===== 3ª Centúria ===== 1. Daquele que é bom por natureza, pensa o bem. E sobre todo homem, tenha bons pensamentos. 2. Nossas palavras, nossas obras e nossos pensamentos, Deus nos demandará de deles prestarmos conta no dia do Julgamento. 3. O hábito da virtude ou do vício nos leva a pensar, ou a dizer, ou a fazer o que é bom ou o que é mau. 4. A inteligência dominada pelas paixões pensa o que não convém. Em seguida as palavras e as obras manifestam o pensamento. 5. A paixão procede do mau pensamento. A causa da paixão, são os sentidos. E a causa dos mau uso dos sentidos, é manifestamente a inteligência. 6. Guarde os sentidos, combate a presunção, e pelas armas dos mandamentos destrói tuas paixões. 7. O vício inveterado tem necessidade de uma longa ascese. Pois o hábito, quando está enraizado, não muda de um golpe. 8. A ascese tencionada pela temperança e o amor, pela paciência e a [[tnpl:hesychia:]], suprime o que nos oprime. 9. Leva continuamente a inteligência à oração, e destruirás os pensamentos que vierem em teu coração. 10. A ascese tem necessidade de paciência e de longanimidade. Pois o longo amor da pena bane o amor do prazer. 11. Não se acharão difíceis de suportar os rigores da vida ascética, caso todas as coisas sejam feitas com medida e segundo regra. 12. Mantém um nível regular de prática ascética e não quebres tua regra, a menos que sejas forçado a isso. 13. Assim como o amor e o autocontrole destroem o mau pensamento, também a contemplação e a oração destroem toda exaltação de si. 14. A luta ascética, jejuns, vigílias, paciência e tolerância, produz uma consciência clara. 15. Aquele que suporta pacientemente as provações não procuradas torna-se humilde, cheio de esperança e espiritualmente maduro. 16. A perseverança paciente é um esforço contínuo pela alma; nasce do sofrimento livremente escolhido e das provações que vêm sem serem procuradas. 17. A perseverança diante da adversidade dissolve o mal, enquanto a paciência incessante o destrói por completo. 18. A experiência do sofrimento aflige os sentidos; a aflição anula o prazer sensual. 19. Há quatro paixões prevalentes que Deus, em sua sabedoria, põe umas contra as outras. 20. A aflição refreia o prazer sensual; o temor da punição faz murchar o desejo. 21. O intelecto sábio põe a alma à prova e treina o corpo com toda espécie de prática ascética. 22. Mostra-te monge, não exteriormente, mas interiormente, libertando-te das paixões. 23. A primeira renúncia é a das coisas materiais; a segunda, a das paixões; a terceira, a da ignorância. 24. Não é difícil livrar-se das coisas materiais, caso assim se deseje; mas somente com grande esforço será possível livrar-se dos pensamentos acerca delas. 25. Controla o desejo e dominarás a cólera; pois o desejo dá origem à cólera. 26. Pode-se ter sido libertado dos pensamentos passionais; mas já foi concedida a oração pura e imaterial? 27. Grande é o intelecto que está liberto das paixões, separou-se dos seres criados e vive em Deus. 28. A pessoa que avança na vida espiritual estuda três coisas: os mandamentos, a doutrina e a fé na Santa Trindade. 29. Um intelecto despojado das paixões tem sua atenção concentrada em três coisas: imagens conceituais livres de paixão, a contemplação dos seres criados e sua própria luz. 30. As paixões mais repugnantes estão ocultas em nossas almas; são trazidas à luz somente quando examinamos nossas ações. 31. Às vezes, o intelecto que alcançou uma impassibilidade parcial permanece imperturbado; mas isso ocorre porque, na ausência das coisas que o provocam, ele não é posto à prova. 32. Como foi dito, nossas paixões são excitadas por estas três coisas: a memória, o temperamento do corpo e os sentidos. 33. O intelecto que fechou os sentidos e alcançou equilíbrio no temperamento do corpo tem de lutar apenas contra suas memórias. 34. É quando faltam o autocontrole e o amor espiritual que as paixões são excitadas pelos sentidos. 35. Jejuns moderados, vigílias e salmodia são meios naturais para alcançar equilíbrio no temperamento do corpo. 36. Três coisas perturbam o equilíbrio do temperamento do corpo: a falta de contenção em nossa dieta, uma mudança no tempo e o toque dos poderes demoníacos. 37. Nossas memórias podem ser despojadas da paixão por meio da oração, da leitura espiritual, do autocontrole e do amor. 38. Primeiro fecha os sentidos pela prática da quietude e, em seguida, combate tuas memórias cultivando as virtudes. 39. O mal mental reside no mau uso das imagens conceituais; o pecado ativo consiste no mau uso das coisas materiais. 40. Fazer mau uso das imagens conceituais e das coisas materiais é usá-las de modo profano e impróprio. 41. Paixões repreensíveis acorrentam o intelecto, prendendo-o aos objetos sensíveis. 42. A pessoa que não é afetada nem pelas coisas materiais nem por suas memórias delas alcançou a impassibilidade perfeita. 43. Uma alma semelhante à dos santos ajuda seu próximo e, quando maltratada por ele, é paciente, suportando aquilo que sofre de suas mãos. 44. Pensamentos maliciosos são uma forma plenamente existente de mal: se não se livrar deles, não se tornará discípulo do conhecimento espiritual. 45. A pessoa que escuta Cristo enche-se de luz; e, se imita Cristo, recupera a si mesma. 46. O rancor é a lepra da alma. A alma o contrai em consequência de desonra ou punição, ou por causa de pensamentos suspeitosos. 47. O Senhor cega o intelecto que tem ciúme e ressentimento das bênçãos do próximo. 48. A língua de uma alma maledicente é tríplice: fere quem fala, quem escuta e, às vezes, a pessoa difamada. 49. Aquele que ora pelos que o ofendem está sem rancor; e aquele que dá sem parcimônia é libertado dele. 50. O ódio ao próximo é a morte da alma; a alma maledicente sofre e inflige tal morte. 51. A acídia é uma apatia da alma; e a alma torna-se apática quando está enferma pela autoindulgência. 52. Aquele que ama Jesus exercita-se no sofrimento: a perseverança no sofrimento dissipa a acídia. 53. A alma é fortalecida pelo sofrimento ascético e dissipa a acídia fazendo todas as coisas segundo medida. 54. O controle do ventre faz murchar o desejo e mantém o intelecto livre de pensamentos lascivos. 55. Um intelecto que se governa a si mesmo é templo do Espírito Santo, mas o do glutão é como um ninho de corvos. 56. A superabundância de alimentos gera desejo; a carência torna doce até mesmo o pão simples. 57. Caso se compartilhe secretamente a alegria de alguém a quem se inveja, ser-se-á libertado do ciúme; e também se será libertado do ciúme caso se guarde silêncio acerca da pessoa invejada. 58. Evita aquele que vive dissolutamente, ainda que muitos o tenham em alta estima. 59. Faz amizade com o homem que trabalha arduamente, e encontrarás proteção. 60. O homem dissoluto está vendido a muitos senhores e vive sua vida de qualquer modo que o conduzam. 61. Tal homem te tratará como amigo em tempo de paz, mas, em tempo de provação, combater-te-á como inimigo. 62. Quando suas paixões estão quietas, dará a vida por ti; quando são excitadas, tomá-la-á de volta. 63. Uma alma dissoluta é tão cheia de paixões impuras quanto uma terra abandonada é cheia de cardos. 64. Um intelecto sábio refreia a alma, mantém o corpo em sujeição e faz das paixões suas servas. 65. Nossas ações revelam aquilo que se passa dentro de nós, assim como seu fruto torna conhecida uma árvore de outro modo desconhecida para nós. 66. O hipócrita, como o falso profeta, é traído por suas palavras e ações. 67. Um intelecto que não usa sua inteligência deixa de castigar a alma e, assim, impede-a de adquirir amor e autocontrole. 68. A causa dos pensamentos depravados é uma disposição má composta de orgulho e jactância. 69. O orgulho e a jactância caracterizam-se por hipocrisia, dolo, astúcia, fingimento e, o pior de tudo, falsidade. 70. Essas características são auxiliadas e instigadas pela inveja, pela contenda, pela cólera, pelo ressentimento e pelo rancor. 71. Tal é o estado daqueles que vivem dissolutamente, e tais são os tesouros ocultos em meu coração. 72. A adversidade e a humildade salvam a alma e libertam-na de todas as paixões. 73. Uma palavra proveitosa indica uma mente compreensiva; uma boa ação revela uma alma semelhante à dos santos. 74. Um intelecto iluminado produz palavras de sabedoria; uma alma pura cultiva pensamentos semelhantes a Deus. 75. Os pensamentos de um homem sábio são dedicados à sabedoria, e suas palavras iluminam aqueles que as ouvem. 76. Uma alma virtuosa cultiva bons pensamentos; uma alma cheia de mal gera pensamentos de depravação. 77. Uma alma passional produz maus pensamentos: é um depósito de mal. 78. As virtudes possuem um depósito de bondade, do qual o intelecto santo produz bênçãos. 79. O intelecto energizado pelo amor divino cultiva bons pensamentos acerca de Deus; mas, quando impelido pelo amor de si, produz pensamentos diabólicos. 80. Quando o intelecto é movido pelo amor ao próximo, sempre pensa bem dele; mas, quando está sob influência diabólica, nutre maus pensamentos acerca dele. 81. As virtudes geram bons pensamentos; os mandamentos nos conduzem às virtudes; a prática das virtudes depende de nossa própria vontade e resolução. 82. À medida que a virtude e o mal vêm e vão, dispõem a alma ou para a bondade ou para a malícia, suscitando nela os pensamentos correspondentes. 83. O mal gera maus pensamentos; a desobediência gera o mal; o engano dos sentidos dá origem à desobediência; e esse engano deriva da negligência do intelecto para com sua própria salvação. 84. No caso daqueles que avançam no caminho espiritual, sua atitude em relação ao bem e ao mal muda facilmente; mas, naqueles que alcançaram a perfeição, é difícil deslocá-la. 85. A força da alma é seu estado firme de virtude; ao alcançar tal estado, pode-se dizer com o invencível apóstolo Paulo: Que poderá separar-nos do amor de Cristo? 86. O amor de si precede todas as paixões, enquanto, por último, vem o orgulho. 87. As três formas mais comuns de desejo têm sua origem na paixão do amor de si. 88. Essas três formas são a gula, a vanglória e a avareza. Todos os outros pensamentos passionais seguem em seu rastro, embora nem todos sigam cada uma delas. 89. O pensamento da impureza segue o da gula; o do orgulho, o da vanglória. Os demais seguem todos as três formas mais comuns. 90. Assim, pensamentos de ressentimento, cólera, rancor, inveja, acídia e os demais seguem todos essas três formas mais comuns. 91. Cristo, Mestre de tudo, liberta-nos de todas essas paixões destrutivas e dos pensamentos nascidos delas. 92. Por tua causa viemos a ser, para que pudéssemos deleitar-nos no paraíso que plantaste e no qual nos colocaste. 93. Trouxemos sobre nós nossa presente desonra, preferindo a destruição às delícias da bem-aventurança. 94. Pagamos por isso, pois trocamos a vida eterna pela morte. 95. Ó Mestre, assim como outrora olhaste para nós, olha para nós agora; assim como te fizeste homem, salva-nos todos. 96. Pois vieste salvar-nos, a nós que estávamos perdidos. Não nos excluas da companhia daqueles que estão sendo salvos. 97. Ergue nossas almas e salva nossos corpos, purificando-nos de toda impureza. 98. Rompe os grilhões das paixões que nos constrangem, assim como outrora rompeste as fileiras dos demônios impuros. 99. Liberta-nos de sua tirania, para que adoremos somente a ti, luz eterna. 100. Tendo ressuscitado dentre os mortos e dançando com os anjos na dança bem-aventurada, eterna e indissolúvel. Amém.