===== Rico tolo ===== [[..:start|Antonio Orbe]] — [[.:start|Parábolas Evangélicas em São Irineu]] ** CAPÍTULO 14 – O RICO TOLO ** A análise da parábola do rico insensato (Lucas 12,16-21) é utilizada por diferentes autores para discutir temas como a condenação da avareza, o papel das riquezas e o destino da alma após a morte, com ênfase na necessidade de ser rico diante de Deus. * Irineu cita brevemente a parábola, sem se deter em exegese detalhada, para discutir a condenação do apego aos bens transitórios. * Tertuliano, em resposta a Marção, argumenta que a condenação das riquezas já está presente no Antigo Testamento, citando Salmo 112,13 e Isaías 39, para mostrar que não há mudança entre os Testamentos. * São Cipriano, em seus Testemunhos, cita Lucas 12,20 para condenar a cobiça do dinheiro, utilizando também passagens de ambos os Testamentos como Eclesiástico 5,9; Provérbios 11,26; Isaías 5,3; Sofonias 1,13s; Lucas 9,25; 16,25; Atos 3,6s e 1 Timóteo 6,7-10. * Clemente de Alexandria interpreta que o Senhor não proíbe enriquecer honestamente, mas sim com injustiça e avareza insaciável, citando Provérbios 11,24; Salmo 111,9; Mateus 19,21; 6,19 e Ageu 1,6. * Clemente de Alexandria afirma que o campo fértil do rico mencionado no Evangelho o levou a querer armazenar frutos, mas Deus o chamou de tolo (aphron) porque naquela mesma noite exigiriam sua alma (ten psychen sou apaitousin apo sou), e o que ele acumulou ficaria para outros. * O autor observa que as formas verbais “requerem de ti tua alma” e “reclamam tua alma” indicam implicitamente a persistência da psiqué, sem que haja exegese detalhada sobre sua sorte. * Orígenes, em exegese a Números 33,2, declara que o homem vive no mundo para passar de virtude a virtude, e não para permanecer nas coisas terrenas como o rico que dizia “Destruirei meus celeiros e edificarei outros maiores” e “Alma, tens muitos bens guardados para muitos anos; come, bebe e folga”. * Orígenes nota que Deus não disse “neste dia”, mas “nesta noite”, porque a vida na ignorância e nas trevas do mundo é noite, e assim a morte surpreende os amigos do mundo, participantes dos demônios e arcontes do cosmos tenebroso. * Orígenes explica o “requerimento da alma” (apaitousin) afirmando que, quando as sementes da verdade se corrompem pela efusão da iniquidade, o Logos se vai, e a pessoa morre no pecado, sendo recebida (paralambanomenoi) pelos ordenados (tetagmenoi) para reclamar a alma, conforme Lucas 12,20: “Necio, esta noite reclamam tua alma de ti”. * Tais indivíduos ordenados (oi tetagmenoi) cumprem ordens superiores, levando a alma conforme a disposição em que a encontram: se vivem em verdade e segundo o Logos, conduzem-na aonde continue em seu seguimento; se em pecado, aonde jamais o encontre. * Orígenes especula que os judeus, ao perguntarem se Jesus queria dar-se a morte (João 8,22), entendiam algo diferente do suicídio comum, pois as almas dos que se libertam do corpo são reclamadas por alguns (ángeles) ordenados para tal objeto (ton epi touto tetagmenon) e tomadas (paralambanontai) por indivíduos superiores a elas. * Orígenes acredita que, assim como há ángeles ordenados para introduzir a alma no corpo na concepção, os mesmos ou outros encarregam-se de recolhê-la à hora da morte para conduzi-la a seu destino, atuando como “exatores” (apaitetai) ou “acolhedores” (paralempores). * Orígenes associa os ángeles à formação do homem no ventre materno para resolver a dificuldade de que Deus seja o autor imediato da plasis humana, sugerindo que as mãos de Deus modelam o homem por meio dos ángeles, assim como a lei foi dada por Deus mediante ángeles (Gálatas 3,19; Hebreus 2,2). * Orígenes oferece uma segunda resposta: os textos como Salmo 118,73 (“Tuas mãos me fizeram e me plasmaram”) e Jeremias 1,5 (“Antes que te plasmasse no ventre, te conheci”) referem-se a grandes justos (Davi, Jó, Jeremias) que pertencem à porção peculiar de Deus, enquanto os demais homens são plasmados pelos ángeles a que couberam em sorte, segundo Deuteronômio 32,8 e Gênesis 1,26 (“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”) e 11,7 (“Vinde, desçamos e confundamos ali a sua língua”). * Orígenes, ciente do perigo dessa doutrina que associa ángeles à criação das mentes (noes) feitas à imagem e semelhança de Deus, previne cautelosamente que essas coisas são ditas sem demonstração e requerem muito exame. ** DOUTRINA DE IRENEU ** Irineu adota postura diametralmente oposta à de Orígenes, colocando a razão da “imagem e semelhança de Deus” no corpo humano e não nas almas, e negando qualquer mediação angélica na plasis do homem. * Irineu afirma que Deus jamais lançou mão de ángeles para plasmar o homem, pois tem suas próprias mãos, o Filho e o Espírito Santo, e assim como plasmou Adão sem ángeles, modela os filhos no ventre materno mediante o Filho e o Espírito. * Os ángeles são essencialmente criaturas, incapazes de servir a um efeito exclusivo do Criador, e o Verbo (imagem do Pai) e o Espírito Santo (semelhança de Deus) são os únicos indicados para formar o homem “à imagem e semelhança do Pai”. * Consequentemente, não existem “poderes” apaitetai ou paralemptores intermediários entre Deus e o homem; o único que pode quitar (apaitein) a alma do homem é o autor do homem, Deus. * Irineu resume a parábola de Lucas 12,20 afirmando que “nesta noite exigirão de ti a tua alma; o que preparaste, para quem será?”, retendo o grego “apo sou” (a ti) e lendo o verbo no futuro (“expostulabunt”) ad sensum. * Irineu ridiculariza a crença platônica no “daimon” encarregado de introduzir a alma no corpo e dar-lhe a taça do esquecimento, recusando a ideia de que as almas bebem o esquecimento antes de entrar nos corpos. * Os carpocratianos, por sua vez, interpretavam Lucas 12,58 (Mateus 5,25) como referência a um anjo adversário (diabo) que leva as almas perdidas ao príncipe (primeiro dos fabricantes do mundo), e outro anjo ministro as entrega a novos corpos, que consideravam a prisão. * Para os carpocratianos, a expressão “não sairás dali enquanto não pagares o último centavo” significava que a alma não sairia do poder dos ángeles fabricantes do mundo enquanto não se tornasse perfeita em todas as operações do mundo. * Apesar de omitir a exegese detalhada da parábola, Irineu formula decididamente sua postura contra a mediação angélica na plasis humana, inclusive no ventre materno, concluindo que a alma do homem não é trazida por ángeles nem se une ou abandona o corpo por meio deles. * Os únicos verdadeiros “exatores” (apaitetai) são o Filho e o Espírito Santo, e nenhum sábio ou tolo deve temer o diabo ou as potestades angélicas à hora da morte, mas somente o Criador, que pode reclamar-lhe a alma.