===== Gnosis ===== //QUISPEL, GILLES. MAKARIUS, DAS THOMASEVANGELIUM UND DAS LIED VON DER PERLE. LEIDEN: BRILL, 1967.// ** DAS THOMASEVANGELIUM UND DIE GNOSIS ** - O Evangelho de Tomás é geralmente classificado como um escrito gnóstico que precisaria ser interpretado à luz de paralelos gnósticos. - Para Johannes Bauer, uma preocupação gnóstica específica fundamenta a seleção dos lógia, exigindo que todos os trechos sejam compreendidos a partir da teologia gnóstica. - Mesmo os lógia que parecem autênticos correm o risco de ser apenas reformulações ou criações gnósticas, já que o gnosticismo é um fenômeno multifacetado e bastante ramificado. - Robert M. Grant atribuiu o Evangelho de Tomás ao gnosticismo naassênio, afirmando que seu autor não teria utilizado tradição extracanônica, apenas os evangelhos canônicos, pervertendo as realidades religiosas da Igreja. - Gärtner também considera o Evangelho de Tomás gnóstico, mas vincula-o à escola valentiniana, enquanto Ernst Haenchen sustenta que todos os seus ditos possuem um sentido gnóstico oculto e que ele revela uma forma desconhecida de gnose sem mito. - Todos esses pesquisadores utilizam a hipótese gnóstica para desvalorizar o Evangelho de Tomás como fonte para a pesquisa neotestamentária, alegando que ele depende apenas dos evangelhos canônicos e não tem ligação com o judaico-cristianismo. - O Evangelho de Tomás contém uma tradição independente, e surge a questão de saber se havia gnósticos em Edessa no segundo século, pois o caráter gnóstico do escrito depende dessa pergunta histórica, não de análises fenomenológicas modernas. - Nada se sabe sobre gnósticos em Edessa; a tese de Walter Bauer de que o cristianismo edesseno seria de origem gnóstica é simplesmente falsa, apesar de repetida inúmeras vezes. - A Crônica Edessena do século VI narra que Marcião se separou da Igreja católica entre 137 e 138, mas isso apenas comprova a existência posterior de marcionitas em Edessa, sem provar presença gnóstica no segundo século. - A origem do cristianismo em Edessa não é católica, mas tampouco herética; a tradição eclesiástica sobre Addai é uma memória desbotada das origens judeu-cristãs e palestinenses do cristianismo edesseno. - O mais antigo cristianismo de Edessa era apostólico e ortodoxo, sem presença conhecida de valentinianos; Bardesanes, nascido em 154, não era gnóstico, conforme demonstra a pesquisa moderna. - Como não se conhecem gnósticos cristãos em Edessa nessa época, o Evangelho de Tomás, se foi escrito lá, dificilmente pode ser gnóstico. - O que é propriamente gnóstico são as correntes da Antiguidade que ensinam uma ruptura trágica na divindade, a doutrina do deus sofredor e caído, de cuja essência os espíritos humanos provêm. - Quando o ser humano alcança o autoconhecimento pela gnose, descobre que é parte dessa divindade sofredora e, portanto, consubstancial a Deus; ao redimir o homem, Deus se redime a si mesmo. - Os pesquisadores modernos da gnose não têm dado suficiente atenção a esse aspecto, que é o traço mais essencial do gnosticismo, ausente na índia, na Grécia, em Israel e no Irã, embora a tradição órfica conheça o mito da divisão de Zagreus. - Zagreus é um deus dos gregos, não o Deus; é Dioniso, não Zeus, e nenhum grego afirmou que Deus se redime a si mesmo, ao contrário do que dizem os gnósticos explicitamente. - O Evangelho de Filipe, de origem valentiniana, afirma que Cristo redimia sua própria alma desde o início do mundo, expressão que corresponde ao vocabulário técnico dos valentinianos. - A mesma concepção escandalosa aparece em uma fórmula litúrgica valentiniana preservada por Ireneu, na qual o iniciado declara redimir sua alma no nome de Jao, que é o próprio nome de Deus. - O nome Jao é o nome de Javé; segundo o Evangelium Veritatis, Cristo é o nome de Deus porque Deus lhe conferiu seu próprio nome, remetendo a especulações judaicas sobre o nome divino. - O Evangelium Veritatis também contém essa mesma concepção ao falar do convívio oculto dos espíritos bem-aventurados com a divindade no Pleroma, pressupondo que Deus pode sofrer dano em sua alma. - Deus está cindido em si mesmo, e a ruptura trágica na divindade se manifesta nos eventos em torno de Sofia e dos espíritos humanos; ao redimir o homem e trazê-lo à consciência de si, Deus se redime e chega à autoconsciência no homem. - O maniqueísmo pensa de modo semelhante: o Homem Primordial é o próprio Ser de Deus, que desce para ser vencido pelas potências das trevas, conforme narram os textos maniqueus. - Partindo da ideia de Deus na gnose, percebe-se o específico e essencial dela; quando se parte da concepção de ser humano, torna-se mais difícil, pois o autoconhecimento e as perguntas sobre a origem e o destino do homem não são exclusivamente gnósticos, aparecendo também na filosofia grega. - A diferença permanece: o cristão considera o homem e a alma como criaturas, enquanto o gnóstico vê seu espírito como parte consubstancial da divindade e seu drama como parte da tragédia divina; além disso, o gnóstico expressa sua autoexperiência em mitos com motivos arcaicos. - No Evangelho de Tomás não se encontra nada das figuras míticas gnósticas como Bythos, Sige, Achamoth, Jaldabaoth, Saklas e Sammael, nem a distinção entre o Deus supremo e o demiurgo inferior, nem a cristologia docetista, nem a negação da ressurreição corporal. - O Logion 28, onde Jesus diz ter aparecido no meio do mundo em carne, tem origem aramaica demonstrável por Joachim Jeremias e está inspirado na sabedoria judaica, não na gnose. - No livro de Baruc, a Sabedoria personificada de Deus é descrita como tendo aparecido na terra e convivido com os homens, e o Logion 28 representa um desenvolvimento cristológico independente paralelo ao do Evangelho de João. - Alguns gnósticos usam o termo sarx para o corpo de Jesus em sentido docetista, mas isso também pode ser dito do Evangelho de João; o Evangelho de Tomás, porém, concebe a corporeidade de modo concreto, como demonstra o Logion 5. - O Logion 5, na versão grega original, afirma que nada há de oculto que não será revelado e nada de sepultado que não será ressuscitado, com claro sentido escatológico. - Jesus convoca ali ao reconhecimento do Messias oculto que está no meio dos homens; quem o reconhece receberá a revelação dos segredos ocultos dos últimos tempos. - No tempo final, também todos os que estão sepultados na terra ressuscitarão; sepulta-se o cadáver, não a alma, de modo que Tomás ensina uma ressurreição corporal ao fim dos tempos. - Tomás não ensina um Deus cindido e disperso, nem um demiurgo inferior, nem a consubstancialidade divina do eu humano, nem o docetismo; nega a ressurreição do corpo e não proclama nenhum mito, caracterizando um gnosticismo sem as marcas do gnosticismo genuíno. - O autor do Evangelho de Tomás pode ter sido gnóstico por ter concepções semelhantes às gnósticas, mas é necessário distinguir o encratismo do gnosticismo. - O encratismo é um movimento cristão que se diferenciava do catolicismo essencialmente por prescrever o celibato para todos os cristãos, enquanto a Igreja apenas o privilegiava; era uma seita na Ásia Menor no século IV. - Os encratitas utilizavam o Antigo Testamento e apócrifos apostólicos, abstinham-se de vinho e carne e chamavam Paulo de beberrão por ter aconselhado Timóteo a beber vinho, rejeitando assim as cartas pastorais. - Inscrições da Ásia Menor confirmam que esses grupos se autodenominavam encratitas, tinham organização própria com mosteiros, sacerdotes, mártires e diaconisas, e expressavam sua hostilidade aos cristãos católicos com o insulto oiopotai, beberrões. - O fato de alguém rejeitar o casamento, como Marcião, não o torna encratita; os encratitas honravam o Antigo Testamento, ao contrário de Marcião, e liam os atos apostólicos apócrifos, provavelmente originados em seus círculos. - É tentador ver nos encratitas da Ásia Menor os descendentes de mestres judeus da lei que aboliram o casamento, proibiram certos alimentos e afirmaram que a ressurreição já ocorrera, como as cartas pastorais descrevem. - Os encratitas são encontrados cedo também em Alexandria; o Evangelho dos Egípcios, provavelmente originado lá, é de espírito encratita, e os ditos encratitas de Sexto, do fim do segundo século, mostram forte influência da filosofia helenística. - Clemente de Alexandria combate os encratitas em seu Stromateis III, mas isso não significa que já tivessem saído da Igreja egípcia; ao contrário, provavelmente ainda pertenciam a ela na época de Clemente. - O encratismo era uma corrente dentro da Igreja ocidental no segundo século; textos como os Acta Petri e os Acta Andreae são escritos intraeclesiais, e Tatiano, embora encratita, foi bem recebido e não considerado herege no oriente sírio. - A origem do encratismo está no cristianismo primitivo: Paulo já teve de enfrentar em Corinto um grupo encratita influente que considerava o casamento incompatível com a fé cristã e o recebimento do Espírito. - Há também conexões do encratismo com o judaísmo e sua doutrina do impulso mau, bem como com a preexistência da alma no paraíso; o encratismo originou-se provavelmente entre cristãos da diáspora judaica. - Não há objeções cronológicas nem geográficas para associar o Evangelho de Tomás ao encratismo, especialmente ao encratismo alexandrino com o Evangelho dos Egípcios e os encratitas combatidos por Clemente no terceiro livro dos Stromateis. - É preciso distinguir o redator do texto copta, o autor do texto grego e suas duas fontes. ** a) Die judenchristliche Quelle ** - A maior parte dos pesquisadores admite que o Evangelho de Tomás contém tradição judeu-cristã, embora a identificação da fonte com o Evangelho dos Hebreus tenha sido geralmente rejeitada. - Cerca de metade dos 114 lógia provém da fonte judeu-cristã, e nenhum deles seria originalmente gnóstico ou encratita. - Dos lógia judeu-cristãos, vários não têm correspondência na tradição sinótica dos evangelhos canônicos, sendo esses os candidatos a palavras autênticas e desconhecidas de Jesus. - O fato de o Evangelho de Tomás ter utilizado uma fonte se evidencia porque o autor, por vezes, a copiou descuidadamente ou a traduziu de forma incorreta, como mostra o Logion 57. - Tomás preservou o ponto central do Logion 57, perdido em Mateus 13: no dia da colheita, o joio se tornará visível, pois o Lolium temulentum só pode ser distinguido do trigo quando frutifica; além disso, Tomás traduz a expressão bíblica mais literalmente do que Mateus. - Não é possível falar em dependência de Tomás em relação a Mateus, e Hermas também apresenta uma versão relacionada à de Tomás, apontando para uma transmissão independente. - Tomás, no entanto, é obscuro por não mencionar que o homem semeou a boa semente e por omitir a proposta dos trabalhadores de arrancar o joio, o que deve ter estado em sua fonte, como Aphraates confirma ao aludir ao mesmo paralelo. - Erros de tradução também ocorrem no Evangelho de Tomás, como no Logion 27, onde a expressão grega jejuar o mundo traduz literalmente um aramaico que deveria significar jejuar em relação ao mundo. - Essa expressão aparece no Liber Graduum sírio, o que aponta para as origens sírias do Evangelho de Tomás; o Liber Graduum conhece as duas formas do dito e prova que conhecia tanto o texto grego quanto a fonte aramaica. - Esse lógio é de origem judeu-cristã porque os judeu-cristãos guardavam rigorosamente o sábado, ao contrário dos cristãos gentios, conforme testemunha Epifânio. - A fonte do Evangelho de Tomás pressupõe o Antigo Testamento hebraico, não a Septuaginta, como demonstra o Logion 65, que alude a Isaías 5:1 sem os acréscimos que Marcos 12:1 tomou da Septuaginta. - O caráter judeu-cristão da fonte se revela porque o filho na parábola é o herdeiro da vinha, ou seja, o Messias do povo de Israel, expressão ausente do Novo Testamento, mas necessária para judeu-cristãos que enfatizavam ser Cristo primeiramente o Messias do povo judeu. - Essa tradição revela sua origem em ambiente judaico: o Logion 90 é mais breve e provavelmente mais primitivo do que Mateus 11:28-30, e o Targum de Isaías usa alternadamente jugo e domínio, apontando para proximidade com o judaísmo. - A parábola do tesouro no campo foi transformada sob influência de um relato rabínico, mostrando que o círculo em que esse material foi transmitido vivia em ambiente judaico. - Tendências judeu-cristãs são bem claras: o primado sobre toda a Igreja é atribuído a Tiago o Justo, reconhece-se que os fariseus receberam as chaves do conhecimento, e os pobres são proclamados bem-aventurados e identificados com os discípulos de Jesus. - Muitos lógia mostram sua origem judeu-cristã pelo conteúdo, pelos aramaísmos e pelas conexões com a literatura judeu-cristã, especialmente com a tradição evangélica das Pseudo-Clementinas, embora as doutrinas específicas desse grupo não estejam no Evangelho de Tomás. - Trata-se do legado da comunidade primitiva de Jerusalém, especificamente da facção dos hebreus, os judeu-cristãos de língua aramaica, distintos dos helenistas de língua grega. - A fonte judeu-cristã não era uma coleção de lógia nem a fonte Q, mas um evangelho judeu-cristão escrito, provavelmente o Evangelho dos Hebreus, que já existia quando Tomás foi escrito por volta de 140 em Edessa. - O Evangelho Nazoreu, em versão aramaica, ainda era venerado no quarto século entre os judeu-cristãos de Beröa, e Aphraates e o Liber Graduum o conheciam, tornando provável que os judeu-cristãos o tenham levado da Palestina para a Síria oriental e Edessa. - No Evangelho de Tomás, Jesus fala a seus discípulos e não a seus adversários ou à multidão, tal como era o caso no Evangelho dos Hebreus, e há concordâncias estilísticas entre ambos. - As notáveis concordâncias entre esses lógia judeu-cristãos e Aphraates não são coincidências; Aphraates não pode ter retirado essas palavras da tradição oral, mas de um evangelho apócrifo, que deve ser o Evangelho Nazoreu. - A questão de saber se o Evangelho dos Hebreus é uma tradução ampliada do Evangelho Nazoreu não precisa ser resolvida aqui; o que importa é que cerca de metade dos lógia da fonte judeu-cristã não é gnóstica em sua origem. ** b) Die enkratitische Quelle ** - Sabe-se muito mais sobre o Evangelho dos Egípcios do que habitualmente se admite, se seus fragmentos conservados forem lidos corretamente; seu autor era um grande teólogo dominado pela ideia de que o cristianismo é a superação do apetite de vida. - Lucas 20:34-36, em versão aramaica extra-canônica, era de grande importância para os encratitas por afirmar que na ressurreição não há casamento nem nascimento porque também não há mais morte. - Os encratitas alexandrinos defendiam essa posição afirmando ter recebido a ressurreição e, por isso, abolindo o casamento, como confirma Clemente de Alexandria ao citar Júlio Cassiano. - O mesmo dito de Jesus e a mesma concepção parecem fundamentar o fragmento do Evangelho dos Egípcios, onde Salomé pergunta até quando os homens morrerão e Jesus responde: enquanto as mulheres gerarem. - Esse dito é muito expressante: o mundo é um mundo de nascimento e morte, o amor leva à morte; quem decide abandonar esse mundo e não mais gerar já pode receber aqui e agora o Reino de Deus e a ressurreição dos mortos. - Cristo veio para dissolver todo esse mundo de nascimento e morte; enquanto o evangelho judeu-cristão apresenta Jesus como vindo apenas para abolir o culto sacrificial, o Evangelho dos Egípcios o apresenta como vindo para abolir o nascimento e a morte e realizar o Reino dos céus. - A cristologia do Evangelho dos Egípcios era modalista, como nos evangelhos apócrifos: Jesus era idêntico a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo sendo um e o mesmo, e o evangelho também ensinava a unidade do ser humano. - A concepção da unidade do ser humano pressupõe uma ideologia oriunda do judaísmo alexandrino: Adão, criado à imagem de Deus, era segundo Fílon incorpóreo, nem masculino nem feminino; o pecado originou-se com o feminino, e o retorno à unidade exige que o elemento feminino se torne masculino. - Essas eram ideias existentes em Alexandria ao menos em um judeu, e aparentemente adotadas pelo autor do Evangelho dos Egípcios; o encratismo alexandrino já estava preparado em círculos judaicos. - O Evangelho dos Egípcios pressupõe uma concepção platonizante da relação entre alma e corpo: a alma preexistia no paraíso, e o corpo é compreendido como mortalha, tal como em Fílon. - Jesus responde a Salomé que deve comer toda planta, mas não a que é amarga, aludindo a Gênesis 1:29 e 2:17; os frutos da árvore do conhecimento são amargos porque, segundo a concepção judaica, a serpente os infectou com o impulso sexual. - O autor do Evangelho dos Egípcios conhecia o Antigo Testamento sem qualquer distorção gnóstica, era provavelmente judeu de nascimento, e pressupõe que pela abolição dos sexos o paraíso havia sido restaurado. - Essa é uma teologia coerente que revela o gênio de um pensador original; os fragmentos mostram estilo pessoal e interpretação muito singular do cristianismo, com uso de fontes que se podem ainda em parte identificar. - O Evangelho dos Egípcios é de origem cristã egípcia, possivelmente do início do segundo século; o evangelho judeu-cristão era difundido cedo no Egito, e o autor provavelmente conhecia tanto os quatro evangelhos canônicos quanto evangelhos judeu-cristãos. - A influência helenística no Evangelho dos Egípcios aparece no tema do despir-se da roupa corporal e no da equiparação do masculino e do feminino; Porfírio mostra que esses temas estão interligados. - O Evangelho dos Egípcios teve uma forte influência; ainda a homilia pascal do Pseudo-Hipólito o cita, e Clemente precisou reinterpretar seu texto para salvar seu catolicismo, o que mostra que era considerado uma obra respeitável no Egito cristão de sua época. - O gnóstico valentiniano Teodoto também precisou reinterpretar o Evangelho dos Egípcios, o que prova que ele não era gnóstico; se o gnóstico precisa reinterpretá-lo para encontrar sua doutrina, fica demonstrado que o escrito não é gnóstico. - O Evangelho dos Egípcios não é gnóstico nem católico, mas encratita, e, como os ditos encratitas de Sexto, mostra grande influência da filosofia grega, algo de se esperar em Alexandria no início do segundo século. - O mesmo espírito se encontra no Evangelho de Tomás: o modalismo, a relação entre nascimento e morte, a escatologia realizada, a ênfase na unidade do ser humano, a temática de alma e corpo, a ideologia do paraíso reencontrado e a ausência de doutrinas tipicamente gnósticas. - O Logion 70 pressupõe um contexto em que Jesus explica o que o ser humano deve gerar em si mesmo para ser salvo; é significativo que o homem não seja salvo por natureza, como ensinam os gnósticos, mas necessite de enkrateia, autocontrole e boas obras. - Muitos elementos apontam para a identidade da fonte encratita com o Evangelho dos Egípcios, particularmente a comparação entre o Logion 22 e o texto do Evangelho dos Egípcios. - Henri-Charles Puech atribuiu com mais ou menos segurança ao Evangelho dos Egípcios os Lógia 22, 37, 61, 106 e 114; como nenhum pesquisador o refutou até agora, deve ser aceito como resultado firme que o Evangelho dos Egípcios era uma das fontes do Evangelho de Tomás. - Os chamados dupletos do Evangelho de Tomás, duas versões do mesmo dito de Jesus provenientes de tradições distintas, são a prova mais segura de que o autor utilizou fontes diferentes. - Assim como a fonte Q é postulada a partir dos dupletos em Mateus e Lucas, é necessário postulá-la para Tomás, cujas fontes judeu-cristã e encratita são muito mais conhecidas do que Q. - O Logion 48 difere muito da versão conhecida em Marcos 11:23 e na fonte Q, mas deve provir de uma tradição existente, e encontra correspondência na Didascália síria, cujas palavras citam o evangelho judeu-cristão. - A expressão quando fizerdes os dois um no Logion 106 aponta para o Evangelho dos Egípcios como origem desse dito; o sentido mudou profundamente: não mais a reconciliação entre pessoas, mas a unidade interior do ser humano move montanhas. - Conclui-se que a fonte encratita do Evangelho de Tomás, cuja existência os dupletos comprovam, é idêntica ao Evangelho dos Egípcios, que por sua vez conhecia e reelaborou a tradição judeu-cristã. - O Logion 55 preserva uma versão mais primitiva do dito de Jesus do que Mateus 10:37 ou Lucas 14:26, porque nela não são mencionados filho, filha, esposa, filhos e a própria alma; esse dito provém da fonte judeu-cristã. - O Logion 101 é alexandrino e encratita: afirma que é preciso odiar a mãe biológica porque ela nos deu a vida e com ela a morte, e amar a verdadeira mãe, o Espírito Santo, que nos faz renascer dando a vida eterna. - A fonte encratita sendo idêntica ao Evangelho dos Egípcios, pode-se presumir que os Lógia 51, 92, 21b, 69, 75 e 102 também têm a mesma origem; a teoria das duas fontes explica ainda as contradições do Evangelho de Tomás. - As contradições internas do Evangelho de Tomás, como a oposição entre jejuar como pecado e a exigência de jejuar o mundo, decorrem das perspectivas distintas das duas fontes: os judeu-cristãos mantinham a lei, incluindo o jejum, enquanto o encratismo se opunha às leis alimentares judaicas para os cristãos. - O Logion 54, tipicamente judeu-cristão, proclama bem-aventurados os pobres literais e os identifica com os discípulos de Jesus, enquanto os Lógia 2 e 29, de origem encratita, espiritualizam riqueza e pobreza referindo-as ao espírito e à carne. - O Logion 12 atribui o primado a Tiago o Justo com expressão tipicamente judaica, e deve provir do Evangelho dos Hebreus; o Logion 13 apresenta os primados rivais dos encratitas, que criaram seu próprio primado na figura de Judas Tomás, o irmão do Senhor. - Encratitas foram os que levaram o culto de Judas Tomás a Edessa, e isso explica a enorme influência do encratismo no cristianismo sírio; mais tarde, o catolicismo edesseno adotou o túmulo de Tomás e Edessa tornou-se a cidade do apóstolo Tomás. - O Logion 105 só se entende sabendo que os encratitas consideravam o casamento como porneia e phthora: o ser humano é gerado em prostituição, e seu nascimento leva à morte; quem ainda reconhece seus pais e não os odeia permanece preso à esfera da prostituição. - O modalismo de muitos lógia, que identifica Cristo com o Pai, não é gnóstico, mas característico do encratismo, como mostra sua presença nos atos apostólicos apócrifos e ainda em Macário. - O tema do corpo como cadáver, ligado à concepção filon iana do vestido de pele, aparece com frequência no Evangelho de Tomás e em plena consonância com o Evangelho dos Egípcios. - A Logion 102 é um dupleto do judeu-cristão Logion 39 em que o autor eliminou os elementos palestinenses e substituiu a imagem bíblica pelo provérbio grego do cão na manjedoura, de Esopo; isso mostra a influência helenística na fonte encratita alexandrina. - O Logion 67 tem contactos diretos com a tradição filosófica grega, como mostra um paralelo em Porfírio, De Abstinentia III, 27; o encratismo sofreu influência direta da tradição helenística, independentemente do gnosticismo. - O tema da unidade do ser humano e do retorno à unidade original é o grande tema encratita: Adão era uno no paraíso, com a queda tornaram-se dois, e pelo despir-se da roupa corporal o homem retorna ao paraíso. - A preexistência da alma, pressuposta no Evangelho dos Egípcios, é ensinada com frequência no Evangelho de Tomás, e o homem deve retornar à sua unidade original. - A temática do homem tenebroso afasta o encratismo da antropologia gnóstica, que se baseia na identidade do ser humano com Deus, já que para os encratitas a alma é em si mesma treva, mas pode ser iluminada. - O autoconhecimento e o si mesmo são uma descoberta dos gregos; no segundo século era o tema do dia na filosofia grega, e os cristãos o herdaram dos gregos, embora com um conceito diferente de ser humano. - Os gnósticos, sendo mitólogos, descobriram o si mesmo inconsciente que dormita como espírito no ser humano; os encratitas tinham uma concepção mais ética, para os quais o si mesmo era o ser humano puro e indiferenciado, Adão no paraíso. - Os encratitas conhecem plenamente o tema do autoconhecimento, como mostra Taciano em sua Oratio ad Graecos: o ser humano deve reconhecer que não pertence a este mundo dominado pelos astros, mas tem sua morada no paraíso. - A influência helenística sobre os lógia encratitas é grande e não pode ser negada; isso se explica melhor em Alexandria do que em Edessa. - O Logion 114 também encontra correspondência em Porfírio e em Fílon, que afirmam que o progresso só é possível pela abolição do feminino transformado em masculino; esse logion provavelmente também provém do Evangelho dos Egípcios. - Não é possível provar que todos os lógia não-sinóticos do Evangelho de Tomás provêm de uma única fonte, mas é notável que o Evangelho dos Egípcios mostre a mesma combinação de tradição evangelística judeu-cristã aramaica com espírito platônico que os lógia de Tomás. - Abandonando a hipótese gnóstica, ganha-se muito: o Evangelho dos Egípcios torna-se mais conhecido, evidencia-se como uma tradição judeu-cristã independente é transformada em evangelho helenístico, fica claro que o cristianismo helenístico levado a Edessa tinha relações com o Egito, e compreende-se a importância disso para a mística oriental. - Makário não apenas encerra um desenvolvimento, mas inaugura um novo: foi o primeiro místico sírio que se conhece, influenciou Isaac de Nínive e outros, e a mística sírio-cristã e islâmica forma uma unidade cujo ponto de partida está em Alexandria. - Essas concepções helenísticas e filonianas foram recebidas muito cedo pelo cristianismo egípcio e já eram conhecidas no segundo século em Edessa; o helenismo agiu sobre a Igreja síria por meio do encratismo, muito antes de Evágrio Pôntico e Dionísio Areopagita. ** c. Der Autor des Thomasevangeliums ** - Embora o Evangelho dos Hebreus e o Evangelho dos Egípcios sejam utilizados como fontes, o Evangelho de Tomás é uma realização própria e independente que exerceu forte influência na Síria, no Egito e em outros lugares. - O autor inicia seu escrito com palavras que lembram Jeremias 37:4 da Septuaginta, revelando que pretendia criar um análogo às palavras do Senhor em Jeremias; ele valorizava o Antigo Testamento como Escritura Sagrada. - O autor reconhece um progresso na história da salvação: quem passa pelo Cristo vivo não deve falar de profetas mortos, e Adão era inferior aos discípulos porque morreu enquanto eles viverão eternamente. - A direção eclesial do autor se revela por suas intervenções redacionais nas fontes, especialmente pelo acréscimo frequente da palavra monachos, que no ocidente não está atestada antes do quarto século. - O termo monachos é a tradução grega do siríaco ihidaja, que no quarto século ainda designava os ascetas sírios; o autor utilizou monachos no sentido de ihidaja, o que aponta para sua vida no oriente de língua síria, provavelmente em Edessa. - O autor era encratita e, como tal, por vezes alterou o sentido de sua fonte judeu-cristã, como mostra o Logion 16, onde acrescentou que pai e filho viverão solteiros, transformando completamente o sentido do dito original sobre o conflito de gerações. - O fato de o autor ter utilizado uma fonte judeu-cristã fica claro porque todas as divergências do texto canônico se encontram nos fragmentos evangelísticos judeu-cristãos, no Diatessaron, no Texto Ocidental e na literatura síria. - É mais difícil determinar em que medida o autor alterou sua fonte encratita, pois sendo ele mesmo encratita, suas posições não diferem das do Evangelho dos Egípcios; se utilizou esse evangelho no Logion 22, deve ter intervido profundamente. - O Logion 19 pressupõe o Fédon de Platão, e tudo isso se compreende melhor em Alexandria do que em Edessa. - O autor não era gnóstico: quem honra o Antigo Testamento, reconhece a encarnação e ensina a ressurreição corporal não é gnóstico; e suas fontes também não eram gnósticas. - O genial do autor foi reunir o encratismo immigrant com o judaico-cristianismo nativo de herança palestinense, criando uma síntese que durou séculos até Macário e o messalianismo. - O encratismo sírio se distingue do ocidental por ter preservado fielmente os elementos arcaicos palestinenses, como a vida itinerante dos ihidaje e a concepção do Espírito Santo como mãe, herança judeu-cristã. - Taciano seguiu o autor do Evangelho de Tomás; ao chegar ao oriente cristão por volta de 170, trouxe os quatro evangelhos ocidentais e ao compor seu Diatessaron utilizou também o evangelho hebraico ou nazoreu como quinta fonte. - Os messalianos, como herdeiros dos encratitas, utilizaram tanto o Diatessaron quanto o Evangelho de Tomás; a união entre judaico-cristianismo e encratismo consolidou-se na Síria. - O autor do Evangelho de Tomás está na nascente do rio que desemboca em Macário; ninguém jamais afirmou que Macário é gnóstico, e portanto Tomás também não o é. ** d) Der gnostische Redaktor ** - Henri-Charles Puech verificou a existência de duas versões do Evangelho de Tomás: a grega, atestada pelos papiros de Oxirrinco, e a gnóstica, presente no texto copta; a versão grega se relaciona ao cristianismo fortemente marcado pelo encratismo do segundo século na Síria e no Egito. - O redator gnóstico eliminou no Logion 4 a referência à ressurreição dos mortos por lhe ser escandalosa; sua mão pode ser percebida em outras passagens também. - O Logion 2, reelaboração de um dito do Evangelho dos Hebreus, termina na versão copta com a frase herrschen über das All, expressão típica do gnosticismo, enquanto a versão grega original o ligava à escatologia concreta judeu-cristã. - A questão de se o Evangelho de Tomás é gnóstico por trair as intervenções de um gnóstico, por ter sido encontrado junto a escritos gnósticos e por ser conhecido de certos gnósticos deve ser respondida negativamente. - O Evangelho de João também era prezado pelos gnósticos, e certas variantes gnósticas em manuscritos egípcios do Novo Testamento não tornam João responsável por essas alterações; o mesmo vale para o autor do Evangelho de Tomás. - Uma obra deve ser interpretada segundo a intenção do autor, não segundo as concepções de seus leitores; o sentido do Evangelho de Tomás não é gnóstico, mas encratita. - É enganoso continuar trazendo paralelos gnósticos para interpretar o Evangelho de Tomás, pois isso introduz um sentido falso e torna obscuras passagens claras; é possível que lógia gnósticos tenham sido interpolados no texto ao longo dos séculos, mas isso não pode ser provado. - Não há no Evangelho de Tomás nenhum logion que não possa ser explicado a partir do encratismo ou do judaico-cristianismo.