===== Dualismo ===== //Francisco García Bazán. GNOSIS: la esencia del dualismo. Madrid: Editorial Trotta, 1997.// O dualismo religioso diferencia-se do dualismo filosófico por estar diretamente relacionado à experiência religiosa e não a princípios absolutos racionais. * Enquanto o dualismo filosófico opõe dois princípios absolutos e irredutíveis que constituem os últimos elementos do universo, uma solução ocidentalista obra da reflexão racional conforme determinada por Wolff. * O dualismo filosófico, sendo racionalista, é insuficiente como construção meramente intelectual, exterior e falta de inspiração, por carecer de raigame espiritual, ao contrário da filosofia entendida como amor à sabedoria que expressa uma disposição humana profunda. * A visão de filosofia como amor à sabedoria apela à totalidade do homem e expressa-se através da razão como um curso ininterrupto e infinito tras uma claridade que jamais rehúye a própria justificação, conforme se vê em Platão, Aristóteles e Plotino. * Quando a aspiração transubjetiva desce ao mero nível psíquico, a filosofia transforma-se em sistema fechado e manipulável, sobrevindo a escisão trágica entre contemplação e ação, como denunciam vozes do presente como Guénon, Jaspers e Heidegger. * O Evangelho de Matías, apud Clemente Alexandrino, ecoa este modo de ver ao dizer: Mas o princípio desta [verdade] é o admirar-se das coisas, como diz Platão no Teeteto e Matías em suas Tradições ao exortar: Admira o presente, pondo isto como primeiro grau do conhecimento do mais além. A história das religiões contemporânea ampliou o conhecimento do dualismo religioso para além da tese tradicional que apontava o Irã como sua única fonte. * As investigações etnológicas aportaram dados desde o norte e noroeste da Ásia até a América do Norte, passando pelo oriente europeu, como mostraram Daennhardt, Uno Harva e Schmidt. * A história comparada das religiões e a fenomenologia religiosa trataram de patentizar o tipo ou a estrutura religiosa sobre a qual se assentam estes fenômenos, com três principais ensaios para obter uma definição. * Nos testemunhos primitivos não existe em geral a coeternidade de princípios, pois o segundo criador pode ter existência desde o começo ou chegar em certo momento sem que se saiba sua origem. * O mito dualista explica a origem do mal por um sucesso paradigmático e primordial que tem relação com um ser sobrenatural, libertando Deus de responsabilidades através da atividade criadora do segundo criador. * A compreensão literal do mito ocasiona graves inconvenientes, pois o pensamento igualmente mítico do maniqueísmo sublinha a coeternidade dos princípios, o que parece responder mais ao porquê do que ao como do mal. Os três principais ensaios para definir o dualismo religioso foram realizados por Pétrement, Bianchi e Rousseau, sendo apenas o último considerado aceitável ainda que perfectível. * Para Pétrement, o dualismo religioso deduz-se da ideia de transcendência, segundo a qual, se o divino está além do mundo é porque neste há algo essencialmente diferente, não devendo falar-se de dualismo absoluto nem de sua ausência, mas de maior ou menor grau. * Os caracteres da doutrina dualista segundo Pétrement são: subjetividade, caráter crítico e negativo, busca da salvação e a salvação encontrada como algo novo e desconhecido, cujo origem está na experiência do mal. * Bianchi caracteriza o dualismo religioso como uma doutrina na qual tanto a criação do mundo como seu governo são resultado de dois poderes opostos, embora às vezes complementares, com os caracteres de criador e cocriador rival com capacidade demiúrgica. * As cosmogonias da Grécia e da Mesopotâmia, como a Teogonia e o Enuma Elish, inserem-se em ideologias teogônico-genealógicas de orientação monista, onde o caos primordial dá origem aos deuses e ao demiurgo. * Rousseau propõe um modelo com estes caracteres: existe um Deus bom e paralelamente outro mau por natureza, este último é arque, logo incriado e eterno, é criador e é inferior ao Deus bom. Os caracteres do dualismo religioso estabelecidos são: coeternidade de deuses ou princípios essencialmente contrários, inconvertibilidade de ambos os termos, atividade criadora ou cocriadora do mal e propensão da mescla cósmica para o bem que a transcende. * Modelos que se ajustam estritamente a este esquema encontram-se no Avesta recente e provavelmente no maniqueísmo, enquanto entre povos arcaicos, no judaísmo intertestamentário e nas formas variadas de pensamento gnóstico encontram-se alguns destes caracteres. * Estas manifestações não permitem falar de um dualismo estrito, mas admitem as denominações de dualismo moderado, incompleto ou secundário, manifestando sempre um idêntico sentido religioso: a necessidade profunda do crente de achar uma resposta ao problema do mal. * O problema do mal envolve o conflito abismal entre a crença em um Deus necessariamente bom e todo-poderoso e a presença do limitado, precário e negativo em sua obra, que ocultam sua bondade. * O Shkand-Gumánik-Vishar (A solução decisiva das dúvidas) é um tratado teológico e apologético do dualismo mazdeano dirigido contra o monoteísmo judaico e cristão e contra o dualismo maniqueu, que unifica a crença religiosa com a dialética racional. Nem o dualismo dito filosófico baseado em conceitos nem o religioso baseado na crença permitem um tratamento metafísico do problema do mal, fundamental para a compreensão da doutrina gnóstica. * A fé é essencialmente a experiência que permite ao homem perceber-se como naturalmente religado a Deus ou ao Espírito, sendo uma dimensão ontológica do homem que se encontra tanto na base de toda existência como das que realmente são criações humanas. * Cada religião se reconhece pela particularidade de sua doutrina, ritos e ética, onde são fatores fundamentais uma tradição religiosa ancestral, a renovação profunda do fundador e a assimilação pelas primeiras gerações. * No trânsito que vai da fé à experiência mística se coloca a reflexão metafísica criadora, respeitosa ainda que alheia a todo dogma; no que vai da crença à fé, a do teólogo criador. * A expressão dualismo metafísico é uma contradição nos termos, porque o Absoluto, objeto da metafísica, rejeita ontologicamente todo ser que escape dele e o conceito lógico de absoluto afasta de si toda outra ideia que o transformaria em limitado. * A metafísica é essencialmente anseio de unidade, sendo todo dualismo uma metafísica imperfeita, mais ainda, a negação da metafísica como conhecimento do Infinito que é uma identificação entre o que conhece e o conhecido. O gnosticismo é considerado a primeira expressão de uma teologia cristã sistematicamente exposta, sendo inspirado em seu fundo por uma sensibilidade metafísica. * Os gnósticos, levados pela inspiração metafísica e por sua procedência imediata, trataram de interpretar o mensagem de Jesus Cristo, sendo hermeneutas da tradição judaico-cristã e construtores de um sistema de pensamento sobre os dados revelados. * Estimulados por seu universalismo metafísico, lançaram mão da filosofia do platonismo, mantendo um esquema de pensamento fixo que se transluz através de todos os elementos sincréticos que seu amplo espírito metafísico lhes permitia adotar. * No campo teórico da ética, no problema do mal, os gnósticos foram coerentes sem pactos, materializando através de sua conduta os princípios aos que os conduzia a radicalidade de suas intuições. * O mal aparece ao gnóstico como um fato da experiência inserto na existência e no meio humano, oferecendo resistência para ascender em todos os planos da realização pessoal, sendo o obstáculo mais óbvio para que um ser se encontre a si mesmo. * O obstáculo que oculta o que realmente se é e impede que o Si-Mesmo se revele há de ser de natureza diferente a essa mesmidade e, em última instância, nada ante ela. A experiência diária do mal inserta na natureza da própria finitude e a percepção de que ela forma parte de uma experiência mais ampla da contingência constituem a intuição central que subentende o dualismo do gnóstico. * A contingência, subjetivamente inalienável, fatal e insobornável, reclama em seu fundo a presença do Infinito, que é puro em si mesmo e imutável. * O gnóstico, porque aspira ao puro, se reconhece tal em sua raiz e compreende que o puro e o impuro não podem realmente conviver, sendo a ausência de espiritualidade e a falta de claridade sobre a natureza do espírito que podem dar consistência a seres e coisas que ante a Verdade são inexistentes. * Por mais que o mal ou a matéria seja ontologicamente poderoso e espiritualmente reprodutor de ideias e de seres, somente ante o Infinito em si adquire sua verdadeira dimensão ao esfumar-se: a de ser nada, ilusão de olhos ilusionados. * Aqui radica o móvel último do gnóstico para seu rechaço angustioso deste mundo de mentira, do não ser ou não Si-Mesmo, e a sensação de impotência para poder abandoná-lo utilizando os só meios que ele oferece. * Esta é a atitude mais acentuada do iniciado gnóstico, o que será examinado ao longo dos testemunhos que chegaram às mãos, sendo necessário previamente realizar um estudo mais amplo da essência do gnosticismo e de suas origens.