===== Quididade e Ser Segundo ===== //Vladimir Lossky. Théologie négative et connaissance de Dieu chez Maitre Eckhart. Paris: Vrin, 1960// * A opinião de vários críticos coincide em encontrar em Eckhart a distinção tomista entre a essência e o ser nas criaturas, desde os trabalhos de H. Denifle. * H. Denifle, na obra Escritores Latinos de Mestre Eckhart e a Visão Fundamental de sua Doutrina, analisa a distinção real entre essência e existência na filosofia medieval sem diferenciar suficientemente as doutrinas de Avicena, Guilherme de Auvergne, Alberto Magno e São Tomás. * Denifle encontra em Eckhart uma distinção nas criaturas entre a quididade e o ser, idênticos em Deus, afirmando que essa distinção constitui o ponto de partida para a sua visão fundamental. * Esse erudito considerou que Eckhart não foi capaz de responder o que era o ser em oposição à essência, aproximando o próprio ser de Eckhart do ser abstrato de Boécio no tratado De Hebdomadibus, que afirma que o que é possui algo além do próprio ser, mas o próprio ser nada tem misturado consigo. * Denifle concluiu que Eckhart não separava nitidamente o ser da criatura em relação ao ser de Deus por não manter os conceitos bem definidos. * Alguns críticos acreditam ser necessário reconhecer uma dependência de Eckhart em relação a São Tomás nesse ponto, inclusive entre aqueles que buscam opor o pensamento do dominicano alemão ao do Doutor Angélico. * O mestre Eckhart é tratado por críticos como o padre G. Théry como um espírito confuso incapaz de compreender o ensinamento do Doutor Angélico, enquanto outros defensores, como O. Karrer e W. Bange, sustentam a sua ortodoxia tomista. * W. Bange afirma que Eckhart professava a distinção real entre essência e existência, dedicando um capítulo ao tema da diferença real entre o ser—assim e o ser—aí. * Bange reduz a questão do próprio ser e da essência criada à relação entre o pelo qual é e o que é, buscando encontrar um pelo qual é existencial criado que responderia ao próprio ser de São Tomás para afastar a crítica de Denifle. * O texto do processo de Colônia utilizado por Bange não permite enxergar no ser formalmente inerente um pelo qual é criado distinto da forma que confere ao composto o ser isto ou aquilo. * Hans Hof apresenta uma crítica a essa interpretação na obra Scintilla animae. * H. Ebeling, na obra A Mística de Mestre Eckhart, afirma que a tarefa de Eckhart teria sido transformar a doutrina do ser de São Tomás para torná—la invulnerável às críticas dos escotistas, observando passagens onde ele ensinaria a distinção real, embora conclua que a doutrina é inclinada para um monismo do ser. * E. Seeberg, nos Eckhartiana I, acredita encontrar em Eckhart o ser como existência diferente do Ser divino e distinto da essência criada, afirmando que o platônico Eckhart evita a acusação de panteísmo com essa separação. * A distinção real entre o ato de existir e la essência constitui uma premissa fundamental de toda a metafísica de São Tomás, de modo que aceitá—la ou rejeitá—la significa aderir ou se opor à sua doutrina do ser onde o momento existencial permanece preponderante. * O caráter essencialista predomina na metafísica de Eckhart, cuja definição exclui do domínio do ser enquanto ser a causa eficiente que confere o existir às criaturas. * Apresentar textos onde Eckhart distingue a essência e a existência repetindo as fórmulas tomistas provará apenas que ele acreditava encontrar as mesmas ideias em São Tomás ao fazer essa distinção. * A tarefa do historiador consiste em buscar o sentido que o dominicain turingiano atribuía à distinção que desejava fazer junto com o doutor de sua Ordem. * Um texto do Livro das Parábolas do Gênesis introduz no cerne do problema ao mostrar que a preexistência das criaturas na mente divina é necessária para a sua cognoscibilidade e para a sua produção exterior. * A razão das coisas que devem ser produzidas está no Produtor intelectualmente como uma semente, competindo—lhe ser o primeiro e o princípio. * O Evangelho de João afirma em seu primeiro capítulo que o Verbo estava no princípio, significando o termo grego logos a razão. * As coisas produzidas são conhecidas e são o que são em relação a essa razão, por ela e segundo ela, sendo o conhecido e o feito nada sem ela. * A quididade ou razão das coisas constitui a raiz e a causa primeira de tudo o que é afirmado ou negado a respeito de uma coisa. * Averróis afirma no comentário ao livro VII da Metafísica que o conhecimento da quididade das coisas sensíveis faz conhecer a Causa primeira de tudo o que existe, sendo a quididade essa própria causa. * A coisa cai e desce para o exterior após ser produzida fora do Produtor, situando—se fora do ser, da vida e da intelecção daquele que a produz. * A coisa criada encontra—se entenebrecida pela sombra do tempo, ou pela sombra da criação e do criado, do feito e do supósito, que significa o que está posto abaixo do Produtor. * A coisa cai sob a ordem da última determinação pelo Princípio, que é a do fim, situando—se consequentemente na ordem do bem por estar posta fora e abaixo da razão de seu Princípio. * O bem não está na alma, mas no exterior, nas coisas, segundo a lição do Filósofo. * No Livro das Parábolas do Gênesis, formula—se esse declínio da coisa produzida para fora do produtor, caindo na ordem do bem e do supósito. * Aristóteles afirma que o bem está nas coisas exteriores. * A causalidade interior e seminal pertence à quididade no intelecto do Produtor, onde os conteúdos quididativos são redutíveis a uma única Razão. * As quididades exercem em relação às criaturas a função do Logos joanino por serem idênticas ao Verbo no princípio paternal, de modo que sem essa razão o conhecido e o feito nada são. * A quididade é anterior à produção para fora na qual a coisa produzida se torna inferior ao Intelecto divino e cai na ordem do criado, que é uma região do fieri definida como a sombra do próprio ser. * No Comentário sobre a Sabedoria, afirma—se que toda mudança, como o fieri, é sombra do próprio ser. * O feito ou criado recebe o ser deficiente de um supósito que cabe a tudo o que está posto abaixo do Produtor ao ser gerado pela causa eficiente fora do princípio intelectual. * O domínio do ser criado caracteriza—se pelos supósitos ou substâncias individuais que são partes múltiplas do universo que pertence à ordem da finalidade e do Bem que é objeto da vontade. * Esse ser segundo da substancialidade individual é o ser criado pelo qual uma coisa produzida fora é boa, visto que o bem reside na realidade exterior. * O Deus do Gênesis afirma que as criaturas são boas ao contemplá—las, confirmando que elas não pertencem mais ao Intelecto por serem produzidas por sua vontade e dotadas de supósitos. * Uma coisa criada não é mais verdadeira na medida em que é boa, pois deixou de ser completa para se dividir em supósitos ou se fracionar na matéria. * A divisão e o número são próprios dos supósitos e residem neles, enquanto a indivisão e a unidade provêm da forma e da espécie. * Eckhart comenta a autoridade do Gênesis 1, 34 sobre a criação da luz e a sua divisão a partir das trevas. * A luz serve de exemplo de uma realidade que devia preexistir no intelecto do Criador antes de ser produzida fora na natureza. * Esse ser feito é o segundo ser das coisas pelo qual a criatura é boa, e o filósofo diz que o bem está nas coisas. * Após a frase a luz foi feita, segue—se que Deus viu que a luz era boa, já não sendo verdadeira por não ser plena, mas divisa nos supósitos. * A divisão e o número pertencem aos supósitos, enquanto a indivisão procede da forma. * O ser criado é a existência das naturezas ou substâncias individuais, e criar significa produzir o ser divisível das naturezas singulares se a primeira coisa criada é o ser e a criação é a doação do ser. * Essa tese fundamenta—se na quarta proposição do Livro das Causas e no Comentário sobre a Sabedoria. * A causa eficiente e o ato criador de Deus produzem existentes particulares e conteúdos essenciais individualizados nas substâncias próprias de cada ser criado. * As coisas são constituídas pelos gêneros e pelas espécies e possuem a plenitude do ser não dividido em seu ser primeiro, onde detêm a verdade e são verdadeiramente o que são por essência. * No Livro das Parábolas do Gênesis, explica—se que as coisas possuem verdade a partir do primeiro modo, constituídas de gêneros e espécies em um ser pleno, enquanto fora não possuem esse ser pleno. * O termo ouro designa toda a espécie e unicamente a espécie desse metal, mas o ouro nunca se encontra segundo esse modo de ser nas coisas produzidas no exterior. * O ouro apresenta—se sob a espécie nos supósitos singulares dentro do domínio do ser criado, onde se divide perdendo a plenitude e se mistura deixando de ser puro e verdadeiro. * No Livro das Parábolas do Gênesis, afirma—se que o ouro significa toda a espécie desse metal, o que não ocorre nas coisas feitas fora onde ele se divide e se mistura. * Em todo criado difere o supósito e a natureza, conforme ensina Tomás no segundo Quodlibet. * No Quodlibet II, São Tomás distingue a essência e a existência nos anjos e indaga se neles o supósito e a natureza são o mesmo, respondendo que em todos os seres criados o supósito é diferente da natureza. * O mestre Eckhart devia admitir supósitos criados não materiais por se referir a essa composição dos anjos. * Esse artigo fazia duplo emprego com a questão de se o anjo se compõe de essência e ser, sendo o ser segundo o ser singular dos supósitos produzidos pela eficiência criadora. * A plenitude e a pureza do ser correspondem para Eckhart à universalidade da espécie em oposição ao ser particular de um supósito. * O ser é concebido no espírito de uma filosofia das essências em ambos os casos, tratando—se de dois níveis diferentes de essencialidade e não de existência. * O ser pleno e não dividido encontra—se apenas no intelecto que possui por objeto a quididade formada de gêneros e espécies. * Esse ser íntegro é a quididade ou a razão ideal das coisas no intelecto divino ou humano na medida em que este é capaz de apreender o universal. * A quididade da coisa divide—se e enuncia—se nos supósitos ao nível do ser criado particular. * A quididade perde a sua pureza ao se misturar com o que lhe é alheio, deixando de ser verdadeira e passando a pertencer à natureza que é inferior ao intelecto por estar efetuada fora da espécie. * No Livro das Parábolas do Gênesis, afirma—se que a alma é o lugar das espécies, e a verdade está na alma e não fora nas coisas onde a quididade se divide e se mistura, decaindo para a natureza inferior conforme o Livro das Causas. * Compete—lhe a razão do bem e do feito, segundo o Gênesis que diz que Deus viu tudo o que havia feito e era muito bom. * A quididade pertence sempre à ordem das essências, quer permaneça indivisa no intelecto ou esteja dividida no ser exterior. * A causa eficiente que projeta a quididade para fora modifica apenas o seu modo de ser uma essência, reduzindo—o ao de um ser particular cujo grau de realidade diminuída se aproxima do nada. * Étienne Gilson contrapõe as doutrinas onde ser significa existir em relação às ontologias essencialistas, observando que nestas últimas o ser apresenta—se como uma valor variável proporcional à essência da qual depende, como ocorre em Duns Scot e em Platão. * A ontologia de Eckhart tenderá a rejeitar esses graus variáveis do ser no não—ser, conferindo ao Ser—mesmo um sentido absoluto que exclui meio termo entre ser e não ser. * Essa transposição de um traço do existencialismo tomista para uma ontologia essencialista conferirá uma feição original à doutrina da analogia em Eckhart.