===== Mandrágora ===== [[estudos:hugo-rahner:start|Hugo Rahner]] — Mitos Gregos em interpretação cristã ==== A Mandrágora, eterna raíz humana ==== Mitos Gregos em interpretação cristã, Hugo Rahner, Herder: Barcelona, Espanha, 2003, 381 p. ISBN 84-254-2283-3 título original: “ Griechische Mythen in christlicher Deutung” © 1945, “ Orden der Gesellschaft Jesu, Munich” trad. Carlota Rubies, prólogo de Lluís Duch (autor dos livros “ Mito, interpretación y cultura” e “ Antropologia de la religión” publicados pela mesma editora). Contribuição e tradução de Antonio Carneiro de excertos das páginas 219-263 Nos livros sagrados do [[biblia:at:start|Antigo Testamento]] encontra-se a menção da raiz mandrágora que já era conhecida desde a Antiguidade. No Gênesis 30, 14-16 é contado como o jovem Rubem, ao ir um dia ceifar no campo, encontrou “dûdâ’îm” e a levou para sua mãe Lia; esta por sua vez deu-a para sua irmã Raquel para que a examinasse, pois, ao que parecia, ajudava a recuperar o amor de seu marido. A tradução para o grego da [[biblia:at:septuaginta:start|Septuaginta]] adotou a palavra hebraica por “mandragórai” e provavelmente fosse acertada sob o ponto de vista botânico. As “dûdâ’îm” que na época da colheita de cereais, ou seja, em fins da primavera, está em plena floração, são as mandrágoras de primavera, com suas flores de cor verde pardo e com seus pomos amarelos de brilho dourado, cuja fragrância é muito penetrante e que todavia se mencionam nos relatos de viagem para Palestina. Mais tarde falaremos acerca do poder das bagas de atuar como filtro de amor. No Cântico dos Cânticos 7,14 menciona-se esta mesma planta quando a noiva, ao descobrir o esplendor primaveral da natureza, diz: “As mandrágoras estão arrojando sua fragrância”; no texto grego aparece de novo a palavra “mandragórai”. Destas duas breves menções que, como a silenciosa fragrância da mandrágora, passam sigilosamente pelas Sagradas Escrituras, brotou por toda parte o simbolismo do qual falaremos agora; ou melhor, o mundo encantado da magia mandragórica no simbolismo cristão foi penetrado por estas duas menções, adquirindo nele nova vida. Explica-se assim o interesse meramente botânico que mostraram os Padres da Igreja pela planta bíblica da mandrágora. O exemplo mais sugestivo a respeito ofereceu o grande Agostinho. Também os demais Padres gostaram de falar da botânica da mandrágora, Ambrósio e [[ate-agostinho:basilio:start|Basílio]], depois deles um rol de Padres que interpretaram o Cântico dos Cânticos e o Gênesis. Não obstante, lograremos aprofundar mais na compreensão da magia da mandrágora se nos perguntarmos quais eram os espíritos que habitavam o Ocidente e com os que estava relacionada, em um plano simpatista, a raiz. A resposta é uma: Com Hécate, a inquietante senhora de todos os fantasmas e demônios dos mortos. Hécate é na realidade o reverso escuro do Hermes luminoso. Ambos são “condutores de alma”, mas Hécate é a “senhora do submundo”, em seu séquito constam os fantasmas dos mortos e as almas inquietas dos que foram mortos perto de tumbas e encruzilhadas de caminhos. Eusébio a chama “senhora de todos os demônios malvados”. É a “negra” e se equipara a Perséfone, que possui a chave para entrar no [[philokalia:philokalia-termos:hades:start|hades]]. Hécate é nas práticas mágicas o demônio do frenesi do amor e equivale a Afrodite. Segundo uma genealogia de época tardia é mãe de Circe e Medéia, quer dizer, das duas grandes bruxas dos gregos. Eis aqui a prova verdadeira: Hécate está rodeada de cães ladradores do Hades e ela mesma aparece a miúde como um fantasma de cão; os magos a invocam com voz trêmula como “cachorro negro”. Pois somente quem conhece muito bem a [[biblia:figuras:divindade:deusa:start|Deusa]] demoníaca, quem se protege dela com o nome adequado, permanece invulnerável a suas astúcias. Isto nos leva a parte mais importante da antiga magia da mandrágora. Segundo a prática mágica tem que arrancar a raiz da terra com ajuda de um cachorro negro. Deter-nos-emos neste aspecto, pois aqui estão as raízes da magia do cachorro negro e a mandrágora, que posteriormente seria tão conhecida no cristianismo ocidental. O cão era, para o homem antigo, um animal ctônico, era de certo modo a materialização terrena do demoníaco. Hécate era, como vimos, a senhora dos cachorros. Os demônios aparecem com sua figura e em um escrito mágico bizantino, o “Testamento de [[biblia:tipologia:salomao:start|Salomão]]”, um espírito maligno assume a forma de um cão extremamente ladrador; o invoca Salomão pela força que lhe concede seu anel mágico que, debaixo da pedra preciosa, levava incrustado um pedaço de raiz de mandrágora. Escutemos uns versos de Sinésio que dar-nos-ão uma ideia muito aproximada de como o homem antigo, inclusive o cristão, se sentia ameaçado pelos cachorros de Hécate que acreditavam habitar o escuro mundo do fundo da alma que, para ele, representava um símbolo do diabo: No profundo deverá se fundir \\ a cauda da serpente, \\ em direção ao fundo deverá mergulhar \\ o verme alado, \\ o “demon” da matéria, \\ névoa da alma, \\ idólatra, \\ que invoca os cachorros \\ carregados de Maldição \\ [[estudos:ernst-benz:pai:start|Pai]], oh Venerável, \\ mantém longe de meu espírito \\ os cachorros devoradores da alma. \\ Com estes “cachorros devoradores de alma” temos chegado ao extremo oposto da “flor sanativa da alma”. Às tremendas práticas mágicas que serviam para obter a mandrágora, acrescenta-se agora a magia noturna do cachorro. ---- RESUMO EM TÓPICOS ====== A Mandrágora: Eterna Raiz Humana e sua Hermenêutica Simbólica ====== * I. A Mandrágora no Jardim de Circe: Entre a Magia Antiga e a Medicina Humana * Caracterização da mandrágora como a "planta de Circe" e antítese da Moly, representando o mergulho nas profundezas da terra (Gaia) e o terror associado às forças ctônicas e noturnas. * Atribuição de propriedades anestésicas e psicotrópicas na medicina antiga, sendo descrita por Dioscórides e Plínio como um sedativo para cirurgias e um remédio contra a insônia, mas sempre sob a sombra do perigo mortal. * Antropomorfismo botânico da raiz, cuja forma bípede evocava a figura humana, gerando a crença de que a planta seria um "semi-homem" ou uma criatura vegetal dotada de alma e sensibilidade. * Ritualística perigosa de colheita que exigia o uso de um cão para arrancar a raiz, baseada na superstição de que o grito da mandrágora ao ser extraída causaria a morte imediata de quem a ouvisse. * Conexão entre a mandrágora e o "sono de morte", simbolizando a perda da consciência racional e a queda no domínio dos sonhos e das ilusões provocadas pelas potências do mundo inferior. * II. Erudição Bíblica e a Planta do Amor: O Mistério de Raquel e as Mandrágoras do Gênesis * Interpretação do episódio bíblico das mandrágoras (duda'im) encontradas por Rubem, que desencadeiam o conflito e a negociação de fertilidade entre Lia e Raquel no livro do Gênesis. * Transmutação do símbolo da mandrágora de planta mágica em "maçã do amor" e símbolo de fecundidade, integrando a tradição botânica oriental à narrativa da linhagem de Israel. * Exegese patrística sobre o Cantar dos Cantares, onde o odor das mandrágoras é associado à fragrância das virtudes e ao florescimento da Igreja nascente durante o período dos mártires. * Visão de Santo Agostinho que desmistifica as propriedades mágicas da planta, tratando-a como um símbolo da beleza da criação que, embora atraente aos sentidos, deve ser submetida ao uso espiritual. * O papel da mandrágora na tipologia cristã como representação do corpo humano ou da natureza humana que, embora enraizada no pecado (terra), anseia pela cura e pela integração no plano divino. * III. A Mandrágora Cristã: Simbolismo da Cura, da Paixão e da Redenção da Carne * Desenvolvimento da alegoria do "Cão de Deus" (Domini Canis) na extração da raiz humana, onde o sacrifício do animal simboliza a morte de Cristo que permite a salvação da humanidade presa ao solo. * Identificação da mandrágora com a própria figura humana necessitada de redenção, cujos "membros" vegetais são libertos da cegueira e do silêncio pela intervenção do Logos Salvador. * Aplicação da planta na mística medieval como símbolo da "paixão de amor", representando o desejo da alma que busca a união com o divino através do sofrimento e da transformação da matéria. * Confluência entre a tradição clássica e a cristã, onde a planta que antes pertencia a Circe é "batizada" para servir como imagem da ressurreição, florescendo a partir do contato com o sangue espiritual. * Síntese final da jornada simbólica: a transição da "raiz negra" (a miséria da condição humana) para a "fruta aromática" (a santidade), culminando na visão de uma psicoterapia sobrenatural que reconcilia o homem com sua origem celeste. ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort}}