===== 1ª Centúria ===== //Abade Thalassius ou Thalassius o Africano — Sobre o Amor, a Temperança e a Conduta da Inteligência. Tradução em grande parte feita a partir da versão francesa da Philokalia, mas eventualmente utilizada a versão inglesa.// 1. Um desejo ([[tnpl:epithymia:start|epithymia]]) totalmente voltado para Deus religa a Deus e religa entre si àqueles que desejam. 2. Uma inteligência ([[filo>n:nous|Noûs]]) que adquiriu o amor espiritual ([[tnpl:eros:start|eros]]) não tem conta daquilo que convém ao amor, quando considera o próximo. 3. Aquele que abençoa de boca e menospreza em seu coração ([[tnpl:kardia:start|kardia]]) esconde a hipocrisia sob o véu do amor. 4. Aquele que adquiriu o amor ([[tnpl:agape:start|agape]]) suporta sem problemas as coisas aflitivas e penosas que suscitam os inimigos ([[tnpl:diabolos:start|diabolos]]). 5. Só o amor une a criação a Deus e os seres entre si na concórdia. 6. Possui o amor verdadeiro (agape) aquele que não suporta nem dúvidas nem palavras contra o próximo. 7. É honrado por Deus e os homens, aquele que não empreende nada que possa destruir o amor (agape). 8. É próprio do amor sincero (agape) uma palavra verdadeira que vem de uma boa consciência. 9. Aquele que reporta a outro as queixas de um outro esconde a inveja ([[tnpl:pleonexia:start|pleonexia]]) acobertada pela benevolência. 10. Assim como as virtudes ([[tnpl:arete:start|arete]]) carnais atraem a glória dos homens, as virtudes espirituais atraem a glória de Deus. 11. O amor e a temperança ([[tnpl:enkrateia:]]) purificam a alma (psyche), mas a oração ([[tnpl:euche:]]) pura ilumina a inteligência ([[filo>n:nous|Noûs]]). 12. É um homem forte aquele que pela ação ([[tnpl:praxis:]]) e o conhecimento ([[tnpl:gnosis:]]) caça o mal. 13. Encontrou a graça em Deus, aquele que adquiriu a impassibilidade ([[tnpl:apatheia:]]) e o conhecimento espiritual ([[tnpl:gnosis:]]). 14. Se queres vencer os pensamentos apaixonados ([[tnpl:logismos:]]), adquira a temperança ([[tnpl:enkrateia:]]) e o amor ao próximo ([[tnpl:agape:]]). 15. Guarda-te da intemperança e do ódio ([[tnpl:orge:]]) e não encontrarás nada que te faça obstáculo na hora da prece ([[tnpl:euche:]]). 16. Da mesma maneira que não se pode sentir perfumes na lama, não é possível sentir em uma alma rancorosa ([[tnpl:orge:]]) o bom odor do amor ([[tnpl:agape:]]). 17. Domines vigorosamente o ardor ([[tnpl:thymikon:]]) e a concupiscência ([[tnpl:epithymia:]]), e rapidamente serás liberado dos pensamentos ([[tnpl:logismos:]]) maus. 18. O trabalho oculto suprime a vanglória, e não menosprezar ninguém rechaça o orgulho. 19. O próprio da vanglória, é a hipocrisia e a mentira. E o próprio do orgulho, é a presunção e a inveja. 20. Comando, aquele que comandou a ele mesmo e que submeteu à razão alma e corpo. 31. Assim como a obra de Deus é de dirigir o mundo, também a obra da alma é de governar o corpo. 32. Com qual esperança ir ao encontro do Cristo, nós que estamos escravizados até agora aos prazeres da carne? 33. A vida dura e a aflição — voluntárias, ou suscitadas pela Providência — eliminam o prazer. 34. O amor do dinheiro se acha ser a matéria das paixões, pois cresce o prazer que abarca tudo. 35. O cheque do prazer engendra a tristeza, mas o prazer estava ligado a toda paixão. 36. Com a Medida de que te serves para tudo medir a teu corpo, serás em retorno medido por Deus. 37. As obras dos juízos divinos se encontram ser as justas retribuições do que foi feito pelo corpo. 38. A virtude e o conhecimento dão à luz à imortalidade. Mas sua privação foi a [[tnpl:mae:start|mãe]] da morte. 39. A tristeza segundo Deus elimina o prazer, e o desaparecimento do prazer é a ressurreição da alma. 40. A [[tnpl:apatheia:]] é a impassibilidade da alma face-a-face do mal. É impossível alcança-la sem a compaixão do Cristo. 41. Cristo é o [[tnpl:salvador:start|salvador]] tanto da alma quanto do corpo, e a pessoa que segue seus passos é liberta do mal. 42. Caso se deseje alcançar a [[tnpl:salvacao:start|salvação]], cumpre renunciar ao prazer sensual e aprender o autocontrole, o amor e o modo de orar com concentração. 43. A marca da impassibilidade é o verdadeiro discernimento; pois aquele que alcançou o estado de impassibilidade faz todas as coisas com discernimento e segundo medida e regra. 44. Nosso Senhor e Deus é Jesus Cristo, e o intelecto que o segue não permanecerá nas trevas. 45. Concentra teu intelecto, vigia teus pensamentos e combate qualquer um deles que esteja carregado de paixão. 46. Há três vias pelas quais os pensamentos surgem em ti: pelos sentidos, pela memória e pelo temperamento do corpo. Dentre estes, os mais penosos são os que vêm pela memória. 47. O homem a quem foi dada a sabedoria conhece as essências interiores das coisas imateriais e qual é a origem e a consumação do mundo. 48. Não negligencies a prática das virtudes, e teu intelecto será iluminado; pois está escrito: Abrirei para ti tesouros secretos invisíveis. 49. O homem liberto de suas paixões recebeu a graça de Deus; e, se foi considerado digno do conhecimento espiritual, recebeu grande misericórdia. 50. O intelecto liberto das paixões torna-se como luz, incessantemente iluminado pela contemplação dos seres criados. 51. O santo conhecimento é a luz da alma; privado dele, o insensato caminha nas trevas. 52. O homem que vive nas trevas é insensato, e a obscuridade da ignorância o aguarda. 53. O amante de Jesus será liberto do mal; os discípulos de Jesus contemplarão o verdadeiro conhecimento. 54. O intelecto liberto das paixões forma imagens conceituais também livres de paixão, quer o corpo esteja adormecido, quer desperto. 55. O intelecto completamente purificado sente-se estreitado pelos seres criados e anela ir além deles. 56. Bem-aventurado aquele que alcançou a infinidade ilimitada, transcendendo tudo o que é transitório. 57. Aquele que reverencia Deus busca os princípios divinos que Deus implantou na criação; o amante da verdade os encontra. 58. Quando retamente motivado, o intelecto encontrará a verdade; mas, quando motivado pela paixão, errará o alvo. 59. Assim como Deus é incognoscível em sua essência, assim também é infinito em sua majestade. 60. Deus, cuja essência não tem origem nem consumação, é também impenetrável em sua sabedoria. 61. A sublime providência do Criador preserva tudo o que existe. 62. Em sua misericórdia, o Senhor sustenta todos os que caem e levanta todos os que estão abatidos. 63. Cristo, em sua justiça, recompensa os vivos, os mortos e cada ação singular. 64. Caso se deseje governar a alma e o corpo, cumpre prevenir as paixões, extirpando suas causas. 65. Submete as potências da alma às virtudes, e elas serão libertas da tirania das paixões. 66. Refreia os impulsos do desejo por meio do autocontrole e os da cólera por meio do amor espiritual. 67. A quietude e a oração são as maiores armas da virtude, pois purificam o intelecto e lhe conferem visão espiritual. 68. Somente a conversação espiritual é benéfica; é melhor preservar a quietude do que entregar-se a qualquer outra espécie de conversa. 69. Dentre as cinco espécies de conversação, escolhe as três primeiras, sê parcimonioso com a quarta e evita a quinta. 70. A pessoa que não é afetada pelas coisas deste mundo ama a quietude; e aquele que não ama nenhuma coisa humana ama todos os homens. 71. A consciência é uma verdadeira mestra, e todo aquele que a escuta não tropeçará. 72. Somente aqueles que chegaram aos extremos da virtude ou do mal não são julgados por suas consciências. 73. A impassibilidade total torna nossas imagens conceituais livres de paixão; o conhecimento espiritual perfeito introduz-nos na presença daquele que está inteiramente para além do conhecimento. 74. O fracasso em obter prazer induz uma espécie culpável de aflição; aquele que despreza o prazer está livre da aflição. 75. Em geral, a aflição nasce da privação do prazer, quer seja de natureza mundana, quer se refira a Deus. 76. Realeza, bondade e sabedoria pertencem a Deus; aquele que as alcança habita no céu. 77. A pessoa que, em suas ações, mostra preferir o corpo à alma e o mundo a Deus é uma criatura lamentável. 78. Aquele que não inveja os espiritualmente maduros e é misericordioso para com os maus alcançou um amor igual por todos. 79. A pessoa que aplica as leis da virtude à alma e ao corpo é verdadeiramente apta a governar. 80. O comércio espiritual consiste em desapegar-se igualmente dos prazeres e das dores desta vida, por causa das bênçãos reservadas. 81. O amor e o autocontrole fortalecem a alma; a oração pura e a contemplação fortalecem o intelecto. 82. Quando se ouve algo em benefício próprio, não se deve condenar quem fala; pois, se assim se fizer, anular-se-á sua admoestação proveitosa. 83. Uma mente depravada pensa maus pensamentos e considera defeitos as realizações do próximo. 84. Não confies num pensamento que julgaria teu próximo; pois é o homem que é um depósito de mal que pensa maus pensamentos. 85. Um bom coração produz bons pensamentos; seus pensamentos correspondem ao que ele acumula em si mesmo. 86. Vigia teus pensamentos e evita o mal. Então teu intelecto não será obscurecido, mas, ao contrário, verá. 87. Tem em mente os judeus e guarda-te cuidadosamente; pois os judeus foram cegados pela inveja e tomaram Beelzebu por seu Senhor e Deus. 88. Uma suspeita má obscurece a mente e desvia a atenção do caminho para aquilo que está ao lado dele. 89. A cada virtude corresponde um vício oposto; por isso os maus tomam vícios por virtudes. 90. Se o intelecto se demora no prazer ou no abatimento, sucumbe rapidamente à paixão da acídia. 91. Uma consciência pura desperta a alma, mas um pensamento impuro a degrada. 92. Quando as paixões estão ativas, expulsam a vanglória; quando são expulsas, reintroduzem-na. 93. Caso se deseje estar livre de todas as paixões, cumpre praticar o autocontrole, o amor e a oração. 94. Um intelecto que se entrega a Deus na oração liberta das paixões o aspecto passível da alma. 95. Deus, que deu o ser a tudo o que existe, ao mesmo tempo uniu todas as coisas em sua providência. 96. Sendo Mestre, tornou-se servo e, assim, revelou ao mundo as profundezas de sua providência. 97. Deus, o [[tnpl:logos:start|Logos]], ao encarnar-se permanecendo imutável, uniu-se por meio de sua carne à totalidade da criação. 98. Há uma nova maravilha no céu e na terra: Deus está na terra e o homem está no céu. 99. Ele uniu homens e anjos a fim de conceder a deificação a toda a criação. 100. O conhecimento da santa e consubstancial Trindade é a santificação e a deificação dos homens e dos anjos. 101. O perdão dos pecados é assinalado pela liberdade em relação às paixões; aquele a quem ainda não foi concedida a liberdade em relação às paixões ainda não recebeu o perdão.