===== 2ª Centúria ===== 1. Caso se deseje ser libertado de todos os [[tnpl:vicios:start|vícios]] simultaneamente, cumpre renunciar ao [[tnpl:amor-proprio:start|amor de si]], [[tnpl:mae:start|mãe]] dos males. 2. A saúde da [[tnpl:alma:start|alma]] consiste na [[tnpl:apatheia:start|impassibilidade]] e no conhecimento espiritual; nenhum escravo do [[tnpl:hedone:start|prazer sensual]] pode alcançá-la. 3. O autocontrole paciente e o amor longânime fazem secar os prazeres da alma e do [[tnpl:corpo:start|corpo]]. 4. O amor de si, isto é, a amizade pelo corpo, é a fonte do mal na alma. 5. A [[tnpl:inteligencia:start|inteligência]] submete-se por natureza ao [[tnpl:logos:start|Logos]], disciplina e subjuga o corpo. 6. É uma afronta à inteligência estar sujeita ao que carece de inteligência e ocupar-se com desejos vergonhosos. 7. Para a alma deiforme, abandonar o Criador e cultuar o corpo é um ato de depravação. 8. Foi ordenado conservar o corpo como servo, não tornar-se antinaturalmente escravo de seus prazeres. 9. Rompe os vínculos de tua amizade pelo corpo e concede-lhe apenas o que é absolutamente necessário. 10. Encerra teus sentidos na cidadela da quietude, para que não envolvam o intelecto em seus desejos. 11. As maiores armas de quem se esforça por levar uma vida de [[tnpl:quietude:start|quietude]] interior são o autocontrole, o amor, a [[tnpl:oracao:start|oração]] e a leitura espiritual. 12. O intelecto continuará procurando o prazer sensual até que se subjugue a [[tnpl:carne:start|carne]] e se consagre à [[tnpl:contemplacao:start|contemplação]]. 13. Cumpre esforçar-se por cumprir os [[tnpl:mandamentos:start|mandamentos]], a fim de que se seja libertado das [[tnpl:paixoes:start|paixões]]; e cumpre lutar por apreender a doutrina divina, a fim de que se seja considerado digno do conhecimento espiritual. 14. A [[tnpl:imortalidade:start|imortalidade]] da alma reside na impassibilidade e no conhecimento espiritual; nenhum escravo do prazer sensual pode alcançá-la. 15. Subjuga teu corpo, despoja-o dos prazeres sensuais e liberta-o da servidão vil. 16. Criado livre e chamado à liberdade, não sejas escravizado por paixões impuras. 17. Os [[tnpl:diabolos:start|demônios]] prendem o intelecto às coisas sensíveis por meio do [[tnpl:orexis:start|desejo]] e do [[tnpl:phobos:start|medo]], da aflição e do prazer sensual. 18. O temor do Senhor vence o desejo, e a aflição conforme a vontade de Deus repele o prazer sensual. 19. O desejo de [[tnpl:sophia:start|sabedoria]] despreza o medo, e a alegria do conhecimento espiritual expulsa a aflição. 20. As Escrituras contêm quatro coisas: mandamentos, doutrinas, ameaças e promessas. 21. O autocontrole e o esforço árduo refreiam o desejo; a quietude e o intenso anelo por Deus o fazem murchar. 22. Não provoques teu irmão com palavras obscuras; não suportarias tratamento semelhante de suas mãos. 23. A longanimidade e a prontidão para perdoar refreiam a cólera; o amor e a compaixão a fazem murchar. 24. Caso tenha sido dado o conhecimento espiritual, foi dada a luz noética; se essa luz for desonrada, ver-se-á a escuridão. 25. A observância dos mandamentos de Deus gera impassibilidade; a impassibilidade da alma preserva o conhecimento espiritual. 26. Contempla noeticamente os objetos sensíveis, e elevarás a percepção sensível acima do âmbito de tais objetos. 27. A mulher simboliza a alma empenhada na prática ascética; pela união com ela, o Intelecto gera as virtudes. 28. O estudo dos princípios divinos ensina o conhecimento de Deus à pessoa que vive na verdade, no anelo e na reverência. 29. Aquilo que a luz é para os que veem e para o que é visto, Deus é para os seres intelectivos e para o que é inteligível. 30. O firmamento sensível simboliza o firmamento da fé, no qual todos os santos brilham como estrelas. 31. Jerusalém é o conhecimento celestial dos seres imateriais; nela pode ser contemplada a visão da paz. 32. Não negligencies a prática das virtudes; se assim fizeres, teu conhecimento espiritual diminuirá, e, quando sobrevier a fome, descerás ao Egito. 33. A liberdade espiritual é a libertação das paixões; sem a misericórdia de Cristo, não se pode alcançá-la. 34. A terra prometida é o reino dos céus, cujos embaixadores são a impassibilidade e o conhecimento espiritual. 35. O Egito do espírito é a escuridão das paixões; ninguém desce ao Egito a não ser que seja surpreendido pela fome. 36. Se se adquire o hábito de escutar o ensinamento espiritual, o intelecto escapará dos pensamentos impuros. 37. Só Deus é bom e sábio por natureza; mas, caso se exerça esforço, também o intelecto se torna bom e sábio por participação. 38. Controla teu estômago, teu [[tnpl:sono:start|sono]], tua cólera e tua língua, e não ferirás teu pé contra uma pedra. 39. Esforça-te por amar igualmente todo homem, e expulsarás simultaneamente todas as paixões. 40. A contemplação das coisas sensíveis é partilhada pelo intelecto e pelos sentidos; mas o conhecimento das realidades inteligíveis pertence somente ao intelecto. 41. O intelecto não pode dedicar-se às realidades inteligíveis a menos que se rompa seu apego aos sentidos e às coisas sensíveis. 42. Os sentidos têm um apego natural às coisas sensíveis, e, quando distraídos por elas, distraem o intelecto. 43. Consagra teus sentidos ao serviço do intelecto e não lhes dês tempo para se desviarem dele. 44. Quando o intelecto dirige sua atenção aos objetos sensíveis, retira deles teus sentidos, pondo os objetos em contato direto com o intelecto. 45. Um sinal de que o intelecto está consagrado à contemplação das realidades inteligíveis é seu desdém por tudo aquilo que agita os sentidos. 46. Quando o intelecto está empenhado na contemplação das realidades inteligíveis, sua alegria nelas é tal que dificilmente pode ser dela arrancado. 47. Quando o intelecto é rico no conhecimento do Uno, os sentidos estarão completamente sob controle. 48. Impede teu intelecto de perseguir as coisas sensíveis, para que não colha os frutos de prazer e dor que elas produzem. 49. Quando o intelecto se dedica continuamente às realidades divinas, o aspecto passível da alma torna-se uma arma semelhante a Deus. 50. O intelecto não pode ser transformado pelo conhecimento espiritual a menos que primeiro se desprenda do aspecto passível da alma por meio de suas próprias virtudes. 51. O intelecto torna-se estrangeiro às coisas deste mundo quando seu apego aos sentidos foi completamente rompido. 52. A função própria do aspecto inteligente da alma é a dedicação ao conhecimento de Deus, enquanto a de seu aspecto passível é a busca do autocontrole e do amor. 53. O intelecto não pode deter-se em nenhum objeto sensível a menos que nutra por ele ao menos alguma espécie de sentimento passional. 54. O intelecto é perfeito quando transformado pelo conhecimento espiritual; a alma é perfeita quando permeada pelas virtudes. 55. O apego do intelecto aos sentidos o escraviza ao prazer corporal. 56. O intelecto cai do âmbito do conhecimento espiritual quando o aspecto passível da alma abandona suas próprias virtudes. 57. Embora tenha sido recebido o poder de tornar-nos filhos de Deus, não se alcança efetivamente essa filiação a menos que se seja despojado das paixões. 58. Que ninguém pense ter-se tornado efetivamente filho de Deus se ainda não adquiriu qualidades divinas. 59. Somos filhos de Deus ou de Satanás conforme nos conformamos ao bem ou ao mal. 60. Sábio é aquele que presta atenção a si mesmo e é rápido em separar-se de toda impureza. 61. Uma alma obstinada não percebe quando é açoitada e, assim, desconhece seu benfeitor. 62. Uma veste suja exclui alguém do banquete nupcial divino e o torna participante das trevas exteriores. 63. Aquele que teme a Deus prestará cuidadosa atenção à sua alma e se libertará da comunhão com o mal. 64. Caso se abandone Deus e se seja escravo das paixões, não se pode colher a misericórdia de Deus. 65. Ainda que não se deseje crer nele, foi [[tnpl:jesus:start|Jesus]] quem disse que ninguém pode servir a dois senhores. 66. Uma alma contaminada pelas paixões torna-se obstinada: precisa submeter-se ao bisturi e ao cautério antes de recuperar sua fé. 67. Afligimentos terríveis aguardam os duros de coração, pois, sem grandes sofrimentos, não podem tornar-se dóceis e responsivos. 68. O sábio presta cuidadosa atenção a si mesmo e, escolhendo livremente sofrer, escapa ao sofrimento que vem sem ser procurado. 69. O cuidado pela própria alma significa adversidade e humildade, pois por meio delas Deus nos perdoa todos os pecados. 70. Assim como o desejo e a ira multiplicam nossos pecados, também o autocontrole e a humildade os apagam. 71. A aflição conforme a vontade de Deus despedaça o coração; ela é produzida pelo temor da punição. 72. Tal aflição purifica o coração, expulsando dele as contaminações do prazer sensual. 73. A perseverança paciente é a luta da alma pela virtude; onde há luta pela virtude, a autoindulgência é banida. 74. Todo pecado se deve ao prazer sensual, todo perdão à adversidade e à aflição. 75. Caso não se esteja disposto a arrepender-se por meio da livre escolha de sofrer, sofrimentos não procurados serão providencialmente impostos. 76. Cristo é o [[tnpl:salvador:start|Salvador]] do mundo inteiro e conferiu aos homens o dom do arrependimento, para que sejam salvos. 77. O arrependimento engendra a observância dos mandamentos, e esta, por sua vez, purifica a alma. 78. A purificação da alma é a libertação das paixões, e a libertação das paixões dá nascimento ao amor. 79. Uma alma pura é aquela que ama Deus, e um intelecto puro é aquele divorciado da ignorância. 80. Luta até a morte para cumprir os mandamentos: purificado por meio deles, entrarás na vida. 81. Faz o corpo servir aos mandamentos, mantendo-o, tanto quanto possível, livre da enfermidade e do prazer sensual. 82. A carne se revolta quando a oração, a frugalidade e a bem-aventurada quietude são negligenciadas. 83. A bem-aventurada quietude dá nascimento a filhos bem-aventurados: autocontrole, amor e oração pura. 84. A leitura espiritual e a oração purificam o intelecto, enquanto o amor e o autocontrole purificam o aspecto passível da alma. 85. Conserva sempre a mesma medida de autocontrole; caso contrário, pela irregularidade, passarás de um extremo a outro. 86. Caso estabeleças regras para ti mesmo, não desobedeças a ti mesmo; pois aquele que se engana a si mesmo está iludido por si próprio. 87. A alma cheia de paixão jaz em escuridão noética, pois em tal alma o sol da justiça se pôs. 88. Filho de Deus é a pessoa que, por meio da sabedoria, do poder e da justiça, tornou-se semelhante a Deus. 89. A doença da alma é uma disposição má, enquanto sua morte é o pecado posto em ação. 90. A pobreza espiritual é a impassibilidade completa; quando o intelecto alcança esse estado, abandona todas as coisas mundanas. 91. Preserva a harmonia das virtudes da alma, e ela produzirá o fruto da justiça. 92. Diz-se que a contemplação das realidades noéticas é incorpórea porque está completamente livre de matéria e forma. 93. Assim como os quatro elementos são uma combinação de matéria e forma, também os corpos deles derivados são igualmente constituídos de matéria e forma. 94. Quando, em sua compaixão pelo homem, o Logos se fez carne, não alterou nem aquilo que era nem aquilo que se tornou. 95. Assim como se fala do único Cristo como sendo da divindade e da humanidade e estando na divindade e na humanidade, assim também se fala dele como sendo de duas naturezas e em duas naturezas. 96. Confessa-se que em Cristo há uma única hipóstase, ou sujeito, em duas naturezas indivisivelmente unidas. 97. Glorifica-se a única hipóstase indivisível de Cristo e confessa-se a união sem confusão das duas naturezas. 98. Venera-se a única essência da Divindade em três Pessoas, ou hipóstases, e confessa-se a Trindade consubstancial. 99. Próprios às três Pessoas são a paternidade, a filiação e a processão. Comuns a elas são a essência, a natureza, a divindade e a bondade.