo que se Deus está conosco, ninguém contra nós ([[b>Romanos 8:31]]). **Sobre a verdadeira carne e o verdadeiro sangue de Cristo** * O que se recebe é verdadeira carne e a bebida é o verdadeiro sangue de Cristo ([[b>João 6:56]]), e embora se veja aparência, a palavra de Cristo pode mudar e transformar as leis gerais da natureza. * Quando os discípulos de Cristo não suportaram a palavra de que ele daria sua carne para comer e seu sangue para beber, eles se retiraram, mas Pedro disse: “Tu tens palavras de vida, para onde irei eu longe de ti?” ([[b>João 6:69]]). * Recebem-se os sacramentos de maneira simbólica, mas recebe-se a graça e a virtude da real natureza, pois Cristo é o pão vivo que desceu do céu ([[b>João 6:41]]), e quem recebe a carne participa da substância divina por esse alimento. **Sobre a Trindade e o modo de orar em todo lugar** * Em tudo o que se faz no batismo, é conservado o mistério da Trindade, estando em todo lugar o Pai, o Filho e o Espírito Santo, com uma só operação e uma só santificação, havendo diversidade de graças, mas o mesmo Espírito, diversidade de serviços, mas o mesmo Senhor, diversidade de operações, mas o mesmo Deus que realiza tudo em todos ([[b>1 Coríntios 12:4-6]]). * O apóstolo Paulo diz “Quero que os homens rezem em todo lugar, elevando mãos puras, sem ira e sem discussão” ([[b>1 Timóteo 2:8]]), e o Senhor diz no Evangelho “Tu, quando rezares, entra em teu quarto e, fechada a porta, reza ao teu Pai” ([[b>Mateus 6:6]]), não havendo contradição porque o quarto é o espírito. * Quando se ora, não se deve gritar nem se vangloriar no meio das pessoas, pois aquele que vê o que está escondido ouve a oração em segredo, e a oração deve começar com o louvor de Deus, depois a súplica, o pedido e a ação de graças. * As mulheres devem orar sem ostentar enfeites e jóias ([[b>1 Timóteo 2:9]]), tendo o ornamento na oração de coração puro, onde se encontra o homem escondido de coração que é sempre rico junto de Deus (1Pd 3,3-4).