===== OLIVIER CLÉMENT INTELIGÊNCIA ===== Olivier Clément — Fontes — Os Místicos Cristãos das Origens Nossa tradução do original em francês ==== Primeira parte — Por uma inteligência do mistério ==== #A demanda, o reencontro, a decisão #O Deus oculto, o Deus cósmico #O Deus-Homem #Deus: a unidade e a diferença #A vocação do homem ---- ==== A demanda, o reencontro, a decisão ==== === Agostinho de Hipona === Irmãos, nossos anos duram? Não se desfazem dia após dia. Aqueles que se apagam não mais são, aquele que virão ainda não são. Uns são passados, os outros não advirão a não ser para passar por sua vez. O hoje não existe a não ser no instante onde falamos. As primeiras horas passaram, as outras não existem ainda, elas virão, mas para bascular no nada (...). Ninguém possui em si mesmo a estabilidade. O corpo não possui o ser, não habita nele mesmo. Muda com a idade, muda com o tempo e os lugares, muda com as doenças e os acidentes. Os astros também não têm estabilidade; têm suas modificações secretas, evoluem no espaço (...), não são nada estáveis, não são o ser. O coração do homem também não é estável. Que pensamentos, que elãs o agitam, que volúpias o sacodem e o dilaceram! O espírito mesmo do homem, dotado de razão que seja, muda, não tem ser. Quer e não quer, sabe e ignora, lembra-se e esquece-se. Ninguém possui em si a unidade do ser (...) Depois de tantos sofrimentos, doenças, dificuldades e penas, retornemos humildemente em direção a este Uno. Entremos nesta cidade cujos habitantes participam do ser ele mesmo. === João Climacus === Eis porque a [[pk>metanoia]], esta grande «conversão» da inteligência e do coração, de toda nossa apreensão do real é filha da esperança. É a renúncia ao desespero. === Irineu de Lião === A comunhão com Deus é a vida, e a separação de Deus, é a morte. === Agostinho de Hipona === Uma vida sem eternidade é indigna do nome “vida”. Só é verdadeira a Vida Eterna. === Antão === Abba Antão disse: “Um tempo vem onde os homens se tornarão loucos, e quando eles encontrarão alguém que não é louco, se voltarão para ele dizendo: 'és irracional'. E isto porque ele não lhe assemelha. === Gregório de Nazianzo === Quem te deu a contemplar a beleza do céu, o caminho do sol, a lua redonda, milhões de estrelas, a harmonia e o ritmo que emanm do mundo como de uma lira, o retorno das estações, a alternância dos meses, o ritmo do ano, a partilha do dia e da noite, os frutos da terra, a imensidade do ar, a imóvel fuga das ondas, os rios amplos, o canto do vento? Quem te deu a chuva, a agricultura, os alimentos, as artes, casas, leis, uma república, costumes cultos, amizade por teu semelhante? === João Crisóstomo === ”Tua sabedoria foi para mim um objeto de admiração” (Sl 138,6). “Te benzerei porque tu é admirado com um temor sagrado” (ibid, 14) (...) Numerosas são as coisas que admiramos, mas não com medo, por exemplo a beleza das colunas, das obras de Arte da pintura, ou dos corpos em sua glória. Admiramos também a imensidade e o abismo infinito do mar, mas então com medo, quando nos debruçamos sobre este abismo. Assim mesmo o escritor sagrado, estando debruçado sobre o oceano infinito, abissal, da Sabedoria de Deus, foi tomado de vertigem. Admirou com tremor e recuou dizendo: “Eu te benzerei porque tu és admirado com um temor sagrado; admirável são tuas obras”. E também: “Tua sabedoria foi para mim um objeto de admiração (...), me é impossível apreendê-la”.