====== DEUS-TRINDADE ====== //Teologia Mística da Igreja do Oriente// * O apofatismo próprio ao pensamento teológico da Igreja do Oriente não equivale a uma mística impessoal nem a uma experiência da divindade como nada absoluto em que se perderia tanto a pessoa humana quanto Deus-pessoa. * O termo ao qual conduz a teologia apofática não é uma natureza ou essência, tampouco uma pessoa, mas algo que ultrapassa ao mesmo tempo toda noção de natureza e de pessoa — a Trindade. * A Trindade é descrita como aquilo que supera simultaneamente a noção de natureza e a de pessoa. * Gregório de Nazianzo, chamado de "cantor da Santa Trindade", descreve em seus poemas teológicos a experiência de ser arrebatado pela inteligência suprema para longe do carnal e encerrado no segredo do tabernáculo celeste. * Gregório de Nazianzo registra: "A partir desse dia meus olhos foram deslumbrados pela luz da Trindade, cujo brilho ultrapassa tudo o que o pensamento poderia apresentar à minha alma; pois de seu assento sublime a Trindade difunde sobre tudo seu inefável resplendor comum aos Três." * Ao fim da vida, Gregório de Nazianzo deseja estar "lá onde está minha Trindade e o brilho reunido de seu esplendor... Trindade, de cujas sombras confusas me encho de emoção." * A Trindade representa uma estabilidade absoluta que transcende a antinomia do necessário e do contingente, pois nela liberdade e necessidade se identificam, sem que haja dependência alguma em relação ao ser criado. * A criatura é contingente por natureza e sujeita à mudança; a Trindade é estabilidade absoluta. * As criaturas poderiam não existir; Deus seria igualmente Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — pois a criação é ato de vontade, enquanto a processão das pessoas é ato "segundo a natureza" (kata physin). * Não há processo interior em Deus, nem dialética das três pessoas, nem devir, nem tragédia no Absoluto que necessitasse de superação. * As concepções de devir e tragédia interior em Deus são próprias das tradições românticas da filosofia alemã do século XIX e são totalmente estranhas ao dogma da Trindade. * O apelo à teologia apofática se faz necessário para libertar o pensamento dos conceitos próprios à razão, transformando-os em suportes para a contemplação de uma realidade que a inteligência criada não pode conter. * A mente deve mover-se incessantemente entre a unidade e a trindade, oscilando sem parar entre os dois termos da antinomia para alcançar a contemplação do repouso soberano da mônade trina. * Gregório de Nazianzo, em sua oração sobre o batismo, afirma: "Mal começo a pensar na Unidade que a Trindade me banha em seu esplendor. Mal começo a pensar na Trindade que a Unidade me reavoca. Quando um dos Três se apresenta a mim, penso que é o todo... Quando uno os Três num mesmo pensamento, vejo um único facho, sem poder dividir ou analisar a luz unificada." * Gregório de Nazianzo, consciente de que empresta a linguagem de Plotino, escreve para filósofos em linguagem filosófica a fim de conduzi-los à contemplação da Trindade: "A mônade se põe em movimento em virtude de sua riqueza; a díade é ultrapassada, pois a divindade está acima da matéria e da forma; a tríade se encerra na perfeição, pois é a primeira que ultrapassa a composição da díade." * O número três revela que a divindade não é nem uma nem múltipla — nem judaicamente unitária nem helenicamente politeísta. * O número três exprime que o uno e o múltiplo se encontram reunidos e circunscritos na Trindade, indicando uma ordem inefável na divindade que escapa à aritmética ordinária. * Gregório de Nazianzo afirma que trias é "a palavra que une as coisas unidas por natureza e não deixa que os inseparáveis se dispersem por um número que separa." * Gregório de Nazianzo declara: "Quando nomeio Deus, nomeio o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não que eu suponha uma divindade difusa... nem que eu a suponha recolhida num único... pois não quero nem judaizar por causa da monarquia divina, nem helenizar por causa da abundância divina." * Basílio de Cesareia responde à objeção sobre o número afirmando: "Não contamos compondo, indo do um ao múltiplo por aumento... adorando o Deus de Deus, confessando a individualidade das hipóstases sem dividir a natureza em multidão, permanecemos na monarquia." * O número tríplice nas hipóstases divinas não é quantidade ordinária — exprime a ordem inefável na divindade onde 3 = 1. * A contemplação da perfeição absoluta que é a Trindade eleva a alma humana acima do ser mutável e lhe confere a estabilidade no meio das paixões — a apatheia — que é o começo da deificação. * A criatura, mutável por natureza, deve alcançar o estado de estabilidade eterna pela graça, participando da vida infinita na luz da Trindade. * A Igreja defendeu com veemência o mistério da Santa Trindade contra as tendências da razão humana que o suprimiam, reduzindo a Trindade à unidade, como no modalismo de Sabélio, ou dividindo-a em três seres distintos, como fez Ário. * A Igreja expressou pelo homoousios a consubstancialidade dos Três — a identidade misteriosa da mônade e da tríade, ao mesmo tempo identidade e distinção da natureza una e das três hipóstases. * A expressão to homoousíon einai se encontra em Plotino. * A trindade plotiniana compreende três hipóstases consubstanciais — o Um, a Inteligência e a Alma do mundo — organizadas como hierarquia decrescente, não como antinomia trinitária do dogma cristão. * A Revelação abre um abismo entre a Verdade que anuncia e as verdades alcançáveis pela especulação filosófica. * O pensamento humano, guiado pelo instinto da verdade, podia fora do cristianismo aproximar-se de algumas ideias afins à Trindade, mas o mistério de Deus-Trindade permanecia impenetrável sem a metanoia — a mudança de espírito, que é também a penitência. * Jó 42, 5-6: "Meus ouvidos tinham ouvido falar de Ti, mas agora meu olho Te viu. Por isso me condeno e me arrependo sobre o pó e sobre a cinza." * Foram necessários esforços sobre-humanos para purificar os conceitos do pensamento helenístico, introduzindo o apofatismo cristão que transformou a especulação racional em contemplação do mistério da Trindade. * Atanásio de Alexandria, Basílio de Cesareia e Gregório de Nazianzo, entre outros, trabalharam para romper as divisórias estanques dos conceitos gregos. * O objetivo era encontrar uma distinção de termos que exprimisse a unidade e a diferenciação da divindade sem dar preeminência a uma sobre a outra, para que o pensamento não caísse no unitarismo sabeliano nem no triteísmo pagão. * Os Padres do século IV — o "século trinitário" por excelência — serviram-se dos termos ousia e hypostasis para conduzir as inteligências ao mistério da Trindade. * Aristóteles nas Categorias (cap. V) define ousia: "Chama-se principalmente, primeiramente, propriamente ousia o que não é dito de nenhum sujeito e não está em nenhum sujeito; por exemplo, este homem ou este cavalo. Chamam-se 'segundas usias' as espécies nas quais as 'primeiras usias' existem com os gêneros correspondentes." * João Damasceno na Dialética define ousia como "a coisa que existe por si mesma e não necessita de mais nada para sua consistência" e hypostasis como aquilo que "designa o que existe por si mesmo e em sua própria consistência, designando o indivíduo numericamente diferente de todo outro, por exemplo Pedro, Paulo, este determinado cavalo." * Segundo Teodoreto de Ciro, para a filosofia profana não há diferença entre ousia e hypostasis, mas segundo a doutrina dos Padres há entre eles a mesma diferença que entre o comum e o particular. * O gênio dos Padres serviu-se dos dois sinônimos para distinguir em Deus o que é comum — ousia, substância ou essência — e o que é particular — hipóstase ou pessoa. * O termo persona — em grego prosopon — suscitou inicialmente vivas contestações por parte dos orientais, pois designava antes o aspecto exterior do indivíduo, o rosto, a máscara ou o papel de um personagem de teatro. * Basílio de Cesareia viu no termo persona uma tendência própria ao pensamento ocidental, já expressa no sabelianismo, que fazia do Pai, do Filho e do Espírito Santo três modalidades de uma substância única. * Os ocidentais, por sua vez, viam no termo hipóstase, que traduziam por substantia, uma expressão do triteísmo e até do arianismo. * O malentendido foi superado: hipóstase passou ao Ocidente conferindo à noção de pessoa seu sentido concreto; persona foi recebido e convenientemente interpretado no Oriente. * Gregório de Nazianzo reuniu as duas perspectivas: "Quando falo de Deus, deveis sentir-vos banhados numa única luz e em três luzes. Digo três, como caracteres próprios ou como hipóstases, ou como pessoas... Digo 'uma' em relação à ousia, isto é, à divindade." * Gregório de Nazianzo resume os caracteres hipostáticos: "Não ser engendrado, ser engendrado, proceder, caracterizam o Pai, o Filho e Aquele que se chama Espírito Santo, de modo a salvaguardar a distinção das três hipóstases na única natureza e majestade da Divindade." * A noção teológica de hipóstase, purificada de seu conteúdo aristotélico, significa menos o indivíduo do que a pessoa no sentido moderno, e é justamente da teologia cristã que provém a ideia de pessoa que temos. * A pessoa humana não pode ser expressa em conceitos — escapa a toda definição racional e a toda descrição, pois todas as propriedades que a caracterizariam podem ser encontradas em outros indivíduos. * A pessoa só pode ser captada na vida por uma intuição direta ou traduzida por uma obra de arte: "quando dizemos 'é Mozart' ou 'é Rembrandt', encontramo-nos cada vez num universo pessoal que não tem equivalente em lugar algum." * João Damasceno afirma que "as pessoas ou hipóstases humanas são isoladas e não estão umas nas outras", ao passo que "na Santa Trindade, ao contrário, as hipóstases estão umas nas outras." * João Damasceno descreve a circumincessão (ten en allelais perikhoresis): "as pessoas são unidas não para se confundir, mas para se conter umas às outras... sem mistura nem confusão, em virtude da qual não são separadas nem divididas em substância... a divindade é indivisa nos indivíduos, como em três sóis contidos uns nos outros haveria uma única luz por compenetração íntima." * "Cada uma das pessoas contém a unidade por sua relação às outras, não menos do que por sua relação a si mesma." * João Damasceno sintetiza: "Um em tudo são o Pai, o Filho e o Espírito Santo, salvo a inascibilidade, a filiação e a processão." * A única característica das hipóstases que pode ser formulada como exclusivamente própria a cada uma é a relação de origem, mas esta deve ser entendida em sentido apofático — sobretudo como negação mostrando que o Pai não é o Filho nem o Espírito Santo, e assim por diante. * Gregório de Nazianzo afirma: "Tu perguntas o que é a processão do Espírito Santo? Dize-me primeiro o que é a inascibilidade do Pai; então, por minha vez, tratarei como fisiologista a geração do Filho e a processão do Espírito." * Gregório de Nazianzo acrescenta: "Ouves que há geração? Não busques curiosamente o como. Ouves que o Espírito procede do Pai? Não te esgotes a buscar o como." * João Damasceno formula: "O modo da geração e o modo da processão são incompreensíveis... Aprendemos que há uma diferença entre a geração e a processão, mas de nenhum modo qual é esse gênero de diferença." * As relações de origem — inascibilidade, filiação, processão — remetem o pensamento à fonte única do Filho e do Espírito Santo, à peguia theotes — o Pai, Fonte de divindade — sem estabelecer uma relação separada entre o Filho e o Espírito Santo. * A reação de Gregório de Nazianzo diante das especulações sobre o modo das processões mostra que a doutrina ocidental do Filioque — processão do Espírito Santo ab utroque, isto é, do Pai e do Filho — foi a única razão dogmatique primordial da separação entre Oriente e Ocidente. * A expressão dia Hyiou — "pelo Filho" ou "em relação com o Filho" — encontrada nos Padres significa o mais das vezes a missão do Espírito Santo no mundo por intermédio do Filho, não uma relação de origem hipostática. * O Filioque foi a razão primordial da separação; as demais dissensões doutrinárias foram apenas suas consequências. * O pensamento ocidental parte da natureza una para considerar em seguida as três pessoas, enquanto os gregos seguem o caminho inverso — das três pessoas à natureza una —, e ambas as vias eram igualmente legítimas, desde que não impusessem supremacia de um polo sobre o outro. * Basílio de Cesareia preferia partir das três pessoas, conforme a Sagrada Escritura e a fórmula batismal que nomeia o Pai, o Filho e o Espírito Santo. * Quando se faz pender o equilíbrio entre natureza e pessoas em um sentido ou no outro, tende-se ao unitarismo sabeliano ou ao triteísmo. * Os gregos viram na fórmula do Filioque uma tendência a acentuar a unidade de natureza em detrimento da distinção real das pessoas. * Na concepção ocidental, o Pai e o Filho fazem proceder o Espírito Santo enquanto representam a natureza una; o Espírito Santo, por sua vez, seria "o vínculo do Pai e do Filho", significando essa unidade natural. * Tomás de Aquino dirá mais tarde: "o nome de pessoa significa a relação" — rapport interno da essência que a diversifica. * O Padre de Régnon observa: "A filosofia latina envisage primeiro a natureza em si mesma e prossegue até o suposto; a filosofia grega envisage primeiro o suposto e nele penetra para encontrar a natureza. O latino considera a personalidade como um modo da natureza; o grego considera a natureza como o conteúdo da pessoa." * Os Padres gregos sempre afirmaram que o princípio de unidade na Trindade é a pessoa do Pai — fonte das duas outras pessoas e termo das relações de origem. * O Oriente opôs-se ao Filioque porque parecia infirmar a monarquia do Pai: ou se reconheceriam dois princípios de divindade, ou a unidade se fundaria sobretudo na natureza comum, transformando as pessoas em relações na unidade da essência. * Para os ocidentais, as relações diversificam a unidade primordial; para os orientais, elas significam ao mesmo tempo diversidade e unidade, porque se referem ao Pai que é tanto o princípio quanto a recapitulação (synkephalaiosis) da Trindade. * Atanásio de Alexandria comenta Dionísio de Alexandria: "estendemos a unidade na Trindade sem dividi-la e em seguida recapitulamos a Trindade na unidade sem diminuí-la." * Atanásio declara: "Há um único princípio da divindade e por consequência há monarquia da maneira mais absoluta." — "Um único Deus porque um único Pai", segundo o adágio dos Padres gregos. * Gregório de Nazianzo afirma: "Segundo meu julgamento, salvaguarda-se um único Deus referindo o Filho e o Espírito a um único Princípio, sem compô-los nem confundi-los, e afirmando a identidade de substância e o que chamarei o único e mesmo movimento e querer da divindade." * João Damasceno formula com precisão doutrinária: "O Pai tem o ser por si mesmo e não recebe de outro nada do que tem. Ao contrário, Ele é a fonte e o princípio para todos de sua natureza e sua maneira de ser... Se o Pai não existisse, nem o Filho existiria, nem o Espírito." * Máximo Confessor: o Pai distingue as hipóstases "num movimento eterno de amor" (akronos kai agapetikos). * Basílio de Cesareia e João Damasceno distinguem com precisão as três pessoas sem submetê-las à categoria da relação, afirmando que o Espírito Santo procede do Pai e é chamado Espírito do Filho, mas não se diz que procede do Filho. * Basílio de Cesareia descreve: "do Pai procede o Filho pelo qual são todas as coisas e com o qual o Espírito Santo é sempre inseparavelmente conhecido... o Espírito Santo, fonte de todos os bens distribuídos às criaturas, está ligado ao Filho com quem é inseparavelmente concebido; de outra parte, seu ser está suspenso ao Pai de quem procede." * João Damasceno precisa: "não fazemos proceder o Pai de ninguém... dizemos que o Filho provém do Pai e é o Filho do Pai; dizemos também que o Espírito Santo procede do Pai e o chamamos Espírito do Filho — mas do Filho não dizemos que o Espírito procede (ek tou Hyiou de to Pneuma ou legomen, Pneuma de Hyiou onomazomen)." * O Verbo e o Espírito — dois raios de um mesmo sol ou "antes dois sóis novos" — são inseparáveis em sua ação manifestadora do Pai e, contudo, inefavelmente distintos como duas pessoas que procedem do mesmo Pai. * Introduzir o Filioque significaria que a monarquia do Pai cederia lugar à concepção da substância una onde as relações fundariam a distinção das pessoas, e a hipóstase do Espírito Santo se tornaria apenas um vínculo recíproco entre Pai e Filho. * Os orientais defenderam o caráter inefável e apofático da processão do Espírito Santo do Pai — fonte única das pessoas — contra uma doutrina mais racional que, ao fazer do Pai e do Filho um princípio comum do Espírito, punha o comum acima do pessoal. * Ao insistir na monarquia do Pai como fonte única de divindade, os orientais defendiam uma concepção da Trindade mais concreta e pessoal, evitando tanto o excesso de fazer preceder as pessoas à natureza quanto o subordinacionismo. * A sofologia do Padre Bulgakov — teólogo russo moderno — é citada como exemplo do perigo oriental de fazer da natureza uma revelação comum das pessoas, doutrina cujos perigos foram comparados aos de Orígenes. * Gregório de Nazianzo antecipou a objeção do subordinacionismo: "Eu teria amado exaltar o Pai como o maior, Ele de quem os iguais recebem sua igualdade junto com seu ser... temo, porém, fazer do Princípio um princípio de inferiores e assim ofendê-lo ao querer exaltá-lo." * Gregório de Nazianzo conclui: "Divindade... sem grau superior que eleva ou grau inferior que rebaixa, de todo modo igual, de todo modo a mesma... É de três infinitos a infinita connaturalidade. Deus inteiro cada um considerado em si mesmo... Cada um é Deus por causa da consubstancialidade; os Três são Deus por causa da monarquia." * O pensamento apofático dos Padres, ao formular o dogma da Trindade, soube guardar na distinção entre a natureza e as hipóstases sua equivalência misteriosa — Deus é "identicamente mônade e tríade", segundo a palavra de Máximo Confessor. * O Incognoscível se revela precisamente por ser incognoscível, porque Deus não é apenas natureza mas três pessoas. * O apofatismo desemboca na revelação da Santa Trindade como fato inicial, realidade absoluta, dado primeiro que não pode ser deduzido, explicado ou encontrado a partir de outra verdade, porque nada lhe é anterior. * Quando a natureza comum passa ao primeiro plano na concepção do dogma trinitário, a realidade religiosa de Deus-Trindade se apaga em certa medida, dando lugar a uma filosofia da essência. * No Ocidente, a ideia de beatitude recebe um acento intelectual, apresentando-se como visão da essência de Deus. * A relação pessoal do homem com o Deus vivo não se dirige mais à Trindade, mas tem por objeto a pessoa de Cristo que revela a essência divina. * O pensamento e a vida cristã tornam-se cristocêntricos, ligando-se sobretudo à humanidade do Verbo encarnado. * Nas condições doutrinárias próprias ao Ocidente, toda especulação propriamente teocêntrica arriscaria visar a essência antes das pessoas, tornando-se uma mística do "abismo divino" — como a Gottheit de Mestre Eckhart — um apofatismo impessoal da divindade-nada, anterior à Trindade, o que levaria paradoxalmente de volta à mística neoplatônica. * Na tradição da Igreja do Oriente não há lugar para uma teologia nem para uma mística da essência divina — a fim última, a beatitude do Reino celeste, é antes de tudo a participação na vida divina da Santa Trindade. * O estado deificado dos "coerdeiros da natureza divina" — deuses criados após o Deus incriado — consiste em possuir pela graça tudo o que a Santa Trindade possui por natureza. * A Trindade é, para a Igreja ortodoxa, o fundamento inabalável de todo pensamento religioso, de toda piedade, de toda vida espiritual e de toda experiência — revelação primordial e fonte de todo ser. * O Padre Florenski — teólogo russo moderno — afirma que não há outra saída para o pensamento humano senão admitir a antinomia trinitária para encontrar estabilidade absoluta: rejeitar a Trindade como fundamento único de toda realidade conduz à aporia, à loucura, ao dilaceramento do ser, à morte espiritual. * "Entre a Trindade e o inferno não há outra escolha." * O dogma trinitário é uma cruz do pensamento humano; a ascensão apofática é uma subida ao calvário. * Nenhuma especulação filosófica jamais pôde elevar-se até o mistério da Santa Trindade; os espíritos humanos só puderam receber essa revelação plena da divindade após a cruz de Cristo, que triunfou sobre a morte e sobre os abismos do inferno. * A revelação da Trindade ressoa na Igreja como dado puramente religioso, como a verdade católica por excelência.