===== Livre ===== //Imke de Gier. ‘CE LIVRE MONSTRERA A TOUS VRAYE LUMIERE DE VERITE’. Marguerite Porete’s Le mirouer des simples ames as a mystatogic text. Tese de Doutorado. Antwerpen, 2013// **Abordagem da análise do uso do termo livre** A proeminência da palavra livre (livre), que ocorre sessenta e duas vezes no Mirouer, tem sido cada vez mais considerada em relação ao objetivo da união aniquilada com Deus representada no livro, incluindo o desejo de que o próprio público alcance esse estado perfeito. * Estudiosos como Bernard McGinn, Nicholas Watson, Amy Hollywood e Ellen Babinsky propuseram que as dificuldades de leitura do texto devem ser entendidas à luz das lutas da personificação Alma com a “escrita” do livro, simultaneamente à sua busca pela união aniquilada com Deus. * A função mistagógica do livro, ou seja, capacitar o público a alcançar o estado aniquilado, é o que se pretende demonstrar, embora existam diferentes nuances nos argumentos sobre os meios utilizados, como temas cristológicos, imaginação fictícia de Deus, ato de escrever ou abordagem didática. * Permanecem questões complexas sobre a autoria, a extensão em que a autora histórica, Marguerite Porete, pode ser equiparada à personificação alegórica Alma que “escreve” o livro, e quem exatamente seria o público-alvo da obra. * Marleen Cré observou que há referências sustentadas ao longo do texto a “este livro” em vez da experiência da autora como lócus de ensino e autoridade, e que a voz autoral não é claramente identificável porque o texto assume a forma de um diálogo entre figuras alegóricas. * Opiniões divergem sobre se é possível identificar a Alma com Marguerite Porete ou se o Mirouer reflete sua experiência real, com Peter Dronke rejeitando a possibilidade de ela escrever “loucuras” sobre o que não experimentou, enquanto Nicholas Watson argumenta que o próprio ato de escrever sobre Deus prova que ela nada sabe sobre Ele. * Suzanne Kocher alerta para a necessidade de cautela ao confundir o representado com o real, especialmente quando confrontados com paradoxos ao comparar a autora real com a autora inscrita, ou o livro real com o livro inscrito. * Catherine Muller sugere que cinco livros diferentes são representados no Mirouer: o manuscrito concreto de Chantilly, o livro mencionado no autorreferencial do título, o livro dentro do livro como título referido pelas personificações, o livro divinamente escrito por Amor e dado à Alma, e o livro apocalíptico da vida que representa aniquilação e silêncio. **Metodologia da análise do termo livre** A análise do termo livre, tal como ocorre no Mirouer, constitui a base deste estudo, investigando também palavras como verdade (verité) e abertura (ouverture) em capítulos posteriores, e palavras como fazer (faire), obra (oeuvre), empreendimento (entreprise) e estorvo (encombre) no capítulo sobre o livro como metáfora. * A análise estatística da frequência e distribuição do termo livre mostra que os capítulos com maior número de ocorrências (cinco vezes ou mais) são os capítulos 12, 13, 101 e 119. * Quase metade do total de sessenta e duas ocorrências da palavra livre aparece nos primeiros vinte e um capítulos do Mirouer, revelando uma maior preocupação com a ideia do livro no início e novamente no final da obra. * Quatro agrupamentos naturais (clusters) de ocorrências mais frequentes podem ser detectados: capítulos 1 a 21 (vinte e oito vezes), capítulos 53 a 60 (onze vezes), capítulos 72 a 86 (oito vezes) e capítulos 97 a 119 (dezesseis vezes). * A personificação Alma usa a palavra livro vinte e duas vezes, Amor a usa catorze vezes e Razão também catorze vezes, sendo que o uso pela Alma é notavelmente mais frequente na segunda metade de todas as ocorrências (86%), enquanto todo o uso pela Razão ocorre na primeira metade, pois ela morre no capítulo 87. * O exame do assunto abordado quando a palavra livro ocorre revela cinco categorias gerais: livre de vie (três ocorrências), autorreferencial (vinte e uma ocorrências), estrutura (treze ocorrências), autoria e escrita (dezesseis ocorrências), e público (vinte e seis ocorrências), entendimento (quinze ocorrências) e propósito (vinte e três ocorrências). **O livro literal, o livro como metáfora e o livro sagrado** Propõe-se que três noções de livro coexistem no Mirouer: o livro literal (um objeto coerente com autoridade, funcionando como um espelho que reflete uma imagem do amor de Deus), o livro como metáfora (um construto literário complexo onde a “escrita” reflete a jornada espiritual das personagens, não a autoria histórica) e o livro sagrado (sugerido pelo termo livre de vie e por palavras como verdade e abertura, que apontam para o livro como um veículo da verdade). * O livro literal é concebido como uma entidade coerente que incorpora certa autoridade e, funcionando dentro da tradição dos livros-espelho, reflete uma imagem do amor de Deus, visando ser um instrumento de autoconhecimento e reconhecimento para o público. * As referências ao público destacam que a leitura ou audição do livro desempenha um papel importante no caminho para Deus, contemplando as palavras e experimentando-as para cumprir o papel concreto do livro como um trampolim que auxilia o público em sua capitulação em direção ao divino. * O exame da autoria complexa no Mirouer revela que as referências a “fazer” e “escrever” o livro não são simplesmente referências à autoria histórica literal de Marguerite Porete, pois o livro representa, em um nível metafórico, algo “criado” por diferentes agentes, incluindo o Amor. * O empreendimento do livro pela personificação Alma é mais metafórico do que qualquer escrita real e literal do livro, exigindo “trabalho” e “sofrimento” que refletem menos a escrita histórica do que a jornada espiritual empreendida pelas personificações alegóricas. * O termo livre de vie é usado no contexto de uma alusão escatológica ao julgamento das próprias ações por Deus na vida após a morte, e palavras com conotações escatológicas, como verdade (verité) e abertura (ouverture), são examinadas por transmitirem implicitamente o livro como um veículo para a verdade. * As noções literal, metafórica e sagrada do livro não são explicitamente articuladas no Mirouer, mas existem lado a lado em constante oscilação, o que explica a dificuldade de determinar o papel do livro, sua autoria e seu público, bem como o caráter desorientador do texto.