===== Valentinianos ===== //THOMASSEN, Einar. The coherence of “Gnosticism”. Berlin Boston (Mass.): De Gruyter, 2021.// * A obra propõe uma exposição coerente do valentinianismo a partir do conjunto integral das fontes disponíveis, tarefa considerada há muito necessária diante da inércia interpretativa que relegou os textos de Nag Hammadi à margem das sínteses históricas e doutrinárias do movimento. * Nag Hammadi — conjunto de manuscritos gnósticos descobertos em 1945 no Egito, contendo textos valentinianos fundamentais * Valentinianismo — forma peculiar do cristianismo antigo fundada por Valentino, caracterizada por elaboradas especulações cosmológicas e soteriológicas * Heracleon, Marcos "o Mago" — figuras valentinianas que receberam atenção monográfica recente, mas sem integração ao quadro geral do movimento * A metáfora do quebra-cabeça organiza a percepção do estado lacunar das fontes: muitas peças estão irrecuperavelmente perdidas * A escassez de informações sobre Valentino em si constitui uma das maiores lacunas do campo, desproporcional à sua evidente importância histórica, e a ausência de dados concretos sobre pessoas, datas e procedências dos textos sobreviventes impede a redação de uma história genuína do movimento. * Valentino — fundador do movimento, ativo em Roma por volta do século II, sobre quem as fontes primárias são fragmentárias e escassas * A assimetria entre a influência histórica de Valentino e a pobreza documental sobre sua vida e pensamento próprios é destacada como paradoxo estrutural da pesquisa * O [[gnosis:tt:start|Tratado Tripartite]], texto seriamente subestimado pela crítica, funciona como peça-chave capaz de articular os relatos heresiológicos sobre os sistemas valentinianos com os tratados não sistemáticos da [[gnosis:bnh:start|biblioteca de Nag Hammadi]], permitindo também delinear as diferenças entre as formas oriental e ocidental do valentinianismo e esboçar uma cronologia relativa das teologias atestadas. * [[gnosis:tt:start|Tratado Tripartite]] (Tri. Trac.) — texto valentiniano de Nag Hammadi que apresenta uma protologia distinta do sistema dos 30 éons * Teodoto — valentiniano oriental cujos Excerpta, preservados por Clemente de Alexandria, fornecem material comparativo essencial * Valentinianismo oriental — forma mais primitiva em cristologia, soteriologia e protologia * Valentinianismo ocidental — forma mais elaborada, com teorias mais desenvolvidas sobre os éons e a encarnação * A Parte I examina as posições das fontes valentinianas sobre a encarnação do Salvador, identificando dois grupos doutrinários opostos: o primeiro afirma a paixão e a encarnação material, atribuindo-lhes importância soteriológica decisiva e concebendo a salvação como participação mútua; o segundo nega a paixão e o [[tnpl:corpo:start|corpo]] material, postulando um componente psíquico no Salvador e tratando a encarnação como revelação de verdades simbólicas antes que ato salvífico em si. * [[tnpl:cristo:start|Cristo]] psíquico — designação dada, em certas fontes ocidentais, ao componente intermediário do Salvador, distinto do espiritual e do material * Soteriologia — doutrina da salvação; no contexto valentiniano, articula-se em torno da distinção entre seres espirituais, psíquicos e materiais * A divergência confirma a informação básica dos heresiólogos sobre as duas "escolas" do valentinianismo, permitindo identificar fontes como orientais ou ocidentais * A Parte II investiga sistematicamente as relações entre três dimensões fundamentais da [[tnpl:teologia:start|teologia]] valentiniana — a aparição histórica do Salvador, a especulação protológica sobre a origem da pluralidade e a redenção ritualmente encenada —, mostrando que uma homologia as governa porque todas são regidas pela oposição entre espírito e matéria. * [[tnpl:pleroma:start|Pleroma]] — a totalidade dos éons divinos no sistema valentiniano; sua projeção na pluralidade e restauração dentro do Limite constituem o eixo da protologia * Limite ([[tnpl:horos:start|Horos]]) — instância que delimita e estabiliza o Pleroma, separando-o do que é exterior a ele * O ritual batismal de redenção espelha a geração e estabilização do Pleroma e reenena o batismo do próprio Salvador no Jordão; as complicações lógicas emergem quando as três dimensões são ao mesmo tempo identificadas e distinguidas como eventos em narrativa linear * As Partes III e IV estudam separadamente a protologia valentiniana e os rituais de iniciação, argumentando que o sistema dos 30 [[tnpl:eon:start|éons]] — dominante na documentação heresiológica — é uma modificação secundária de uma protologia anterior, similar à do [[gnosis:tt:start|Tratado Tripartite]], na qual os éons não são nem nomeados nem numerados e o processo de geração ocorre como exteriorização e manifestação, não como derivação aritmética. * Sistema dos 30 éons — estrutura protológica clássica do valentinianismo ocidental, familiar pelos relatos de Irineu de Lyon e outros heresiólogos * Neopitagorismo — corrente filosófica que influenciou a metafísica valentiniana, especialmente na concepção numérica e processual do divino * Apocalíptica judaica — outra fonte rastreada para a protologia valentiniana * Tertuliano — testemunho sobre as ideias do próprio Valentino sobre os éons, que tende a corroborar a protologia não numerada do [[gnosis:tt:start|Tratado Tripartite]] * A Parte IV reúne as evidências sobre os rituais de iniciação valentinianos — batismo de água e unção —, constatando que, quanto aos atos realizados, o valentinianismo é decididamente ortodoxo em comparação com outros grupos gnósticos, ao passo que as fórmulas verbais e a finalidade percebida da iniciação — reunificação com o Pleroma — revelam originalidade e merecem mais atenção dos historiadores da liturgia. * Batismo dos "cinco selos" — ritual setiânico de iniciação, citado como contraste com a prática valentiniana * Setianos — grupo gnóstico distinto dos valentinianos, com ritualística e mitologia próprias * A iniciação valentiniana tem raízes em fase muito antiga do culto cristão, o que reforça sua relevância litúrgica ainda pouco explorada * A parte final volta a atenção ao próprio Valentino, recusando a interpretação que o separa quase inteiramente do movimento que fundou — como propõe o estudo extenso de Christoph Markschies —, e demonstrando que os fragmentos, relidos à [[tnpl:luz:start|luz]] do conjunto posterior dos documentos valentinianos e de outras fontes gnósticas, revelam continuidade temática suficiente entre o fundador nebuloso e seus discípulos mais conhecidos. * Christoph Markschies — estudioso contemporâneo cujo trabalho monográfico sobre Valentino tendeu a isolar o fundador de seus seguidores * Ptolomeu — valentiniano ocidental, autor de uma carta a Flora; figura central do sistema dos 30 éons * Os fragmentos de Valentino são aqui reinterpretados no horizonte hermenêutico que lhes é mais natural: o corpus valentiniano posterior e as fontes gnósticas correlatas * Um esboço histórico do valentinianismo encerra o livro, registrando evidências essenciais sobre figuras, eventos e possíveis desenvolvimentos do movimento, e admitindo que uma história em escala plena ainda precisa ser escrita — tarefa para a qual novas informações poderiam surgir de pesquisas sistemáticas sobre polêmicas anti-valentinianas em escritores ortodoxos tardios. * Marcos "o Mago" e Heracleon — figuras valentinianas não exaustivamente tratadas na obra, apontadas como objetos de pesquisa futura * A possibilidade de uma história completa do movimento é colocada em dúvida, embora não descartada * O termo "valentinianismo" é reconhecido como rótulo heresiológico — os próprios membros do movimento nunca o usaram para si mesmos, identificando-se antes como cristãos, como "semente espiritual" ou como a ekklesia —, mas é adotado na obra por ausência de alternativa melhor, por designar uma [[tnpl:realidade:start|realidade]] histórica distintiva rastreável por pelo menos 250 anos. * Justino Mártir — primeiro autor conhecido a empregar o termo "valentinianos", observando que os hereges recebem o nome de seus fundadores humanos à maneira das escolas filosóficas pagãs * [[gnosis:ef:start|Evangelho de Filipe]] — texto valentiniano de Nag Hammadi que enfatiza repetidamente a autodesignação "cristãos" * Ekklesia — termo grego para assembleia ou igreja; os valentinianos o utilizavam para se autodesignar em linguagem religioso-sociológica * O saltério de Valentino — livro de salmos do fundador, cuja circulação interna teria sido o principal vínculo de continuidade com seu nome ao longo das revisões doutrinárias constantes do movimento * Marcionitas e maniqueístas — movimentos comparados para evidenciar que Valentino ocupava papel menos central na [[tnpl:fe:start|fé]] de seus seguidores do que Marcion ou Mani nas respectivas tradições