===== Conhecimento das Quididades ===== //Vladimir Lossky. Théologie négative et connaissance de Dieu chez Maitre Eckhart. Paris: Vrin, 1960// * O mestre Eckhart não professou um ontologismo incondicionado, embora considerasse as razões ou quididades incréas das coisas como o objeto próprio do conhecimento metafísico. * As causas essenciais permanecem secretas e incognoscíveis em si mesmas. * O termo razão recebe nuances de significado diferentes nas obras latinas de Eckhart, designando em último termo a Razão única que é o Logos divino. * O Comentário sobre João distingue duas acepções da palavra razão: as razões posteriores às coisas criadas, que são os conceitos abstratos, e as razões anteriores às criaturas, que são as ideias recebidas nos princípios intrínsecos das coisas. * No Comentário sobre João, explica—se que a razão aceita das coisas é posterior, ao passo que a razão anterior é a causa das coisas que a definição indica e o intelecto aceita nos próprios princípios intrínsecos, identificando—se com o Verbo que estava no princípio. * W. Bange analisa essa passagem em sua tese sobre a doutrina do ser em Eckhart, reconhecendo o conceito no primeiro caso e a ideia exemplar no segundo. * Bange cria os termos razão na coisa e razão fora da coisa para propor uma interpretação tomista, afirmando que Eckhart segue o seu mestre Tomás ao conceber a ideia como princípio de conhecimento e de ser. * Esse crítico conclui que Eckhart rejeita uma visão ontologista de Deus, mas pode chamar as ideias divinas de luz pela qual as coisas se tornam reconhecíveis, funcionando como princípios de conhecimento para o entendimento que depende das coisas. * A razão anterior designa a quididade eterna ou ideia divina da coisa criada, permanecendo inseparável da definição que atua como meio da demonstração ou como a demonstração inteira. * Nada brilha, nada é conhecido e nada faz conhecer nas coisas criadas a não ser a sua quididade, definição ou razão, ao comentar o texto de São João que afirma que a luz brilha nas trevas. * No Comentário sobre João, lê—se que nas coisas criadas nada brilha além de suas razões. A razão da coisa que o nome significa é a definição, a qual é o meio da demonstração ou a demonstração toda que faz saber. * A luz dos homens é a razão, e a frase a luz brilha nas trevas significa que nas coisas criadas nada se conhece e nada faz saber além da quididade, definição ou razão das próprias coisas. * O conceito corresponde na mente humana à manifestação de sua causa essencial ou ideia, constituindo a luz que brilha nas trevas e que o intelecto recolhe ao libertá—la dos fantasmas dos sentidos. * As duas acepções da palavra razão vinculam—se à mesma quididade eterna sob dois aspectos diferentes. * A razão—conceito responde no intelecto humano a um aspecto imutável das criaturas conhecido por abstração, enquanto a razão no Intelecto divino é a causa primeira dos entes criados. * A ciência humana é causada pelas coisas, ao passo que a ciência de Deus é a causa das coisas para que existam. * Essa distinção é formulada no Livro das Parábolas do Gênesis. * O mestre Eckhart enxerga na ordem da criação uma parábola da dupla produção das coisas: a das razões incréas e a do ser natural. * Uma exegese semelhante aplica—se à criação do firmamento. * As coisas possuem uma similitude em suas causas originais e na Causa primeira que é a sua Razão e Verbo por excelência. * Essa similitude possui duas funções na causa analógica em relação às criaturas: atua como princípio interior da cognoscibilidade e como princípio da existência ou extra—stância nas naturezas criadas. * No Livro das Parábolas do Gênesis, explica—se que a similitude das coisas em suas causas originais, maximamente na primeira, olha para dois elementos: como princípio do conhecimento e da ciência, e como princípio da existência fora na natureza das coisas, indicando o nome existência uma extra—stância. * Aristóteles afirma que são os mesmos os princípios do ser e do conhecer, e Platão estabelecia as ideias como necessárias tanto para o conhecimento quanto para a geração. * O mestre Eckhart afirma no Comentário sobre João que a razão é o íntimo e o primeiro de cada coisa, e o Verbo é o logos ou razão, embora tivesse colocado o ser além da essência como o mais íntimo nas criaturas. * O ser constitui o primeiro efeito de Deus para fora e é o íntimo de todos, conforme a citação de Santo Agostinho que diz que estavas dentro e eu estava fora. * O Livro das Causas fundamenta essa tese sobre o inesse e o íntimo ser de Deus e de todas as coisas divinas. * A intencionalidade do ser como primeiro efeito de Deus não exclui a inerência íntima da razão ou verbo das coisas quando cada afirmação é considerada em sua perspectiva adequada. * O ser é o que há de superior na ordem da criação enquanto primeiro efeito criado, ordem que supõe uma relação extrínseca com a Causa eficiente divina. * Não há efeito mais universal e primordial do que o ser fora da Causa primeira. * A coisa que recebe a sua existência de outro não possui nada mais interior do que o próprio ser dentro do campo visual do ser criado. * A coisa é o que é e não o deve a outro quando considerada em sua quididade ou razão, não dependendo da eficiência divina ou de causa diferente de si mesma sob esse aspecto. * As coisas possuem a Causa primeira do que são em si mesmas, em sua quididade ou razão ideal, e não em Deus, segundo a citação de Averróis. * No Comentário sobre João, afirma—se que a causa primeira de cada coisa é a razão. * Essa causalidade formal intrínseca manifesta—se na estrutura lógica da coisa, revelando a sua quididade indicada pela definição. * A especulação sobre as essências abstratas aproxima—se da lógica que analisa os princípios formais do verdadeiro se as quididades constituem o objeto próprio da metafísica que se desinteressa do ser físico. * Galvano della Volpe assinalou em Eckhart uma concepção exclusivamente lógica da verdade, opondo—o a São Tomás para quem a verdade lógica devia ter um fundamento ontológico nas coisas existentes. * São Tomás aborda o fundamento da verdade na obra Da Verdade e na Suma Teológica. * O metafísico deve buscar atingir a verdadeira essência das coisas fora de sua existência criada, no incréu e no incriável, visto que a existência pertence às coisas na medida em que são criadas por Deus e a quididade é o seu princípio intrínseco. * A distinção entre os dois tipos de conhecimento — o do metafísico e o do físico — constituía um enunciado refletido que respondia às exigências do pensamento de Eckhart. * A tradição neoplatônica caracterizava a diferença entre o conhecimento epóptico e o natural na obra de Calcidício sobre o Timeu de Platão, definindo o conhecimento natural como uma imagem oscilante e o epóptico como o que mana da fonte da ciência mais sincera das coisas. * R. Klibansky analisa a presença do Parmênides de Platão na Idade Média através desse contexto. * A metafísica seria a ciência das quididades, do verdadeiro ser das coisas em suas causas primeiras ou ideias, ciência que os filósofos da antiguidade sempre buscaram. * O mestre turingiano utilizou Averróis para mostrar que o ser enquanto ser pertence a uma região da essencialidade pura que é transcendente à causalidade exterior. * Para Averróis, que recusa a produção a partir do nada professada pelas três Leis reveladas, a criação das substâncias é o investimento da matéria pela forma. * A forma é a quididade de uma coisa e a causa primeira de tudo o que ela é na medida em que responde à definição. * A produção das substâncias individuais constitui a criação no sentido cristão para Eckhart, pois as formas e a matéria foram produzidas a partir do nada por uma eficiência divina todo—poderosa. * As coisas vivem em Deus antes de serem produzidas fora e antes de receberem o ser de outro, sendo ali razões eternas ou a Razão única que é o Logos do Pai. * As coisas não têm que responder às perguntas sobre o porquê ou em virtude de qual causa quando não possuem outra causa de sua vida além da própria vida no inteligir do Intelecto divino. * As causas essenciais respondem à pergunta o quê, mostrando o que as coisas são segundo as suas quididades ou razões distintas. * Essa demonstração quididativa constitui um irradiation das razões para fora de si mesmas, pois a luz intelectual brilha nas trevas das criaturas onde o intelecto agente recebe a revelação das quididades ao libertá—la da sombra do nada. * A Cause essencial faz conhecer os efeitos que contém em seus princípios, isto é, nos gêneros e nas espécies que constituem as quididades objeto do intelecto humano. * A quididade não pode ser conhecida fora da Causa essencial por estar dividida e misturada nas substâncias individuais, deixando de pertencer à região do intelecto. * No Livro das Parábolas do Gênesis, aborda—se essa limitação da quididade na matéria. * A inteligência humana conhece as quididades distintas entre o criado e o incréu, onde as razões ideais são exprimíveis na definição que atua como meio da demonstração ou como a demonstração mesma. * Aristóteles trata da definição nos Analíticos Posteriores. * A definição ou quididade pertence à metafísica na medida em que atua como a demonstração inteira que faz conhecer a essência de uma coisa. * A demonstração significa para Eckhart uma manifestação quididativa do que a coisa é verdadeiramente, de modo imutável e eterno. * Essa ratio rerum é totalmente inerente a cada coisa singular e ao mesmo tempo totalmente exterior ao singular, sendo descrita como toda dentro e toda fora. * No Comentário sobre João, afirma—se que o verbo ou razão das coisas está nelas e todo em cada uma de modo que está todo fora de cada uma. * Nicolau de Cusa anotou à margem que a razão das coisas está toda dentro e toda fora. * No Comentário sobre a Sabedoria, a mesma expressão aplica—se a Deus, afirmando que Ele está todo em cada coisa e todo fora de cada uma. * O gênero animal em cada espécie, a espécie em um animal individual e a razão eterna do círculo em todos os círculos existentes são ao mesmo tempo totalmente internos e totalmente externos ao particular. * Santo Agostinho afirma na obra Da Imortalidade da Alma que nada é tão eterno quanto a razão do círculo, a qual não se corrompe com o círculo corruptível por lhe ser exterior, mas está toda dentro por manifestar no círculo material a sua verdadeira essência. * A razão do círculo está no círculo material como a luz nas trevas: não inclusa, não misturada e não compreendida. * O Evangelho de João afirma que as trevas não a compreenderam, e o Livro das Causas exprime que a causa primeira governa todas as coisas sem se misturar com elas. * Conhecer a razão das coisas significa conhecê—las em seus princípios onde reluzem e são luz, conhecendo o concretizado no abstrato, o participante no participado e o justo na justiça. * No Comentário sobre João, afirma—se que cada coisa é luz e reluz em seus princípios. * A verdadeira conhecimento atinge as coisas na região intelectual onde as suas quididades eternas se manifestam, e não em suas naturezas individuais que pertencem ao ser segundo privado de verdade. * No Comentário sobre o Êxodo, afirma—se que a razão e o o que é pertencem ao intelecto e à verdade, e a verdade está apenas no intelecto e não fora. * A conhecimento das quididades pressupõe uma apreensão do ser primeiro das criaturas, uma intuição intelectual que permitiria conhecer as coisas criadas por suas razões incréas e incriáveis. * No Comentário sobre la Sabedoria, explica—se que as definições quididativas oferecem uma ciência imutável das coisas mutáveis que são alheias à verdade em seu ser segundo criado. * O fato de as criaturas serem conhecidas em suas razões ideais não significa que o sejam na própria Essência de Deus. * As razões das coisas não poderiam ser distinguidas umas das outras se estivessem na Essência, pois esta permanece absolutamente indistinta. * A definição aplica—se apenas ao que comporta limites, e Deus permanece indefinível por ser infinito, segundo Avicena. * No Comentário sobre Ezequiel, nota—se que Deus está conosco como indistinto, mas nós não estamos com Ele como distintos, porque fomos criados e terminados, pelo que a definição não compete a Deus. * Avicena afirma na Metafísica que o Primeiro não possui gênero nem diferença, não tendo definição, e não se faz demonstração dele por não ter causa. * As razões ideais das criaturas devem ser apreendidas pelo conhecimento humano na relação imediata com os seres criados, no limite de sua saída para fora, para poderem ser definíveis e distintas entre si. * As razões diferentes dos entes criados surgem como incréas e anteriores às criaturas em uma passagem do segundo Comentário sobre o Gênesis que prova que as coisas não eram privadas de ser antes de terem sido produzidas exteriormente. * Cada razão distinta diz algo diferente da Essência nua de Deus, cuja unidade simples exclui tudo o que comporta alteridade ou número. * O mal não poderia ser o que é se não tivesse existido na natureza boa de um ser criado, constituindo esse exemplo a ilustração da presença virtual de uma multiplicidade distinta da Essência em Deus. * No Livro das Parábolas do Gênesis, explica—se que a razão pela qual é produzido o leão é distinta da razão do cavalo, sendo anterior à coisa e permanecendo imutável quando a coisa se corrompe, conforme Santo Agostinho. * Essa razão distinta diz algo outro além da nua essência de Deus, onde há unidade simples. * Essa razão não pode ser antes sem nenhum ser, pois nem o mal pode ser mal sem nenhum ser, razão pela qual o mal está sempre no bem, em algum bem criado. * O Uno manifesta a indistinção absoluta da Essência, mas determina o ser divino em relação ao múltiplo ao opô—lo a tudo o que é distinto. * A indistinção divina distinta de todas as coisas é a Essência em si mesma, ou a pureza do ser, enquanto a indistinção de tudo o que existe é a omni—unidade e a plenitude do ser no Uno. * As razões das coisas possuem no Intelecto divino a mesma pureza e plenitude essencial, sendo distintas de qualquer outra razão enquanto puras, mas permanecendo indistintas do viver e do inteligir de Deus enquanto plenitude do ser. * No Livro das Parábolas do Gênesis, exemplifica—se com o ouro, que só é puramente ouro em sua razão específica. * No Comentário sobre a Sabedoria, esclarece—se que as razões de leão, homem e sol são distintas nas formas criadas, mas indistintas em Deus, onde não se excluem mutuamente. * Essa antinomia da distinção indistinta exprime—se na imagem da Vida ou do ebulimento formal onde todas as coisas se compenetram no Uno sem dar lugar à alteridade que só aparecerá na produção exterior. * Um momento de negatividade que torna possível a definição representa o inverso da afirmação pura de uma espécie ou de um gênero se o intelecto humano conhece as coisas nas razões eternas. * Esse momento constitui um modo reduzido da negação da negação indeterminada própria do Uno. * Uma razão ideal deve subsistir indistintamente no Uno como a negação incluída na negação da negação, assim como o mal só subsiste em uma natureza boa e a negação depende da afirmação. * O homem teria conhecido as causas essenciais como uma única Quiddidade, Razão ou Verbe no Intelecto divino se tivesse sido capaz de conhecê—las em si mesmas. * Conhecem—se as criaturas nas razões, as quais tornam as coisas conhecíveis ao iluminarem interiormente as trevas de seu ser criado que é opaco em sua particularidade. * A universalidade crescente das espécies e dos gêneros culmina na universalidade absoluta e indistinta do ser no fundo secreto de onde a Razão única esclarece o que produz. * O mestre Eckhart utiliza a noção estoica das razões seminais herdada de Santo Agostinho para justificar a cognoscibilidade das quididades na medida em que se distinguem, sem separar esses verbos do Logos no Intelecto paternal. * A conhecimento humana está estendida entre o incréu e o criado, devendo apreender as coisas na inteligência divina para ser verdadeira, e descobrir a luz inteligível no domínio do criado para ser um conhecimento das quididades distintas. * A região do intelecto estende—se entre a treva da indistinção da Essência divina e a treva da particularidade das substâncias criadas, sendo ali as coisas essencialmente verdadeiras em seus princípios. * No Comentário sobre o Êxodo, define—se a treva como o que está oculto em Deus acima da razão de toda criatura. * O intelecto humano encontra as razões ao despir as criaturas de seu ser segundo para se elevar em direção ao ser primeiro de suas quididades eternas. * No Livro das Parábolas do Gênesis, explica—se que as coisas possuem verdade no primeiro modo, estando constituídas de gêneros e espécies em um ser pleno e indiviso, ao passo que fora não possuem ser pleno. * Porphírio, na Isagoge, declara que tratará dos gêneros e das espécies como lógico, sem indagar se subsistem realmente ou se são simples concepções da mente. Boécio traduziu essa passagem indicando os intelectos nudos e puros. * Eckhart transforma essa reserva metodológica em posição doutrinal, afirmando que os gêneros e as espécies pertencem ao nível das inteligências nudas e puras. * Em seguida, utiliza um trecho do tratado Da Alma de Aristóteles para identificar as espécies intencionais com as espécies lógicas, afirmando que a alma é o lugar das espécies, não toda ela, mas o intelecto. * As coisas criadas devem ser deificadas pelo intelecto humano que as reconduz ao seu ser primeiro para se tornarem conhecíveis e receberem as suas definições. * Essa expressão encontra—se nas razões de Eckhart citadas pelo mestre franciscano Gonzalo de Balboa em uma Questão dirigida contra as teses eckhartianas. * A distinção entre o ser de outro e a essência não de outro nas criaturas manifestar—se—á através da distensão do conhecimento entre o ser criado e o ser incréu das coisas.