===== Parábolas ===== [[start|Antonio Orbe]] — [[parabolas|Parábolas Evangélicas em São Irineu]] **CAPÍTULO 1: AS PARÁBOLAS** * A abordagem de Irineu sobre as parábolas é implícita e prática, focando em reconstruir as diretrizes eclesiais em contraste com a exegese gnóstica, sem definir formalmente o gênero. * Irineu alude, enumera e expõe as parábolas, mas nunca se detém para definir o termo “parábola”, nem faz escrúpulos em distingui-la de enigmas, mistérios, alegorias e tipos. * Os abusos que ele observa entre seus adversários não afetam o conceito muito amplo de parábola, mas sim suas aplicações aberrantes. * Para Irineu, toda a Escritura é de algum modo uma magna e universal parábola, e as parábolas do Evangelho têm importância excepcional por seu conteúdo e forma. **ENDURECIMENTO JUDAICO** * O problema da finalidade das parábolas de Jesus surge em Irineu de forma marginal, a partir de uma tradição asiática, onde ele desenvolve a doutrina de um “presbítero” para refutar a ideia de que o Senhor as teria adotado por inveja. * Segundo alguns, o Senhor teria adotado as parábolas por inveja (fthonon), receoso de comunicar seus mistérios a estranhos, mas Irineu desconhece essa ideia e desenvolve a doutrina de um “presbítero” anônimo. * A doutrina do “presbítero” é assimilada com desenvoltura por Irineu, e a insegurança sobre a linha divisória entre os pensamentos do ancião e os do bispo de Lyon é compensada pelo domínio e soltura de assimilação do santo. * Irineu responde aos gnósticos e marcionitas, que usavam textos do Êxodo sobre o endurecimento do coração do faraó para provar a malícia do demiurgo, argumentando que o mesmo tipo de ação se encontra no Novo Testamento atribuída a Deus Pai. * Os gnósticos e marcionitas argumentavam, a partir de Êxodo 10,1 (“Sed induravit Deus cor Pharaonis et famulorum eius”) e outros textos, que o demiurgo era malicioso, incompatível com o Deus bom. * Irineu responde que, se a objeção vale para o demiurgo, valerá igualmente para qualificar o Salvador, perguntando por que Cristo, filho do Deus bom, adotou o regime das parábolas, tão oposto à sua benigna condição. * Irineu cita Jesus em Mateus 13,10-16: “Quoniam vobis datum est nosse mysterium regni caelorum, illis autem in parabolis loquor, ut videntes non videant et audientes non audiunt...” * A diferença na compreensão das parábolas não está no Senhor, mas na disposição dos ouvintes, pois o sol ilumina igualmente a todos, mas os doentes dos olhos não contemplam sua luz, enquanto os sãos a contemplam. * Uma mesma parábola é ouvida por todos, mas os bem dispostos a entendem e os mal dispostos a ouvem e não a entendem. * O Senhor jamais força a fé, que, por ser livre, deve ser meritória; ele fala a crentes e incrédulos, mas os incrédulos a deixam perder (“nullificant eum”) e se tornam cegos, enquanto os crentes seguem dóceis ao Verbo e recebem plena e maior luz. * Assim como o faraó e seus servidores descreveram à palavra de Deus e o que lhes iluminaria os endureceu, os fariseus adotaram a mesma disposição, não sendo nem Iavé culpado pela endurecimento do faraó nem o Salvador pela cegueira e surdez dos fariseus. * A doutrina de Irineo sobre a obduração judaica é ilustrada com o exemplo de Raab, a prostituta que se salvou pela fé na “señal de escarlata” (fide signi coccini), enquanto os fariseus se perderam por desprezar a mesma “señal” (coccinum signum nullificabant), que era a Páscoa. * Raab, a prostituta, se salvou com sua casa por crer na “señal de escarlata” (fide signi coccini), enquanto os fariseus, por descrever à vinda do verdadeiro Josué, desprezaram essa mesma “señal” e se perderam com seu povo. * Irineu afirma: “Unus enim et idem Dominus his quidem qui non credunt sed nullificant eum infert caecitatem... his autem qui credunt et sequuntur eum pleniorem et maiorem illuminationem mentis praestat.” **RESPOSTA DE MARCION** * Marción, para se safar dos argumentos paulinos apresentados por Irineu, utilizava métodos de crítica textual como pontuar diferentemente 2 Coríntios 4,4, eliminar Romanos 1,28 e abreviar 2 Tessalonicenses 2,11-12. * Marción lia 2 Coríntios 4,4 de maneira mais natural, fazendo com que o “deus deste século” (o demiurgo Iavé) cegasse as mentes dos incrédulos, dando razão a ele. * Marción provavelmente eliminou Romanos 1,28, pois não convinha à sua tese. * Em 2 Tessalonicenses 2,11-12, Marción retém o verso 12 e abrevia o 11 para “et propter hoc erit eis instinctum fallaciae”, eliminando “pemsei autois o theos” e a cláusula final “eis to pisteusai autous to pseudei”. **RESPOSTA VALENTINIANA** * Os valentinianos, por sua vez, pontuavam 2 Coríntios 4,4 como Marción, atribuindo ao “deus deste século” a responsabilidade pelos desordens humanos, e para 2 Tessalonicenses 2,11-12, com o termo “Dios” podendo se aplicar ao Bom, ao demiurgo ou ao “Kosmokrátor”. * Os valentinianos pontuavam 2 Coríntios 4,4 como Marción, fazendo do “deus deste século” o responsável pelos desórdes humanos. * Para 2 Tessalonicenses 2,11-12, usavam a ambiguidade do termo “Dios”, que pode se aplicar ao Bom, ao demiurgo ou ao “Kosmokrator”, ou a fonte varia de inspiração de um mesmo verso. * Irineu conclui que, se Deus agora entrega os incrédulos à sua infidelidade, não é surpresa que tenha feito o mesmo com o faraó, como diz o Verbo a Moisés em Êxodo 3,19: “Ego autem scio quoniam non dimittet vos Pharao rex Aegypti abire, nisi cum manu valida.” * A linguagem parabólica do Salvador estava em conformidade com a má disposição prévia dos judeus, mas não se dirigia apenas a eles, nem induzia cegueira por si mesma, pois também iluminava os discípulos. * A linguagem parabólica não se dirigia apenas aos judeus incrédulos, mas também aos apóstolos, como a parábola dos maus vinhateiros (Mt 21,33-43) que mirava judeus e discípulos. * Por se dirigir também aos discípulos, as parábolas não levavam a cegueira a todos os ouvintes; em boa parte deles “fazia luz”, iluminando-os sobre os mistérios do Evangelho. * Para os judeus incrédulos, Jesus falou em parábolas “ciente de sua incredulidade, para que vendo não vissem e ouvindo não ouvissem”, a fim de que se precipitassem no piélago da incredulidade, enquanto para os discípulos era um aliciente a penetrar em seu sentido misterioso. **O ABUSO GNÓSTICO DAS PARÁBOLAS** * Irineu denuncia o abuso flagrante dos valentinianos que, para legitimar sua tese dos dois deuses, analisam as parábolas devido à sua margem de ambiguidade, fabricando um deus a partir do que não está escrito. * Os valentinianos buscam quaisquer indícios nas parábolas porque, segundo própria confissão, faltam testemunhos claros para seus dois deuses (o Criador e o Pai Ignorado). * Irineu afirma que é irracional (“Perquam igitur irrationale est”) abandonar o Deus verdadeiro para procurar um que não é, a partir de parábolas mal interpretadas. * Irineu compara os gnósticos a quem desmancha uma bela imagem real para refazer a forma de um cão ou raposa, enganando os tolos com a mesma matéria preciosa. * Para uma exegese correta das Escrituras e das parábolas, Irineu estabelece normas que incluem uma mente sã e amiga da verdade, limitar-se ao que Deus submeteu ao conhecimento humano, e entregar-se ao estudo das coisas imediatas e óbvias. * É condição primeiríssima dispor-se ao estudo da palavra de Deus com uma mente sã, segura, circunspecta (eulabes) e amiga da verdade. * A segunda condição é limitar-se ao que Deus submeteu ao humano conhecimento, sem traspassar as lindes da ciência creatural. * A terceira é entregar-se longamente ao estudo até dominar e tornar fácil seu objeto, que são as coisas imediatas e os oráculos evidentes e inequívocos da Escritura. * Os gnósticos quebrantam essas normas ao partirem de ambiguidades rebuscadas e assumirem a existência de uma parádisis secreta, na qual o Salvador teria revelado o verdadeiro sentido das parábolas a poucos indivíduos qualificados. * Os gnósticos afirmam que o Salvador ensinou em segredo (“em absconso”) não a todos, mas a alguns discípulos capazes de entender, e que as parábolas significam o Pai por meio de argumentos e enigmas. * Eles se gloriam (“se gloriam eles”) de serem os “brancos” e os “entendidos” capazes de decifrar os oráculos selados de Daniel (Dan 12,9-10). * Os gnósticos afirmam que o Salvador revelou a gnosis a poucos (como Matías, Pedro, Paulo, Mariamne e Santiago), que a transmitiram por sucessão secreta a Basilides, Valentín e outros. **OS JUDEUS E AS PARÁBOLAS** * Jesus falou aos judeus em parábolas para que, vendo, não vissem e, ouvindo, não ouvissem, mas isso não se deve à forma literária em si, sim à má vontade dos ouvintes fariseus, que culpavelmente rejeitavam o magistério do Verbo. * Os judeus a quem Jesus se dirige em Mateus 13,10ss são os fariseus, culpavelmente cegos aos ensinamentos do Evangelho (“qui non credunt sed nullificant eum”). * As parábolas, diferentemente de outros gêneros, não impõem a verdade, mas a apresentam como acessível ou não segundo a disposição dos ouvintes; não encobrem totalmente a verdade, pois os crentes seriam incapazes de descobri-la. * Dirigidas a fariseus incrédulos, as parábolas têm um efeito desastroso, dando-lhes nova ocasião para se fecharem culpavelmente à verdade, mas dirigidas a crentes, acabam sempre por iluminá-los (“his autem qui credunt et sequuntur eum, pleniorem et maiorem illuminationem mentis praestat”). * Justino, em obra antimarcionita hoje perdida, escreveu que antes da vinda do Senhor, Satanás não se atrevia a blasfemar de Deus porque sua condenação estava entre parábolas e alegorias, mas depois da vinda do Senhor, ele a aprendeu claramente. * Justino afirmou: “Antes da (primeira) vinda do Senhor nunca se atreveu Satanás a blasfemar de Deus; como quem ainda ignorava sua (própria) condenação, por se encontrar (esta) entre parábolas e alegorias.” * Justino alude a Isaías 14,12ss (“Como caíste do céu, estrela rutilante...”) como uma parábola em forma trágica que representava o diabo pela pessoa do rei da Assíria, e a Gênesis 3,14 e Isaías 27,1 sobre a condenação da serpente. * A razão fundamental pela qual o diabo não entendeu sua condenação nas parábolas do AT não foi a obscuridade, mas sua má disposição, pois não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir. * Entre o Antigo e o Novo Testamento, a diferença está entre o vaticínio e seu cumprimento, sendo Cristo o centro único, ensinado mediante tipos e parábolas no AT e conhecido em sua pessoa no NT. * Irineu afirma: “Si quis igitur legit de Christo... inveniet in illis... ‘thesaurum absconditum in agro’ (Mt 13,44), hoc est in mundo, absconditum in Scripturis, quia significabatur per typos et parabolas.” * O conhecimento divino antes da vinda do Verbo era muito real, mas poucos o tinham (patriarcas e profetas), e somente após o cumprimento em Cristo as profecias têm declaração exatíssima. * A leitura judaica da Lei e dos Profetas é como uma fábula, porque eles não possuem a chave dos mistérios e rejeitam positivamente a vinda do Filho de Deus em carne, enquanto a leitura cristã revela o tesouro escondido no campo. * Não foi a forma de parábola que impediu os judeus de entender, pois Jesus ensinou a mesma coisa em parábola e sem ela, e mesmo assim não logrou melhor fruto, devido à má vontade dos ouvintes. * Mais de uma vez, os fariseus e sumos sacerdotes, ouvindo as parábolas de Jesus, compreenderam que ele falava deles, como na parábola dos maus vinhateiros, mas não quiseram acolher em fé o que lhes era imposto por força. * O Salvador ensinava às vezes em parábola e outras vezes sem ela, com evidência, como no caso da parábola da figueira (Lc 13,7) e suas palavras sobre Jerusalém (Mt 23,37-38), e ainda assim não conseguia melhor fruto. * O mistério da eficácia nas parábolas não reside na forma do pensamento, mas no fato de que exige do homem uma resposta livre e humilde, que o indivíduo pode denegar. **ACOTAÇÃO VALENTINIANA** * Para os valentinianos, o Salvador ensinava aos apóstolos separadamente (kata monas) em três modos: em tipos e mistérios, em parábolas e enigmas, e clara e desnudamente, todos tendo por objeto os mistérios espirituais da gnose. * O valentiniano destaca o triplo ensinamento do Salvador aos apóstolos: primeiro em tipos e mistérios (typikos kai mystikos), segundo em parábolas e enigmas (parabolikos kai enigmenos), terceiro clara e desnudamente (saros kai gymnos). * Estas três séries de ensinos não diferiam propriamente em conteúdo, todas tendo por objeto os mistérios espirituais da gnose, mas sim em método: a via típica a partir das realidades sensíveis, a parabólica a partir da lei antiga, e a imediata por revelação direta. * Para justificar tradições secretas, os gnósticos se acolhiam a versículos como Marcos 4,10 (“kai hote egeneto kata monas, eroton auton hoi peri auton syn tois dodeka tas parabolas”) e às revelações dos dezoito meses gloriosos do Salvador ressuscitado. **ATITUDE DE IRINEU** * Um abismo separa Irineu da ideologia valentiniana, pois para ele o conteúdo último das parábolas deve ser buscado nos mistérios do Verbo feito carne e na economia humana de Deus, não no pleroma dos eones. * Para os valentinianos, o conteúdo último de tipos, enigmas e parábolas se esconde nas alturas do Espírito puro, no pleroma dos eones; para Irineu, tal conteúdo está nos mistérios do Verbo encarnado e na Igreja, o corpo humano e terreno da verdade. * Para os valentinianos, a exegese das parábolas é vertical (de baixo para cima) em direção ao reino do Espírito; para Irineu, a exegese é horizontal, em direção a Cristo encarnado em Jesus e na Igreja dos homens. * Tudo o que repugna ao humano e carnal de Cristo, seja entre judeus ou gnósticos, vai diretamente contra a própria noção de parábola escriturária evangélica e cristã. * Contra os docetas, que atribuíam ao Salvador uma existência falaz e enganosa, Irineu afirma que a Verdade (o Senhor) não mentia, nem seus discípulos agiam com hipocrisia, adotando um método que aos bem dispostos induzia ao conhecimento e aos incrédulos à maior cegueira. * Os docetas, como nos Atos de João (“verbo illusi cuncta, et non sum illusus in totum”), passavam da falácia nos fatos ao engano nas palavras, sugerindo que o Senhor induzia positivamente ao erro. * Irineu afirma que a Verdade, sendo o Senhor, não mentia (“Veritas ergo Dominus noster existens, non mentiebatur”) e que nem ele nem seus discípulos agiam com hipocrisia, adaptando a doutrina conforme a capacidade do ouvinte. * O Salvador adotou um método que, às mesmas expressões divinas, agia em bem sobre os bons e em mal sobre os maus, como a chuva que na terra boa dá fruto e na má dá espinhos, ou o sol que amolece a cera e endurece o barro. * A exegese irineana das parábolas é sempre harmônica, conduz diretamente à sua teologia dogmática, e busca descobrir o tesouro doutrinal arraigado na tradição eclesiástica, nunca se limitando a uma interpretação meramente moral. * O método parabólico, com sua dificuldade, solicita no crente uma fé operosa e no teólogo uma busca humilde e iluminada, de maior mérito que a simples aceitação de um magistério claro. * Irineu jamais resvala para uma exegese moralizante ao estilo de São Crisóstomo, buscando sempre o conteúdo dogmático digno do Salvador e arraigado na tradição eclesiástica. * A exegese irineana das parábolas, embora fragmentária, é sempre harmônica e restituível, perfilando uma doutrina homogênea de coerência absoluta, e qualquer alusão a elas encobre um toque dogmático precioso e às vezes genial.