===== Rico e Lázaro ===== [[..:start|Antonio Orbe]] — [[.:start|Parábolas Evangélicas em São Irineu]] ** Capítulo 19: O Epulão e Lázaro ([[b>Lc 16,19-31]]) ** * O relato lucano é analisado em três partes: hereges, eclesiásticos anteriores a Irineu e o próprio Irineu. * A divisão inicial do estudo concentra-se nas interpretações heterodoxas, subdivididas entre Marcião, Basílides e outras fontes. * ** Marcião ** * O herege Marcião incluía a perícopa em seu evangelho como uma história verdadeira, não uma parábola, para contrastar a escatologia do demiurgo com a do Deus bom. * Segundo Marcião, a escatologia do demiurgo (Yahweh) ocorre “apud inferos” (sob a terra), com dupla recompensa de tormento ou descanso no seio de Abraão conforme a obediência à Lei e aos Profetas. * O herege determinava que o prêmio do demiurgo se cumpre apud inferos, tanto o lugar de tormento quanto o de refrigerio. * A escatologia dos cristãos, por outro lado, é governada por Cristo e pelo Deus bom, oferecendo apenas o “seio e porta do céu” como recompensa. * Marcião situava o “sinus Abrahae” sob a terra, pois os justos do Antigo Testamento ali permaneciam, enquanto os pecadores do Antigo Testamento (como Caim) foram libertados por Cristo ao descer aos infernos. * Tertuliano, em “Adversus Marcionem”, rebate o herege, afirmando que o seio de Abraão não está nos infernos, mas é uma região mais elevada, um receptáculo temporário para as almas dos justos. * O herege retinha a perícopa para contrapor a ordem de Abraão (“Têm Moisés e os profetas, ouçam-nos”) à voz do Pai no Tabor (“Este é meu Filho amado, ouvi-O”), desqualificando o regime antigo. * Marción considerava a frase de Abraão ([[b>Lc 16,29]]) como equivalente à voz do Pai, mas para mostrar a economia periclitada de Yahweh. * Para o herege, a dispensa de Yahweh era subsidiária e sua escatologia subterrânea contrastava com a celeste do Deus bom. * ** Homilias Pseudo-Clementinas ** * As homilias pseudo-clementinas apresentam uma exegese que concebe a alma como eflúvio da substância divina, que retorna ao seio de Deus após a morte. * O seno de Abraão é identificado com o seio de Deus, e as almas que desejam Deus são levadas para ele após a morte. * A distinção marcionita entre o reino celeste de Deus e o seio subterrâneo de Abraão está ausente nesta perspectiva. * As almas dos justos imperfeitos são guardadas em regiões agradáveis até a ressurreição, enquanto os ímpios sofrem no Hades. * A parábola de Lázaro e o rico é usada para demonstrar a justiça de Deus, que premia e pune as almas após a morte com base em suas ações terrenas. * ** Basílides ** * Basílides, em seu comentário ao Evangelho, via na parábola uma alegoria dogmática sobre a origem da natureza sem raiz e sem lugar que sobrevém aos seres. * O herege interpretava a parábola à luz de uma cosmogonia dualista, onde a luz (o rico) e as trevas (Lázaro) lutam antes da criação do mundo sensível. * Basílides indicava que a parábola revela a origem da natureza sem princípio e sem termo, com seu duplo princípio de luz e trevas. * A concupiscência das trevas pela luz corresponde ao desejo do mendigo pelas migalhas do rico, simbolizando a invasão das trevas no reino da luz. * A parábola explicava a criação do mundo sensível a partir da união das trevas com um simples reflexo da luz. * ** Atos de Tomé ** * Os Atos de Tomé utilizam a trama de Lázaro e o epulão para ilustrar a eficácia da esmola, que constrói um palácio celestial. * A alma de Gad, após a morte, é levada por anjos diretamente ao céu, não ao seio de Abraão, e lá contempla o prêmio pela caridade do rei. * A narrativa de Gad evoca a súplica do epulão para voltar à terra, mas com o objetivo de comprar méritos para um palácio eterno. * Os anjos que levam a alma ao céu mostram a superioridade do descanso celestial sobre o subterrâneo. * A parábola é reinterpretada para promover a caridade como meio de alcançar uma morada eterna no céu, não apenas o refrigerio no seio de Abraão. * ** Evangelho dos Nazareus ** * Um fragmento atribuído ao Evangelho dos Nazareus adapta o diálogo do jovem rico, relacionando a miséria dos filhos de Abraão (como Lázaro) à riqueza acumulada. * O texto critica o rico que guarda seus bens enquanto seus irmãos (filhos de Abraão) passam fome, ecoando a situação de Lázaro à porta do epulão. * A autoridade de Moisés e dos profetas é invocada para condenar a falta de caridade com os necessitados. * A passagem enfatiza que a mera observância da lei não é suficiente sem a partilha dos bens com os pobres, que são irmãos na fé. * ** Eclesiásticos Anteriores a Tertuliano ** * A alusão mais clara ao relato de Lázaro e o epulão entre os primeiros escritos eclesiásticos aparece na Epístola dos Apóstolos. * A Epístola dos Apóstolos trata o relato como histórico e situa Lázaro entre os justos e profetas do Antigo Testamento no descanso inferior. * O Salvador desceu ao lugar inferior onde Lázaro estava para pregar e libertar os justos, conduzindo-os ao descanso celeste. * A libertação de Lázaro dos infernos demonstra que o relato de Lucas era aplicado à escatologia do estado intermediário das almas. * A anapausis inferior é diferenciada da anapausis superior, que é o descanso celeste após a ressurreição. * ** Tertuliano ** * A exegese de Tertuliano sobre [[b>Lc 16,19-31]] evoluiu significativamente, passando de uma visão parábola para uma história, influenciada pelo montanismo. * Em seus escritos iniciais (Apologético), o paraíso era celeste e a gehena subterrânea, enquanto o seio de Abraão não era mencionado. * O africano demonstrava distinguir a escatologia final (após a ressurreição) da intermediária, onde o seno de Abraão não se situava nos infernos. * No “De testimonio animae”, surge o contraste tormento-refrigerio nos infernos, possivelmente pensando no relato lucano. * Em “Adversus Marcionem”, Tertuliano argumenta contra Marcião que o seio de Abraão não está nos infernos, mas em uma região superior e temporária. * O seio de Abraão é descrito como um receptáculo provisório para as almas dos fiéis, aguardando a ressurreição e o julgamento final. * Tertuliano afirma que o céu (“locus aeternus”) é a morada definitiva para os justos em corpo e alma, enquanto o seio de Abraão é um descanso transitório. * No montanista “De anima”, Tertuliano muda de posição, situando o seio de Abraão nos infernos e defendendo a corporeidade e passibilidade da alma separada. * A história de Lázaro e o rico é usada para provar que a alma tem corpo e pode sofrer tormento (como o rico) ou gozar de refrigerio (como Lázaro) antes do juízo final. * A passagem demonstra que as almas perseveram, guardam a figura do corpo e têm memória, aguardando nos infernos o dia do Senhor. * O africano, influenciado pela Nova Profecia, reservava o paraíso celeste exclusivamente aos mártires, relegando os demais justos ao seio de Abraão nos infernos. * ** Síntese da Evolução de Tertuliano ** * A análise cronológica dos escritos de Tertuliano revela uma clara evolução na exegese de [[b>Lc 16,19-31]], influenciada pela polêmica antimarcionita e pelo montanismo. * Inicialmente, o africano tratava a perícopa como parábola aplicável ao juízo final, com o seio de Abraão extra inferos e o alma incorpórea. * Posteriormente, já montanista, passou a vê-la como história aplicável ao estado intermediário, com o seio de Abraão nos infernos e a alma corpórea. * O passo ao montanismo explicaria a mudança para a exegese literal, influenciado por visões como a de Perpétua. * A necessidade de explicar o tormento sensível do rico teria levado Tertuliano a adotar a corporeidade da alma. * ** São Cipriano, Lactâncio e Hipólito ** * São Cipriano conhece a página de Lucas, mas aplica o refrigerio ao céu, não aos infernos, situando as almas dos santos diretamente no convívio nupcial. * Lactâncio, sem citar diretamente a perícopa, reflete sobre a possibilidade da alma sofrer sem o corpo, recorrendo aos estoicos e à onipotência divina. * Para Lactâncio, as almas impias são passíveis devido às máculas contraídas com o corpo, e Deus tem o poder de castigar até os incorpóreos. * O autor dos Excerpta ex Theodoto usa a passagem de Lázaro e o rico para provar a corporeidade da alma através dos membros corporais mencionados. * Nesses fragmentos, o seio de Abraão é situado em uma região celeste, e não subterrânea. * ** Clemente de Alexandria ** * Clemente interpreta a parábola de Lázaro e o rico como uma alegoria sobre o destino daqueles que servem a mamom versus os que servem a Deus. * O rico é comparado à erva que serve de combustível para o fogo, enquanto Lázaro é o capim que floresce no seio do Pai após ser cortado. * O alejandrino substitui Abraão pelo Pai, indicando que o descanso de Lázaro é no seio do Pai, não em um lugar subterrâneo. * A parábola demonstra que o rico que vive na injustiça e insolência não viverá na outra vida, enquanto o pobre que busca a Deus florescerá. * Clemente considera a perícopa uma parábola e não uma história, usando-a para ensinar sobre a justiça divina e a verdadeira riqueza. * ** Orígenes ** * Orígenes distingue duas exegeses para a perícopa: a dos “simples”, que a aplica às postrimerias após a ressurreição, e a dos “diligentes”, que a aplica ao estado da alma separada. * Os “diligentes” viam na passagem uma história que demonstra que a alma, mesmo sendo incorpórea por natureza, assume um corpo sutil para ser visível e passível no Hades. * A alma de Lázaro e a do rico, antes da parusia do Salvador, ensinam que a alma após a libertação do corpo faz uso de um corpo. * Orígenes situa os justos após Cristo no céu ou paraíso, não nos infernos, e defende que o seio de Abraão é um lugar de instrução. * O alejandrino ensina que a alma, por sua natureza, é incorpórea e invisível, mas assume corpos conforme a região onde habita. ** São Irineu ** * A exegese de Irineu sobre [[b>Lc 16,19-31]] é abundante e serve a múltiplos propósitos, incluindo a demonstração da perseverança das almas e a unidade dos Testamentos. * A perícopa é tratada como uma história (“relação”) e não como uma fábula ou parábola, com valor doutrinal contra hereges. * Irineu vê na passagem a prova de que as almas perseveram após a morte, não transmigram, guardam o carácter do corpo e têm memória. * O seio de Abraão é um lugar de refrigerio para os justos e o lugar de tormento para os ímpios, e ambos existem antes do juízo. * ** Contra Hereges: Perseverança e Corporeidade da Alma (Adv. haer. II 34,1) ** * Irineu usa o relato do rico e Lázaro para demonstrar que as almas não se dissolvem com o corpo nem transmigram, mas perseveram em sua própria substância. * A passagem mostra que as almas retêm a figura do corpo em que viveram e a memória de suas ações, o que permite que sejam reconhecidas. * O argumento é dirigido contra gnósticos (como Valentinianos) e pagãos que negavam a perseverança ou defendiam a metempsicose. * O santo afirma que tanto a alma do justo Lázaro quanto a do ímpio rico perseveram, refutando a ideia de que apenas almas boas seriam imortais. * A “figura do corpo” que a alma retém é usada para explicar como Lázaro e o rico se reconhecem e como o rico sofre tormento sensível. * ** Unidade dos Testamentos e Cristologia (Adv. haer. IV 2,3-4) ** * Irineu interpreta a resposta de Abraão ao rico ([[b>Lc 16,29-31]]) para demonstrar a unidade entre o Antigo e o Novo Testamento. * Obedecer a Moisés e aos profetas é o mesmo que crer em Cristo, pois eles prenunciaram sua vinda, morte e ressurreição. * O santo rejeita a exegese de hereges (como Marcião e Valentinianos) que opunham o regime de Abraão ao de Cristo. * A frase “se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão se alguém ressuscitar dentre os mortos” é aplicada a Cristo ressuscitado. * A ressurreição de Cristo dos mortos é necessária para ratificar a fé em Moisés e nos profetas, e para dar vida aos crentes na ressurreição final. * [[b>Lc 16,31]] prova a consubstancialidade de Abraão, Moisés, os profetas e o próprio Senhor na natureza humana, contra os que separavam o Cristo do Jesus. * ** Facilidade da Conversão dos Judeus (Adv. haer. IV 24,1) ** * Irineu argumenta que os judeus que criam em Moisés e nos profetas tinham um caminho mais fácil para a fé em Cristo do que os gentios. * As Escrituras do Antigo Testamento, que anunciavam o Filho de Deus, serviam como uma preparação que facilitava a aceitação do Evangelho. * O Apóstolo Paulo, apóstolo dos gentios, trabalhou mais do que os apóstolos da circuncisão porque não tinha a base das Escrituras para fundamentar sua pregação. * Os judeus já estavam instruídos sobre a moral e os vaticínios do Messias, bastando-lhes reconhecer seu cumprimento em Jesus. * A pregação entre os gentios exigia um trabalho mais intenso, incluindo o ensino dos rudimentos éticos e das próprias Escrituras. * ** Conclusão da Análise ** * A história da exegese de Lc 16 mostra que o dilema entre imortalidade da alma e ressurreição dos mortos não era o ponto central para os pré-nicenos. * O debate principal entre os eclesiásticos dizia respeito à passibilidade ou impassibilidade corpórea da alma separada, e não à sua existência. * Irineu, em particular, aplicou o relato à escatologia das almas, mas centrou a soteriologia na deificação da carne, cuja beatitude plena ocorre após a ressurreição. * O santo situava o descanso das almas justas em um paraíso celeste, aguardando a ressurreição e o milênio antes da visão do Pai. * A exegese de Irineu teve o mérito de aprofundar o oráculo de Abraão através do recurso ao Evangelho de João, ligando a teologia da ressurreição carnal do Salvador aos vaticínios do Antigo Testamento.