===== Trevas ===== //Henri-Charles Puech. Sulle tracce della Gnosis. Ι. La Gnosis e il tempo. II. Sul Vangelo secondo Tommaso. Milano: Adelphi, 1985// **A treva mística no Pseudo-Dionísio Areopagita e na tradição patrística** * A aproximação entre a treva dionisiana e a noite escura de São João da Cruz exige distinguir uma possível experiência mística de um tema herdado pela tradição. * São João da Cruz recorre repetidamente ao Pseudo-Dionísio, especialmente ao tratar do raio de treva na Noite Escura. * Jean-Pierre Camus identifica a contemplação tenebrosa, nebulosa e caliginosa, segundo São Dionísio, com a Noite escura da alma de São João da Cruz. * A questão decisiva consiste em saber se a Treva no Areopagita nasceu de uma experiência mística comparável à noche oscura joanina. * A investigação também deve considerar se a Treva é antes uma imagem imposta por uma tradição anterior. * As noções de Caligem, Escuridade e Noite devem ser examinadas em seus pontos de partida, etapas e significações. * A análise proposta limita-se a delinear as coordenadas principais de um problema vasto e ainda pouco estudado. * A extensão do tema impede um tratamento completo. * A insuficiência dos estudos disponíveis impede uma síntese segura. * Os dados são oferecidos apenas como sugestões. * Os textos são indicados por referências breves. * A questão da Treva no Corpus dionisiano pertence ao domínio da teologia mística e não ao plano inferior da teologia simbólica. * Os textos fundamentais sobre gnophos e skotos encontram-se nos capítulos I e II da Teologia Mística. * As Cartas I e V completam inseparavelmente esses capítulos. * A teologia mística prolonga a teologia simbólica, mas a inverte. * A teologia simbólica procede por símbolos sensíveis e pertence à via catafática. * A teologia mística usa os símbolos sensíveis para eliminá-los e ascender por negação contínua. * A simbologia dionisiana prefere denominações luminosas, como chama, fogo e âmbar. * A Nuvem, nephele, já aparece na Hierarquia Celeste como símbolo de inteligências santas cheias de luz escondida. * Nessa interpretação da Nuvem, não resta ainda nenhum aspecto de obscuridade. * A interpretação da Treva como simples cegamento produzido pelo excesso da Luz divina não basta para explicar seu sentido fundamental. * A hipótese de um cegamento por excesso de luz lembra passagens platônicas da República e do Fédon. * Dionísio afirma que a iluminação do Bem purifica os olhos intelectuais das inteligências supracelestes. * A Carta V define a Caligem divina como a Luz em que Deus habita, invisível por seu fulgor transcendente e inacessível por sua efusão superessencial. * A expressão inteligências privadas de olhos parece referir-se aos anjos. * A cegueira mística deve ser entendida antes como olhos fechados do que como olhos simplesmente ofuscados. * A ablepsia designa a visão do Invisível por exclusão dos meios ordinários de ver. * A visão mística também pode ser descrita como pura luminosidade, mas há outra modalidade em que a Treva se mistura à Luz e a inconoscência recebe sentido elevado. * Em Dionísio, gnophos e skotos possuem dois sentidos recíprocos, um subjetivo e outro objetivo. * O sentido subjetivo refere-se à atitude da alma contemplativa. * O sentido objetivo refere-se à transcendência absoluta da natureza contemplada. * O segundo determina o primeiro, pois a inconcebibilidade de Deus exige a inconoscência do sujeito. * A Treva designa o lugar e a modalidade da apreensão mística. * Essa apreensão supera a oposição entre sujeito conhecedor e objeto conhecido. * A relação entre sujeito e objeto só pode permanecer inadequada diante da transcendência divina. * A Treva, em seu primeiro sentido, é agnosia, isto é, Nuvem da Inconoscência. * O gnophos corresponde à Nuvem da Inconoscência de que falará o anônimo inglês do século XIV. * A Carta I formula a lei segundo a qual a Tenebra se torna invisível à Luz e as muitas cognições tornam invisível a inconoscência. * A luz expulsa a inconoscência quando esta é entendida como privação. * A inconoscência também pode eclipsar toda cognição quando é entendida como superação transcendente. * A via catafática afirma Deus mediante teses tomadas da hierarquia descendente dos seres criados. * As denominações divinas, theonymiai, funcionam como luzes simbólicas. * A via apofática nega uma a uma as proposições catafáticas e apaga progressivamente as luzes simbólicas. * A ascensão apofática eleva a inconoscência e a treva acima da cognição e da luz ordinárias. * A inconoscência mística pode tornar-se revelação justamente ao obscurecer as cognições ordinárias. * A luz da cognição pode ocultar tanto a ignorância inferior do materialista quanto a inconoscência sublime do místico. * A Carta I afirma: “A agnosia escapa àqueles que possuem a Luz que está no mesmo plano do ser e da cognição dos seres”. * A Carta I também afirma: “A Escuridade transcendente de Deus é velada a toda luz e ao mesmo tempo esconde todo conhecimento”. * O obscurecimento da cognição pode ser desvelamento de Deus. * Dionísio afirma que, no extremo da negação total, se conhece sem véus a inconoscência velada por todos os objetos de conhecimento. * A Caligem superior a toda essência é vista quando fica oculta toda luz encontrada nos seres. * A natureza divina ultrapassa igualmente a inconoscência e a cognição, de modo que a imagem da treva permanece relativa. * A dialética apofática termina por negar as próprias negações. * Deus é levado a uma transcendência além de toda afirmação e de toda ablação. * Deus está além de toda luz e de toda escuridade. * Dionísio chama Deus de hyperphaes, isto é, sopramanifesto. * Dionísio chama Deus de hyperagnostos, isto é, superinconoscível. * A Treva e a agnosia são necessárias no caminho, mas não exprimem a natureza divina em si mesma. * A superioridade de Deus sobre toda luz determina uma atitude mística de suspensão dos sentidos, do intelecto, da fala e da visão. * Deus é hyperphaes, hyperousios e hyperonymos, isto é, superior à luz, à essência e ao nome. * A alma deve ligar ou suspender todas as operações dos sentidos e do intelecto. * A anenergesia indica a cessação da atividade. * A aphthenxia indica o silêncio diante do Anônimo. * A Teologia Mística afirma: “Os mistérios simples, absolutos, imutáveis da Teologia estão envolvidos na Caligem, superior a toda luz, do Silêncio revelador dos arcanos”. * Moisés, símbolo da alma contemplativa, “penetra na Caligem verdadeiramente mística da Inconoscência”. * Moisés “fecha os olhos a todas as apreensões da cognição”. * Moisés “liberta-se do espetáculo e dos espectadores”. * A estase fora de si e de tudo dá acesso ao raio da Tenebra. * A incompreensão do que se vê torna-se critério da visão autêntica. * No sentido subjetivo, gnophos e skotos designam a exclusão dos meios normais de visão e inteligibilidade. * A atitude do místico é determinada pela dialética negativa. * A obscuridade corresponde à renúncia às operações ordinárias de ver e conhecer. * A agnosia resume esse estado de suspensão. * O sujeito místico não conhece por apreensão conceitual, mas por superação de todo conhecimento. * No sentido objetivo, Treva e Caligem exprimem a resistência da essência divina à penetração completa da intuição humana. * A linguagem dionisiana passa com frequência do estado subjetivo do místico ao aspecto objetivo de Deus. * O silêncio é condição do contato divino, mas Deus também pode ser chamado sige, hesykhia e aphthegxia. * O Salmo 17 afirma que Deus “pôs a Escuridade como esconderijo em torno de Si”. * Êxodo 20, 21 afirma que “Aquele que está além de tudo está realmente na Caligem”. * A Carta V afirma: “A divina Caligem é a Luz inacessível na qual se diz que Deus habita”. * Deus é aoratos e anaphes, isto é, invisível e intangível. * Deus é atheatos, isto é, não visível. * A Caligem simboliza o limite imposto à criatura finita diante da infinitude daquele que só pode ser aproximado na estase. * A Caligem designa o lugar e a modalidade da união extática, na qual Deus aparece como inconoscível à própria inconoscência do místico. * A transcendência divina implica o método de negação e superação. * Esse método regula a agnosia do sujeito contemplativo. * Na união extática, os sentidos subjetivo e objetivo da Caligem se tornam inseparáveis. * A Teologia Mística afirma que “na máxima escuridade” da Caligem ocorre a iluminação extraordinária do Mais-que-Resplandecente. * A Teologia Mística afirma que, “no absolutamente intangível e invisível”, as inteligências cegas são preenchidas de fulgores mais que belos. * Aquele que pertence inteiramente ao Ser Transcendente deixa de pertencer a si ou a qualquer outro. * A união ao Absolutamente-Inconoscível se dá pela cessação de todo ato de conhecimento. * A Treva dionisiana não é agnosticismo místico nem vazio absoluto, mas douta ignorância orientada à transcendência. * H. Ritter erra ao falar de agnosticismo místico. * A agnosia entendida segundo a transcendência não é simples privação. * São Boaventura é evocado pela noção de ignorantia docta. * Dionísio afirma que se “conhece acima do intelecto pelo fato de nada conhecer”. * A Carta V afirma que se é digno de conhecer e ver Deus pelo fato mesmo de não ver e não conhecer. * A Carta I afirma que a inconoscência absoluta segundo a transcendência é conhecimento daquele que está acima de todas as coisas conhecidas. * A Teologia Mística afirma que se vê e conhece por ablepsia e agnosia aquilo que está acima da visão e do conhecimento. * A ciência dada por essa douta ignorância é experiência da transcendência divina. * A Caligem não oculta Deus de modo totalmente opaco, pois através dela o místico apreende algo da Presença divina. * A alma penetra na Caligem. * A união ocorre segundo a Caligem. * A Treva indica que não pode haver compreensão absoluta da Luz total. * A Treva introduz, contudo, ao desvelamento de uma Presença. * Dionísio descreve a Caligem como internamente iluminada ou atravessada por clarões. * A Nuvem do Êxodo e do Deuteronômio é evocada como imagem de treva luminosa. * As mentes cegas se enchem de esplendores mais que belos. * Na Caligem se acessa o “raio superessencial da Escuridade divina”. * Esse raio é a própria Luz divina, fonte transcendente de todas as iluminações. * A inconoscência dionisiana é inferior à Luz absoluta, mas superior às cognições humanas ordinárias. * A agnosia é negativa em relação às etapas anteriores da ascensão mística. * Voltada para Deus, a agnosia é impregnada de luz superior à cognição humana. * A Caligem nasce da inadequação por excesso da inconoscência em relação às cognições ordinárias do nous. * A Caligem também nasce da inadequação por privação dessa mesma inconoscência diante da Luz absoluta. * A luz relativa concedida à alma aparece como obscuridade porque nega as gnoseis. * A mesma luz relativa aparece como raio da Tenebra porque permanece deficiente diante da Luz absoluta. * A Caligem representa a passagem flutuante entre a cognição simbólica superada pela agnosia e a cognição mística que a agnosia não esgota. * A contemplação nebulosa e caliginosa de Dionísio parece depender mais de construção teórica do que de transcrição direta de uma experiência concreta. * A mística antiga não coincide plenamente com o que modernamente se entende por experiência mística. * Muitos sistemas antigos são antes gnoses e misticismos teóricos do que relatos diretos de experiência. * A penetração na Tenebra corresponde a uma experiência possível, mas a Teologia Mística pode falar dela de fora. * O texto fixa condições, ordena etapas e determina alcance, mais do que reproduz um vivido imediato. * Como não é possível decidir quanto Dionísio confessa ou codifica suas próprias aventuras espirituais, a solução deve ser buscada nos indícios externos dos textos. * A ausência alternada da imagem da Treva mostra que ela não é elemento constitutivo permanente da ascensão mística em Dionísio. * A Caligem não se encontra como dado necessário em todas as descrições dionisianas da união. * A Carta V afirma: “A divina Caligem é a Luz inacessível na qual se diz que Deus habita”. * A descrição da Teologia Mística I, 3 é paralela a uma passagem dos Nomes Divinos VII, 3. * Nos Nomes Divinos, tudo ocorre apenas na luz, sem imagem escura. * O intelecto, depois de se afastar de todos os seres e de si mesmo, une-se aos raios supraluminosos. * Se a Treva fosse imposta pela própria experiência da união, ela apareceria sempre como condição permanente do processo. * A imagem da Caligem aparece em Dionísio como herança da tradição cristã sobre a ascensão de Moisés ao Sinai. * Skotos tende isoladamente a ter sentido pejorativo. * A imagem de skotos é subordinada à de gnophos. * A Caligem provém de Êxodo 19, 16 e 20, 21. * Dionísio liga a imagem a uma alegorização sistemática da subida de Moisés ao Sinai. * A tradição cristã anterior já fizera da Caligem um tema obrigatório da ascensão mística. * A subida de Moisés ao Sinai e o arrebatamento de São Paulo ao terceiro céu eram exemplos correntes das mais altas experiências possíveis à criatura. * Santo Agostinho e Gregório de Nissa são mencionados como testemunhos dessa tradição. * A elaboração dionisiana da subida de Moisés depende de modelos exegéticos anteriores, especialmente de Gregório de Nissa. * A Teologia Mística resume o relato bíblico e depois o interpreta alegoricamente. * O esquema contrai em um episódio contínuo eventos espalhados nos capítulos 19, 20, 24 e 33 do Êxodo. * A passagem das luzes, sons e palavras celestes pode provir de Hebreus 12, 19 ou da Vida de Moisés de Gregório de Nissa. * A expressão de penetração na Caligem também aproxima Dionísio de Gregório de Nissa. * A referência ao “Lugar em que está Deus” mostra consciência de um motivo clássico da exegese do Êxodo. * Dionísio substitui explicações anteriores por uma explicação mais pessoal e abstrata. * O gnophos dionisiano parece antes alegoria herdada do que símbolo nascido diretamente da experiência mística. * A obscuridade intervém em Dionísio de modo ocasional, não como dado profundo e constante da experiência. * A ocasião externa foi a tradição formada em torno da ascensão de Moisés. * Nessa tradição, a Caligem e a penetração na Caligem já eram lugares-comuns. * O conteúdo da imagem é governado por especulação dogmática sobre o alcance da visão. * A forma dialética negativa deve muito ao neoplatonismo. * Damáscio e os Princípios Primeiros são mencionados como paralelo relevante. * A especulação é sustentada por um sentido cristão profundo da transcendência absoluta de Deus. * A história da tradição alegórico-mística da Caligem exigiria retraçar a própria história do misticismo patrístico. * A interpretação espiritual do Êxodo constitui o eixo principal dessa tradição. * Só podem ser indicados alguns elementos formadores. * Só algumas etapas do desenvolvimento podem ser assinaladas. * A fisionomia geral da tradição deve ser destacada sem pretensão de exaustividade. * A origem formal da mística noturna encontra-se na Bíblia, onde imagens de luz e de escuridade servem para falar de Deus e de suas manifestações. * Salmos, Sabedoria, Primeira Carta a Timóteo e Primeira Carta de João fornecem metáforas luminosas. * Segundo Crônicas, Segundo Samuel e Salmos oferecem imagens de escuridade em torno de Deus. * Deus não é Treva em si, mas manifesta-se na obscuridade. * A Nuvem pode envolver ou transportar Deus. * A Nuvem indica a presença divina em Êxodo, Números, Deuteronômio, Neemias, Salmos, Levítico, Reis e Ezequiel. * Muitas teofanias do Antigo Testamento ocorrem à noite ou ao crepúsculo, como em Gênesis, Samuel, Reis e Crônicas. * A Nuvem e a Treva acompanham visões proféticas, como em Ezequiel, Apocalipse e Apocalipse de Baruc. * Os capítulos 19, 20, 24 e 33 do Êxodo fornecem o elemento decisivo para a formação da mística cristã da Treva. * Em alguns Padres, a Nuvem ou Caligem do Êxodo se combina com a Noite do Cântico dos Cânticos. * Filão de Alexandria está no ponto de partida da tradição cristã da Caligem. * Os Padres encontram em Filão o simbolismo do êxodo dos hebreus para fora do Egito como itinerarium mentis in Deum. * Filão interpreta o êxodo como emigração dos espíritos proféticos para fora do corpo. * A via régia conduz Israel, o vidente, à Montanha divina. * Filão oferece uma alegorização sistemática dos episódios do Êxodo que culminam na ascensão e transfiguração de Moisés no Sinai. * Para Filão, a Caligem de Êxodo 20, 21 representa a natureza informe, invisível e incorpórea de Deus. * A penetração na Caligem equivale à iniciação nos mais santos mistérios. * A Caligem filoniana exprime tanto a busca da alma quanto a incompreensibilidade divina. * No De posteritate Caini, gnophos possui sentido subjetivo. * A Caligem significa os pensamentos abissais e informes sobre o Ser. * A alma busca apreender o Ser em sua essência, mas termina por compreender que Deus em si é incompreensível. * O Bem Supremo consiste em “ver precisamente que Deus é invisível”. * O pôr do sol nas teofanias de Abraão e Jacó simboliza a condição da estase de origem divina. * A hesykhia ou obnubilação da mente permite que o Pneuma divino tome o lugar do nous humano. * A entrada na Caligem exprime externamente a dissolução ou expulsão do intelecto profético. * Em Filão, a Caligem já depende mais de especulação dogmática sobre a transcendência divina do que de experiência direta. * A passagem da luz à treva baseia-se na impossibilidade de o humano coexistir com o divino e conhecê-lo em si. * A essência divina permanece transcendente diante de toda criatura finita e mutável. * A Caligem exprime essa inconoscibilidade por imagem sensível. * Deus recusa revelar seu rosto a Moisés em Êxodo 33, 19—23, mas passa diante dele. * A criatura conhece Deus apenas por suas manifestações posteriores e derivadas. * A busca indefinida de Deus constitui a experiência mais alta concedida ao homem. * Essa experiência é a experiência do Infinito e do Transcendente. * A tradição patrística separa os dois elementos da mística noturna filoniana: o crepúsculo extático e a Caligem do Êxodo. * A obumbratio da mente é aceita inicialmente como condição da estase. * Tertuliano admite a sombra mental em textos contra Marcião e sobre a alma. * A polêmica contra o montanismo leva à rejeição da inconsciência e da despersonalização como sinais de possessão divina. * Epifânio e Dídimo são mencionados como testemunhos dessa crítica. * Orígenes e São João Crisóstomo consideram o skotos em torno da mente como sinal de inspiração demoníaca. * Santo Ambrósio entende as trevas do estado profético como ignorância e imprudência. * A interpretação da Caligem, porém, terá fortuna singular. * Clemente de Alexandria e Orígenes retomam a Caligem como símbolo do invisível e do inconoscível. * Clemente de Alexandria retoma literalmente a interpretação filoniana. * Orígenes combina Êxodo 20, 21 com Salmo 17, 12. * A Caligem simboliza coisas invisíveis e inconoscíveis ocultas ao olhar daquele que não pode sustentar sua contemplação. * O intelecto está preso ao corpo, e seu ato é demasiado fraco e breve. * Orígenes distingue dois sentidos de skotos: um pejorativo e outro elogioso. * Pode-se dizer que Deus é cercado de trevas porque é inacessível às criaturas. * As palavras de Cristo também constituem a escuridade em que reside o mistério divino. * Orígenes conhece ainda aspectos do matrimônio espiritual próximos da futura experiência da Noite escura. * Fragmentos dos comentários ao Cântico dos Cânticos e às Lamentações descrevem mistura de jubilo e siccitas. * A busca e as núpcias místicas incluem perturbações, lutas interiores e desespero da alma. * W. Volker é mencionado por seu estudo sobre o ideal de perfeição em Orígenes. * Um fragmento atribuído a Santo Atanásio, mas provavelmente de Gregório de Nissa, une a Noite do Cântico à Caligem do Êxodo. * A Noite, tempo do tálamo, significa a contemplação das coisas invisíveis. * Essa contemplação imita Moisés chegando à Nuvem em que Deus se encontra. * Gregório Nazianzeno usa com frequência a entrada na Caligem, mas geralmente lhe dá sentido negativo ligado à condição corporal. * A entrada na Caligem aparece a propósito da imersão batismal e do recebimento do Novo Decálogo. * Gregório Nazianzeno aproxima gnophos de skotos do Salmo 17. * A Caligem torna-se nuvem corpórea que se interpõe entre Deus e o homem. * A imagem lembra a nuvem que separava os egípcios dos hebreus. * A densidade da Caligem expressa a condição humana. * Moisés penetra na Caligem depois de sair da massa corpórea pesada ou de libertar-se dos sentidos. * Gregório de Nissa transforma a Caligem em núcleo de uma mística da busca infinita de Deus. * A Vida de Moisés oferece o exemplo mais importante dessa tradição. * A ascensão de Moisés passa pela luz, pela nuvem e finalmente pela Caligem. * A Caligem indica o lugar onde Deus está, mas também o caráter incompreensível e invisível de Deus. * O desejo amoroso de Moisés é atendido por Deus apenas no sentido de que não lhe são concedidas pausa nem plenitude. * Ver o Invisível e o Infinito significa jamais satisfazer plenamente o desejo de Deus. * É preciso olhar perpetuamente através do que pode ser visto para inflamar-se do desejo de ver sempre mais. * Deus não é visto de face, mas de costas. * Buscar e seguir Deus nessa corrida árdua e sem fim constitui o verdadeiro ver Deus. * Nas Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, Gregório de Nissa associa a Noite à Caligem e desenvolve uma experiência amorosa de desejo sem repouso. * A Homilia VI assimila a Noite, contemplação dos invisíveis, à Caligem em que Moisés penetra. * A Noite também é aproximada da Escuridade que, segundo o Salmo 17, 12, é esconderijo de Deus. * A alma deseja subir sempre mais alto e ver mais claramente aquele que a chamou. * A alma permanece indigente e ansiosa diante da imensidade sem limites de Deus. * A perfeição da cognição alcançada pelo homem torna-se princípio de novo desejo por realidades mais altas. * A alma reconhece na Noite sua distância infinita em relação a qualquer termo ou perfeição. * A alma, nas Homilias de Gregório de Nissa, busca o Amado na Noite e aprende que Deus é conhecido justamente por não ser compreendido. * A alma afirma: “Eu estava como sobre um leito, tendo abandonado já o sensível, dentro das coisas invisíveis, quando fui envolvida por Noite divina, buscando Aquele que está escondido na Treva”. * A alma afirma: “Era então que eu tinha o amor do Objeto de meu desejo”. * A alma declara que o Amado escapava sempre à apreensão de seus raciocínios. * A alma afirma: “Nas Noites o buscava em meu tálamo a fim de conhecer qual é sua essência, de onde provém, para onde vai, em que consiste seu ser, mas não o encontrei”. * A alma afirma: “Chamei-o pelo seu nome, mas é o mesmo que invocar o Anônimo”. * A alma conclui: “Então conheci que a imensidade de sua Glória não tem limites”. * Os anjos silenciam diante da pergunta da alma: “Vistes o meu Dileto?”. * O silêncio angélico significa a incompreensibilidade do Objeto buscado. * A alma encontra enfim o Amado pela fé, depois de abandonar e superar tudo. * A busca infinita descrita por Gregório de Nissa retoma o Êxodo e o Cântico como movimento sem fim de saída e entrada. * A Homilia XI compara o avanço da alma guiada pela voz do Verbo às sucessivas revelações de Moisés. * As etapas são a luz, a nephele e o gnophos. * O caminho místico recobre gradualmente de sombra as aparências sensíveis e as realidades compreendidas. * A contemplação da alma fica diante do invisível e incompreensível em que Deus se encontra. * A sombra das árvores do jardim em que a alma repousa é a Nuvem. * Nessa Noite aparece o Invisível, dando à Esposa não uma noção clara de si, mas uma sensação de presença. * A Homilia XII descreve o êxodo para fora de si como entrada nos bens superiores. * Esse movimento de saída e entrada nunca termina. * Não há cessação na ascensão perpétua de Moisés acima de si mesmo. * Quem deseja ver Deus vê o objeto de seu desejo na busca perpétua. * A contemplação do rosto de Deus é o caminho sem pausa em sua direção sob a guia do Verbo. * A alma quer mais do que pode, mas sua busca infinita é fonte de beatitude. * As palavras do Cântico 5, 7, “Feriram-me, golpearam-me”, são gritos da alma alegre que se gloria de coisas belíssimas. * A alma é despojada e golpeada, jorrando como a rocha atingida por Moisés no deserto. * Depois de Gregório de Nissa, a tradição da Caligem continua em exegetas e comentadores, mas tende a tornar-se tema comum. * Procópio entende a caligo como ilustração da impotência da mente humana para perceber o rosto de Deus. * Teodoreto é mencionado em paralelo. * Essas exposições pressupõem uma tradição amplamente aceita. * Máximo, o Confessor, grande comentador do Pseudo-Dionísio, interpreta a Caligem como progresso informe, invisível e incorpóreo do intelecto livre de relações com qualquer coisa diferente de Deus. * A mística siríaca adota o tema. * Abdiso Hazzaya faz do gnophos uma Nuvem de luz cristalina. * A especulação bizantina transforma o tema em patrimônio comum. * Pselo é citado por uma Carta a Xifilino e por comentário a João Clímaco. * A Nuvem ou Caligem bíblica é formalmente o principal ponto de partida da mística noturna, mas na tradição patrística permanece sobretudo tema alegórico. * A Caligem ilustra uma tese dogmática. * A imagem conserva algo de teórico e abstrato. * Caligem, Escuridade e Noite não parecem corresponder a símbolos inerentes à experiência mística. * Esses motivos são externos ou ocasionais. * A especulação dogmática os utiliza para marcar limites e modalidades necessárias da visão mística de Deus. * As imagens tenebrosas contribuem de modo importante para a constituição do misticismo cristão ao exprimirem a relação entre criatura finita e Deus transcendente. * Desde Filão, o monoteísmo impõe exigências próprias à apreensão do Deus único. * A transcendência absoluta de Deus condiciona a apreensão do Infinito pela criatura finita. * Uma investigação sobre as imagens do misticismo pagão serviria como contraposição. * No misticismo pagão, a obscuridade costuma significar ofuscamento por luz excessiva ou obstáculo preliminar à visão da luz pura. * No paganismo, a obscuridade depende geralmente da matéria, do corpo e dos sentidos. * Em Filão e na mística cristã, a obscuridade depende da inadequação radical do sujeito criado diante do Objeto transcendente. * A Teologia Mística do Pseudo-Dionísio permanece na continuidade da tradição patrística, e por isso gnophos e skotos conservam valor teórico e externo. * A Caligem dionisiana não possui plenamente o caráter dramático e afetivo da Noite nas místicas experimentais. * O amor purificador não parece constituir sua essência íntima. * A imagem dionisiana é dominada pela teologia apofática e pela afirmação da transcendência divina. * O conteúdo mais próximo da Noite escura de São João da Cruz deve ser buscado menos em Dionísio e mais em Orígenes e Gregório de Nissa. * Orígenes conhece as alternâncias de exaltação e aridez no matrimônio espiritual. * Gregório de Nissa descreve a busca amorosa e desesperada do Objeto Infinito. * Em Gregório de Nissa, o acento e a emoção dão impressão mais próxima do vivido. * A noite joanina encontra afinidades mais concretas nessa tradição afetiva e dinâmica do que na Caligem predominantemente teórica de Dionísio.